





















clique nas
imagens |
Denize Torbes trabalha por séries, o que indica
uma metodologia de trabalho. Certos temas/imagens que configuram um universo indígena. São recorrentes
em suas pinturas e desenhos: punhais, armadilhas ianomamis, flechas, remos, escudos, mantos, mortalhas etc. E de
cada um desses temas a artista procura aproveitar o máximo de suas possibilidades icônicas, semânticas
e formais.
Mas este universo indígena que a artista alude em seus trabalhos é pura invenção. Esta
afirmativa não deve surpreender ninguém, afinal, a arte sempre foi isso, a criação
de mundos paralelos ao real: recriação, transfiguração, metáforas. Este mundo
que o artista está inventando a cada momento mantém afinidades com o mundo real, e, como ele, tem
regras semelhantes: interdições e tabus que precisam ser respeitados, aberturas e totemizações
que devem ser estimuladas. Mas esta narrativa confabulada que é a obra de arte, acaba por repercutir em
nosso cotidiano, enriquecendo-o de tal maneira, que ela se torna indispensável ao homem e à vida
das nações.
Denize Torbes nasceu e cresceu em Duque de Caxias, na baixada fluminense, cidade-dormitório. Sem profundas
raízes culturais. Precisava, portanto, criar suas próprias raízes, apegar-se a uma outra realidade,
nossa, latino-americana. Optou pela cultura indígena. Mas pelo que sei, ela nunca esteve na Amazônia
ou em qualquer aldeia indígena, como Oaxaca onde nasceram Tamato e Francisco Toledo (que ela homenageia
num dos seus trabalhos). Assim, o que ela sabe dos índios brasileiros é o que está nos livros,
revistas, postais, nas cerâmicas, objetos de cerâmica, objetos de adorno, na arte plumária ou
o que vê, reduzida a imagens, nos filmes e na televisão. Enfim, todas estas pequenas coisas que encontro
em seu ateliê apertado, localizado na fronteira dos bairros de Fátima e Santa Teresa.
No entanto, o que ela nos diz dos índios, da cosmologia dos Ianomamis, Carajás, Kuicurus, Txucarramães
parece tão verdadeiro, tem uma tal carga poética e lírica, que realmente nos comove. Como
explicar isso? Tenho na ponta da língua uma frase de efeito: tão longe da Amazônia e dos índios,
tão perto da pintura e do desenho. Tivesse enfrentado in loco a realidade atual de nossos índios,
e certamente estaria mais propensa a realizar uma arte de denúncia, mostrando como os índios do Brasil
estão dizimados pela doença e pelo álcool levado pelos brancos, pelo suicídio, pelo
distanciamento progressivo da sua cultura e religião, pela redução de suas terras, etc. Mas
esta arte de denúncia seria, inversamente, uma forma de distanciamento daquilo que é próprio
es específico da arte. Ou seja, Denize nos comove porque é uma artista, em fase de pleno amadurecimento,
que consolida suas conquistas estéticas.
E da mesma maneira como ela "desconhece" a miséria indígena, escapa também aos esteriótipos
amazônicos; isto é, da espetaculosidade dos rios, da opressão da floresta, da festa e do grito
de guerra, dos ritos banalizados pelo turismo ecológico. O que atrai a artista não é, portanto,
a retórica amazônica, o panfleto ecológico, mas o pequeno, o detalhe, a oca e a maloca, o universo
doméstico ou cotidiano, tal como ela imagina que é, o barco e o remo, a borduna e a armadilha, a
pluma e o fóssil, lendas, estórias, hábitos e costumes. É uma opção honesta,
íntegra, autêntica. E só por isso, porque pode ver à distância, porque inventou
sua própria memória indígena, ela pode falar dos índios e de seu universo, sem deixar
de fazer pintura ou desenho, demonstrar a transfiguração dos remos e dos verdes, mostrar como o sol
nasce em cada aldeia e dizer com a aparente segurança de um antropólogo, que os índios, mães
e filhos nunca se separam e que mingau de mandioca com banana faz sonhar. Se, como diz Bachelard, imaginar é
sonhar (uma forma de sonhamento, revêrie) sendo a imaginação a ação da imagem.
Denize se desloca, como num passe de mágica, de um sítio ianomami para outro, dos massais do Quênia
ou dos mongóis no distante Oriente para reencontrar, no México, imagens que ela intuíra ou
que lhe foram sugeridas pela própria pintura ou desenho.
Por isso, também, seus trabalhos têm um tom quase intimista (mesmo quando seus desenhos chegam a medir
dois metros), como se se tratasse de uma narrativa miniaturizada, um diário no qual vai anotando citações,
pensamentos, rabiscando, bosquejando obras maiores. Pinturas para serem vistas de perto, que pedem por um olhar-tátil,
gerando uma conivência entre autor e espectador. E o tema que serviu para deslanchar o processo criador,
sem desaparecer de todo, divide nossa atenção com tudo aquilo que, afinal, integra o universo da
pintura: rabiscos, signos, letras, nomes, superposição e fragmentos de imagens, incisões na
matéria, materiais colados, a cor e seus valores.
Finalmente, este trabalhar por séries metodicamente, recorrendo sempre aos mesmos ícones, leva à
soluções formais correspondentes e que, no seu caso, indicam um crescente despojamento visual. A
artista transita com naturalidade da figura para a abstração, do grafismo para a cor, da desordem
para a ordem, mas sem chegar à secura ou aridez criativa. Estas constantes formais são, entre outras,
a organização totêmica do espaço, a centralização que evita a dispersão,
a geometrização dos signos e símbolos, a fragmentação da imagem seguida de sua
reestruturação, a simetria, a organização planiforme, a intensificação
da cor. Porém, esta vontade de ordem que domina claramente as pinturas aqui expostas, não apaga a
aura ritualística e mágica que está na origem de seus temas e que constituem a base de sua
criação.
Frederico Morais
Rio de Janeiro, carnaval 1994 |