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Estética e Política

James Hillman

Nós todos sabemos muito sobre protestos, marchas, direito a voto, oportunidade para todos e ação afirmativa[1]. Também sabemos muito sobre como se envolver, e este envolvimento de um modo geral leva, depois de alguns meses ou uns poucos anos, à exaustão, ao descontentamento amargurado. Alguma coisa psicológica está faltando. No entanto todos nós sabemos muito sobre terapia, sobre o auto desenvolvimento, crescimento, fortalecimento, auto estima, e que isto também leva, depois de um tempo, à exaustão ou no mínimo, ao desencanto.

Parece não conexão bastante às verdadeiras aflições, às injustiças reais e ao verdadeiro empobrecimento e a vitimização experimentados no cenário político. Assim, como juntar a política e a terapia? Como realizar o ativismo psicológico? E o que é um ativista psicológico?

Eu tenho uma proposta para responder a esta pergunta hoje, e eu a chamo a "resposta estética".

A resposta ética, você conhece. Injustiça, opressão, corrupção -- nós as vemos e reagimos contra elas. O que é que os grevistas dizem em suas placas e cartazes? "Desleal"-- desleal para com os trabalhadores; para com as mulheres; para com as minorias. Mas alguma vez eles disseram "Feio"? Alguma vez nós protestamos e fizemos greve porque os nossos locais de trabalho eram insultantes, repulsivos ou apenas feios? De nossos shoppings e centros comerciais? Dos prédios dos hospitais e da decoração dos edifícios públicos? Dos materiais com que trabalhamos, a iluminação à qual temos que nos submeter , as estações de trabalho às quais somos confinados, as salas de leitura a que temos que aturar? No entanto estas opressões estéticas afetam o nosso sentimento corporal, nosso bem-estar emocional, e devemos nos defender de suas influências -- do desespero e da exaustão que produzem. Ambientes feios nos levam a reprimir nossas reações e a repressão é exaustiva -- isto é uma das primeiras idéias de Freud, que a repressão consome um bocado de energia.

Nós negamos nossas respostas estéticas ao fecharmos nossos sentidos, nossas percepções, e nós nos anestesiamos a nós mesmos com música em alto volume em nossos ouvidos, com Advil e Xanax, com pílulas para dormir e cafeína, e Prozac, com álcool com cubos de gelo antes de cada refeição para anestesiarmos as nossas línguas, uma vez que já não sabemos mesmo o que estamos comendo, e altas dosagens de açúcar e de sal. Quem pode chegar ao fim de um dia com os sentidos totalmente despertos e alertas? É uma carga muito grande de muito lixo que entra. Feiúra demais.

Nossas respostas estéticas chegam como um ultrage, como repulsa, como insulto, se não um ataque. Uma irritabilidade exacerbada; momentos súbitos de ódio incontrolável -- nos Correios; sendo obrigado a esperar no telefone; aguardando nas filas; presos no tráfego; com o traste que você comprou. E a raiva aparece como loucura.

A psicoterapia não leva estas frustrações estéticas em consideração. Exemplo: Eu sou um paciente, e estou a caminho do meu terapeuta em Boston. Dirijo umas cinqüenta milhas até chegar na auto-estrada. Estou no meu modesto automóvel Hyundai, e levo uma fechada de um imenso caminhão de dezoito rodas, que passa rosnando. Tráfego denso, pista esburacada, obstáculos pontiagudos de metal, bloqueios na estrada -- ao tempo em que descubro onde estacionar e chego à minha sessão, sou uma ruína. "Conte-me sobre isso," diz o terapeuta. Eu começo com as ameaças, os odores fumacentos, a feiúra, o caos, e o medo sobre o qual ele pergunta "Do que ele lhe faz lembrar?" E logo deixamos a estrada, deixamos os caminhões, deixamos a atualidade, e achamos que a ansiedade nervosa está dentro de mim. Minha relação com meu pai, representada pelos grandes caminhões. E meu ego frágil, fino e delicado, representado por meu Hyundai. Talvez os motoristas de caminhão tenham cacetes maiores. Os caminhão não são totalmente sem poder[2]. Meu baixo amor próprio, minha submissão tão rápida à vitimização -- e eu estou sendo analisado. E analisando a mim mesmo, e descobrindo todos estes problemas em mim.

