CASAMENTO

O contexto normalmente esclarece se Jung está se referindo ao casamento como um relacionamento prolongado entre um homem e uma mulher ou a um casamento interno de partes masculinas e femininas da psique de um indivíduo ou à CONIUNCTIO ou, finalmente, ao hierosgamos (casamento sagrado, ver ALQUIMIA).

A crença de Jung era de que os OPOSTOS atraem-se e achava que os casamentos (no sentido externo) provavelmente envolveriam personalidades de matizes diferentes. Desenvolveu um modelo próprio (CW 17, parágs. 324-45) em que se pressupõe que um parceiro em um casamento terá uma psicologia pessoal mais complexa que o outro. O sexo dos parceiros envolvidos não influi neste aspecto. A personalidade complexa, de algum modo, conterá a personalidade mais simples e, por um espaço de tempo, tudo pode estar perfeito. Porém o parceiro mais complexo se verá desestimulado pelo menos complexo e procurará em outra parte o que imagina ser o preenchimento (ver PROJEÇÃO). Isso torna a personalidade contida, a mais simples, cada vez mais dependente e provavelmente disposta a investir qualquer coisa no relacionamento. A observação de Jung era de que o parceiro que funciona como continente tem uma necessidade secreta de contenção e isso é buscado em tentativas com outras pessoas. O recurso para esse parceiro é reconhecer suas necessidades de dependência. O parceiro contido tem de ver que a salvação não será encontrada na forma do outro parceiro.

É difícil avaliar esse modelo. Tanto quanto se possa confiar na evidência experiencial, isso sugere que não é o caso de opostos atraindo-se, nem, de fato, de similares. Antes, a escolha de parceiro no casamento parece depender da percepção de um equilíbrio controlável entre diferença e semelhança. O modelo continente-conteúdo de Jung é uma tentativa de descrever o que hoje se refere como “conluio”. Também é útil ver os parceiros em um casamento às vezes operando sob a égide de uma fantasia compartilhada. Os parceiros podem ter elementos em seus fundamentos íntimos que promovem tal fantasia compartilhada. Jung não apresentou uma análise completa de dinâmicas conjugais, mas estava interessado nos fatores psicológicos envolvidos.

O modelo continente-conteúdo não deveria ser considerado isoladamente da atividade da ANIMA E ANIMUS. Estas estruturas arquetípicas influenciam os relacionamentos e, daí, os aspectos no outro que determinam a escolha de parceiro podem, até certo ponto, ser julgados projeções de anima e animus (ver ARQUÉTIPO).  Porque essas PERSONIFICAÇÕES são influenciadas em certa medida por relacionamentos da infância com o genitor do sexo oposto, as escolhas de parceiros de casamento muitas vezes refletem a condição psicológica do genitor com quem a criança está inconscientemente unida (ver INCESTO).

A idéia de um casamento interno apóia-se na convicção de Jung de que toda a gama de possibilidades psicológicas está disponível para qualquer pessoa (ver GÊNERO; SEXO). Resulta que a personalidade pode ser descrita em termos de um equilíbrio entre fatores masculinos e femininos. Quando “masculino” e “feminino” são usados para se referir a tendências internas, o papel do gênero externo não está diretamente envolvido. Contudo, Jung freqüentemente passava por cima disso e, às vezes, uma confusão entre sexo e gênero se torna aparente.

Recentemente, prestou-se atenção à questão da INDIVIDUAÇÃO em um relacionamento de casamento. “Casamentos de individuação” não se prendem aos padrões do COLETIVO, mas servem aos mais profundos interesses dos parceiros fomentando um estilo de relacionar-se específico das duas pessoas (Guggenbühl-Craig, 1977).

Sobre o “casamento” na análise, ver ANALISTA E PACIENTE.