|
|
|
INTRODUÇÃO |
Desde a morte de C. G. Jung, em 1961, verificou-se um crescente interesse pela psicologia analítica e pelo trabalho daqueles que a praticaram e desenvolveram. Contudo, a terminologia junguiana é pouco familiar a muitos leitores e, por isso, muitos livros sobre psicologia analítica contêm glossários ou uma lista de definições dos termos empregados pelo próprio Jung. Mas esses glossários se utilizam das próprias palavras de Jung, extraídas das definições dadas no Volume 6 das Collected Works, de sua autobiografia (Memories, Dreams, Reflections, 1963) ou de escritos de Jung apresentados por um de seus seguidores (por exemplo, o volume comemorativo de Jaflé, C. G. Jung: World and Image, 1979). O mesmo acontece com, por exemplo, Jung: Selected Writtings, de Storr (1983, publicado nos Estados Unidos como The Essential Jung) e para a antologia intitulada Jungian Analysis organizada por M.Stein (1982). É razoável supor que os glossários baseados nas palavras exatas de Jung possam não desempenhar a tarefa de tradução e resumo necessária. Talvez não seja razoável esperar que aquilo que normalmente é um acréscimo a um livro com um tema específico preencha essa função pedagógica genérica. Pode-se também ter temido a ocorrência de mal-entendidos que uma breve explicação de termos com múltiplos significados pode ensejar. Os que desejam descobrir mais coisas sobre a linguagem da psicanálise são mais afortunados. Podem recorrer a The Language of Psychoanalyis, de Laplanche e Pontalis (1980), ou a A Critical Dictionary of Psychoanalysis, de Rycroft (1972). Estas duas obras serviram de inspiração para o presente dicionário – a primeira por sua perspectiva enciclopédica, acadêmica e histórica, e a segunda por sua mescla de inspiração e responsabilidade. A psicologia analítica não se manteve estacionária desde a morte de Jung, e percebeu-se que era importante que este dicionário mostrasse como os autores pós-junguianos adaptaram, retificaram ou questionaram os conceitos de Jung. Também se julgou desejável um certo grau de reconhecimento a objeções provindas da psicanálise e paralelismos traçados com ela. Daí o qualificativo “crítico”. Em muitos aspectos, o dicionário reflete uma tendência mundial em que um enfoque sobre Jung se está deslocando de seus interesses esotéricos para aqueles que informam uma psicologia humana e justificam, de modo geral, um esforço terapêutico. Em todas as profissões de ajuda, a postura clínica da psicologia analítica está se fortalecendo. Houve um enorme crescimento do numero de terapeutas de orientação junguiana e está se dando bem mais atenção acadêmica à obra de Jung do que antes. Por exemplo, na Grã-Bretanha a tendência é demonstrada pelo número de psicólogos junguianos designados como Consultores de Psiquiatria ou como Psicoterapeutas no Serviço Nacional de Saúde. O mesmo está acontecendo em outros países do Ocidente. Essa evolução e exemplificada pelo aumento do número de livros de Jung ou sobre ele, como provam as listas de livros indicados para leitura em cursos de treinamento. O número de programas didáticos ecléticos de psicoterapia e aconselhamento tem aumentado, e os estudantes de tais cursos necessitam de um livro como este dicionário. Psicanalistas em treinamento também exigem informações básicas, lado a lado com os estudantes de psicologia, serviço social, aconselhamento, religião e antropologia. Praticantes, qualificados, inclusive psiquiatras, irão, como se espera, achar alguma coisa no livro também para si próprios. Os autores estão interessados em possibilitar aos estudantes e aos que lêem Jung por motivos particulares recorrem a um acurado livro de referência que resuma e explique termos difíceis. Quais são as dificuldades na compreensão, associadas com Jung? Jung era um pensador empírico e, às vezes, sua deliberada abstenção de uma lógica precisa acarreta confusão no leitor. De fato, o desenvolvimento intelectual de Jung baseava-se em discernimentos intuitivos e experimentais, muitas vezes expressos diferentemente em contextos diferentes. Às vezes, a obra escrita de Jung é melhor compreendida como um fluxo de imagens que necessitavam do uso extensivo da analogia. Decisivamente, Jung era a espécie de pensador que jamais abandonava uma coisa. Diversamente de Freud, ele não empreendeu revisões substanciais (e oficiais) de seu pensamento, preferindo usar formulações iniciais como trampolim para formulações posteriores. Quando Jung realmente a revisava seus livros e artigos, tal revisão freqüentemente assumia a forma de inserção de um material mais atualizado (por exemplo, CW 4, parágs. 