Todos os problemas do mundo exterior, e aquele que na verdade me perturbou, podem ser o início de uma ação política sobre o pedágio nas estradas e a movimentação rodoviária de carga por longa distancia, os contratos alimentícios entre os supermercados e os plantadores da Califórnia, e a mão de obra barata de imigrantes oprimidos às custas de fornecedores locais, de corrupção, de limites de velocidades-- tudo isto é interrompido em seu nascedouro pela internalização das emoções aos meus problemas interiores.

O medo reconhece o perigo -- o medo é um modo de percepção. Se você não tem medo, você não terá condições de sobreviver por um dia inteiro. É ele que o refreia quando o tráfego anda. Agora ele se transformou em ansiedade, traduzido, internalizado -- e a ansiedade é, por definição, uma condição sem objeto, um estado totalmente interno. Todo meu, e por isto, todo por minha culpa. E de fato, se for medo, ele se transforma em fobia, e então é o DSM.[3]

Outras emoções que se reportam diretamente a nós sobre o estado do mundo também são internalizadas pela terapia e passam a ser "minhas". E é claro que parte disso é necessário. Por exemplo, sou profundamente afetado pelo aumento da destruição dos habitat naturais. Todos os dia vejo na televisão imagens de florestas queimando, de terras sendo aradas, animais desaparecendo, rios sendo poluídos. Tudo isto é registrado por minha alma, e ainda mais coisas que vejo estão sofrendo e morrendo na alma do mundo. Eu também sou afetado inconscientemente. É claro que estou me lamentando pela terra, pela água e por meus semelhantes. Se isto não estivesse acontecendo, eu estaria tão defendido, e em tal negação, tão anestesiado, que eu estaria louco. Entretanto esta condição de lamentação e de queixas em minha alma, este nível de contínua tristeza é um reflexo do que acontece no mundo e se torna internalizada e chamada de "depressão", um estado dentro de mim mesmo -- meus níveis de serotonina[4], minha história pessoal, meu problema.

E a indústria das drogas, para a quem não dissemos "não", e as agências de saúde governamentais, e as empresas de seguros estão de comum acordo: Você deve se tornar ainda mais anestesiado. Tome Prozac: Depressão é uma doença e enfraquece a economia. Isto é anunciado desta forma: existem estatísticas sobre quantos dias de trabalho são perdidos por causa da depressão e quanto isto custa.

Em nosso livro, "Nós tivemos centenas de anos de psicoterapia e o mundo está ficando cada vez pior", Michael Ventura e eu desafiamos estas noções em terapia. Esta negação do mundo, e a sabotagem da consciência política pela teoria terapêutica. Não estou atacando aqueles terapeutas que estão nas linhas de frente tentando recuperar o terreno perdido[5] após a imensa destruição deixada pelos doze anos de Reagan-Bush, e o que veio antes disto.

Gostaria de enfatizar que o jeito que o mundo chega até nós é através do sentido da percepção -- aquilo que os gregos chamam de "aesthesis", de onde vem a palavra estética. E que pela supressão de nossas respostas estéticas, deixamos este mundo abandonado a si mesmo e nos isolamos de sua condição. E nenhuma quantidade de relações e construção de comunidade[6] irá nos reintegrar ao mundo, e restaurar o mundo, a não ser que confiemos em nossas respostas estéticas.

A terapia diz "conecte, apenas conecte". Estou dizendo sinta, veja, repare, reaja, apenas reaja.

É hora de se colocar algum enchimento sólido na palavra "estética". Especialmente desde que ela é usualmente empregada para designar apenas uma beleza estética, decorativa, e quase livre de valores morais ou éticos. Mas eu tenciono redefinir esta palavra "estética", conecta-la com a ética, e finalmente, conectar a estética mais profundamente com o próprio cosmos.

Primeiramente, sobre os julgamentos estéticos, como podemos confiar neles? A beleza não está no olho do observador? Meramente uma questão de gosto? Esta é a visão subjetiva, e ela foi mantida por muitos e muitos anos, por muitas pessoas importantes, incluindo o filósofo David Hume, que afirmava que uma vez que haviam estas diferenças de opinião, elas se tornavam uma questão de gosto. O árbitro, então, é aquele que tem o melhor gosto, diz Hume, o gosto educado. Na nossa cultura, isto seria o dono da galeria, o crítico, o diretor do museu, o perito. Eventualmente, o leiloeiro da Sotheby's. Desta forma, nos dias de hoje, a visão subjetiva se torna uma questão de dinheiro.

