|
www.rubedo.psc.br | Artigos | © Joel Nascimento |
| Comentários Psicológicos à Entrevista de Wolfgang Giegerich
Joel Fernando Brinco Nascimento
Giegerich é citado por James Hillman em Archetypal Psychology como referência em Psicologia Arquetípica, sendo chamado por um, arquetípico por excelência. Sua formação original na Alemanha o coloca em contato com as grandes imagens arquetípicas contidas nas grandes obras mundiais de literatura e da literatura clássica, aliando-se a isso, o tradicional rigor científico germânico. Como acesso introdutório a sua obra, indicamos o “The El Capitán Canyon Seminar” onde em uma rodada com David Miller e Greg Mogenson, Giegerich expõe didáticamente os pilares da lógica da alma. Por alma, Giegerich a vê como aquilo que anima em profundidade a forma particular que toma a inteira relação do homem e o mundo em cada situação histórica maior. Giegerich vê alma como um complexo vivo e abstrato lógico governando essa relação, dizendo: Alma se auto-produz. Digno de nota são o cuidado e a lucidez teórica em não tratar alma como entidade sobre a qual se poderia dizer que primeiramente existiria para então se expressar. Alma é auto-relação. A concisa fundamentação e rigor acadêmicos de Giegerich, bem como seu profundo conhecimento de Jung, permitem-no a ousadia intelectual de em um belíssimo movimento, re-vêr o título de uma das principais obras de Jung, “Wandlungen und Symbole der Libido” 1912, para “ Transformações e Simbolizações da Vida Lógica da Alma” . Por Lógica, compreenda-se o mover da psique gerado por seu Logos. Isso me faz lembrar de uma máxima que diz: “ Junguianos não pensam, intuem” e de um Hillman irritado, dizendo: qual o problema que os junguianos tem com o Logos ?. Giegerich pensa. E não tem o menor problema com isso. Au contraire, o uso que faz do Logos da psique liberta a alma de apropriações e usos antropocêntricos e personalísticos, que poderiam redundar em maniqueísmos e fundamentalismos irreparáveis, assim como nos remete a questões instigantes a respeito da clínica e da fundamentação filosófica da Psicologia Analítica assim como da Psicologia Arquetípica. A entrevista começa pelo começo. Aliás, pela caput cabeça. Aborda a fundamentação filosófica de Giegerich no desenvolver da lógica da alma, quase que espreme o alemão, que se mostrou bastante à vontade, respondendo não se utilizar nem de uma matriz Hegeliana e nem Nietzscheana. Entretanto, encontra em Hegel um instrumento valiosíssimo no exercício da Lógica da Alma. Sim, Giegerich deve muito a Hegel. A influência do texto “A Fenomenologia do Espírito” é explícita, assim como a epoché, a suspensão do juízo para atingir-se a profundidade única do fenômeno per si, tornando possível uma fenomenologia da imagem ou das imagens geradas pelo Logos da alma. A influência de Hegel permite a Giegerich distanciar e deslocar a Individuação de um processo individual, pessoal, para um processo histórico. Aliás o que Hegel concebe como História não se distancia do que Giegerich também concebe como História, já que nos passos seguintes da entrevista, Giegerich fala sobre o Anthropos arquetípico; Purusha; o Adão Cádmio; o Homo Maximus; ou seja o homem cósmico este sim, estaria sob o processo de Individuação, como pano de fundo histórico para nós, mortais, cabendo-nos, em um momento aqui ou ali, ter alguma noção do que ocorre na psicologia desse homem cósmico. Giegerich também propõe a inversão da suprassunção em direção ao sensível encontrados em Platão, na direção das ruas mesmo, de nos situarmos em relação ao nosso mundo e às complexidades desse mundo, tão diferente dos caminhos tradicionais que nos cercam. Outro momento brilhante e lúcido, Giegerich, na nona questão, a respeito do pós-moderno, deparo-me com a melhor leitura a respeito do que se poderia compreender por pós-modernidade: tão e simplesmente, o desdobramento natural da modernidade industrial, dominada pela mídia. Temos aí um verdadeiro toque de Midas, se me permitem o trocadilho... Nesse momento, minha colaboração seria a seguinte: não podemos nos esquecer que a atual palavra mídia, origina-se da palavra Méthis, o