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NARCISISMO |
Jung raramente é explicito quanto ao assunto do narcisismo; em geral concentra-se em demonstrar como este termo psicopatológico foi incorretamente aplicado à atividade psicológica normal. Por exemplo, a meditação e contemplação decididamente não são narcisistas em um sentido patológico (CW 14, parág. 709) e, quanto à acusação de que os artistas são narcisistas, bem, então “todo homem que busca seu próprio objetivo é um narcisista” (CW 15, parág. 102). Em suma, Jung admitia que havia um uso patológico (com o qual estava familiarizado), porém procurou restringi-lo àquilo que descrevia como “auto-amor masturbatório” (CW 10, parág. 204). É a enorme mudança na atitude psicanalítica com relação ao narcisismo, ocorrida por volta de 1970, que criou uma situação em que inúmeros autores desenvolveram interesse pelo tema. Essas mudanças na psicanálise estimulavam os psicólogos analíticos a examinar seus próprios conceitos e, quando o faziam, achavam que muitas idéias de Jung não só estavam em paralelismo com a evolução psicanalítica (que no entanto só ocorreu mais tardiamente), mas que existe uma contribuição “junguiana” específica a considerar. Para Freud, o narcisismo primário era um amor de si próprio ou um investimento de libido no próprio corpo do indivíduo, que precedia a capacidade de se relacionar com os outros ou amá-los. O narcisismo secundário é a união no self de todo o mundo objetal ou uma falta de reconhecimento da separação entre self e objetos. Isso justificaria a concepção popular de uma pessoa narcisista como excluída de outras, absorta em si mesma, presunçosa e algo superior, por assim dizer. A denominação dessa condição psicológica a partir do adolescente mitológico que se apaixonou por seu reflexo na água, pensando que era outra pessoa, também é explicada. É obvio que, usado clinicamente, o narcisismo secundário (ou distúrbio narcísico da personalidade) refere-se à vida de fantasia enquanto comportamento observável. Muitos pacientes narcisistas parecem, a princípio, funcionar relativamente bem no nível social. O narcisismo é hoje considerado por muitos psicanalistas como algo que persiste por toda vida e que pode assumir um tom normal ou doentio, dependendo das circunstâncias. Isto difere de uma deficiência para a superação do narcisismo em sua forma primária, sendo sua presença contínua, na forma secundária, estigmatizada como patológica. Os distúrbios narcísicos são vistos como resultantes de um distúrbio de empatia na relação com os pais, levando a um fracasso em desenvolver um autêntico auto-amor a partir do amor dos outros e à construção de uma estrutura de personalidade em que o envaidecimento aparente camufla sentimentos de vazio e falta de auto-estima (cf. Kohut, 1971, 1977). De acordo com Kohut, o desenvolvimento narcísico caminha por seu próprio caminho em separado, da mesma forma que as relações objetais são pensadas como possuindo uma via distinta de desenvolvimento. É importante observar que não existe uma razão fundamental por que o desenvolvimento narcísico e relações objetais devam ser opostos. Muito pelo contrário; complementam-se um ao outro. Contudo, a psicologia do self, à qual as idéias de Kohut sobre o narcisismo o levaram, e a perspectiva de relações objetais são um pouco diferentes. A primeira usa a empatia (“introspecção vicária”, na expressão de Kohut) para descobrir o que venha a ser uma pessoa de uma perspectiva tomada a partir de seu interior, de um ou de outro modo. As relações objetais são algo mais neutro, “distante da experiência”, nas palavras de Kohut. O problema principal parece ser sobre o conflito. O observador à parte pode ver todos os tipos de conflitos internos, porém a pessoa envolvida se sentirá toda inteira e uniforme (um self), apesar disso. Este é hoje um tema de acalorado debate na psicanálise (cf. Tolpin, 1980). Adiante discutiremos uma contribuição que aqui poderia ser dada pela PSICOLOGIA ANALÍTICA. O desenvolvimento narcísico encerra um envolvimento e investimento positivos em si próprio, no indivíduo, o desenvolvimento e a manutenção da auto-estima, e a proposta e consecução de ambições e objetivos. Além disso, existe a questão da evolução de valores e ideais. Então, o desenvolvimento narcísico torna-se tarefa de uma vida inteira. É a questão da relação com o SELF que mobiliza alguns psicólogos analíticos, pois essa relação é estruturada arquetipicamente e, portanto, imbuída de uma qualidade fascinante e compelidora, com uma certa numinosidade (ver NUMINOSO). Em certo sentido, a relação com self “é” o self e com isto se estabelece um elo entre o narcisismo e a INDIVIDUAÇÃO (cf. Gordon, 1978; Schwartz Salant, 1982). Kohut desenvolveu o conceito do self a partir de seu ponto de vista, devido à necessidade de um construto ou elaboração que auxiliasse na exploração, mais de sentimentos que de fenômenos. Porém esta atitude não é o único aspecto de sua obra que interessa aos psicólogos analíticos. Kohut contesta a abordagem psicológica de Freud; parece-lhe mecanicista e por demais concentrada na modificação do princípio do prazer. De acordo com Kohut, Freud estava preso a uma “moralidade de maturação” e exigia de nós crescermos mesmo à custa de nossa humanidade. Kohut também reagia à psicologia do ego, percebendo suas limitações como um meio de explorar todo a personalidade. Em virtude da psicologia analítica haver passado por uma evolução diferente da psicanálise, o problema de dupla perspectiva, causado pela existência da psicologia do self e das relações objetais, é de somenos importância. A razão principal disso é que a teoria arquetípica introduz a idéia de que o self é um dado já existente e funcionando no nascimento (ou antes dele). Na psicanálise, o self é visto mais como algo a que se chegou ou que se alcançou e a preocupação é estabelecer exatamente como isso acontece; daí a polêmica. Por outro lado, alguns autores percebem que o “self de Kohut” é semelhante à idéia de Jung (Jacoby, 1981) no ponto em que parece possuir um aspecto incognoscível e cósmico. Parece constituir um consenso geral o fato de que o paciente narcisicamente perturbado requer um uso cuidadoso de uma técnica modificada. Sua tendência em incorporar o mundo objetal interfere com a capacidade de simbolizar. Além do mais, as interpretações da transferência somente podem ser efetivas após um longo período de relacionamento empático, dando tempo e espaço para que se desgastem a onipotência e grandiosidade do paciente narcisicamente perturbado (cf. Ledermann, 1979). A questão é que sua onipotência e grandiosidade são uma versão distorcida da personalidade própria, que ele poderia ter alcançado na relação com seus pais, mas não o fez. Quando lembramos que se diz que o distúrbio narcísico da personalidade é resultante de uma relação com os pais insatisfatória, torna-se mais nítida a razão para a excitação na psicologia analítica. Podemos ver que o self, a totalidade da personalidade, a personalidade sobre-ordenada, a IMAGEM DE DEUS, arquetípica em seu núcleo, depende, para sua encarnação individual, das experiências de sentimento da tenra infância. A análise de uma experiência precoce através da transferência pode tocar a profundeza e majestade do self, na verdade, possibilitar-lhe liberar-se. Ver ANALISTA E PACIENTE. |