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SONHOS |
Jung definia o sonho em termos genéricos como “um auto-retrato espontâneo, em forma simbólica, da real situação no INCONSCIENTE” (CW 8, parág. 505). Ele via a relação do sonho com a CONSCIÊNCIA basicamente como uma relação compensatória (ver COMPENSAÇÃO). Contrastando com Freud, a quem acusava de examinar os sonhos apenas de um ponto de vista causal, Jung falava deles como produtos psíquicos que poderiam ser vistos de um ponto de vista causal ou finalista (ver MÉTODOS REDUTIVO E SINTÉTICO; PONTO DE VISTA TELEOLÓGICO). O ponto de vista causal tende a uma uniformidade de significado, escreveu ele, uma uniformidade de INTERPRETAÇÃO, e leva a atribuir uma significação fixa a um SÍMBOLO, ao passo que o ponto de vista finalista “percebe na IMAGEM onírica a expressão de uma situação psicológica alterada. Não reconhece um significado fixo dos símbolos” (CW 8, parág. 471). O processo de ASSOCIAÇÃO foi usado por ambos na interpretação de sonhos, porém Jung, posteriormente, optou por uma variante em sua prática de acordo com seus achados sobre o COMPLEXO, pois via nos sonhos comentários sobre complexos pessoais. À técnica da associação acrescentou a AMPLIFICAÇÃO a partir do MITO, história e qualquer outro material cultural, a fim de prover um contexto tão amplo quanto possível para a interpretação de imagens oníricas, permitindo que seu conteúdo tanto manifesto como latente fosse explorado. Fez distinção entre uma interpretação no chamado nível subjetivo em que as figuras oníricas são concebidas como PERSONIFICAÇÕES de aspectos na própria psique do sonhador e interpretação no nível objetivo, em que se investigam as imagens oníricas em seus próprios termos (por exemplo, figuras humanas que podem ser concebidas do sonhador). Muito embora a compensação fosse considerada um princípio fundamental, Jung enfatizava que o que está sendo compensado nem sempre é imediatamente aparente e que paciência e honestidade desempenham um importante papel no desenvolvimento dos enigmas do conteúdo onírico. Acreditava que os sonhos possuem um aspecto prospectivo, “uma antecipação inconsciente da realização consciente futura”. Não obstante, recomendava que o sonho fosse julgado um projeto de preliminar ou um plano rascunhado antecipadamente, mais do que como uma profecia ou um conjunto de orientações. Enfatizava que existem certos sonhos (isto é, pesadelos) cujo propósito parecia ser desintegrar, destruir, demolir. Eles cumprem sua tarefa compensatória de uma maneira necessariamente desagradável. Sonhos impressionantes assim podem se tornar os chamados “grande sonhos” que fazem com que o indivíduo altere um curso de vida. Outros podem não pressagiar ou desafiar, mas sim resumir as tarefas necessárias para o preenchimento de uma condição. Os sonhos vistos numa seqüência muitas vezes revelam o caminho do processo de INDIVIDUAÇÃO de um indivíduo e desvendam uma simbologia pessoal. Os sonhos também podem ser interpretados dramaticamente, como uma peça, apresentando uma situação problemática, um desenvolvimento e conclusão. Repeditamente Jung admoestava contra o perigo de se superestimar o inconsciente e avisava que uma tal tendência prejudica o poder da decisão consciente. Desse ponto de vista, um sonho excepcionalmente bonito ou numinoso pode ter uma atração sedutora prejudicial até que se o examine mais detalhadamente. O sonho e o sonhador estão inexplicavelmente ligados e o inconsciente funciona de modo satisfatório somente quando a atitude do EGO consciente é de exploração e disposição para colaborar. As imagens oníricas são consideradas como a melhor expressão possível de fatos ainda inconscientes. “Para compreender o significado do sonho devo ater-me, tão próximo quanto possível, à imagem onírica”, afirmava Jung (CW 16, parág. 320). Existe uma qualidade “exata” nos sonhos, dizia ele, nem positiva nem negativa, porém uma representação da situação como é realmente, e não o que alguém suponha ou gostaria que fosse. Compreender o processo onírico importa em múltiplos e variados aspectos, envolvendo a totalidade de uma pessoa e não simplesmente só o intelecto (ver SELF). Jung admitia sentir-se mistificado e logrado quando confrontando-se com os sonhos, particularmente os seus próprios, e para ele tal posicionamento parecia o preferível diante de qualquer fenômeno psíquico cujo valor inicialmente não é evidente. A última obra de Jung foi sobre sonhos e símbolos oníricos, completada em 1961 e publicada em 1964. Ler isso lado a lado, agora, em seus outros ensaios e seminários anteriores sobre os sonhos deve ser encarado e conscientizado como mudanças que tiveram lugar nas atitudes COLETIVAS com relação a sonhos e ao sonhar desde sua época e a de Freud. Exemplificando, um bom número de pessoas, em ANÁLISE ou não, agora registram seus sonhos e, mesmo que não consigam muito avançar, procuram considerá-los em relação ao contexto do qual surgiram. Uma conscientização simbólica dos sonhos cresceu notavelmente nas ultimas décadas. A popularização dos ensinamentos de Jung, através da publicação de Memories,Dreams, Reflexions (Memórias, Sonhos, Reflexões) e Man and His Symbols (O Homem e Seus Símbolos), lado a lado com seminários sobre sonhos e conferências de divulgação sobre o assunto, combinada com o crescente número de pessoas que fazem análise, resultaram num interesse amplo pelo material simbólico e inconsciente. Outras terapias (isto é, Gestalt e Psicodrama) apresentaram contribuições ao método e fizeram uso da IMAGINAÇÃO ATIVA para a liberação de conteúdos oníricos subjetivos latentes. Finalmente, existe hoje uma fascinação consciente e coletiva com a “viagem” ou o empreendimento da tarefa difícil de indagação simbólica que encerra peregrinação, estranhamento, acaso, risco e falta de certeza – todos atributos da jornada interior empreendida quando se acompanha seus próprios sonhos. Desde a morte de Jung, conduziu-se uma pesquisa contínua sobre os sonhos na Clínica C. G. Jung, em Zurique. Novas evidências médicas e científicas parecem refutar algumas das suas anteriores conjecturas com relação à ação ou penetração de estímulos somáticos no processo onírico. Hall (1977) Mattoon (1978) e Lambert (1981) publicaram ensaios sobre a aplicação clínica da análise de sonhos. |