SACRIFÍCIO

Em seus escritos sobre o sacrifício, Jung chega quase a revelar sua própria teologia. No uso comum, a palavra sacrifício possui dois significados; um é abster-se e o outro, renunciar. Ambos são relevantes para o sacrifício quando cogitado psicologicamente, mas nem um nem o outro dão conta plenamente do significado original da palavra, que é santificar, tornar sagrado. O ato de renúncia é equivalente ao reconhecimento de um princípio ordenador supra-ordenado à consciência presente de um indivíduo.

Jung reconhece que, em alguma momento na vida, cada um de nós será chamado ao sacrifício; isto é, a renunciar a uma atitude psicológica apreciada, neurótica ou de outra natureza. Em cada caso, a exigência é maior que a de uma adaptação ocasional. Um indivíduo abre mão conscientemente de uma posição de EGO em favor de uma outra que parece conter um maior SIGNIFICADO e sentido. A escolha envolvida e a transição de um ponto de vista para o outro são difíceis, e Jung via isso como o padrão implícito sempre que conteúdos INCONSCIENTES se apresentam e OPOSTOS colidem (ver INICIAÇÃO; TRANSFORMAÇÃO). O sacrifício é o preço que pagamos pela CONSCIÊNCIA.

A dádiva sacrificial que se faz simboliza uma parte da personalidade e da auto-estima; contudo, jamais se pode estar plenamente cônscio das implicações do sacrifício na ocasião em que é realizado. Em termos mitológicos e religiosos tradicionais, tudo que é dado deve ser como se fosse para ser destruído. Portanto, é impossível considerar o sacrifício sem sugerir, direta ou indiretamente, que ele tenha um significado com relação, também, a uma IMAGEM DE DEUS. Jung vê a necessidade do sacrifício não como um resíduo da superstição arcaica, mas como uma parte essencial do preço que pagamos para sermos humanos. Dizer que o SELF o exige de mim é dar uma resposta lógica, porém o indivíduo pode ainda não estar de todo ciente do relacionamento que isso envolve.

Uma conscientização analítica da troca realizada precisa tornar perceptível a função religiosa da psique, e muitos analistas dela desconfiam, talvez equiparando erroneamente a ANÁLISE da função religiosa a uma análise da RELIGIÃO. Uma compreensão do sacrifício, porém, afirma a presença de significado na perda e muitas vezes consegue reverter o efeito da desintegração.