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Sob o domínio de Eros: o caso Spielrein
Marta Chagas
Escolhi, na numerosa correspondência entre Jung e Freud, ressaltar a carta escrita por Jung, datada de 21 de junho de 1909 (148J), que trata de cinco assuntos e de um agradecimento. O assunto tratado com maior extensão (ocupando mais que 50% da carta) diz sobre problemas de Jung com relação a Sabina Spielrein. Essa não é a única carta em que Spielrein é citada: em cerca de 20 cartas, tanto de Jung como de Freud, ela aparece como assunto, mencionda tanto nominalmente ou como por referência a seu “caso clínico”. Mas, essa carta de 21/06/1909 interessou-me, particularmente, enquanto analista. Aplicando o método, tão utilizado tanto por Freud como por Jung, que visa “interpretar” o material disponível de alguém, à distância (tanto de tempo como de espaço), sem que haja necessidade de associações do próprio sujeito, resolvi trazer o que refleti sobre o conteúdo da mesma, ressaltando questionamentos sobre a prática analítica, sobre a importância de análise daquele que se propõe a estar no lugar de analista, idéia defendida, primeiramente, pelo próprio Jung. Nessa carta podemos ver um Jung tentando ser objetivo, mas em evidente estado de confusão, de indiferenciação, utilizando mecanismos de defesa como a racionalização, projeção e, principalmente, atuando... Não tenho por objetivo criticar Jung, nem corroborar com certos psicanalistas que sustentam que seu método de análise não passa de uma visão tumultuada por elementos místicos, obscuros, carecendo de objetividade. Poderia justificar toda a confusão de Jung, alegando que ele estaria vivenciando o início de uma nova forma de trabalho - como John Kerr tão bem nomeou de “ um método muito perigoso” -, de um novo tipo de entendimento do sujeito e, principalmente, da própria carência de analistas formados com quem se pudesse estabelecer um relacionamento analítico menos contaminado de expectativas, anseios, etc. Mas essa também não é minha intenção. Gostaria de pensar sobre o que o título do trabalho ressalta: “Sob o domínio de Eros: O Caso Spielrein”, ou seja, quando Eros se manifesta de forma dominante, sempre aparece a ambigüidade, o apagamento das diferenças, do distanciamento objetivo; a simbolização, a abstração, são fulminadas pela flecha que atravessa o corpo, portanto, obrigando que se dê uma resposta via ação concreta, material, sem o tempo da reflexão de Psiqué. Se, para James Hillman, o mito que rege a análise é o de Eros e Psiqué, vemos que Eros desconectado de Psiqué induz à atuação, ao acting out, impedindo o amadurecer da auto-reflexão. A propósito da ambigüidade, também o nome “Caso” (entre aspas) Spielrein traz essa noção, uma vez que pode ser entendido como caso clínico, pois Sabina foi paciente de Jung, como caso amoroso, mencionado dessa forma, a partir do levantamento feito por Aldo Carotenuto, analista junguiano italiano, do material particular de Spielrein, psiquiatra e psicanalista dos primórdios da psicanálise, referida por Freud, em uma nota de rodapé, como a autora da idéia de pulsão de morte; analista de Piaget e que morreu na Rússia durante a 2ª Guerra, pelo nazistas. Gostaria de começar trazendo a própria carta em questão: 148J Im Feld, Küsnach bei Zürich 21 de junho de 1909
Caro Professor Freud
Tenho boas notícias a dar sobre o meu problema com Spielrein. Eu vi tudo muito mais negro. Estava quase certo de que se vingaria, depois que rompi com ela, e só me surpreendi com a banalidade da forma que essa vingança assumiu. Anteontem ela veio à minha casa e tivemos uma conversa muito decente, durante a qual transpirou que o boato que corre a meu respeito não parte dela em absoluto. Foram minhas idéias de referência, bem compreensíveis nas circunstâncias que lhe atribuíram tal boato, mas desejo me retratar incontinenti. Além disso ela se libertou magnificamente bem da transferência e não sofreu recaída (se se excluir um paroxismo de choro após a separação). A vontade de estar com o senhor não visava uma intriga, mas apenas preparar o caminho para uma conversa comigo. Agora, após sua segunda carta, ela resolveu me procurar diretamente. Embora sem me deixar levar a um remorso infundado, deploro os pecados que cometi, pois, em grande parte, posso ser incriminado pelas