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O si-mesmo: uma visão políticaCarlos BernardiOnde estavam, Jung pergunta, as questões que hoje constituem a matéria prima da prática analítica, antes dela surgir oficialmente em nossa cultura? Ou somos ingênuos a ponto de pensarmos que o psiquismo, seus desejos, seus sofrimentos, constituem algo moderno e contemporâneo? Obviamente os valores, os significados, as manifestações modificaram-se ao longo do tempo, no decorrer da história, mas o psiquismo, ou algo que nele podemos encontrar, permanece como um potencial de vivências que estruturam a espécie humana, tanto biológica quanto espiritualmente. Portanto, onde estavam estas questões? Em todos os lugares, em todas as instituições culturais que, em sua diversidade, dá sentido àquilo que chamamos de existência humana. Se for preciso destacar uma dessas instituições, a escolhida será as religiões, com seus ritos e seus mitos. Elas compartilham com a psicologia um objeto ou interesse comum: a alma humana, embora, na psicologia, ela, a alma, esteja esvaziada de suas tonalidades metafísicas pelo cientificismo da nomenclatura psicológica. Mas a alma é a mesma, embora perdendo, lamentavelmente para Jung, muito de sua força expressiva. Dentre as várias manifestações da fenomenologia psíquica, aquela que Jung mais aproxima da experiência religiosa é a do arquétipo do si-mesmo. Em seu livro Aion, dedicado ao estudo desse arquétipo, uma proximidade com o discurso religioso está sempre presente. Por isso não hesita em escrever:
Quanto ao si-mesmo, ele está completamente fora da esfera pessoal, aparece somente como um mitologema religioso, e seus símbolos extendem-se do mais elevado ao mais baixo. (Jung, Aion, para. 57).
Apesar de toda está proximidade, desejo pensar o si-mesmo através de uma outra perspectiva, a política. De qualquer maneira, uma separação radical entre o religioso e o político seja algo difícil de realizar, visto que ambos lidam com um aspecto essencial da existência, que é a dimensão ética, com toda sua discussão em torno do bem e do mal. O conceito de si-mesmo estabelecido por Jung coloca um sério problema sobre a noção tradicional de identidade, problematizando-a ou desconstruindo-a de maneira profunda e inovadora. O que Jung entende por si-mesmo (selbst)? Para responder esta pergunta é necessária uma série de advertências que têm por objetivo estabelecer com precisão o sentido deste conceito dentro da arquitetura de sua teoria. Em primeiro lugar temos o aspecto lingüístico. Dependendo do contexto, eu (ich) e si-mesmo (selbst) podem ser utilizados de forma intercambiável. Em Jung o eu e o si-mesmo são instâncias absolutamente diferentes e esta diferença é insuperável, até mesmo estrutural, no sentido que ela é dada com o próprio psiquismo. Em Mysterium Coniunctionis deixa isto claro.
O si-mesmo, que gostaria de realizar-se, estende-se para todos os.lados, ultrapassando a personalidade do eu; de acordo com sua natureza abrangente ele é ora mais claro ora mais escuro do que esta e assim coloca o eu a tal ponto diante de problemas, dos quais ele bem que gostaria de esquivar-se. Fracassa ou a coragem moral ou a compreensão, ou as duas ao mesmo tempo, até que o destino finalmente acabe por decidir a sorte. Jamais faltam ao eu razões opostas, de natureza moral e racional, que nem se pode nem se deve pôr de lado enquanto elas ainda servem de apoio. Pois somente então alguém se sentirá em um caminho seguro quando a colisão de deveres se resolver como que por si mesmo, e esse alguém se tiver tornado vítima de uma decisão, que foi tomada independentemente de nossa cabeça ou de nosso coração. Nisto se manifesta a força numinosa do si-mesmo, que dificilmente poderia ser experimentada de outra maneira. Por isso a vivência do si-mesmo significa uma derrota do eu (Jung, Mysterium Coniunctionis, para. 433; os itálicos são de Jung).
Além desse aspecto desafiante do eu, colocando-o sempre em questão, o si-mesmo é caracteriza-se por ser o representante psíquico do valor objetivo da totalidade, isto é, nele encontra-se tudo que expressa a plenitude das possibilidades inumanas no processo de individuação, como diz James Hillman.
O processo de individuação ou o trabalho do fazer-alma é a longa obra terapêutica de erguer a repressão dos aspectos inumanos da natureza humana. (Hillman, Re-visioning Psychology, pág. 188).
