Denize Torbes

O mundo das antigas civilizações onde cada povo desenvolveu sua linguagem, criou suas lendas, crenças, hábitos e sobretudo a mensagem cifrada de seus signos, mistérios e mitos é o tema para a elaboração de minha pintura.
Do rigor formal das máscaras Carajá (Brasil) ou Nuba (África); da elegância das figuras zoomorfas; dos tons das cores feitas com pigmentos vegetais; da simetria das marcas e emblemas dos Cadiveu (Brasil); da estrutura formal dos escudos Massai (África) ou da minuciosidade dos ornamentos espiralados dos Mongóis (Índia) extraio elementos que, no exercício da transfiguração, resultam em combinações e recursos como pontos de partida no processo de construção da linguagem.

Denize Torbes

 
             























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Denize Torbes trabalha por séries, o que indica uma metodologia de trabalho. Certos temas/imagens que configuram um universo indígena. São recorrentes em suas pinturas e desenhos: punhais, armadilhas ianomamis, flechas, remos, escudos, mantos, mortalhas etc. E de cada um desses temas a artista procura aproveitar o máximo de suas possibilidades icônicas, semânticas e formais.
Mas este universo indígena que a artista alude em seus trabalhos é pura invenção. Esta afirmativa não deve surpreender ninguém, afinal, a arte sempre foi isso, a criação de mundos paralelos ao real: recriação, transfiguração, metáforas. Este mundo que o artista está inventando a cada momento mantém afinidades com o mundo real, e, como ele, tem regras semelhantes: interdições e tabus que precisam ser respeitados, aberturas e totemizações que devem ser estimuladas. Mas esta narrativa confabulada que é a obra de arte, acaba por repercutir em nosso cotidiano, enriquecendo-o de tal maneira, que ela se torna indispensável ao homem e à vida das nações.
Denize Torbes nasceu e cresceu em Duque de Caxias, na baixada fluminense, cidade-dormitório. Sem profundas raízes culturais. Precisava, portanto, criar suas próprias raízes, apegar-se a uma outra realidade, nossa, latino-americana. Optou pela cultura indígena. Mas pelo que sei, ela nunca esteve na Amazônia ou em qualquer aldeia indígena, como Oaxaca onde nasceram Tamato e Francisco Toledo (que ela homenageia num dos seus trabalhos). Assim, o que ela sabe dos índios brasileiros é o que está nos livros, revistas, postais, nas cerâmicas, objetos de cerâmica, objetos de adorno, na arte plumária ou o que vê, reduzida a imagens, nos filmes e na televisão. Enfim, todas estas pequenas coisas que encontro em seu ateliê apertado, localizado na fronteira dos bairros de Fátima e Santa Teresa.
No entanto, o que ela nos diz dos índios, da cosmologia dos Ianomamis, Carajás, Kuicurus, Txucarramães parece tão verdadeiro, tem uma tal carga poética e lírica, que realmente nos comove. Como explicar isso? Tenho na ponta da língua uma frase de efeito: tão longe da Amazônia e dos índios, tão perto da pintura e do desenho. Tivesse enfrentado in loco a realidade atual de nossos índios, e certamente estaria mais propensa a realizar uma arte de denúncia, mostrando como os índios do Brasil estão dizimados pela doença e pelo álcool levado pelos brancos, pelo suicídio, pelo distanciamento progressivo da sua cultura e religião, pela redução de suas terras, etc. Mas esta arte de denúncia seria, inversamente, uma forma de distanciamento daquilo que é próprio es específico da arte. Ou seja, Denize nos comove porque é uma artista, em fase de pleno amadurecimento, que consolida suas conquistas estéticas.
E da mesma maneira como ela "desconhece" a miséria indígena, escapa também aos esteriótipos amazônicos; isto é, da espetaculosidade dos rios, da opressão da floresta, da festa e do grito de guerra, dos ritos banalizados pelo turismo ecológico. O que atrai a artista não é, portanto, a retórica amazônica, o panfleto ecológico, mas o pequeno, o detalhe, a oca e a maloca, o universo doméstico ou cotidiano, tal como ela imagina que é, o barco e o remo, a borduna e a armadilha, a pluma e o fóssil, lendas, estórias, hábitos e costumes. É uma opção honesta, íntegra, autêntica. E só por isso, porque pode ver à distância, porque inventou sua própria memória indígena, ela pode falar dos índios e de seu universo, sem deixar de fazer pintura ou desenho, demonstrar a transfiguração dos remos e dos verdes, mostrar como o sol nasce em cada aldeia e dizer com a aparente segurança de um antropólogo, que os índios, mães e filhos nunca se separam e que mingau de mandioca com banana faz sonhar. Se, como diz Bachelard, imaginar é sonhar (uma forma de sonhamento, revêrie) sendo a imaginação a ação da imagem. Denize se desloca, como num passe de mágica, de um sítio ianomami para outro, dos massais do Quênia ou dos mongóis no distante Oriente para reencontrar, no México, imagens que ela intuíra ou que lhe foram sugeridas pela própria pintura ou desenho.
Por isso, também, seus trabalhos têm um tom quase intimista (mesmo quando seus desenhos chegam a medir dois metros), como se se tratasse de uma narrativa miniaturizada, um diário no qual vai anotando citações, pensamentos, rabiscando, bosquejando obras maiores. Pinturas para serem vistas de perto, que pedem por um olhar-tátil, gerando uma conivência entre autor e espectador. E o tema que serviu para deslanchar o processo criador, sem desaparecer de todo, divide nossa atenção com tudo aquilo que, afinal, integra o universo da pintura: rabiscos, signos, letras, nomes, superposição e fragmentos de imagens, incisões na matéria, materiais colados, a cor e seus valores.
Finalmente, este trabalhar por séries metodicamente, recorrendo sempre aos mesmos ícones, leva à soluções formais correspondentes e que, no seu caso, indicam um crescente despojamento visual. A artista transita com naturalidade da figura para a abstração, do grafismo para a cor, da desordem para a ordem, mas sem chegar à secura ou aridez criativa. Estas constantes formais são, entre outras, a organização totêmica do espaço, a centralização que evita a dispersão, a geometrização dos signos e símbolos, a fragmentação da imagem seguida de sua reestruturação, a simetria, a organização planiforme, a intensificação da cor. Porém, esta vontade de ordem que domina claramente as pinturas aqui expostas, não apaga a aura ritualística e mágica que está na origem de seus temas e que constituem a base de sua criação.