693-744). Jung era um homem de ser tempo. Em alguns casos, isso significava que ele compartilhava da abordagem cultural e conceitual de sua época. Por exemplo, inclinava-se a organizar seu pensamento em pares de OPOSTOS, colocando-se em conflitos ou em harmonia de acordo com o contexto e capazes de produzir uma nova síntese. Essa metodologia hegeliana vem cada vez mais sendo considerada anacrônica. O paradigma hodierno é mais fluido, orientado para relações e retroalimentação, e preocupado com o processo. A denominação das forças e elementos hipotéticos, concebidos como componentes reais de uma estrutura, que era um modo do pensamento do fim do século XIX e principio do XX, também soa estranho para nós. Uma reificação (ou abstração substantiva) tal como a “ENERGIA” vem á mente como exemplo disso. Mais ainda, Jung tinha fortes antipatias pessoais. Acreditando, como costumava, na “equação pessoal” (a inevitável influência da personalidade sobre as idéias), sua própria experiência de vida muitas vezes fornecia a matéria-prima para suas formulações teóricas. Embora o visse como “empírico”, sua contribuição pessoal às vezes o levava a assumir posições bem extremas (sobre o papel do sexo, por exemplo). Houve problemas eventuais de tradução que tornaram difícil a compreensão. Estes são mencionados no dicionário, quando relevantes. Aqui parece que existe menos problemas do que na psicanálise, talvez devido ao domínio perfeito e idiomático de Jung da língua inglesa. Uma tradição oral de explicação, por Jung, de suas idéias em inglês estava à disposição do tradutor das Collected Works, além de algumas conferencias e artigos pronunciados e/ou escritos em inglês. Cada definição principal inclui diversos aspectos, e referencias cruzadas são indicadas por tipo especial. Os aspectos são: o significado ou os significados de um termo; sua origem e lugar no pensamento de Jung; diferença entre psicologia analítica e psicanálise quando os mesmo termos ou termos semelhantes são usados; mudanças no uso do termo no campo da psicologia analítica; comentário crítico, onde necessário; citações e referências. As referências bibliográficas estão reunidas no fim do livro. Salvo quando assinaladas de outra forma, as referências aos escritos de Jung são relativas às suas Collected Works, publicadas por Routledge & Kegan Paul, Londres, e Princeton University Press. As referências são dadas de acordo com número do volume e do parágrafo. Quando não fica claro pelo contexto, os autores procuraram remeter à orientação de escritores cujos campo de interesse não seja mencionado é um psicólogo junguiano. Pode ajudar dizer alguma coisa sobre o que foi excluído do objetivo deste livro. Os autores, desde que possível, restringiram-se à disciplina da psicologia analítica e a palavras com implicações psicológicas. De modo similar, não procuraram abranger a terminologia básica da psicodinâmica ou da psicanálise. Conforme mencionado anteriormente, diversos termos psicanalíticos estão incluídos: onde existe uma superposição com a psicologia analítica, se uma divergência particularmente séria, possivelmente de importância histórica, ocorrer, ou quando uma comparação pode se demonstrar útil para o leitor. O dicionário inclui: Outro modo de o leitor orientar-se é o seguinte. Alguns verbetes descrevem o etos ou a ideologia de Jung (por exemplo, MÉTODOS REDUTIVO E SINTÉTICO). Outros lidam com temas que são básicos na psicologia analítica (por exemplo, INCESTO). E outros abarcam importantes idéias teóricas de Jung (por exemplo, ARQUÉTIPO). Finalmente, termos técnicos são definidos especificamente (por exemplo, PERSONA). Dever-se-ia recordar que a psicologia analítica, como a psicanálise, constitui um tecido feito com três fios principais: uma investigação e exploração da vida inconsciente, um corpo de conhecimento teórico e um método de tratamento. Toda disciplina produz sua própria terminologia e a psicologia profunda não é uma exceção. A esperança é que, explicando-se os significados aprisionados no jargão, a terminologia ganhará vida. Isso porque palavras e idéias são vivas; crescem, decaem, mudam. Unem pessoas e provocam cisma. Falam em favor da psique e podem causar dano á psique. Foram as experiências comuns e contrastantes dos autores como analistas, professores e escritores que os levaram a elaborar este livro. Pois a própria luta deles com a palavra escrita de Jung desempenhou um papel para motivá-los. Assim, sob a superfície de um serio empreendimento didático, jaz um substrato de empatia com aqueles que estão lutando por adquirir compreensão. |