Gostaria de aproximar este inumano de que nos fala James Hillman do inumano de Jean-François Lyotard. O inumano pode ter dois aspectos. Por um lado, devido ao impulso contemporâneo para produção e eficiência o homem é reduzido a um produto clínico. Neste sentido o inumano é a destruição dos potenciais criativos que nos atravessam. Por outro lado, Lyotard se refere a uma outra manifestação do inumano que diz respeito ao potencial de sermos tomados por surpreendentes e entranhas possibilidades que não podem ser preditas nem dominadas por qualquer sistema racional, como se fossemos assombrados por um convidado desconhecido (Lyotard, , The inhuman, pág. 85). Este outro inumano está constantemente excedendo qualquer projeto de sistematização introduzindo desejos, imagens e fantasias. O primeiro inumano pode ser pensado como o sistema egóico especialmente em seu estado neurótico de unilateralidade; já a segunda manifestação do inumano pode ser pensada como produto das manifestações compensatórias do arquétipo do si-mesmo, nosso “convidado” interior. Isto reintroduz a questão da identidade. Paul Ricoeur em seu livro Soi-même comme un autre, traduzido para o português como O Si-mesmo como um outro, chama a atenção para três intenções filosóficas que o influenciaram na preparação do livro: 1. A primazia da meditação reflexiva sobre o posicionamento imediato do sujeito; 2. A distinção de dois significados de identidade, dependendo se por idêntico entendemos os termos latinos ipse ou idem; 3. A ipse-identidade envolve uma dialética complementar da mesmice, ou seja, a dialética do si-mesmo e o outro do que o si-mesmo. Para Ricoeur a idem-identidade se caracteriza por uma permanência no tempo, uma ênfase no cogito e na primeira pessoa. Já a ipse-identidade não implica um núcleo imutável da personalidade, mas envolve ou implica o tempo todo um sentido de alteridade. A ipse-identidade é essencialmente uma atividade reflexiva. Enquanto a idem-identidade é a pura afirmação do eu. Estas três intenções filosóficas habitam a conceituação junguiana do arquétipo do si-mesmo. Além do mais, neste dialogismo entre Ricoeur e Jung, as reflexões do primeiro impedem que Jung seja lido ou entendido através de uma ótica essencialista, como se tivéssemos, inscrito em nossa estrutura psíquica, aquilo que somos ou deveríamos ser caso nosso caminho não tivesse sido atravessado por alguma coisa que nos obrigou a fazer desvios. O procedimento psicoterápico viria para nos resgatar e nos recolocar no caminho correto que os fatos da história nos fizeram perder. Não é assim que Jung pensa, ou, não é assim que leio o pensamento de Jung. Só existimos na história. Conseqüentemente, os acontecimentos são fundamentais para a constituição da nossa identidade e de nosso percurso no mundo. Quando Jung escreve que o si-mesmo é aquilo que realmente somos ele está dizendo que aquilo que achamos que somos, nossa identidade egóica (idem-identidade), não é o que realmente somos. O ego é um recorte, uma parte de uma totalidade de possibilidades, que podem simplesmente serem colocadas de lado, como estamos vendo. A realização do si-mesmo tem lugar quando o ego se coloca a refletir sobre sua posição em relação a todos os outros. Esta totalidade é o si-mesmo. Jung, no entanto, afirma o tempo todo que esta totalidade não é totalizável. Por isso acho importante a crítica de Emmanuel Lévinas do conceito de totalidade. Em vez dela busca pensar a relação com o Outro através da perspectiva do infinito, este sim, nunca totalizável. O si-mesmo, portanto, é a experiência que aponta para uma coletividade onde todos possuem direito de expressão. Daí o caráter desconstrutor do inconsciente, abalando as certezas do ego. Este, enquanto responsável pela fabricação e manutenção de um estado neurótico, percebe as manifestações desse Outro, o si-mesmo, como ameaçadoras, tentando subjugar quaisquer expressões que não lhe sejam do agrado. O corpo psíquico (corpo+psique) é sempre um campo de batalha político. O si-mesmo, como a estrutura responsável pela congregação de todos os aspectos psíquicos, é também o responsável pelo estabelecimento de um estado democrático radical no interior desse corpo psíquico. Derrida percebeu isso muito bem. Por isso, em Estados-da-alma da psicanálise escreve:
Ousar-se-ia dizer que o que deveria acontecer de certa maneira, a cada sessão de análise, seria uma espécie de micro-Revolução precedida de uma música de câmara dos Estados Gerais dando voz a todas as instâncias e a todos os estados do corpo social ou do corpo psíquico. Isso deveria recomeçar toda vez que um paciente se põe no divã ou, como o que se faz mais e mais atualmente, na análise face a face. O analisando dispararia, então, uma revolução, talvez a primeira revolução que conta, abriria virtualmente seus Estados Gerais e dar-se-ia livremente a palavra a todos as vozes, a todas as instâncias do corpo psíquico como corpo social múltiplo. Sem álibi. Após consignação de todas as queixas, lutos e agravos. Nesse sentido, e de direito, uma psicanálise deveria ser, de parte a parte, um processo revolucionário, a primeira revolução, talvez precedida por Estados Gerais. (DERRIDA, Jacques. Estados-da-alma da psicanálise, p. 37)
Hillman também se propôs pensar o si-mesmo a partir de categorias políticas. Em seu artigo Antropos phusei politikon zoon, frase de Aristóteles que enfatiza nossa natureza política, ele aponta o caráter neurótico do individualismo, com sua forte ênfase na subjetividade e seu descaso pelo mundo como lugar de construção e habitação anímica. Inicialmente Hillman ataca o próprio conceito de si-mesmo, visto por ele como um termo-divino enfeitiçante. As concepções mais freqüentes do si-mesmo, muitas vezes não necessitam de relações externas para serem pensadas. Hillman descarta estas concepções e propõe uma outra, esta de natureza política. “O self como interiorização da comunidade” (Hillman, Cidade e Alma, pág. 116). A experiência ou realização do si-mesmo, no processo de individuação, é a instituição destes Estados Gerais, na expressão de Derrida, ou esta interiorização da comunidade de que nos fala Hillman. Ela é o reconhecimento por parte do ego da infinitude do Outro no processo ético da relação com o seu Dizer, como Lévinas entende esta palavra. Diferentemente da moralidade, recorda Ricoeur, a ética caracteriza-se por "uma maneira optativa de viver bem" distinto de um "modo imperativo de obrigação" (Ricouer, One-self as Another, p. 330). A individuação, ou indivi-doação, como buscarei chamar esta experiência, como um processo consciente e responsável, é sempre esta opção, nunca uma obrigação. Neste caso, o ego continuará interpretando a expressão do Outro como um ato terrorista, como está na moda fazer, tentando reduzi-lo àquilo que eu gostaria de ouvir e não àquilo que ele tem a expressar. Somente com esta doação, muitas vezes difícil, muitas vezes impossível, que o processo de individoação será atravessado por um movimento de carícia, “um modo de ser do sujeito no qual o sujeito no contato com o outro vai além desse contato” (Levinas, Emmanuel. Time and the other, p. 89). Ou, seja, na carícia buscamos o outro que nunca está presente, numa espécie de virtualidade ou espectralidade, mas que sempre desejaremos encontrar e nos aproximar, criando um teatro sem hierarquias, em substituição ao teatro da crueldade que nos fala Artaud (CARVALHO, Luiz Fernando Medeiros de. Carícia como diferimento da crueldade. Cenas Derridianas, p. 97). Indivi-doação estará sempre hospedando um futuro que promete chegar, mas que, na verdade, adia eternamente sua chegada. É justamente este chegante que nunca chega que Jung denomina si-mesmo, e o que verdadeiramente importa, é o que eu faço enquanto espero ele chegar. A meta, insiste Jung, só é importante enquanto estímulo, nunca como ponto definido de chegada. Ego e si-mesmo, enquanto opostos, estão perpetuamente em movimento. Podemos falar em negociação, principalmente depois de Derrida ter resgatado a força da palavra através de sua etimologia, não-descanso. No processo de individoação não há estabelecimento de posições fixas. A neurose, em sua função prospectiva, abala o ego em seu desejo de dominação e apropriação por meio de um posicionamento unilateral, que não estabelece negociações éticas com o outro. Nos seminários sobre o Zaratustra de Nietzsche, Jung comenta que ”não podemos individuar sem outros seres humanos. Não podemos individuar no cume do Monte Evereste ou numa caverna onde não vemos ninguém durante 70 anos. Só podemos individuar com ou contra alguém ou alguma coisa” (Jung, Zaratustra, pág. 209). Com esta frase, demonstra que a tarefa é tanto interna quanto externa e que não posso me furtar a dar minha contribuição responsável a nenhum desafio e questionamento que a vida me apresenta. Dizer sim à vida, amar o destino, como propõe Nietzsche, no processo infinito de confrontá-lo, sem nenhum ponto de chegada, mas somente ceder ao desejo de ir ao encontro dos Outros, caracteriza a plenitude de um processo de individoação que deseja ser pensado como ético.
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