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| Perungaua Cristiane Brasileiro
No princípio ero o rio e o sol, e deles nasceu a primeira mulher. Ele encomendou a noite pra ser fecundada semente das sementes das sementes. Por isso aqueles peitos e coxas da madona bizantian revelada. Por isso sobre sua cabeça um cocar ou auréola ou sol portátil, por isso em torno dela aquelas flores giratórias do tempo eterno, as mandalas. Por isso está solta no ar, fincada na terra, madura de fogo. E nos olha muito plácida com seus faróis azuis nas auréolas dos seios, e na linha do ventre exibe a cicatriz de uma carreira de flores brancas. Por isso não exatamente segura as outras flores que apenas transpassam suas mãos como galhos entre outros galhos de uma árvore, como filetes de uma rio maior, ou uma cigarreira na luva de uma melindrosa, ou um terço escondido na mão de uma devota. Por isso essas flores têm boas bocas e bons falos e são chamados de copos-de-leite. Como num pesadelo com o corpo rijo e frágil de um travesti, um corpo moreno como swe fosse de barro, um corpo irreal como se fosse verdade, um corpo pleno como se fosse inventado. Por isso um sonho e uma revelação. Por isso escurece. Cesse tudo o que cantamos e o que calamos. Cessem os cansaços, os pudores, as vaidades mais cosméticas. O corpo emerge, eu vi. O corpo existe. Deve ter vindo do fundo das lendas, ou das tintas, ou da vontade irremediada. Tem dois olhos de cores diferentes, tem mil olhos que vão nos perseguir, de dentro dele algo nos vê. À sua volta cantaríamos em êxtase, por isso os anjos da sua escolta tocam trombetas. Seríamos solenes, solares, sagrados. Diante dos seus olhos de água e da nascente azul entre suas coxas. Teríamos sede. |