extravagantes esperanças de minha ex-paciente. Com efeito, em obediência a meu princípio fundamental de levar todas as pessoas a sério, até o limite extremo, discuti com ela o problema do filho. Imaginando que falava em termos teóricos quando, na realidade, Eros se agitava sorrateiramente nos bastidores. Atribuí, pois, apenas à minha paciente todos os outros desejos e esperanças, sem ver em mim a mesma coisa. Quando a situação se tornou tão tensa a ponto de a prolongada persistência no relacionamento só poder ser resolvida por atos sexuais, defendi-me de uma maneira que não encontra justificativa moral. Possuído pelo delírio de ser vítima dos estratagemas sexuais de minha paciente, escrevi à mãe dela dizendo que eu não era o gratificador dos desejos sexuais da filha, mas simplesmente seu médico, e exortando-a a libertar-me da mesma. Tendo em vista o fato de que pouco antes a paciente fora minha amiga e gozara de minha confiança, meu gesto foi uma autêntica safadeza que só com muita relutância confesso ao senhor como meu pai. Gostaria agora de lhe pedir um grande favor: que mandasse algumas linhas a Frl. Spielrein, dizendo-lhe que o informei de todo o assunto, e em particular da carta aos pais dela, que é o que mais lamento. Quero dar à minha paciente pelo menos uma satisfação: a de que tanto ela quanto o senhor sabem de minha “perfect honesty”. Peço-lhe mil perdões, foi só minha tolice que o envolveu nesta confusão. Estou, no entanto, contente por afinal eu não ter me enganado sobre o caráter de minha paciente, pois de outro modo ficaria em dúvida quanto à firmeza de meu julgamento e isso poderia estorvar consideravelmente o meu trabalho. É grande a expectativa com que penso na América. Já reservei a passagem para o G. Washington, mas a cabine é cara demais. Quanto a Marcinowski o senhor me deixou tranqüilo, não preciso de mais nenhum documento. Suponho que nesse ínterim tenha recebido uma carta do studiosus Honegger, que certamente o divertirá. O rapaz é muito inteligente e sutil: quer se dedicaqr à psiquiatria, certa vez se consultou comigo devido a uma perda do sentido da realidade que durou alguns dias (Psicastenia = introversão da libido = Dem. Prec.). Tento levá-lo indiretamente à análise para que possa analisar a si mesmo conscientemente, desse modo ele talvez se antecipe à autodestruição automática da Dem. Pr.. Sua carta chegou ainda há pouco – obrigado! A realidade já me consolou. Mesmo assim fico grato por seu bondoso interesse. Atenho-me na expectativa de seu ensaio para o Jahrbuch. Adler aquiesceu de bom grado, prometendo mandar alguma coisa. Frl. E – vai se saindo muito bem, é interessante. Ela conhece uma paciente de Adler, mas não disse o nome. Com as mais gratas lembranças do Jung
Essa carta é a finalização de um assunto tratado por Jung em 2 cartas anteriores: uma datada de 7 de março, e, outra datada de 4 de junho. Na carta de 7 de março, ele dizia estar atravessando uma fase difícil devido às calúnias impetradas a ele por uma certa ex-paciente (Spielrein, que não é citada nominalmente) que teria resolvido se vingar pelo fato dele ter se recusado a conceber um filho com ela. Nessa mesma carta, Jung afirma que sempre teria tido um comportamento irrepreensível com essa cliente, sempre sendo um cavalheiro e com intenções honradas para com a mesma. Ele estava sendo alvo de boatos que atingíam-no tanto na esfera pessoal como profissional, e estava certo de que os mesmos haviam sido espalhados por essa sua ex-paciente. Já na carta de 4 de junho, pelo fato de Freud haver recebido a correspondência de uma jovem russa chamada Sabina Spielrein, Jung revela que esta pessoa era a tal citada ex-paciente que, devido ao rompimento e afastamento imposto por ele, havia espalhado o boato de que sua esposa, Emma Jung, estaria se separando dele e que ele iria se casar com uma jovem estudante. Ele dizia estar arrependido em ter devotado uma grande amizade a essa pessoa, assim como se arrependia também de ter estado muito próximo a um outro ex-paciente, Otto Gross. Também interpretou que ambos pacientes tinham problemas sérios em relação à figura paterna. Ele duvidava de que as intenções de Sabina Spielrein em procurar Freud fossem boas –acreditava que ela estivesse só empenhada em fazer uma grande intriga sobre ele. Assim, na carta de 