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MINHA ALMA É UM TINTEIRO SECO
Lyslei de Souza Nascimento1
Para Wander Melo Miranda
Todos os anos, os devotos italianos de San Gennaro vão a Nápoles
e participam do rito que envolve a fantástica liquefação do sangue do mártir exposto
em duas âmbulas. A fé, simulação cega de certezas de coisas que se esperam, a convicção
de fatos que se não vêem, é o poderoso vetor que faz o sangue coagulado dissolver-se. O santo, decapitado na perseguição perpetrada por Diocleciano,
teve suas relíquias conduzidas à Catedral de Nápoles pelo Rei Fernando da Espanha, em 1495.
A cerimônia do milagre de San Gennaro é aberta a um sem número de peregrinos que podem ver
exposto o sangue e, também, segundo a tradição, a liquefação e a ebulição
do precioso líquido. Se o sangue não se liqüefaz, é mau presságio. As ampolas ou âmbulas são relicários religiosos,
objetos de encerramento que gozam do júbilo do oculto, do misterioso e do sagrado. Também possuem,
esses continentes, a propriedade de manter segredos que esperam para serem revelados. Segundo Danielle Régnier-Bohler2, os relicários são guardiões de uma quintessência e de uma memória
narrativa, além de se constituírem como metáforas de uma perenidade desejada pelo fiel. As âmbulas podem ser vistas como as copas da carta de tarô,
o crisol dos alquimistas ou o tinteiro do narrador-escritor em O
castelo dos destinos cruzados, de Italo Calvino.3 O relicário de Calvino escapa, no entanto, ao sagrado e ao ritual
que as âmbulas de San Gennaro e as relíquias ostentam. O Cálice Bento, o Santo Graal e outros
signos que circulam na tradição religiosa e literária vêm envoltos em construções
imaginárias do sagrado, daquilo que foi separado para a veneração. O papel do fiel é,
portanto, crer, sem sombra de dúvida, no Santo Graal que, às vezes, pode ser, não só
o cálice que contém o sangue de Cristo, como também o livro que contém a chave para
a vida eterna. O Santo Graal, como descreve a lenda medieval, é um vaso de esmeraldas usado por Jesus na
última ceia e com o qual José de Arimatéia teria recolhido o sangue de Cristo quando este
teve o seu coração transpassado pela lança de um centurião. A lenda aparece a partir
do século XII, nos romances de cavalaria como Perceval ou Le Conte du Graal, 1182, de Chretién de Troyes. Ambas as representações dessa tradição, o
cálice e o livro, veiculam a idéia de uma vida eterna e sem males e partem da premissa metafísica
da fé. Em Calvino, no entanto, a alma é um tinteiro seco. O cálice
e o tinteiro se identificam à medida que alojam a tinta/sangue da escrita. O relicário de Calvino
está seco. No fundo dessa copa - depositária infinita de referências literárias e pictóricas
- descansa a tinta/sangue. Enquanto o texto que se apoia na fé, ilusão de quem crê, busca incessantemente
o milagre - da liquefação do sangue de San Gennaro para a boa sorte ou o Santo Graal, para a vida
eterna -, o texto de Calvino apoia-se na leveza poética que a ciência pode alcançar na literatura. A leveza atua sobre a tinta seca dos múltiplos textos cruzados
que compõem o resíduo no fundo do tinteiro e impelem o narrador-escritor a liqüefazer os textos
que, às vezes, teimam em se apresentar sob o peso da tradição. O que faz a tinta de Calvino
escorrer e criar novos e inusitados rastros sobre o papel é a busca alquímica de quem intenta, pela
literatura, o conhecimento das coisas, retirando, no entanto, todo o peso da linguagem, fazendo dela e com ela
a leveza do viver. A pena, o cálamo, a esferográfica de Calvino parecem indicar sempre uma encruzilhada
de múltiplos caminhos que seguem o fio negro de tinta sobre o papel: o caminho das paixões - uma
via de fato, agressiva, de cortes nítidos – e o caminho do não-saber, que requer reflexão
e um lento aprendizado. No tinteiro seco de Calvino, subjaz a multiplicidade das referências
e inferências que a memória do leitor pode fazer. São imagens de borrões e de rasuras
no pergaminho do escritor. O cálice/tinteiro religioso transborda, outros cálices estão vertiginosamente
cheios e ainda se continua a beber no copo alheio, mas o tinteiro de Calvino está seco. Sua escrita tem,
nessa representação, um subsolo que pertence a certas categorias da renda4.
