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ESPÍRITO |
Jung aplicava a palavra “espírito” ao aspecto não material de uma pessoa viva (pensamento, intenção, ideal), bem como a um ser incorpóreo, desligado de um corpo humano (fantasma, sombra espectral, alma ancestral). Escreveu extensivamente sobre os dois tópicos, tendo-se envolvido com este último, em algumas de suas pesquisas sobre a psique mais antigas. Nos dois casos, concebe-se o espírito como o oposto da matéria (ver OPOSTO). Isso explica a qualidade ilusória e evanescente da FANTASIA, por exemplo, bem como a transparência das aparições. O espírito como aspecto não-material do homem não pode ser descrito nem definido. Ele é infinito, ilimitado, sem forma nem imagem. Vive de si mesmo, não sujeito a nossas expectativas humanas nem às exigências da vontade. É o outro, seja ou não deste mundo, chega não-solicitado, provoca usualmente uma resposta de AFETO, quer positivo quer negativo. Entretanto, Jung vai mais adiante, ligando o espírito com o propósito, fazendo-se um tipo de força intuitiva que liga e influencia eventos e esforços divergentes (ver SINCRONICIDADE). Conjectura se existem leis do espírito. Seu prolongado estudo e interesse no I Ching eram estimulados pela “sabedoria do espírito” que percebia ali contida e a relevância de tal sabedoria para a vida humana como amplamente demonstrada ao longo de milhares de anos na China. Daí, dava crédito ao espírito, mas sem a estipulação de um credo (ver IMAGEM DE DEUS). O conceito do SELF, de Jung, entretanto, se aproxima da expressão de um ARQUÉTIPO universal do espírito, e ele reconhecia que os objetivos espirituais precisam do corpo para atingirem uma realização mais plena. Em conseqüência, existe uma interdependência dos opostos espírito e matéria. Embora toda a obra de Jung possa ser vista como um levantamento psicológico da evidência da crença no espírito, sua expressão mais direta sobre o assunto é “The Psychological Foundations of Belief in Spirits” (“Os Fundamentos Psicológicos da Crença em Espíritos”) (CW 8, 1948). Baseava-se nas observações da presença de seres incorpóreos e da crença neles – fantasmas, espíritos ancestrais e outros. Resumindo, sua obra sobre os fundamentos psicológicos da crença do homem em espíritos chamava a atenção para a necessidade humana de um relacionamento consciente com o espírito. O fenômeno dos espíritos, afirma ele, é uma verificação da realidade de um mundo do espírito. Uma das mais importantes evidências da existência de um reino diferente do corpo, quer relatada pelos chamados primitivos, quer pelo homem ocidental contemporâneo, é a presença de SONHOS e VISÕES. Jung não coloca a questão de saber se o espírito existe em si ou por si mesmo – seria uma indagação metafísica, admite. Seu interesse está em como as pessoas percebem e reagem ao aparecimento do espírito e isto é uma preocupação psicológica. A crença na alma não é necessariamente correlativa à crença em espíritos. A ALMA é universalmente referida como tendo sua morada em um indivíduo, ao passo que os espíritos habitam um lugar à parte, separado do EGO. Observa que os espíritos fazem sua aparição quando uma pessoa perde sua capacidade adaptativa ou a aparição o motiva a fazer isso. Devido a seu efeito perturbador é que os espíritos são, muito freqüentemente, temidos. Conseqüentemente, concluía Jung, os espíritos são ou fantasias patológicas ou idéias novas, porém até então desconhecidas e desafiadoras. “Os espíritos, visto de um ângulo psicológico”, concluía ele, são “COMPLEXOS autônomos INCONSCIENTES que aparecem como PROJEÇÕES porque não estão em associação com o ego” (CW 9i, parág. 285). Além do mais, podem ser manifestações de complexos pertinentes ao COLETIVO, que alteram ou substituem a atitude de todo um povo, possibilitando que se instale uma outra, nova. As intervenções dos chamados espíritos parecem corresponder a necessidades de ampliação da CONSCIÊNCIA. Essa última afirmação sugere a razão por que o espírito se manifesta, psicologicamente, como uma instância superior e mais poderosa que o ego; talvez concebida como uma idéia, convicção ou intuição, mas freqüentemente personificada em alguém com clareza de discernimento, um tipo de profeta ou visionário (ver PERSONALIDADE MANA; HERÓI). Ouvimos espíritos serem chamados de “o espírito do passado”, isto é, pertencentes a nossos ancestrais mortos; o espírito personificado por um indivíduo, isto é, um homem que teve um espírito elevado, uma idéia que capta o espírito de uma nação ou representa o espírito de uma época, e com uma conotação diferente: “o espírito do mal errando pelo mundo”. Aquilo que simbolizam é que é responsável pela atração e/ou repulsão dos espíritos, por seu poder numinoso e pela eficácia de suas intervenções. A aparição de espíritos compõe o simbolismo de uma tensão elevada entre mundos materiais e imateriais. São fenômenos fronteiriços ou liminares, que parecem querer ganhar existência de alguma forma. Ver FUNÇÃO TRANSCENDENTE. |