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INTRODUÇÃO
À Andrew Samuels |
O pessoal da Rubedo gentilmente me convidou a escrever uma introdução especial para a versão eletrônica brasileira do Dicionário Crítico de Análise Junguiana. É claro que vou ceder ao pedido deles. No entanto, vou fazer mais. Depois de escrever a introdução do Dicionário, gostaria de compartilhar algumas reflexões contemporâneas sobre a análise junguiana, ilustrando minha convicção de que há uma visão fechada na análise junguiana que poderia ser de enorme valia no mundo geopolítico violento, fragmentado e complicado dos dias de hoje. Neste século, o Brasil será uma das principais áreas de crescimento da psicologia analítica (como é oficialmente conhecida a análise junguiana). No entanto, seria trágico se o tipo de psicologia desenvolvido no Brasil viesse simplesmente imitar os padrões dos antigos centros estabelecidos na Europa e Estados Unidos. Ao invés disso, esperamos que a emergência do Brasil no mundo enquanto criador de novas formas culturais ( e não simplesmente como importador de formas culturais) tenha continuidade neste emocionante campo da análise junguiana. Vamos rever algumas das influências do Brasil no mundo pós-moderno. Ao fazer isso, é preciso que vocês entendam que o faço como amador e não como um especialista da cultura brasileira. Neste decorrer, vou revendo como este imenso e mágico país fortemente me influenciou ao longo dos anos . Ninguém que esteja ativamente ligado à interface da educação com artes e política em qualquer lugar do mundo pode ignorar as contribuições seminais de Boal e Freire. As fotografias de Salgado redefiniram, por uma geração, o que significa estar politicamente e socialmente engajado com o mundo via imaginação. A teologia da libertação de Boff nos ensinou que o espírito não pode ser simplesmente separado de seu contexto social e terreno. Experiências políticas de Porto Alegre são consideradas como fonte de fortalecimento de uma abordagem antes moribunda e super limitada, seguindo para uma definição do que a democracia realmente significa . O Brasil não é só futebol, samba ou caipirinha. Então, eu digo que é só uma questão de tempo para que a grande máquina cultural comece a voltar sua atenção às origens, enviando mensagens sobre novos modos de se considerar a psique humana e novas maneiras de remediar suas múltiplas tristezas - que remontam aos antigos centros de onde ela nasceu – em Zurique, Londres, Berlim, Paris, Roma , Nova Iorque e Califórnia. Na verdade, o processo ainda está em fase muito inicial, mostrando que aquela que um dia foi considerada a periferia mundial da comunidade junguiana possa parecer cada vez mais com um de seus centros. É contra as posições mais fechadas que desejo apresentar esta nova edição eletrônica do livro entitulado, em inglês A Critical Dicitonary of Jungian Analysis ( Dicionário crítico de análise junguiana).O que significa o apelo à palavra “crítico”? Certamente, o livro permanece como a única tentativa no mundo em definir a linguagem da psicologia analítica de um modo que nos mostre a diferença entre “ o que Jung dizia” e “ o que Jung queria dizer”. O sucesso deste livro é mostrado pelo fato de hoje ele estar publicado em 19 línguas, com um número considerável de vendas – o que comprova sua qualidade. No entanto, talvez o que realmente nos inspire a ler este livro – seja novamente ou pela primeira vez – é que em um sentido mais profundo este definitivamente não é um guia confiável, autoritário e canônico. A força e mérito do livro recaem em sua sinceridade, seu caráter pessoal e considerando-se que há três autores envolvidos, as idiossincrasias interpessoais do texto são o que geralmente impressionam os leitores. Assim sendo, louvo este trabalho por seus erros e deficiências É claro que nem tudo o que é dito no dicionário está errado! Gerações de alunos em treinamento clínico ou em cursos acadêmicos em universidades, além daqueles que somente lêem Jung porque querem ( ou precisam) é que têm utilizado este trabalho. Agora, vou voltar à questão anterior sobre a análise junguiana em relação a alguns problemas geopolíticos preeminentes. Se o século passado foi chamado de “ O século freudiano”, há razões para pensarmos que este século seja o de Jung. Existe, hoje, uma angústia coletiva na Europa e América do Norte sobre o que significa “Ocidente”. Fácil definir em contraposição a um Islã supostamente fanático ( uma mistura de mídia e política e uma distorção daquela religião e cultura). O que parece ser Ocidente configura-se em um tópico muito mais complicado que clama por um input junguiano. Enquanto nos parece razoável discutir se o termo “Ocidente”contrapõe-se ao mais elegante termo “Sulista” e possui qualquer significado em um país como o Brasil , Jung considerava-se um tipo de terapeuta da cultura ocidental. Se suas críticas ao Ocidente repercutem aos ouvidos do que muitos muçulmanos responsáveis estão dizendo, então, isto me impressiona significativamente. Jung desencantou-se com a lateralidade da cultural ocidental, com a abordagem degradante desta, referente aos muitos aspectos da sexualidade, seu materialismo, super-dependência da racionalidade, a separação corpo-mente e a perda que o Ocidente teve do senso de propósito e significado. Até mesmo em um dado momento de genialidade imaginativa misturada a uma inflação psicológica, Jung tentou ser o terapeuta do Deus judáico-cristão, em seu livro Resposta