GRANDE MÃE

A teoria dos arquétipos de Jung levou-o a postular a hipótese de que as influências que uma mãe exerce sobre seus filhos não derivam necessariamente da própria mãe como uma pessoa e de seus traços reais de caráter. Além disso, existem qualidades que a mãe parece possuir, mas que, de fato, se originam da estrutura arquetípica em torno de “mãe” e são projetadas nela pelo filho (ver ARQUÉTIPO; PROJEÇÃO).

A Grande Mãe é uma designação da IMAGEM geral, formada pela experiência cultural COLETIVA. Como uma imagem, ela revela uma plenitude arquetípica, mas também uma polaridade positivo-negativa. Um bebê tende a organizar suas experiências de vulnerabilidade precoce e dependência de sua mãe em torno de pólos positivo e negativo. O pólo positivo reúne qualidades tais como “solicitude e simpatia maternais; a autoridade mágica da mulher; a sabedoria e exaltação espiritual que transcendem a razão; qualquer instinto ou impulso útil; tudo aquilo que é benigno, tudo que acaricia e sustém, que propicia o crescimento e a fertilidade”. Em suma, a mãe boa. O pólo negativo sugere a mãe má: “tudo que é secreto, oculto, obscuro; o abismo, o mundo dos mortos, tudo que devora, seduz e envenena, que é aterrador e inevitável como o destino” (CW 9i, parág. 158).

Para uma perspectiva que privilegia o desenvolvimento, isso encerra uma divisão da IMAGO materna (ver RELAÇÕES OBJETAIS). Jung aponta que tais contrastes estão difundidos amplamente no conjunto de imagens da cultura de todos os povos, de modo que a humanidade como um todo não acha estranho ou insuportável que a mãe seja dividida. Porém, eventualmente, um bebê tem de se harmonizar com sua mãe como pessoa e conciliar percepções contraditórias dela, para poder se relacionar com ela de forma plena (ver  CONIUNCTIO; POSIÇÃO DEPRESSIVA; TENRA INFÂNCIA E INFÂNCIA).

Além dos dualismos pessoal/arquetípico e bom/mau, devemos acrescentar o de terreno/espiritual: a Grande Mãe em seu aspecto ctônico e agrícola e em sua forma divina, etérea, virginal. Isto também tem deu reflexo nas imagens comuns da mãe que um bebê desenvolve.

É importante compreender o uso de termos como a Grande Mãe em um sentido metafórico e não literal, na psicologia do desenvolvimento. A dúvida é apenas quanto a se um bebê sabe que sua mãe não é uma deusa de fertilidade ou uma destrutiva “Rainha da Noite”; contudo, ele pode se relacionar com ela como se ela fosse tal figura.

Jung percebia que a qualidade da imagem de Grande Mãe é diferente para homens e mulheres. Porque o que é feminino é estranho para um homem, tende a se localizar no INCONSCIENTE e, daí, exercer uma influência, que se torna maior pelo fato de estar escondida. Porém uma mulher compartilha da mesma vida consciente de sua mãe e, daí, a imagem de mãe é menos aterradora e menos atraente para ela do que é para um homem (ver ANDRÓGINO; ANIMA E ANIMUS; ASSUNÇÃO DA VIRGEM MARIA; GÊNERO; SEXO). Aqui, Jung pode estar idealizando o relacionamento mãe-filha, deixando de lado seu aspecto competitivo e vendo-o sob a perspectiva de sua época. Do mesmo modo, Jung traça uma distinção qualitativa entre o arquétipo de mãe e o arquétipo de pai, que, poder-se-ia argumentar, também reflete sua própria cultura.

A natureza fundamental do relacionamento mãe-bebê significa que a Grande Mãe, como um fenômeno cultural e histórico, oferece muitos aspectos estimuladores para a investigação (por exemplo, Neumann, 1955). Alguns deles só agora estão começando a ser explorados pelas mulheres.