Oposta a esta visão subjetiva está a visão objetiva da beleza. Assim como com qualquer outra coisa em nosso mundo cartesiano, o que não é objetivo, é subjetivo -- e isto são todas as opções que temos. Os objetivistas afirmam que existem propriedades formais definidas em uma pintura, num tema musical, num projeto de arquitetura, num poema, tais como o ritmo, equilíbrio, escala, proporção, complexidade, unidade, acabamento, e daí por diante. E estas propriedades são reconhecidas, inerentemente da coisa que é julgada, e combinadas para fazer a coisa prazerosa, para que a chamemos de bonita. Santayana definiu a beleza como o prazer atribuído a um objeto.

Agora eu não sou nem um subjetivista, dizendo que é apenas gosto pessoal, nem um objetivista, dizendo que é inerente na forma. No meio disto tudo está alguma coisa mais psicologicamente instintiva, que é a reação da alma. Eu acho que nós temos um senso imediato de atração às coisas; todas as pessoas têm isto -- um deleitar-se com as coisas. Ele nos seduz e nos afasta. É desta forma que lemos o mundo -- como os nossos narizes e orelhas e olhos animais lêem o mundo. Normas culturais e hábitos podem nos influenciar nesta ou naquela direção, mas debaixo do critério social está o instinto -- a própria resposta estética que realiza seleções e nos afasta da feiúra como Plotinus escreveu há 1700 anos atrás; a feiúra nos faz recuar, encolher em nós mesmos, virar-se noutra direção.

Isto é o que fazemos durante todo o dia, agredidos pela feiúra do ambiente. O que os terapeutas encontram em seus consultórios? Precisamente estas almas que se encolheram em si mesmas, viraram noutra direção, recuaram. Nós as chamamos agora de narcisistas, esquizóides e não relacionadas -- mas não poderiam elas estar sofrendo de um surto de feiúra? Logo, minha declaração de que a resposta estética é uma ação política; deixe-me levar isto adiante sob uma outra forma.

O cidadão comum é menos estúpido do que gostaríamos de crer e somos levados a acreditar pelas pesquisas de opinião, com suas perguntas simplistas que fazem as pessoas parecerem ser mais estúpidas do que elas realmente são. Mesmo que sua habilidade em articular complexidades, ou de lembrar de informações históricas, ou de discernir o que é relevante do que é trivial, seja limitada, nossas emoções têm embutida uma certa inteligência. Emoções como o medo evitam que nós sejamos atingidos por um automóvel; emoções como a piedade se estendem na direção dos outros que estão necessitados; emoções como o silêncio, como a truculência obstinada reconhecem ter sido usadas e jogadas por aí. Então nós temos todos os tipos de emoções, todos os dias -- ultrajantes, de raiva, de insultos, de repugnância -- sobre o mundo sensato do qual temos que participar. Eu digo devemos participar; você não pode se afastar do material de segunda categoria usados na construção de seu condomínio, os interruptores baratos instalados em sua lâmpada, o design da sala de refeições ou da sala de espera do hospital. Você deve participar desta opressão.

Uma das mais antigas idéias do oriente era de que a alma era a forma do corpo, de que a forma das coisas apresentam sua alma numa forma material. Viver entre coisas feias tem como conseqüência resultar na feiúra da alma. Quantos dos problemas com os quais a terapia tem que se ocupar, a violência nas residências, a raiva nos locais de trabalho, a frustração nas famílias, e o dreno das depressões, realmente advém de esconderijos, do fundo de armários, de materiais e formas com os quais convivemos. Eu acredito que muitos dos problemas que enfraquecem a economia -- o absenteísmo, o declínio gradual da economia, vícios, assédio sexual, controle de qualidade negligente, desempenho insatisfatório, doenças, processos judiciais ressentidos -- são problemas arquiteturais, e não problemas psicológicos.

Sobre a toxicidade dos produtos químicos e os sistemas de ar do qual lemos, nós já tomamos conhecimento. Mas estou falando sobre as formas sem almas e as feiúras visíveis. Já sabemos dos prédios condenados, mas será que entendemos a psique doente do prédio? E não existe saída. Um edifício é construído na esquina  de uma forma tal que bloqueia o sol, cria desagradáveis correntes de vento, invade a perspectiva, coloca o pedestre contra uma parede gigantesca como se fosse uma execução. Este prédio, um incômodo público, permanece ali numa esquina, de forma anônima, sem assinatura -- você não precisa saber quem é o seu construtor, ou seu arquiteto, e dificilmente o seu dono. Não há contabilidade para este prédio. Se eu fizer muito barulho, ou se tirar todas as minhas roupas numa esquina, eu seria preso como um incômodo público. Mas o edifício permanece por décadas, produzindo ainda mais barulho psicológico, insultando-o com a sua presença.

