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Perdas e Danos: Interface Simbólica com o Mito de Perséfone
Mario José Silva Biscaia
A REFLEXÃO: "Não quero ter a
terrível limitação
O CINEMA: “ Tratar-se-ia de uma espécie
de sonho coletivo, de um sonho para fazer sonhar, ( Félix Guatari ).
O FILME: “Pessoas
sofridas são perigosas porque
INTRODUÇÃO: O Mito é um dos acessos à realidade arquetípica. Essa realidade, intuída através da emoção, torna-se subitamente clara no encontro com uma história. Nesse trabalho, será analisado o filme Perdas e Danos do diretor Louis Malle e a partir da personagem Ana, farei uma reflexão sobre o Mito de Perséfone e algumas considerações sobre as características da mulher tipo Perséfone. Entender o feminino, objeto de pesquisas da Antropologia, da Sociologia e da Psicologia contemporâneas é algo que pode ser questionado. Existe a Psique Feminina ? Embora não seja unânime, a resposta afirmativa é o ponto de partida para a identificação dos seus traços principais. Os estudos dos Mitos que envolvem as Deusas são de extrema importância no aprofundamento dessa pesquisa. Mircea Eliade lembra que é difícil encontrar uma definição de Mito que seja aceita por todos os eruditos e que ao mesmo tempo englobe todas as suas funções nas sociedades arcaicas e tradicionais.Para ele, o Mito é uma realidade extremamente complexa que pode ser abordada e interpretada sob perspectivas múltiplas e complementares. Eliade propõe a seguinte definição: “O Mito conta uma história sagrada; ele relata um acontecimento ocorrido no tempo primordial, o tempo fabuloso do princípio.” Devemos acentuar a importância da validação do Mito e seu papel no entendimento da psicopatologia simbólica, além de ser um recurso extremamente potente no aspecto terapêutico. Os Mitos não são histórias falsas; ao contrário refletem a camada mais profunda e perene do psiquismo humano. Porque a história de Deuses e Deusas ? Porque essa história é nossa antes de a termos conhecido. Porque entramos no Mito toda vez que em nosso cotidiano nos deparamos com o eterno. Os Mitos descrevem as diversas irrupções do sagrado no mundo. Primeiramente analisarei o simbolismo na linguagem cinematográfica,, depois uma reflexão sobre o Mito de Perséfone para finalmente entrar no estudo do filme Perdas e Danos., procurando destacar a importância do Mito, do cinema e do simbolismo como instrumento de aprofundamento diagnóstico e também de excelência como recurso terapêutico na pratica clínica. II) SIMBOLISMO E LINGUAGEM CINEMATOGRÁFICA: Como um novo amante das linguagens simbólicas, considero a mitologia e o estudo dos Arquétipos, alem dos símbolos as principais fontes que nos dão elementos para conhecer a nossa história passada, como pensavam e agiam nossos antepassados, como se deu a evolução da espécie e o que sustentou e ainda sustenta esse processo evolutivo. O estudo dessas linguagens nos permite ainda compreender o processo cognitivo e a evolução da psique humana. Para entender como o conteúdo simbólico está presente nas diferentes formas de comunicação humana, procurei estabelecer uma relação entre as linguagens simbólicas antigas, eternas , e a nossa realidade em termos de comunicação, já que percebemos a existência de uma essência comum entre esses dois campos de estudo. Não temos hoje contadores de histórias que reúnem os jovens em torno de si para difundir, e desta forma fixar, os valores tradicionais que manterão a vida evolutiva. Os valores nas sociedades pós-modernas são transmitidos através de diferentes canais de comunicação e a partir daí passam a ser transmitidos não só através do contato pais e filhos, alunos e professores, mas principalmente pelo cinema, televisão, teatro e mais recentemente pela internet, invenções que foram pouco a pouco tomando o lugar do contador de histórias. Esse assunto é extremamente abrangente e, por isto mesmo , vou me ater a