21 de junho, o “caso Spielrein” parecia ter sido solucionado: Jung, tendo conversado com Sabina pessoalmente, havia se convencido de que não fora ela quem espalhara tantos boatos a seu respeito, assim como as intenções da mesma ao procurar Freud seriam para poder chegar até Jung, devido ao afastamento entre eles, e não estabelecer uma “rede de intrigas”. Mas, quem era Sabina Spielrein? Uma jovem russa, judia, de 19 anos, trazida por seus pais de Rostov para Suiça, para estudar medicina e fazer um tratamento médico, que consistiu em sua internação na Clínica Psiquiátrica Burghölzli (Zürich), em 1904. Eugen Bleuler, diretor da Clínica à epoca, indicou que a mesma fosse tratada pelo psiquiatra Jung. Em 1907, Jung, em uma palestra, apresentou o seguinte caso clínico (que se referia a ela): Ela entrou na puberdade aos 13 anos. A partir de então ocorreram manifestações de fantasia de natureza profundamente perversa que a perseguiam de forma obsessiva. Tais fantasias tinham um caráter compulsivo: ela não podia se sentar à mesa sem pensar em defecação enquanto comia, e nem podia ver outra pessoa comendo sem que os mesmos pensamentos lhe ocorressem, especialemtne quando se tratava de seu pai. Em particular, ela não podia ver as mãos de seu pai sem experimentar excitação sexual; pelo mesmo motivo não mais suportava tocar a mão direita do pai... Se fosse repreendida ou mesmo castigada de qualquer forma, reagia mostrando a língua ou desatava a rir convulsivamente, gritava em revolta e fazia gestos de horror, pois via sempre diante de si a imagem vívida da mão do pai a castigá-la, ao que se juntava a excitação sexual, transformada imediatamente em mal disfarçada masturbação... Seu estado havia-se tornado tão precário que na realidade ela não fazia mais do que oscilar entre depressões profundas e acessos de riso, choro ou gritos. Ela não conseguia mais olhar ninguém de frente, mantinha a cabeça baixa e, quando alguém a tocava, mostrava a língua denotando aversão...
Sabina Spielrein ficou internada até 1905. Jung teria utilizado com ela a abordagem psicanalítica da época, utilizando o teste de associação de palavras e, após ela ter se lembrado de eventos importantes de seu passado, Jung a chamou para trabalhar com ele em seu laboratório, onde eram realizados os tais testes. Por essa época, Jung disse à mãe de Sabina que ela já estava praticamente liberada de seus sintomas histéricos, podendo ser considerada como razoavelmente curada. No mesmo ano, Jung recomendou que ela poderia se matricular na faculdade de medicina, uma vez que não era mentalmente doente, mas que havia recebido tratamento unicamente para sua neurose e sintomas histéricos. Ela deixou o Burgölzli, começou a morar sozinha e a estudar, além de continuar o tratamento com Jung em sessões semanais e acompanhá-lo em seus experimentos com os testes de associação de palavras. Aldo Cartenuto, em seu livro “Diário Secreto de uma Simetria”, através dos diários de Spielrein, de sua correspondência com Jung, assim como com Freud, além da da própria correspondência entre Freud e Jung, faz a leitura de que a relação analítica e, posteriormente, a relação amorosa entre Sabina e Jung, foi marcada pela transferência e contra-transferência não resolvidas devido à quebra de uma regra psicanalítica fundamental, onde “o tratamento deve ser conduzido em estado de abstinência”. Nas palavras do autor: “... Tratava-se de uma moça que estivera realmente mal, e que tinha inteira consciência de que a sua loucura pudera ser superada somente com a ajuda de Jung. Apaixona-se desesperadamente pelo seu salvador. A conseqüência é que o homem amado é desejado em sua totalidade. Mas nós sabemos como a análise, por vezes, pode ser cruel! ... Mas a insatisfação na análise, infelizmente, não diz respeito só ao amor; é muito mais profunda, cruel, mais irredutível. O caminho da análise é, por excelência, a palavra, a simbolização. Mas o símbolo é, por sua natureza, algo insatisfeito... Toda linguagem é um limite: quem fala é o ponto intermediário entre o dizível e o indizível, entre a palavra e o silêncio... Assim, a psicanálise – esse ritual da palavra – é um combate, uma luta do pensamento. A sua crueldade é cerebral... A insatisfação é o fundamento da análise, porque o insatisfeito é a linguagem, o símbolo, a palavra...”