Pode haver ética sem estética? Ao se frasear sua relação desta forma, estou voltando a um pensamento oriental de antes da era cristã. Na Grécia antiga, o bom e o belo eram juntados imediatamente numa única palavra, "calagathon". A beleza do mundo foi o sorriso dos deuses, e por esta razão acreditavam-se que os deuses estavam sorrindo, o que mostrava sua beleza e sua bondade. Por esta razão, também, as formas idealizadas da escultura clássica, que apresentavam a virtude tanto quanto a beleza. O cristianismo deixou bem claro que a bondade e a beleza deveriam ser separadas -- para separar este mundo do próximo mundo. Se existe beleza, então o melhor tipo -- e nossos reformistas puritanos fizeram e ainda fazem um grande ponto disso -- é a beleza interior, a beleza moral. Não a beleza da exibição externa. A ética não apenas cooptou a beleza, mas a reprimiu. Esta era um das muitas formas com que o cristianismo podia se livrar de Afrodite e de outras deusas pagãs.

Mais tarde, pensadores religiosos como Kierkegaard colocaram a estética num valor abaixo da ética. Foi um progresso moral, através da estética para valores mais profundos de uma natureza moral. O trabalho de Nietzsche faz uma separação ainda mais forte: Ele mostra o sangrento, o horrível lado escondido da beleza grega, os demônios e as destruições que a acompanhou.

Da mesma forma, podemos ver que muitas coisas boas podem ser feias -- veja Sócrates, o mais feio dos homens e o mais virtuoso. Veja Pandora e Eva, tão bonitas, no entanto todos os problemas e pecados começaram com elas. Os nazista cometeram assassinatos, e tocaram Mozart. Fica claro que a ética e a estética podem ser separadas.

Atualmente, na história oriental, a estética e a ética ocupam compartimentos separados em nossas mentes, da mesma forma como elas ocuparam compartimentos separados nas universidades. Mas Platão e seus brilhantes seguidores através dos tempos, incluindo grandes poetas românticos como Keats, insistiram que as duas deveriam ser juntadas. Se a virtude ética não aparece na forma como uma vida é vivida, então como se pode declarar que ela é boa? Como julgar, a não ser que haja uma apresentação visível? A questão de sua relação muitas vezes se reduz à questão do que é prático versus o que é ideal. Muitos filósofos consideram a beleza inútil, e por isso mesmo oposta ao que é prático. Ao passo que eu tenho sustentado que ela é da maior utilidade e praticidade. Porque qualquer prática que não seja ao mesmo tempo idealista, que não possibilite uma visão mais aprofundada, que não tente realizar na prática alguma imagem de beleza, perde sua qualidade prática.

Você não apenas conserta um automóvel simplesmente para consertá-lo, mas para restaurá-lo para sua melhor funcionalidade, para a sua imagem ideal. A exaustão pode ocorrer quando a prática não tem um ponto de vista, e você realmente não sabe que ideal está colocando diariamente em prática. A ética é o reinado da prática, a estética o reinado das imagens sensatas. Então as boas idéias em linguagem cansativa, páginas densas de prosa densa -- oh, uma carga que eu quase sempre faço contra o próprio TIKKUN -- oh, não acorde a visão. Você precisa de imagens sensatas, linguagem rica, sensibilidade estética. A persuasão moral toca a culpa, mas não o desejo mais profundo por encanto e graça. Ética sem estética não vai nos manter por muito tempo. Nós nos tornaríamos sérios, obstinados, compelidos e eventualmente feios.

Estou sugerindo que todas as nossas preocupações éticas por justiça e igualdade, por decência, exijam também uma visão estética, assim como as imagens dos ideais bíblicos e clássicos de Jerusalém, a cidade no monte, Zion, a restauração do templo, a imagem de Atenas e sua Acrópoles, as cidades do Renascimento como Florença e Veneza, imagens do Paraíso, do Éden. A própria América foi uma imagem de beleza harmônica -- oh Reino da Paz. Estas grandes imagens estéticas estão por trás do Sonho Americano.