discutir a simbologia dentro do campo do cinema, deixando de lado as demais formas de expressão. Para melhor compreender essa relação entre Mito e a Linguagem Cinematográfica recorro a Paul Diel: “À época do desabrochar das culturas agrárias, a psique humana evoluiu na direção a uma complexidade que se encontra muito longe do primitivismo animista e mesmo do alegorismo cósmico. A imaginação não é mais somente afetiva e divagadora, mas também expressiva e simbolizadora; torna-se capaz de criar símbolos, ou seja, imagens de significação precisa, tendo por objetivo exprimir o destino do homem.” No cinema, a linguagem utilizada ultrapassa as fronteiras da oralidade, já que recorre à imagem. Analisando a comunicação no cinema, constatamos que a narração no filme tem uma linguagem própria, onde a imagem, a música, os ruídos, o silêncio, o primeiríssimo plano, ou o plano distante, efeitos de luz, enquadramento, o uso das cores, as seqüências e a montagem, tem um papel essencial na formação do objeto de observação. O filme é portanto uma forma narrativa que tem um início e um fim e cuja história é apresentada em imagens dinâmicas que se mostram como seqüências temporais na vida dos personagens, ainda que não seja o tempo real mas o imaginado. O espectador percebe que o espaço e o tempo que o filme apresenta não é o mesmo no qual ele vive mas que existe uma conexão entre eles, pois quem assiste participa também do que está vendo. Essas participações provem de nós mesmos, das projeções e identificações misturadas à nossa percepção do filme. Esse é grande poder transformador do cinema na medida que estabelece um dialogo entre conteúdos imaginários que se encontram, ainda que inconscientes, no imaginário coletivo. Este é permeado por Mitos e Símbolos que são plenamente compreendidos pois fazem parte da psique de todos os homens. A obra cinematográfica é assim considerada como tendo seu próprio código significativo, que faz parte de um código maior e de caráter universal, e que por isso pode ser vista por diferentes grupos sociais em outros meios culturais e ser apreendida. Quanto mais universal e arquetípica for à mensagem, maior será a possibilidade de ser compreendida. De qualquer forma, há uma intencionalidade de passá-la de modo verdadeiro e não apenas verossímil. Assim o filme, mais do que qualquer outro meio de comunicação, tem hoje uma função de catalisar e promover diálogos, ainda que imaginários, sobre nossa própria vida. III) O MITO DE PERSÉFONE. Relato do Mito: A história aqui narrada é um resumo do Hino a Deméter, atribuído a Homero. É a fonte mais antiga e rica em detalhes do mito das duas deusas. Naquele dia, Deméter, deusa do grão e da colheita, cuidando de cobrir a terra de verdura, flores e frutos, não estava junto à filha, a linda Perséfone, também chamada Core. A jovem brincava com as ninfas no campo de Nísia; teciam coroas e guirlandas "misturando violetas e íris, rosas, jacintos e lírios". Atraída pelo perfume do narciso "de cem ramos", Core afasta-se das companheiras e debruça- se para colher um botão que floria na borda de um penhasco. Nesse momento a terra se abre e surge da fenda o deus da morte e do mundo subterrâneo, Hades, que a carrega, apesar de seus gritos, em seu carro puxado por "imortais cavalos", para Hades, seu reino. Perséfone grita pedindo a Zeus que a salve, sem suspeitar que o rapto tinha sido tramado pelo filho de Cronos com seu irmão, o senhor de Hades. Do fundo de sua gruta, Hécate, deusa da sombra e da tênue luz da lua, nada vê, mas ouve o grito de Core. Distante, "através dos picos das montanhas e das profundezas do mar", Deméter também o ouve. Durante nove dias sem comer nem se lavar, carregando tochas, ela procura a filha. Na aurora do décimo dia, Hécate vem a seu encontro e diz à deusa inconsolável que sabia que sua filha tinha sido raptada mas não sabia por quem. Juntas, vão perguntar ao Sol, o deus