Da parte de Jung, em sua contra-transferência, o que foi projetado teria sido a Anima: Sabina era uma mulher independente, jovem, muito inteligente, totalmente devotada a seu médico, que o estimulava intelectualmente, com quem o mesmo acreditava poder estabelecer um contato amoroso “independente das vantagens ou desvantagens sociais”. Na carta enviada por Jung a Sabina, em 4 de dezembro de 1908, ele afirma: “... Busco a pessoa que seja capaz de amar o outro sem que o puna por isto, sem que o torne prisioneiro ou exangue; busco essa pessoa do futuro, que saiba realizar um amor independente das vantagens ou desvantagens sociais, a fim de que o amor seja sempre um fim em si mesmo, e não apenas um meio em vista de uma finalidade...” Parecia-lhe, a princípio, que Spielrein, poderia ocupar esse lugar, uma vez que possuía autonomia, inteligência, independência e devoção a ele suficientes para se lançar num tipo de relacionamento tão despojado para a época que viviam. Segundo Carotenuto: “... Ora Sabina deve ter expresso, na situação em que se encontrava Jung, uma típica imagem da Anima, atraente e repelente, maravilhosa e diabólica, exaltante e deprimente. Mas isso Jung não podia sabê-lo. A única coisa de que estava consciente era a extrema dedicação oferecida à moça.”
Em seu livro autobiográfico, “Memórias, Sonhos e Reflexões”, Jung contando sobre seu encontro com as imagens arquetípicas do Velho Sábio e da Anima: Elias, Filemon e Salomé, relata ter ouvido uma voz interior, feminina, que dizia que não era ciência o que ele fazia e, sim, arte. Em suas palavras: “Eu sabia que a voz provinha de uma mulher, e a reconheci como sendo a de uma paciente, uma psicopata muito dotada, que estabelecera uma forte transferência em relação a mim. Ela se tornara um personagem vivo de meu mundo interior”. Essa paciente era Sabina Spielrein e ela, nem nesse momento do livro, é citada nominalmente; seu nome foi omitido, foi “censurado”! (o verdadeiro Memórias, Sonhos e Omissões, de Sonu Shamdasani) Retornando à carta de 21 de junho de 1909 para Freud, Jung não assume claramente seu envolvimento com Spielrein. Ele justifica sua desconfiança de que ela estaria se vingando pelo rompimento com ele, espalhando boatos, através de “idéias de referência, bem compreensíveis nas circunstâncias...”. Por outro lado, ele afirma que ela teria se “libertado magnificamente bem da transferência” e que não tinha sofrido nenhuma recaída. A partir de então, ele parece estar refletindo sobre sua participação e responsabilidade na “confusão” de Sabina Spielrein, quando diz que “deploro os pecados que cometi, pois posso ser incriminado pelas extravagantes esperanças de minha ex-paciente... Atribuí, pois, apenas à minha paciente todos os outros desejos e esperanças, sem ver em mim a mesma coisa”, ao mesmo tempo em que se justifica dizendo: “Com efeito, em obediência a meu princípio fundamental de levar todas as pessoas a sério, até o limite extremo, discuti com ela o problema do filho. Imaginando que falava em termos teóricos quando, na realidade, Eros se agitava sorrateiramente nos bastidores” (Sabina Spielrein teria declarado seu desejo de ter um filho – homem - com Jung, que seria chamado de Siegfried. Até então, Jung tinha apenas 2 filhas e o rompimento de ambos se dá mais ou menos à época em que nasce seu 3º filho – enfim, um menino!). Nesse trecho, Jung reconhece o efeito de Eros, sua característica noturna, sua pouca luminosidade, manifestando-se de forma inconsciente, apresentando toda sua retórica, convocando à ação, produzindo um efeito devastador. Sendo assim, parece que Jung, frente ao impacto erótico, tendo, há muito, abandonado o lugar de analista, passa a atuar