ANALISTA E PACIENTE

Jung enfatizava que o relacionamento analítico não deveria ser visto em termos de um procedimento médico ou técnico. Referia-se à ANÁLISE como um “processo dialético”, implicando que ambos os participantes estão igualmente envolvidos e que existe uma interação nos dois sentidos entre eles. Assim, o analista não pode simplesmente usar de qualquer autoridade que possua, pois ele está “em” tratamento, na mesma medida em que o paciente, e será o seu desenvolvimento como pessoa o que será decisivo, mais que o seu conhecimento. Por essa razão, Jung foi o primeiro a iniciar uma análise de treinamento compulsória para àqueles que desejavam clinicar (CW 4, parág. 536; Freud, 1912). A ênfase de Jung na igualdade é algo idealista e é preferível pensar em termos de reciprocidade analítica, para se reconhecer o envolvimento emocional do analista quando sabe que os papéis das duas pessoas não são idênticos.

Na concepção de Jung, o analista adota uma atitude flexível com relação ao processo do tratamento e à evolução do relacionamento analítico. Repetindo-se, o idealismo precisa ser moderado e o próprio Jung contribui para isso com sua concepção de que existem tipicamente quatro estágios para uma análise. Mas o que fica realçado é a necessidade de aprender com o paciente e se adaptar à sua REALIDADE PSÍQUICA.

Partindo dessas observações, pode-se ver que Jung salientava aquilo que atualmente seria chamado de relacionamento real ou aliança terapêutica de analista e paciente. Pode-se distinguir este aspecto da transferência e contratransferência (ver adiante). Na psicanálise contemporânea, um movimento semelhante se verificou, de modo que a “conformidade não neurótica, racional, razoável, que o paciente tem com seu analista e que o capacita a trabalhar com propósito na situação analítica” seja separadamente identificada (Greenson e Wexler, 1969).

A atitude de Jung com relação à transferência mostra ampla diversidade. Por um lado, a transferência é considerada como o aspecto central da análise, de qualquer modo inevitável e, em sua mescla do sublime e do repulsivo, de grande utilidade terapêutica (CW 16, parágs. 283-4, 358, 371). Por outro lado, às vezes a transferência é concebida como apenas algo erótico e como um “obstáculo”: “você cura apesar da transferência e não por causa dela”. Essa atitude dividida de Jung é refletida nas várias escolas da psicologia analítica que evoluíram desde a morte de Jung, em 1961. Alguns analistas consideram a análise de transferência um desvio do que é mais importante, elucidação do conteúdo simbólico do material do paciente. Outros supõem que, na análise de transferência, podem encontrar aqueles traumas ou privações infantis que ainda estão operando em seus pacientes adultos. Daí, o último grupo não procura dissolver a transferência em favor da “realidade”, mas, antes, permitir que ela se aprofunde e seja trabalhada de e por dentro. Recentemente, parece que esse divisor se tornou menos acentuado, pois hoje os terapeutas percebem que a análise de conteúdo (símbolos) e a análise de processo (transferência) são dois lados de uma mesma moeda.

Existem importantes diferenças de ênfase entre o conceito de transferência que evolui na psicologia analítica e o da psicanálise. Jung separava a transferência em seus componentes pessoais e arquetípicos da mesma forma que escrevia sobre o INCONSCIENTE pessoal e o coletivo. A transferência pessoal incluía não somente aqueles aspectos do relacionamento do paciente com figuras do passado, tais como os pais que ele projeta no analista, mas também seu potencial individual e sua SOMBRA (IMAGO; PROJEÇÃO). Isto é, o analista representa e mantém para o paciente partes de sua psique que ainda não se desenvolveram tão plenamente quanto poderiam e também aspectos da personalidade do paciente que este, antes, rejeitaria.

A transferência arquetípica tem dois significados. Primeiro, aquelas projeções de transferência não baseadas na experiência pessoal, do mundo exterior, do paciente. Por exemplo, na base da fantasia inconsciente o analista pode ser visto como um curador mágico ou um demônio ameaçador e essa imagem terá uma força maior que uma derivação da experiência comum supriria (ver ARQUÉTIPO; PERSONALIDADE MANA).

O segundo aspecto da transferência arquetípica refere-se aos eventos geralmente esperáveis da análise, àquilo que ela provoca no relacionamento entre analista e paciente. Este padrão pode ser ilustrado de forma esquematizada, adaptada de um diagrama de Jung (CW 16, parág. 422).

As setas de duas cabeças indicam uma comunicação e um relacionamento nos dois sentidos. (1) refere-se à aliança terapêutica. (2) reflete o fato de que, na análise, o analista tanto se vale de seu próprio inconsciente para uma compreensão do paciente, como confronta seja o que for que o tornou um CURADOR FERIDO. Sua própria análise terá feito aqui seu impacto. (3) representa o estágio inicial do paciente da conscientização de seus problemas, interrompido por resistência e por dedicação à PERSONA; (4) e (5) indicam o impacto do relacionamento analítico sobre a vida inconsciente de cada participante, uma mistura de personalidades que levará cada qual a algum tipo de confronto com a possibilidade da mudança pessoal. (6) propõe uma comunicação direta entre o inconsciente do analista e o do paciente. Esta última hipótese sustenta várias idéias sobre a contratransferência (ver adiante). Jung percebia que, na ALQUIMIA, encontrara uma METÁFORA pertinente e poderosa para esse aspecto da transferência arquetípica.

Jung foi um dos pioneiros do uso terapêutico da contratransferência. Até a década de 1950, os psicanalistas, seguindo Freud, tendiam a considerar a contratransferência como invariavelmente neurótica, uma ativação dos conflitos infantis do analista e um obstáculo para seu funcionamento (Freud, 1910; 19913). Em 1920, Jung escreveu: “Não se pode exercer nenhuma influência se não se é suscetível à influência... O paciente influencia [o analista] inconscientemente... Um dos mais bem conhecidos sintomas desse tipo é a contratransferência evocada pela transferência” (CW 16, parág. 163). Em suma, Jung considerava a contratransferência como “um órgão de informação altamente importante” para um analista (ibid.). Jung admita que algumas contratransferências não eram tão benignas, referindo-se à “infecção psíquica” e aos perigos de se identificar com o paciente (CW 16, parágs. 358, 365).

A psicologia analítica contemporânea aprofundou esse interesse de Jung na contratransferência. Fordham (1957) propôs que um analista pode estar em tal sintonia com o mundo interior de seu paciente de forma que ele se vê sentindo ou se comportando de um modo que consegue compreender posteriormente, mas que não é senão uma extensão de processos intrapsíquicos de seu paciente nele projetados. Fordham chamou a isso contratransferência “sintônica”. Contrastava esta com uma contratransferência “ilusória” (significando respostas neuróticas da parte do analista ao paciente). O aspecto central desta abordagem e sua semelhança com a psicanálise hodierna é que as emoções e o comportamento do analista são objeto de investigação na mesma medida que os do paciente (cf. Heimann, 1950; Langs, 1978; Little, 1957; Searles, 1968).

A atitude de Jung com relação à REGRESSÃO do paciente apresenta interesse. Argumentava que a análise pode ter de dar continente a regressões a uma forma de funcionamento muito primitiva. Em conseqüência disso, um crescimento psicológico pode ser retomado. Pode-se contrastar esse fato com a atitude bem mais estrita de Freud – algo que psicanalista mais recentes retificaram (Balint, 1968).