Hélio, que tudo vê no seu curso pelo céu. 0 deus resplandecente conta que Perséfone tinha sido dada por Zeus a Hades para ser sua esposa e rainha do reino dos mortos, e volta para as alturas no seu carro de luz, deixando imersa em escuro desespero a deusa Deméter. Desfigurada pela dor e vestida em andrajos, ela dirige-se, então, para as cidades dos homens. Uma tarde, tendo chegado ao reino de Elêusis, ela se senta à beira de uma fonte chamada Fonte das Donzelas, à sombra de uma oliveira. As filhas do rei vêm apanhar água e aproximam-se de Deméter. Quando esta lhes diz que busca trabalho como ama, as jovens levam- na a seus pais. Coberta com escuro manto, a deusa entra no palácio onde a recebem com respeito. Recusa o vinho que lhe é oferecido mas aceita uma bebida feita com cevada e água. A rainha entrega-lhe seu filho recém-nascido. Deméter, que o recebe "em seu colo perfumado", começa a dar-lhe cuidados para que ele cresça "como se fora o filho de um deus": unta-o com ambrosia e à noite, secretamente, coloca-o sobre chamas para que ele se torne imortal. Uma noite, a rainha, insone e "com pensamentos tolos”, deixa seu "quarto perfumado" e vai ver o filho entregue à ama. Surpreende-a segurando a criança sobre o fogo e solta um grito apavorado. Com isso impede que o filho se torne imortal. "Ondas de terrível ira" atravessam a deusa que, dando-se a conhecer, repreende a mãe por ter privado o filho da imortalidade. Revelada a presença da deusa, os reis e o povo de Elêusis erigem-lhe magnífico templo. Para dentro dele Deméter se retira e entrega-se à saudade da filha. A dor cresce em seu peito; seu luto e desespero começam a transbordar trazendo destruição sobre a terra. Naquele ano terrível nenhuma semente brotou; a humanidade teria perecido pela fome e os deuses estariam para sempre privados das oferendas e sacrifícios dos homens se Zeus "não tivesse percebido isso e ponderado em sua mente". A deusa Íris é a primeira mensageira que vem implorar a Deméter que aceite o convite para vir ao Olimpo receber grandes honras e que devolva a fertilidade aos campos dos homens. Deméter, inabalável em sua vingança, recusa-se a atender a Íris e a todos os deuses que vêm, um por um, suplicar que retire seu castigo. Declara que nenhuma semente brotará enquanto não lhe for devolvida Perséfone. Finalmente, Zeus envia Hermes ao Hades para pedir ao senhor dos mortos que concorde em ceder a esposa à sua mãe. Hades dá seu consentimento; Core, exultante, prepara-se para partir. Na despedida, o marido pede- lhe que coma com ele alguns gomos de romã. Depois de compartilharem a fruta, Perséfone salta no carro dourado de Hermes: e "puxados por cavalos de longas asas" atravessam os mares, os picos das montanhas, e chegam ao bosque perto do templo. Mãe e filha correm em direção uma a outra e abraçam-se numa alegria sem limites. Subitamente, Deméter sus peita de um embuste e pergunta à filha se tinha comido alguma coisa enquanto estava no mundo subterrâneo. Perséfone lembra-se de ter partilhado a romã com o marido, e sua mãe sabe então que só a terá de volta por dois terços do ano. Um terço a filha terá que passar com Hades no reino dos mortos. Por isso durante uma terça parte do ano tudo seca e morre na natureza. E todos os anos, quando Core volta, tudo volta a brotar. Sua volta traz a primavera - sua mãe cobre a terra de flores. Depois de um dia de muitos abraços e de contarem uma a outra tudo o que lhes tinha acontecido, na alegria de estarem novamente juntas, Deméter chamou os governantes da cidade e os instruiu na celebração de um ritual. Os Mistérios de Elêusis foram fundados para que a cada ano se repetisse aquele encontro entre Deméter e Perséfone. Então, as duas deusas partiram para o Olimpo e aí estão juntas, na companhia dos deuses. O Arquétipo de Perséfone: Ao contrário de Hera e Deméter, que representam padrões arquetípicos ligados a fortes sentimentos