conhecimento, ou, o meio, a deusa Méthis que encontramos no nome Prometheus, e na luta methiática com Zeus, que depois de comer a deusa Méthis em diversos sentidos,aconselhado por Terra, passa a ser chamado por O Metíata, por excelência. Depois da comelança, todos conhecem a história: uma dor de cabeça curada com uma martelada de Hefestos, e pimba, nasce Palas Athena. O que estou querendo dizer aos amigos é mais ou menos o seguinte: que se a pós modernidade é uma modernidade midiática e se Mídia vem de Méthis, então esse desdobramento histórico seria regido justamente por essa deusa, tão delicadinha e sutil, e ao mesmo tempo tão complicada e perfeitinha ! Da densidade gravitacional de um Hegel, passando por uma breve elaboração, mas não menos importante a respeito da consciência da consciência exibindo bom humor ao situar Jung históricamente como um pré-moderno,e pré-kantiano, em mais uma demonstração de lucidez histórica e filosófica chegamos à leveza e ao refinamento de um Berkeley, em sua frase: “alma sempre pensa” apropriada por Giegerich. Este é o momento de saborearmos a cereja da sobremesa., um belíssimo momento da entrevista, quando Giegerich, extremando refinamento atribui o mover do pensar da alma ao espírito Mercurius. Minha gente, isso é simplesmente um orgasmo múltiplo. A alma na matéria e o pensamento da alma na matéria como o pensamento de Mercurius, um pensamento Mercurial. Seria o mito pessoal de Giegerich justamente o da Physys na Matéria ? Depois, passa a indagar como seria isso na materialidade e concretude das relações. De qualquer forma, o uso que faz da frase de Berkeley, a alma sempre pensa, é lindo. A entrevista prossegue. A Rubedo cutuca a onça com vara curta perguntando a respeito das críticas a Hillman e da abordagem imaginal, em um não querer querendo suscitar a querela com Hillman, quem sabe ? Afinal, quem não arrisca não petisca. Giegerich dá uma resposta pertinente, considerando o imaginal como uma psicologia fechada em si mesma, perigando ficar na imagem pela imagem, sem uma objetivação, ou coisa parecida. Depois da cutucada, uma massagem de ego, de leve, no melhor estilo malandro-carioca, (com todo respeito ao amigo, claro), citando David Miller, para quem Giegerich teria estabelecido um terceiro momento na história da Psicologia Analítica, transcendendo a abordagem imaginal. A questão que se coloca: Teria o bom e velho Giegerich superado o Homem da Montanha, o Hill-man? Briga de cachorro grande. Minha resposta é a seguinte: Inicialmente, sinto-me tentado a estabelecer um paralelo com Freud, quando em uma elaboração posterior de seu pensamento, estabelece a terceira tópica da psicanálise, onde discorre a respeito da economia libidinal. Eu, Joel, diria que Giegerich teria sim, estabelecido um terceiro momento ou uma terceira tópica na história da Psicologia Analítica, com “ A Vida Lógia da Alma”. Por outro lado, em um relance, consigo identificar na querela Hillman-Giegerich, uma leve e básica formaçãozinha reativa da parte de Giegerich, ou, talvez, um movimento lógico da alma em Giegerich, diferenciando-o de Hillman. De qualquer forma, o alemão não pode deixar de ser considerado um arquetípico, de forma alguma, pelo contrário. O homem da montanha, segundo o lema sagrado, “Fare Anima” , fazer alma, também promove uma fenomenologia da imagem, o que Giegerich não o deixa de fazer, até mesmo porque é o que propõe, ao tratar a imagem como fainomái ou o fenômeno. Essa entrevista também me levou a indagar: Giegerich, e me permitam incorrer em uma heresia aqui, não estaria sistematizando o imaginal, fazendo o uso do forte tipo pensamento que é, bem como do rigor científico que lhe são próprios ? Fica para ser pensado. Tomando Hillman e Giegerich como fenômenos, e seguindo a imagem, procurando tornar-me fiel a elas, diria tratar-se de uma saborosa antinomia. Ambos são ricos, válidos, instigentes e pertinentes. Mas não vejo preponderação da tese sobre a antítese, e vice versa. Tratam-se de profundidades distintas. Quanto a entrevista, leiam, saboreiem, metabolizem. Torne-a sua, da melhor maneira possível. Obrigado Rubedo. Joel Fernando
Brinco Nascimento |