Calvino acaba por filigranar e socavar, através de evocações mnemônicas, os textos que
estão precariamente sedimentados na tinta com que escreve. Em estado de dicionário estão todas
as leituras e imagens - memórias infinitas, impossíveis de seguir, de rastros e rasuras - que constituem
esse palimpsesto. As imagens de transbordamento e de sede insaciável contrapõem-se
à imagem austera e elegante do tinteiro seco. A tinta seca, longe de ser um empecilho à escrita,
apresenta-se, em Calvino, como uma soma das multiplicidades textuais que compõem a escrita. Os livros se
respondem, combatem-se, completam-se reciprocamente e é no contexto cultural em que esses textos são
produzidos que cada operação do escritor ganha sentido. Esse trabalho fabulatório está
para o compor e o recompor, o reduzir pouco a pouco o tom da matéria verbal grandiloqüente até
chegar no nível de um balbucio de sonâmbulo.5 A primeira imagem evocada, cálice/relicário, é da
sacralidade da escritura com sua solenidade que se quer transcendente para o homem. A segunda, tinteiro/tinta,
é sobretudo uma desconfiança no fazer dos homens e na auto-construção do seu destino.
O texto, por essa via, perde a aura e se apresenta como artefato e matéria literária. A tinta seca no tinteiro elegante está para o exercício
da memória do escritor e do leitor; parceria indispensável nesse empreendimento. Tudo o que se aprendeu
de cor, o que se recitou mentalmente, o que se fundou num repertório de textos é continuamente revolvido
pela pena do escritor. O texto disperso na memória volta a se apresentar fluido na reescrita, sem vibração
nostálgica, mas sempre como um texto que é lido/escrito pela primeira vez e que pode ser considerado
como um arquivo dos materiais acumulados pouco a pouco, ao longo de estratificações sucessivas de
interpretações iconológicas, de humores temperamentais, de intenções ideológicas,
de escolhas estilísticas.6 O milagre da pena do escritor consiste, assim, em liqüefazer a tinta
seca e reescrever com leveza os textos sedimentados na memória ou extrair dos resíduos das narrativas
tinta para novas histórias. Do caos primitivo da tinta seca, escoam possibilidades de matizes e nuanças
de outros textos que anelam pela travessia do leitor. Copas, vasos, relicários, âmbulas, crisóis e tinteiros
são todos depositários da tinta/sangue com que se escreve a ficção. A intervenção
da pena do escritor, de sua esferográfica, no entanto, dissolve o peso da escrita que se quer, como afirma
Calvino, leve como as densas colchas de asas de borboletas; as pegadas de cascos alados que são mais leves
que as patas dos insetos; um polvilhar dourado sobre as folhas, como deixam cair certas libélulas. Esses
rastros servem, porém, como guia no emaranhado de possibilidades narrativas.7 A tinta residual e condensada no fundo do tinteiro lembra a nigredo,
da alquimia. Mircea Eliade em Ferreiros e Alquimistas8,
associa à cor negra a redução de substâncias à matéria prima, à
massa confusa. A tinta seca de Calvino, vista como essa massa residual informe, corresponderia ao Caos, pensado