instintivos, Perséfone como padrão de personalidade não parece tão sobrepujante. Se Perséfone proporciona a estrutura da personalidade, ela predispõe a mulher não a agir, mas a ser conduzida pelos outros, a ser complacente na ação e passiva na atitude. Perséfone, a jovem, também permite à mulher parecer eternamente jovem. A Deusa Perséfone tinha dois aspectos, o de jovem e o de rainha do Inferno.Essa dualidade também está presente como dois padrões arquetípicos. As mulheres podem ser influenciadas por um dos dois aspectos, podem crescer de um para outro, ou podem ter igualmente a jovem e a rainha presente em suas psiques. C) A Mulher Perséfone: As mulheres do tipo Perséfone são de pouco agir, são conduzidas pelos outros, não sabem o que querem ou para onde vão. Se Atenas é a filha do pai, Perséfone é a filha da mãe. Quando esse complexo de identificação com a mãe ocorre, a filha fica cada vez mais presa a essa relação e só poderá sair dela se encontrar um homem que realmente a arranque dos braços maternos. Fazem de tudo para agradar a mãe, são as boas meninas obedientes, cautelosas, recatadas, passivas e dependentes. Possuem fortes tendências para a mentira e manipulação (para evitar o confronto ou a raiva do outro), como também para o narcisismo. Elas fazem de tudo para se adaptarem, posteriormente, aos desejos de um homem, são uma tela em branco que o homem pinta como quer. A receptividade inata da mulher tipo Perséfone a torna muito maleável. Se as pessoas significativas projetam uma imagem ou expectativa nela, ela inicialmente não resiste. É seu padrão camaleão “provar” o que quer que os outros esperem dela. É essa qualidade que a predispõe a ser “mulher anima”; ela inconscientemente se adapta aquilo que um homem quer que ela seja. Os homens que as escolhem são inexperientes, malandros e os que não se sentem confortáveis com mulheres maduras. Parecem não ter uma personalidade própria. São do tipo mulher-criança combinando forte poder de atratividade e ingenuidade (na mídia temos exemplos típicos como a Angélica e a Sandy). Muitas vezes, sua sexualidade está adormecida, há falta de paixão, de emoção, parecem esperar pelo "príncipe encantado" que virá acordá-las, ou são sexualmente não responsivas que se sentem estupradas ou submissas quando fazem amor. O casamento pode livrá-las do jugo da mãe ou deixá-las num conflito entre a mãe e o marido, repetindo-se o mito. Não se sentirão como autênticas mães ao terem os filhos, pois sempre haverá a intromissão da mãe possessiva. As mulheres Perséfone são joviais e até mesmo infantis. Muitas vezes são incapazes de fazerem as coisas mais simples, como comprar roupas, sozinhas, e, preferem a opinião e supervisão da mãe, que também escolhe amigos, o que fazer, pelo que se interessar, ler ou ouvir. Enquanto profissionais, não são dedicadas; mudam constantemente de emprego pois vivem procurando algo que lhes agrade. Mas se elas estiverem identificadas com o aspecto da rainha do Inferno, serão muito competentes, principalmente no campo psicológico ou espiritual por saberem sintonizar-se com o mundo do inconsciente. Perséfone,a rainha e guia do Inferno, representa a habilidade de movimentar-se de um lado para outro, entre a realidade do mundo “real” baseada no ego e o inconsciente ou realidade arquetípica da psique. Quando esse arquétipo está ativo, é possível para a mulher meditar entre os dois níveis e integrar ambos em sua personalidade. Pode também servir como guia para os outros que “visitam” o Inferno em seus sonhos e fantasias, ou pode ajudar aqueles que foram “raptados” e perderam a ligação com a realidade. Em resumo, os papéis que mais assume são os da eterna jovem, da eterna filha, da mulher anima, da mulher criança (inconsciente da sua atratividade sexual) , de guia para o Inferno e do símbolo de frescor (ligado à primavera). É uma figura complexa, sensível e frágil em sua estrutura de