MAL

A atitude de Jung com relação ao mal era pragmática. Como repetidamente dizia, não estava interessado nele em uma perspectiva filosófica, mas, sim, de um ponto de vista do EMPIRISMO. Como psicoterapeuta, era com o julgamento subjetivo da pessoa quanto àquilo que constituía o bem e o mal que ele percebia ter de lidar em primeiro lugar. O que pode, em determinadas circunstâncias, parecer o mal ou, ao menos, sem significado e sem valor, pode, a um nível mais elevado da CONSCIÊNCIA, parecer uma fonte de bem.

Quando menino, Jung foi levado a encarar o lado escuro, impuro e (naquele tempo) inadmissível de Deus em uma VISÃO (1963). Mais tarde, conceitualizou sua visão e lhe deu validade psicológica, identificando o que havia visto como a SOMBRA do Deus cristão. No SELF empírico, que ele equiparava à IMAGEM DE DEUS, sustentava que luz e sombra (bem e mal) formam uma unidade paradoxal.

“O bem e o mal são princípios de nosso julgamento ético”, escreveu Jung, “porém, reduzidos a suas raízes ontológicas, são eles ‘começos’, aspectos de Deus” (CW 10, parág. 846). Um princípio é uma coisa sobre-ordenada, mais poderosa que o próprio julgamento de uma pessoa, um atributo do arquétipo da imagem de Deus (ver ARQUÉTIPO). Portanto, em sua opinião, o problema não pode ser relativizado. Os humanos têm de lidar com o mal como tal, reconhecendo seu poder e sua ambivalência demoníaca.

Em diferentes épocas de sua carreira, Jung foi duramente criticado por teólogos por sua insistência na realidade do mal e na natureza paradoxal da imagem de Deus. Não podemos saber o que o bem e o mal são em si mesmos, insistia ele, porém os percebemos como julgamentos e em relação à experiência. Ele os via não como fatos, mas como respostas humanas a fatos e, assim, em sua opinião, nenhum dos dois poderia ser considerado como diminuição ou privação do outro. Psicologicamente, aceitava ambos como “igualmente reais”. O mal assume seu lugar como uma realidade efetiva e ameaçadora em oposição ao bem, uma realidade psicológica que se expressa simbolicamente tanto na tradição religiosa (como o demônio) como na experiência pessoal (ver OPOSTOS).

Essa opinião do mal foi extensivamente explorada na correspondência de Jung com o padre Victor White, sacerdote inglês, porém eventualmente os dois amigos acharam suas perspectivas irreconciliáveis (cf. Heisig, 1979).

Ver CULPA; RELIGIÃO.