Um tirano pode construir lindos oásis e cúpulas aprazíveis; a beleza não é uma garantia contra a tirania. A estética não substitui a ética. Mas a estética deve propiciar à ética imagens sensatas que direcionem nossos desejos ao encontro de nossos ideais, a uma contemplação da visão, e que a seduza neste sentido.

Como será que a sua própria resposta estética se conecta com o cosmos? Para começar, o cosmos é originalmente um termo estético; ele não significa um espaço sideral vasto e vazio através do qual os cosmonautas voam sem sentido a um custo exorbitante. Significa a colocação certa das coisas, ajustadas, adequadas, precisas. Kosmos foi utilizado especialmente por mulheres com respeito ao seu próprio embelezamento. E este significado continua em nossa palavra "cosméticos", o que, devido à nossa degradação da estética, vemos apenas como superficial, assim como em "cirurgia cosmética". Assim como maquiagem, uma coisa falsa. Ao passo que cosmos significa que todas as coisas estão sendo exibidas, mostrando a si próprias, e são apresentadas aos sentidos que respondem a elas com sentimentos positivos e negativos, aprovação ou desaprovação, e com um variado e diferenciado julgamento de seu valor. Então nossas respostas estéticas são cosmológicas, não apenas pessoal. Elas são signos de que você está aqui e tomando parte em toda a ordem do mundo, o que desde o começo ficou estabelecido como uma exibição esteticamente prazerosa. O Mundo é antes de tudo, um fenômeno estético -- oh, isto é tão difícil de se imaginar -- oh antes que seja matemático, lógico ou teológico. Então a reação mais básica a começar no mundo é estética. Esta palavra, aisthesis, leva até uma raiz[7] que significa "Eu inspiro"[8], assim como sorvendo a respiração quando tocado pela beleza ou pelo horror. Nossas respostas estéticas estão relacionadas ao mundo real e à forma primária como tomamos parte nele. Suprimir estas respostas é renegar o que é político, isto é, fora do comum, do mundo compartilhado.

Meu ponto final é que apenas a ética não é o bastante para realizar uma mudança no mundo. Sozinha, a ética sem a estética, não se sustenta. Por exemplo, o meio ambiente: Não estamos motivados a lutar por ele simplesmente porque nós temos que fazê-lo. É claro que somos eticamente responsáveis por nossos padrões de consumo, e que somos culpados em razão do consumismo. Igualmente, não somos motivados apenas por altos princípios de Gala, e pela ecologia, e as gerações futuras, produzindo compensações, conciliações, sacrifícios. A motivação deve vir de baixo do superego, do id do desejo. Nós devemos primeiramente ser movidos pela beleza. Para isso o amor é estimulado. Quando você ama alguma coisa, então você a quer por perto, sem ser molestada. Então você fica um pouco cego para os seus defeitos e riscos -- oh, sem essa de custo-benefício, de extratos, saldos, de avaliações financeiras.

O que evoca o amor? Tal como têm sido dito em muitos lugares, em muitos anos, e sentido por cada um de nós, é a beleza. Uma percepção estética traz para a frente o nosso cuidado ético. Aesthesis madrugadora, respire a beleza do cosmos -- oh o rastejar meticuloso de um inseto, o suspiro da terra gelada quando o inverno revela seu domínio, observe a complexidade composta de uma simples pedra, o remoinho na areia quando a maré retrocede, ou escute o cantar do pássaro madrugador. A beleza nos deixa perplexos e atrai o foco do coração na direção do objeto, para fora de nós mesmos, para fora de nossa insanidade centrada no homem, na direção de querer manter o cosmos lá onde ele está por mais uma primavera e uma outra manhã. Esta é a emoção ecológica, e ela é estética e política ao mesmo tempo.

FIM


[1] Nota: "affirmative action" no original

[2] Obs.: Não consegui descobrir uma tradução melhor. "disempowered",. do original, não consta dos dicionários americanos.

[3] Nota: Está assim mesmo "DSM" no original. Desconheço o significado da sigla.

[4] Nota: "serotonin" no original

[5] Nota.: "mop up" no original

[6] Nota: "community-building" no original

[7] Opção: "um radical"?

[8] Nota: "I breathe in", no original, no sentido de "eu respiro / puxo o ar para dentro"

 

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