ego. É alguém que temos vontade de carregar no colo, mas que, ao estar profundamente ferida, pode provocar uma grande destruição ao seu redor, enquanto se recolhe orgulhosa para os recônditos do seu mundo interior. É o que refletiremos a partir da analise do filme Perdas e Danos. IV) FILME PERDAS E DANOS. A) Sinopse: Perdas e Danos (Damage), é um grande filme, mesmo tratando de um tema freqüente como infidelidade, pois mesmo aparentemente clichê, a trama é maturada e muito bem desenvolvida em sua crítica. Levanta questões polêmicas, tais como suicídio, segredos e maldições familiares, poder e política, criando ao mesmo tempo um filme que mostra a realidade nua e crua da vida permeada por mistérios profundos da alma humana. Certamente poderia fazer parte da obra do nosso excelente dramaturgo Nelson Rodrigues. Foi realizado no ano de 1992, tendo na direção e produção o cineasta Louis Malle e um grande elenco com: Jeremy Irons, Juliette Binoche, Miranda Richardson, Rupert Graves, Leslie Caron, Ian Bannem, Roger Llewellyn. Na vida política, Stephen Fleming (Jeremy Irons) se alinha com os conservadores. Na vida pessoal também, como chefe de uma típica família burguesa, bem casado com Ingrid (Miranda Richardson) e pai de um casal de filhos. Na verdade, a vida pessoal de Fleming tem um lado secreto, é o amor de Anna Barton (Juliette Binoche), uma mulher estranha e misteriosa que está namorando seu filho Martyn (Rupert Graves). Fleming se envolve em diversas mentiras e manipulações para passar algumas horas com a amante. A paixão, principalmente da parte de Fleming o torna cego para as conseqüências dos seus atos. Um dia, Martyn anuncia o casamento com Anna. Stephen procura romper com a amante, mas é surpreendido por um convidativo presente. A adaptação do romance de Josephine Hart ficou por conta de David Hare, que fez um belo trabalho com toda trama e explora a expressividade de cada um dos personagens. A família de Fleming é muito bem exposta, além de mostrar as intrigas sofridas por Anna. O tema infidelidade é tratado com maturidade, criticando a hipocrisia em que Stephen vive, pois é um conservador pela frente e por trás se entrega a uma paixão sem limites ou pudores, e mesmo assim, continua levando a vida em família, aparentemente feliz e sem culpas aparentes. Esse foi o penúltimo filme do diretor francês Louis Malle, que morreu em 1995. Nesse filme ele mostra todo o seu talento, não usa estereótipos para criar a amante e muito menos o marido infiel, mostrando o lado humano de cada um dos personagens, e no final, temos o resultado genial de um grande cineasta que foi Malle. No elenco, temos o Jeremy Irons, que dá um show de interpretação, porem quem rouba a cena é a bela francesa Juliette Binoche que tem uma atuação intrigante, conseguindo circular bem entre o papel da menina desprotegida e a mulher sofrida pela tragédia familiar, que continua repetindo atitudes que a levarão a conseqüências imprevisíveis e danosas às pessoas que mais ama. Através da força do seu olhar, Binoche consegue passar toda a sua dualidade, entre o bem e o mal, embora demonstre um certo desespero no enfrentamento dessas questões. Perdas e Danos é um filme sensacional, que mostra um exemplo da hipocrisia familiar, além de levantar temas polêmicos como infidelidade, suicídio e relacionamentos afetivos conflitantes. Frases como: “Pessoas feridas são mais perigosas, pois sabem que podem sobreviver” nos fazem pensar e refletir sobre os paradoxos da existência humana . É, com certeza, um filme imperdível. O Filme e os Mitos: Stephen representa o arquétipo do homem poderoso e racional cuja ação é toda baseada no logos, na razão. Ele é um político, com um cargo importante no governo inglês, tido como um estrategista brilhante, sendo sua família vista como modelo de normalidade. Representa, portanto, o arquétipo do senhor do Olimpo, Zeus, cujo âmbito é o céu e a terra e