na Alquimia. Uma das máximas dos alquimistas aconselha: "Não efetue qualquer operação
antes que tudo tenha sido reduzido à Água". Semelhantemente, em Calvino, o texto só pode
ser gerado se a condensação da tinta - resíduos de tantos textos - for diluída para
se obter a leukosis, a albedo: ressurreição da nigredo – da tinta negra – em uma outra narrativa. Tal qual o alquimista, o escritor deve obter a dissolução
dessas substâncias textuais para que haja possibilidade de engendrar novas e inesperadas tramas. Para o escritor-alquimista,
o conhecimento do mundo é a dissolução de sua compacidade9,
a prima matéria, a massa confusa, o abyssus. De uma certa forma, uma volta a um estado primordial em que
a divina tintura pode fluir, sem perder de vista que A carta da morte no Tarô, assim, pode ser lida em sua ambigüidade
como portadora de raízes adubadas de cadáveres mal curtidos e de ossos depenados que, entre sepultamentos
e exumações, possibilitam a reescrita. A transformação alquímica, como recomenda
o Liber Platonis Quartorum, deve ocorrer num occipício como vaso, uma vez que o crânio é o
receptáculo do pensamento e do intelecto (os capitis... vas mansionis cogitationis et intellectus; citado
por Jung em Psychologie und Alchemie, p. 363). O alquimista em seu laboratório diante do crisol se assemelha
ao escritor em seu escritório diante do tinteiro e ao São Jerônimo dos quadros citados por
Calvino. O simbolismo mineralógico, os rituais metalúrgicos, as magias do fogo e as crenças
na transmutação dos metais em ouro aproximam-se do trabalho do escritor com as palavras. A descida aos Infernos - a morte iniciatória - e a experiência
que transforma a tinta seca em tinta líquida se traduzem através do simbolismo saturnino, da melancolia,
da contemplação de crânios.
2 RÉGNIER-BOHLER, Danielle. Ficções. In: ARIÈS, Philippe e DUBY,
Georges. História da vida privada: da Europa feudal à
Renascença, p. 334 - 335. (Histoire
de la vie privée, vol. 2: De l'Europe féodale à Renaissance). 3 CALVINO, Italo. O castelo dos destinos
cruzados. Trad. Ivo Barroso. São Paulo: Companhia das
Letras, 1993. (Il castello dei destini incrociati). 4 CALVINO, 1993, p. 131. 5 CALVINO, 1993, p. 155. 6 CALVINO, 1993, p. 156. 7 CALVINO, Italo. Op. Cit., p. 48. 8 ELIADE, Mircea. Ferreiros e alquimistas. Rio de Janeiro:
Zahar, 1979, p. 118 - 130. 9 CALVINO, Italo. Seis propostas para o
próximo milênio. Trad. Ivo Barroso, 1991, p.21.
(Lezioni americane: Sei proposte per il prossimo millennio). 10 CALVINO, 1993,
p.58. 11 CALVINO, 1991, p. 46. 12 ELIADE, 1979, p. 124. 13 CALVINO, 1991, p. 64-65. 14 CALVINO, 1993, p. 128.
A espessura que a tinta seca pode evocar liga-se ao peso do existir
dentro da tradição. O resíduo da tinta apresenta-se como um repertório iconográfico
de textos que, em Calvino, aparecem sobrepostos, em palimpsestos que subjazem na memória. A suspensão
da capacidade da tinta de escrever, sua concretude, pode, ao apresentar-se, paradoxalmente, como uma espécie
de resíduo alquímico em que a pena do escritor explora confins negros do pensável, materiais
narráveis, possibilidades discursivas.