Frederico Morais
Rio de Janeiro, carnaval 1994
             
 

CORES E CÓDIGOS


Apontada como um dos nomes mais significativos na emergente geração de artistas plásticos dos anos 90, Denize Torbes revela em suas telas, ao olhar mais aprofundado, muito de suas raízes e de um paciente estudo sobre a cultura indígena.
São mantos, remos, pássaros, espantalhos que, transfigurados pelos traços da artista, perseguem mais a idéia do objeto do que o objeto em si.
São as próprias exigências da pintura, os acasos, as possibilidades do uso de materiais que levam Denize Torbes, no que ela chama de "cozinha da pintura", a buscar sempre variações, ou temperos, em torno de motivos que, ela própria reconhece, são atávicos.
Assim, Denize Torbes pinta porque quer voltar a experimentar sempre mais uma vez uma emoção que descobriu e que lhe dá prazer.
O resultado dessas experimentações, pacientes, alquímicas, pode ser observado nessa última série de seu trabalho, onde as referências a temas indígenas já se tornam mais sutis.
Percebe-se uma conjugação de cores e códigos que parecem se movimentar, como se das cores saíssem também sons. Cifrados sons de vozes indígenas ancestrais, de povos que há muito habitam esse país, cujo sangue se perpetua nas mãos que detalhadamente elaboram a arte - fruto da fé e da sensibilidade.
Eis uma artista jovem, mas que demonstra um profundo atavismo em suas obras, o que nos conduz à grave confirmação de que a arte é - se não a própria vida - seu sinônimo mais completo.

