![]() Envie sua homenagem à memória de Nise da Silveira |
NISE DA SILVEIRA É com uma mistura de pesar e admiração por seu processo de vida que nos despedimos do corpo de Nise da Silveira. Éramos, em meados da década de 70, jovens estudantes em busca de ideais quando, no Museu de Arte Moderna, em 1975, encontramos pela primeira vez aquela que chamaríamos Drª. Nise. Era a comemoração do centenário do nascimento de Jung, evento que ela organizara com todo amor. Dele nada conhecíamos. Mas, ficamos encantados pela força de seu pensamento, assim como, pelo carisma da anfitriã. Naquele momento, nós dois, futuros psicólogos, encontramos, nestas duas admiráveis figuras, a direção que iria motivar nosso percurso profissional e pessoal, desta data em diante. Em Jung e Nise encontramos força, sustentação e ideal. Toda essa primeira impressão foi confirmada quando fomos aceitos como estagiários da Casa das Palmeiras. Era 1977, ano do 20º aniversário da Casa. Naturalmente, caminhos novos foram trilhados — a disciplina do pensamento, muitas vezes, possui o efeito colateral de afastar pessoas — sem, no entanto, deixar de representar, enquanto memória viva, imagens condutoras das experiências que sofremos na Casa das Palmeiras. Tivemos a sorte e a coragem de continuar o pensamento de Jung e de Nise em nossos variados trabalhos. Especialmente relevantes, foram a criação de serviços de terapia ocupacional em duas instituições psiquiátricas. Pudemos, nestes trabalhos, corroborar a profundidade e o acerto das principais idéias acerca de como lidar com o assim chamado "doente mental" transmitidas pela Drª. Nise. Foram certezas que ela passou com extrema simplicidade e doação. Nada nos ocultou ou reteve. Isto faz da Drª Nise um símbolo da transmissão democrática do saber. Sabemos que somos apenas dois dos inúmeros estudantes que ela ajudou com sua cordialidade e conhecimento. Mas, temos, aqui, a pretenção de representá-los, formando um grande coro de admiradores e eternos devedores. A Drª Nise da Silveira faz parte, indiscutivelmente, da história da psiquiatria no Brasil. A história do pensamento de Jung em nosso país também lhe deve muito. Ela foi a grande introdutora da psicologia analítica. Tudo que veio depois foi construído em cima dos alicerces por ela firmemente estabelecidos. Nome de proa de nossa varguarda política e de nossa ousadia científica, mostrou, desde cedo, com seu corpo frágil, a potência e a dimensão de sua personalidade criativa. Nise da Silveira criou, sustentou e manteve. Fez de todos nós não seus meros imitadores, mas aqueles que, imbuídos de seu corajoso espírito, continuarão ampliando e difundindo o que ela semeou. Com muitas saudades, nos despedimos Carlos Bernardi e Paulo Pinho Rio de Janeiro, 31 de outubro de 1999 |