dessa esfera árida partem todos os discursos e poemas e todas as viagens através de florestas batalhas
tesouros banquetes alcovas nos trazem de volta para cá: o centro de um horizonte vazio.10
No Castelo dos destinos cruzados, o centro do horizonte vazio
parece ser, ironicamente, o lugar de onde e para onde convergem todas as narrativas. A redução do
resíduo à tinta liqüefeita é que fundamenta essas novas narrativas. O fenômeno
da regressão - a volta da matéria em sua forma líquida, portanto, narrável, sujeita
à escrita - pode ser relacionado, também, ao nascimento e à morte. Morte iniciática
tal como se depreende da nigredo, da putrefactio, da dissolutio. Para a alquimia, toda morte é, antes de
tudo, uma reintegração na Noite cósmica, no Caos pré-cosmológico, enfim, um
retorno à fase seminal da existência. Logo, a criação (uma nova escritura), como aparecimento
de Formas, é efeito de uma morte iniciatória e a ressurreição corresponderia ao redimensionamento
da materia prima - onde se contempla o Todo e se decidem as Escolhas - em uma nova materia. Para Calvino, toda
narrativa é percorrida pela sensação da morte em que parecem debater-se, ansiosamente, personagens
reais e fictícios que se agarram nos liames da vida.11
A figura de Cronos-Saturno simboliza o Grande Destruidor que é o Tempo, e portanto não só
a morte (= putrefactio) como também novo nascimento. Saturno, símbolo do Tempo, é muitas vezes
representado com uma balança na mão. (...) Não se deveria esquecer nesse "domínio
da Balança" (que os torna oniscientes e clarividentes), nessa familiaridade com a obra do Tempo (a
putrefactio, a Morte que destrói omne genus et formam), nessa "sabedoria reservada apenas àqueles
que anteciparam durante a vida a experiência da morte, a explicação da célebre "melancolia
saturnina" dos magos e alquimistas?12
Calvino, na proposta das lições americanas
sobre a exatidão, evoca Maat, a deusa da balança. A precisão é explicada pelo escritor
como um projeto de obra bem definido e calculado, como a evocação de imagens visuais nítidas,
incisivas, memoráveis e como uma linguagem que seja a mais precisa possível como um léxico
que traduziria as nuanças do pensamento e da imaginação. Essa preocupação com
aponta para o trabalho diligente do escritor-alquimista e sua tendência à introspecção
própria aos melancólicos. Segundo Calvino:
Os antigos nos ensinam que o temperamento saturnino é próprio dos artistas, dos poetas, dos pensadores,
e essa caracterização me parece correta. É certo que a literatura jamais teria existido se
uma boa parte dos seres humanos não fosse inclinada a uma forte introversão, a um descontentamento
com o mundo tal como ele é, a um esquecer-se das horas e dos dias fixando o olhar sobre a imobilidade das
palavras mudas. Meu caráter apresenta sem dúvida os traços tradicionais da categoria a que
pertenço: sempre permaneci um saturnino, por mais diversas que fossem as máscaras que procurasse
usar. Minha veneração por Mercúrio talvez não passe de uma aspiração,
um querer ser: sou um saturnino que sonha ser mercurial, e tudo o que escrevo se ressente dessas duas influências.13
O escritor-alquimista efetua, com o crisol/tinteiro,
o engendramento de uma narrativa que traz inscrito o traço daquele que a concebeu e de quantos textos o
escritor/leitor percorreu em sua vida. Tanto mais, diz Calvino, que Balança é o seu signo zodiacal.
Contrapondo Mercúrio (as trocas, o comércio, a destreza) e Saturno (a melancolia, a solidão,
a contemplação), Calvino opera os dois pratos da Libra e tal qual o trabalho quase obsessivo e maníaco
do alquimista-escritor, a narrativa ressurge como mosaicos construídos pelo desfiar/fiar de tradições
e textos que constituem o tecido narrativo. Assim,
todas aquelas copas não passam de tinteiros secos à espera de que da negrura da tinta venham à
tona os demônios as potências do ínfero os papões os hinos à morte as flores do
mal os corações na treva, ou bem que paire aí o anjo melancólico que destila os humores
da alma e extravasa extratos de graça e epifanias.14
1 UFMG.
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