cujo atributo é a racionalidade. Ao se apaixonar por Anna e desenvolver por ela uma paixão violenta e incestuosa, não consegue controlar a avalanche de sentimentos contraditórios que o assola. Acaba incorporando o arquétipo oposto, o de Hades, o irmão sombrio de Zeus. Mitologicamente Hades é o futuro esposo de Perséfone: o senhor do mundo avernal, do mundo instintivo e do mundo dos mortos. Para Stephen é mais que o desejo de união sexual é o desejo da união, da busca interna, da mescla do seu masculino com o seu feminino. A sua relação com Anna mescla paixão, violência, traição, até o desfecho final. A tragédia, a morte do filho, provocará nele uma transformação pessoal, fazendo com que se isole e reformule todos os seus valores. Anna, jovem de aparência frágil e meiga, noiva de Martyn, trabalha num antiquário, que é um ambiente ideal para uma pessoa que cultua o passado. Sua personagem a mostra como a virgem intocada, reservada, vestindo-se sempre de preto, com um olhar perdido como se nada que estivesse presente realmente a interessasse. É ligada ao passado, onde guarda um segredo, que não é revelado de imediato e com o qual joga o tempo todo. Esconde de todos a tragédia que viveu na adolescência e que a marcou para sempre: o amor incestuoso do irmão que acabou se matando quando ela o preteriu por outro. No triângulo amoroso, ela é a personagem que fica presa a um fato do passado familiar, onde a mãe tem um papel fundamental e a filha representa o papel da jovem Perséfone que, não conseguindo se desvencilhar do mundo materno, desenvolve uma passividade e uma indiferença em relação ao mundo real. Segundo Jennifer Woolger; “as coisas simplesmente lhe acontecem e, todavia, num exame mais atento, ela aparece estranhamente atraída por esse tipo de coisas, como se fosse de fato o seu destino. Somos levados a suspeitar que a mulher Perséfone tem uma ligação secreta com uma questão profundamente humana e intratável: a miséria e desgraça da vítima inocente”.Ela demonstra frieza, indiferença e passividade diante da morte do noivo, como já demonstrara na morte do irmão. Existe nela uma irresponsabilidade doentia e uma automação instintiva que a leva a ferir os outros assim como é ferida. Anna nesse contexto, vive um estado de banalização vulgar, onde não existem nem conflitos intrapsíquicos nem o combate contra qualquer manifestação banal. Ela, como a jovem que não cresceu, permanece egoísta, pensando somente em si. Sua atitude a coloca sempre na posição de vítima de um destino que não escolheu, mas simplesmente lhe foi imputado. Anna, dentro do padrão Perséfone, não consegue ter o encontro genuíno com Hades, que poderia provocar a morte do seu ego, da sua inocência, e com isso destruir o orgulho e levá-la a uma conscientização de si própria. Anna, também apresenta um padrão Afrodite ativado dentro do seu aspecto central de mulher Perséfone: Afrodite é a Grande Sedutora. Ela é absolutamente livre e só faz o que quer pelo simples prazer de satisfazer-se. Ama pelo prazer de amar... Não quer compromisso, não deseja se prender a ninguém e nem mesmo prender alguém a si. Ela gosta é da conquista, da aventura, da novidade. Ela é a fêmea sedutora e sem limites.Core também é um aspecto Donzela da Deusa, mas ela tem um compromisso. Afrodite, ao contrário, se impõe pela conquista: ela seduz para se satisfazer e depois parte. Não olha para trás e não se preocupa com o destino do seduzido. Para finalizar, gostaria de destacar que tanto a beleza do filme Perdas e Danos quanto à riqueza que o estudo dos arquétipos e das Deusas acrescentam a nossa prática clínica, que o aprofundamento do estudo das demais personagens femininas, nos levariam a novos caminhos de significantes e significados. Por exemplo: Ingrid, esposa de Stephen, seria analisada como padrão Hera. Woolger fala que para o casamento da mulher tipo Hera “ter um mínimo de chance de dar certo, ela