a Jó. A inclinação de Jung para outras culturas como um modo de direcionar os profundos problemas do Ocidente, envolvia muita idealização do outro exótico, mas o ponto principal sempre foi o mesmo: Há alguma coisa fundamentalmente “fora” do modo como as pessoas vivem suas vidas. Especificamente, a falta de significado na vida das pessoas era algo que Jung ( e os analistas junguianos de hoje) considerava como tópica fundamental na análise clínica. A neurose e sofrimentos emocionais, de acordo com Jung, sempre envolvem uma perda catastrófica de significado, implicando em um vazio que somente pode ser preenchido pelo interior, já que as grandes religiões pararam de ser eficazes enquanto condutoras de significado do mundo exterior ao Self. Pode parecer estranho em termos de um pensamento linear, considerar o sofrimento emocional como sendo causado pela perda de significado, mas é um modo de conceber a psicoterapia – bem como a crítica cultural –como sendo severas e inflexíveis. Uma outra área em que o discurso contemporâneo está tomando o caminho “junguiano” é no que se refere ao papel desempenhado pelos gêneros. Por um lado, Jung era um tanto conservador no que diz respeito ao que ele considerava comportamentos apropriados para mulheres e homens. Por outro lado, com a sua teoria de animus e anima ( algo que veio a ele durante seu relacionamento com Sabina Spielrein), ele nos oferece um caminho para expandir o que é possível para ambos os sexos. Para uma mulher, seu animus não é um mero homem em sua memória , mas um sinal da capacidade dela em ser e fazer cada vez mais coisas além das que comumente eram pensadas para uma mulher. Para o homem, a confrontação com a anima pode levar à mesma expansão de papéis. Como muitas escritoras feministas apontam – a exemplo da crítica literária Susan Rowland - animus e anima, podem ser idéias anti-culturais e profundamente radicais. Quando realizo palestras para audiências junguianas e não-junguianas, sempre peço aos convidados para fazerem um simples teste de associação de palavras, e dou como estímulo a palavra “Jung”. A esmagadora resposta ( potencialmente 100%) é “Freud”. Isto certamente traz problemas para os junguianos . Se eles sempre são definidos em termos de “a outra parte”; sempre “ o Número Dois”, então eles têm que tentar mais arduamente. Mais sério ainda, a associação esquece o fato de que havia um “Jung” muito importante pré freudiano ou não-freudiano. No entanto, o que certamente deve ser ressaltado é a relação entre ambos. Há diferentes caminhos para se avaliar a ruptura entre Freud e Jung: como um desastre do qual a psicoterapia nunca se recuperou ou como um caminho saudável pelo mundo psicanalítico – de um excesso lamentável . Jung é certamente usado pela psicanálise institucional, para mantê-la unida, como um tipo de inimigo tribal. Isto envolve um grau de esquecimento deliberado das contribuições pioneiras de Jung. O distinto historiador em psicanálise, Paul Roazen, comentou que ”Poucas pessoas na psicanálise se incomodariam, hoje, se um analista apresentasse um ponto de vista idêntico ao de Jung em 1913”. Roazen estava se referindo ao movimento da mãe para o centro do pensamento psicanalítico; à percepção de que os humanos são motivados além de seu instinto sexual, pela conseqüente reavaliação da arte, literatura e religião, por uma consciência de que os sonhos falam sobre nós como realmente somos e não são simples confusões elaboradas de decepção – o modo como a psicoterapia emergiu , como sendo um negócio relacional, a dois e não como um especialista interpretando a vida interior da outra pessoa em termos de uma teoria pré-existente. Todos esses acontecimentos extremamente importantes na psicanálise foram inicialmente introduzidos dentro da escola junguiana de psicologia analítica. Seria errado terminar essa introdução com um comentário otimista a respeito da reputação de Jung. Tenho ressaltado ,entre os analistas junguianos, que nós pagamos pelo anti-semitismo de Jung dos anos 30 ao admiti-lo e ao nos desculparmos por ele, e a comunidade junguiana como um todo está ativamente tentando consertar as partes das teorias que estão mal orientadas ou claramente erradas. Jung sempre se defendeu da acusação de que suas idéias condiziam com a ideologia nazista, embora para alguns sua expressão de lamento parecesse inadequada e falsa. Jung era um homem ambicioso (assim como Freud ) e viu a oportunidade de se tornar o principal psicólogo da Europa Central nos anos 30. Também era uma pessoa intuitiva . Embora seus escritos sobre o que ele chamava de “psicologia judaica” ( ou seja, psicanálise) sejam profundamente problemáticos, há partes que merecem uma pausa para reflexão. Como exemplo, o protesto de Jung à imposição de um sistema psicológico em todas as pessoas antecipa, hoje, a idéia de terapeutas e psicólogos interculturais e transculturais, que assumem que tal sistema universal fora de um contexto social particular , não pode existir. Isto não significa uma perspectiva altamente relevante para o Brasil de hoje? Além disso, os devaneios de Jung de que as posses de terra dos judeus – muito longe da experiência histórica de eles serem desapropriados – afetaria o funcionamento psicológico do grupo, contribui para o nosso entendimento sobre um outro tópico político importante: como uma nação pode concordar com as posses de uns e a desapropriação de outros é também um tema central sobre a psique nacional brasileira. |