Centro Cultural Banco do Brasil

UMA PINTORA


Ela não que reinventar a pintura, mas a cada quadro nos diz alguma coisa que ainda não tínhamos ouvido antes. Não é nada espantoso que faça estremecer o céu e a terra: é sempre alguma coisa misteriosa, brasileira, cálida, funda, que não se encontra em nenhum outro pintor. Uma coisa que não tem nada de sacação, de truque, de lance espetacular porque nasce do trabalho, do corpo a corpo com a pintura, tecendo e retecendo uma linguagem que herdou mas que, sabe, tem que ser reelaborada, assimilada, incorporada para se tornar sua própria linguagem e aí dizer o novo. Porque o novo na pintura é isso: o resultado da elaboração paciente e entregue: como a floração nas velhas árvores. E não importa a idade da árvore, já que suas flores são jovens. Assim é a pintura de Denize Torbes.

Ferreira Gullar

 

CURRICULUM


Nasceu em Duque de Caxias, Rio de Janeiro, 1959
Formação: Escola de Belas Artes (UFRJ)

1986 - X Salão Carioca de Arte - Rio de Janeiro
II Bienal Latinoamericana de Arte Sobre Papel - Buenos Aires, Argentina
Galeria Contemporânea de Arte, Coletiva - Rio de Janeiro
1987 - Galeria Contemporânea de Arte - Apresentação de Ferreira Gullar -
Rio de Janeiro
Salão de Arte Contemporânea de Pernambuco - Recife, Pernambuco
1988 - Mostra "La Jovem Estampa" da Casa das Américas - Havana, Cuba
XII Salão Carioca de Arte - Rio de Janeiro
I Salão de Inverno da UFRJ, Sala Gustavo Capanema - Rio de Janeiro
Salão de Arte Contemporânea de Pernambuco - Recife, Pernambuco
Galeria de Arte 86 - Florianópolis, Santa Catarina
1989 - Sala Miguel Bakun - Curitiba, Paraná
1990 - Arte Brasileira - Grezen Lose Kunst, Zeitgenossische Malerei Aus Brazilien, Josef-Krainer-Haus - Graz, Áustria
Galeria de Arte da UFF - Niterói, Rio de Janeiro
Arte Latinoamericana, Zeitgensossische - Graz, Áustria
1991 - Mostra "Beca Ciudad de México" - Casa Lopez Velarde - Ciudad de México, México
Coleção P & K e Dan Galeria de Arte - Graz, Áustria
1993 - Mostra "INTERAÇÕES", Coletiva, Galeria do Instituto Brasil-Argentina, Embaixada da República Argentina - Rio de Janeiro
Jovem Arte Brasileira - Seleção prêmio UNESCO, Pinacoteca do estado de
São Paulo - São Paulo
Exposição Lançamento Revista Piracema, Sala Cândido Portinari - Rio de Janeiro
13º Salão Nacional de Artes Plásticas - Rio de janeiro
1994 - Centro Cultural Banco do Brasil - Rio de Janeiro

PREMIAÇÕES:

1985 - Prêmio exposição - Galeria Daltro
1987 - Museu de Arte Contemporânea - Salão de Arte Contemporânea
1988 - Prêmio em Pintura - I Salão da UFRJ
1991 - Concessão de bolsa - Projeto "Beca Ciudad de México" - Ateliê livre durante dois meses
1993 - Seleção Prêmio UNESCO para exposição Jovem Arte brasileira, Pinacoteca do Estado de São Paulo
Prêmio de Aquisição - 13º Salão Nacional de Artes Plásticas

   
Para entrar em contato com a artista
Rua São Clemente 147 casa 59 b
Botafogo, Rio de Janeiro, RJ
Tel.: 21 527-4391
   

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