de maneira bastante desatinada. Ele diz ter escrito uma carta para a mãe de Sabina, onde ele afirmava não ser um “gratificador dos desejos sexuais da filha”, mas sim seu médico, pedindo que fosse liberado de tal função. Na própria carta a Freud, Jung comenta que tal ação teria sido de “muita safadeza” devido ao relacionamento amistoso que tinha com Spielrein, lamentando muito não ter conseguido resolver esta questão com ela diretamente. Ao mesmo tempo, considerando Freud como “pai”, pede a ele que interfira também nessa questão, solicitando-lhe que envie uma carta a Sabina, informando estar a par de todo o assunto, principalmente, sobre a carta enviada por Jung à sua mãe, que seria o mais lamentável. Diz querer dar uma satisfação à paciente (Sabina volta a ser referida como paciente!): a de que tanto ela como o Freud saberiam da “minha ‘perfect honesty’ ”... É interessante notar o emprego da expressão inglesa nesse momento da carta! Segundo o próprio Jung, no teste de associação de palavras, o emprego de expressões em língua estrangeira denotaria a existência de um complexo carregado afetivamente. O próprio Jung, ao mesmo tempo que lamenta envolver terceiros com o sentido de resolver seu problema com Spielrein, pede a interferência de Freud para que este possa afirmar para Sabina, agora denominada de paciente, sobre a honestidade de seu médico. Ou seja, essa necessidade de afirmação da própria honestidade “cheira” a complexo... Jung disse ter sido “possuído pelo delírio de ser vítima dos estratagemas sexuais” de sua paciente. Frente a essa indiferenciação, sua reação imediata foi de fuga, abandonando o vínculo com sua paciente, tentando se escudar em seu papel de médico, convocando testemunhas – a mãe de Sabina e o próprio Freud – para justificar que a confusão de papéis e de expectativas tinha a ver com a “doença” da paciente, dizia respeito a ela e não a ele, que ele sempre tivera a melhor das intenções para com Spielrein, mas que ela havia interpretado de forma errônea e neurótica “seu princípio fundamental de levar à sério todos seus pacientes”... Ao mesmo tempo, Jung disse que Sabina tinha resolvido de forma “magnífica a transferência” e que tinha se sentido aliviado por não ter se enganado sobre seu caráter, o que poderia deixá-lo em “dúvida quanto à firmeza de meu julgamento e isso poderia me estorvar consideravelmente em meu trabalho”. É importante ressaltar a questão da transferência e do entendimento de Jung sobre ela. No volume “Fundamentos da Psicologia Analítica (Conferências de Tavistock)”, de suas Obras Completas, que traz 5 conferências proferidas por Jung em Londres, em 1935, o tema da última é sobre a transferência. Inquirido sobre a importância da transferência para a psicologia analítica, Jung aponta para diferenças fundamentais entre a sua visão e a da psicanálise, chegando mesmo a dizer que a transferência não era uma necessidade analítica e, sim, um estorvo – que curava-se apesar da transferência e não por causa da mesma! Por outro lado, ele ressalta que a transferência pode ser causada por uma dificuldade de fazer contacto, em estabelecer harmonia emocional entre o analista e o paciente. Nas palavras de Jung: “... No tratamento analítico, se a ligação entre o paciente e o terapêuta se torna difícil devido à diferença de personalidades, ou se há outras distâncias psicológicas entre eles que atrasem o efeito terapêutico, por tal ausência de contacto o inconsciente do paciente tentará cobrir essa distância, construindo uma ponte compensatória. Já que não existem pontos comuns, nem possibilidade de formar nenhum tipo de relacionamento, um sentimento apaixonado ou fantasia erótica tenta preencher o vazio”.