sabe que precisa ser capaz de exigir do parceiro o mais absoluto respeito por ela enquanto pessoa adulta, madura, de plena posse de todo o poder e toda dignidade como mulher- não como criança objeto amoroso ou clone feminino dos ideais masculinos”. É esta confiança que Stephen quebra ao se apaixonar por Anna e relegá-la ao segundo plano. V) CONSIDERAÇÕES FINAIS. A complexidade e a beleza do Mito de Perséfone associado à linguagem cinematográfica, como recurso a ser utilizado nas psicoterapias, ampliam muito as possibilidades terapêuticas. A ativação de um arquétipo através da linguagem simbólica, tanto na narrativa de um conto ou mito, como na indicação de um filme a ser debatido nas sessões de psicoterapia, são instrumentos fundamentais que venho utilizando, com sucesso, na minha pratica clínica. Como considerações finais desse trabalho, gostaria de trazer alguns pontos não abordados sobre Perséfone, além de pesquisar quais as patologias mentais que estão associadas ao simbolismo desse Mito. Perséfone é a personificação do Ciclo das Estações : ela passava quatro meses no Submundo, quatro no Olimpo e quatro na Terra (com sua mãe). Vale lembrar que os gregos só tinham essas três estações. Portanto, fico com a opinião um tanto inaceitável que um “rapto” tenha sido dignificado como ação que produz o ciclo das estações. Creio que essa interpretação é tardia, fazendo parte do período patriarcal grego, pois, de certa forma, justificava o rapto de jovens mulheres pelos soldados. Mas Perséfone tinha o “compromisso” com sua mãe, com Hades, com o Olimpo.
A partir dessas reflexões, observamos que Perséfone é a mais disforme e indistinta das sete Deusas, sendo caracterizada por falta de direção e entusiasmo.De todas elas, contudo, ela também tem as mais possíveis rotas para o desenvolvimento. A identificação com quadros psicopatológicos pode abranger um amplo espectro, que vai desde os Distúrbios de Personalidade (falhas de caráter) que surgem através das mentiras e manipulações, passando pelo narcisismo, onde se tornam fixadas em si mesmas, perdendo assim, sua capacidade de se relacionar com os outros. A mulher tipo Perséfone é suscetível a quadros depressivos, que podem variar desde uma tristeza permanente até síndromes mais graves que levam a um isolamento total com ideação suicida. E finalmente aquelas que se afastam gradualmente da realidade podem evoluir para um quadro psicótico. Elas vivem num mundo cheio de imaginação simbólica e significado esotérico, e deturpam as percepções de si mesmas. Algumas vezes a doença psicótica pode servir como metamorfose, um caminho para tais mulheres romperem as limitações e proibições que estariam constringindo suas vidas, porem correm o risco de serem mantidas cativas no Inferno, ou seja permanecem psicóticas com a possibilidade de evolução para um quadro de cronicidade. Dentre os quadros psicóticos, aquele que mais identifico com Perséfone seria o Transtorno Esquizo Afetivo. Enfim, a amplitude das possibilidades psicopatológicas que esse Mito personifica, mereceria um estudo mais detalhado e aprofundado dessas possíveis identificações que surgem na característica “Camaleoa” nesse relato mítico. VI) REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: Amaro, Jorge; Psicoterapia e Religião- Lemos Editorial, São Paulo, 1996. Barros, Vitória Mendonça- Nabholz, Maria Tereza; As Faces Eternas do Feminino-Ed. Triom, São Paulo, 1996 Bolen, Jean Shinoda; As Deusas e a Mulher- Ed. Paulus, São Paulo, 2005. Diel,Paul; Simbolismo na Mitologia Grega- Ed. Attar, São Paulo, 1991. Eliade, Mircea; Mito e Realidade- Ed. Perspectiva, São Paulo, 1972. Hillman, James; Psicologia Arquetípica- Ed. Cultrix, São Paulo, 1995. Meunier, Mario; Nova Mitologia Clássica- Ed. Ibrasa, São Paulo, 1976. Peixoto, Paulo Matos; Mitologia Grega- Ed. Germape, São Paulo, 2003. Woolger, Jennifer; A Deusa Interna- Ed. Cultrix, São Paulo, 1992. |