Também a transferência pode aparecer como uma compensação excessiva por parte de pacientes com atitudes bastante autoeróticas. Jung diz que esses pacientes parecem ter se fechado em um castelo, protegido por espessas paredes, armaduras e fôsso a sua volta, mas que necessitam, de forma deseperada, fazer contato com o Outro, com alguém que se encontre além dessa proteção tão intensa. Eles não conseguem se mover, nem deixam ninguém se aproximar e através dessa atitude, uma transferência enorme pode surgir. Jung aconselha a seguinte atitude que o analista deve tomar: “O que podemos fazer é deixá-los arderem em seu próprio fogo, até que eles se satisfaçam e saiam voluntariamente da fortaleza. Evidentemente viverão reclamando sobre a sua falta de compreensão... Em tal caso, a transferência pode chegar ao ponto de combustão, pois só uma chama muito forte pode forçar o indivíduo a abandonar o castelo. Evidentemente isso significa uma grande explosão, mas deve ser suportada pacificamente pelo terapeuta e o paciente mais tarde sentir-se-á agradecido de não ter sido levado totalmente a sério”.
Outra razão da ocorrência da transferência seria a inconsciência mútua ou contaminação entre analista e paciente: “... Via de regra, esse fenômeno se dá quando o analista tem uma falta de adaptação semelhante à de seu paciente; em outras palavras, quando ele é neurótico. E desde que isso aconteça, quer se trate de neurose superficial ou profunda, isso significa uma ferida aberta, uma porta que não se consegue fechar e por aí o paciente tem facilidade de entrar, contaminando o analista. Conseqüentemente, é um postulado importante que o analista se conheça com a máxima profundidade.”
Nesses trechos vemos um Jung-analista muito diferente do autor da carta de 21 de junho de 1909. Certamente, 30 anos fazem muita diferença mesmo! Mas, podemos utilizar seus conceitos posteriores para tentar um entendimento daquilo que se passou nos idos dos anos 10... Jung e Sabina se contaminaram... Ela, por ter projetado nele o Herói, o Salvador, por tê-la ajudado a se libertar de seus sintomas tão dolorosos, por ter sido apoiada e estimulada a estudar e se tornar psiquiatra, o desejou em sua totalidade, também enquanto homem e futuro pai daquele que iria ser o redentor de sua história, o filho Siegfried, que nunca veio a nascer, nem sob forma de uma criança, nem como os trabalhos que escreveu, tentando fazer uma junção das idéias de Jung com as de Freud. Por seu lado, Jung, também carente de contato com quem pudesse discutir suas idéias de forma aberta, sem a “censura” dos dogmas psicanalíticos, orgulhoso quanto ao resultado de seu tratamento com uma mulher jovem, problemática e extremamente inteligente, uma mulher que não pertencia à sociedade ainda tacanha da Suiça, que era independente, que teria vindo para estudar medicina, projetou nela o que esperava do encontro com a mulher – alguma coisa que não o aprisionasse, que o deixasse livre, sem se importar com as regras sociais e que confiasse profundamente nele... Assim, com tantas lacunas, com tantas carências, Eros se estabeleceu como relação, tornando tudo muito indiferenciado: os papéis de analista e paciente alternavam entre eles, a relação foi permeada de confiança e traições cegas; espalhou-se muita dor, muita mágoa, muita discórdia. Jung não conseguiu suportar essa explosão de sentimentos de forma pacífica por não se encontrar no lugar de analista, por ter sido arrastado por Eros para longe da palavra, da simbolização, entrando também em combustão. Por isso, essa carta de 21 de junho de 1909 me pareceu tão importante: ela é uma das poucas descrições publicadas de como um analista pode se enredar, se perder em seus próprios problemas, de como pode atuar no sentido de justificar suas atitudes, enfim, de como pode ser tão sombrio àquele que pretende ajudar a trazer um pouco de luz para a noite inconsciente. Como é difícil encontrarmos descrições de casos clínicos mal-sucedidos, mal-encaminahdos, mal-abordados. Como é difícil abaixarmos nossos escudos protetores de analistas e nos defrontarmos com o limite de nós mesmos... BIBLIOGRAFIA: 1. Correspondência Completa entre Freud-Jung; ed. Imago 2. JUNG, Carl Gustav: Memórias, Sonhos e Reflexões; ed. Nova Fronteira 3. JUNG, Carl Gustav: Fundamentos da Psicologia Analítica; ed. Vozes 4. CAROTENUTO, Aldo: Diário de uma Secreta Simetria; ed. Paz e Terra 5. KERR, John: Um Método muito Perigoso; ed. Imago 6. BAIR, Deidre: Jung, a Biography; ed. Little, Brown and Company
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