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FOUCAULT
Judith Revel
AUTOR * Em 1969, Foucault faz uma conferência sobre a noção de autor que se abre com essas palavras: “ ‘Que importa quem fala?’ Nessa indiferença se afirma o princípio ético, talvez o mais fundamental, da escrita contemporânea”20. Essa crítica radical da idéia de autor – e mais geralmente do par autor / obra – vale ao mesmo tempo como diagnóstico sobre a literauta (em particular, na tripla esteira de Balnchot, do novo romance e da nova crítica), e como método foucaultiano de leitura arqueológica: com efeito, se reencontramos freqüentemente a teorização desse “lugar vazio” em alguns escritores que Foucault comenta na época, é igualmente verdaeiro que a análise a que se dedica o filósofo em As Palavras e as Coisas procura, por sua vez, aplicar ao arquivo, isto é, à história, o princípio de uma leitura das “massas de enunciados” ou “planos discursivos”, que não estavam “bem acentuados pelas unidades habituais do livro, da obra e do autor”21. Desse ponto de vista, o início de A ordem do Discurso dá continuidade à reflexão sobre um fluxo de fala que seria ao mesmo tempo historicamente determinado e não-individualizado, e que ditaria as condições de fala do próprio Foucault na sua aula inaugural no Collège de France: “Gostaria de perceber que no momento de falar uma voz sem nome me precedia há muito tempo”22. ** Do ponto-de-vista do método, Foucault está aparentemente bastante próximo do que fez Barthes na mesma época, porque a análise estrutural da narrativa não se refere à psicologia, à biografia pessoal ou às características subjetivas do autor, mas às estruturas internas do texto e ao jogo de sua articulação. É provavelmente a partir da constatação dessa “vizinhaça” metodológica (que o aproxima igualmente de Althusser, de Lévy-Strauss ou de Dumézil) que se tem geralmente associado Foucault à corrente estruturalista. Em Foucault, entretanto, a busca de estruturas lógicas está marcada por uma veia blanchotiana particular (“a obra comporta sempre, por assim dizer, a morte do autor: no mesmo momento em que se escreve, se desaparece”23) que, além da simples referência à cadicidade histórica de uma categoria que se havia acreditado até então incontornável, leva Foucault a uma análise das relações que envolvem a linguagem e a morte. À descrição do apagamento de uma noção da qual ele descreve historicamente a constituição e os mecanismos, depois a dissolução (e, por isso, a noção de autor recebe o mesmo tratamento que aquela de “sujeito”); Foucault acrescenta, assim, ao mesmo tempo a identificação de seu próprio estatuto de fala e a problematização de uma experiência da escritura concebida como passagem ao limite. *** Essa influência blanchotiana o levará, ao longo dos anos 60, e à margem dos grandes livros, a se deter sobre um certo número de “casos” literários que possuem todos um parentesco com a loucura (e estamos ainda bem longe das propostas da História da Loucura) ou com a morte. Foucault comentará, então, Hölderlin e Nerval, Roussel e Artaud, Flaubert e Klossowski, e até mesmo alguns escritores próximos do grupo Tel Quel, sublinhando-lhes o valor exemplar: “A linguagem, então, tomou uma estatura soberana: ela surge como vinda de alhures, de lá onde ninguém fala; mas só existe obra se, remontando seu próprio discurso, ela fala na direção dessa ausência”24. Notas 20 Qu’est-ce qu’un auteur? In: Bulletin de la Société Française de Philosophie, junho-setembro 1969. [Tradução brasileira: O que é um autor? In: Ditos e Escritos, vol. III, p. 264]. 21 Qu’est-ce qu’un auteur?, op. cit. nota 20. 22 L’ordre du discurs. Paris: Gallimard, 1971. [ Tradução brasileira: A ordem do discurso. São Paulo: Loyola, 1996, p. 5]. 23 Interview avec Michel Foucault, Bonniers Litteräre Magasin, Stockholm, nº 3, março de 1968. Retomado em Dits et Écrits, vol. 1, texto nº 54. 24 Le ‘non’ du père. In: Critique nº 178, março de 1962. [Tradução brasileira: O ‘não’ do pai. In: Ditos e Escritos, vol. I, p. 200]. ___________________________________________________________
LOUCURA * O tema da loucura está, certamente, no centro da História da Loucura que Foucault publica em 1961: trata-se, com efeito, de analisar a maneira pela qual, no século XVII, a cultura clássica rompeu com a representação medieval de uma loucura, ao mesmo tempo, circulante (a figura da “nau de loucos”) e considerada como o lugar imaginário da passagem (do mundo ao trás-mundo, da vida à morte, do tangível ao segredo, etc...). Ao contrário, a idade clássica define a loucura a partir de uma separação vertical entre a razão e a desrazão: ela a constitui, portanto, não mais como aquela zona indeterminada que daria acesso às forças do desconhecido (a loucura como um para além do saber, isto é, ao mesmto tempo, como ameaça e como fascinação), mas como o Outro da razão segundo o discurso da própria razão. A loucura como desrazão é a definição paradoxal de um espaço gerado pela razão no interior de seu próprio campo que ela reconhece como outro. ** A narrativa dessa cisão fundadora de inclusão passa por um certo número de procedimentos e de instituições que possuem uma história. O objetivo de Foucault nunca foi, entretanto, o de fazer a história do enclausuramento e do asilo, mas do discurso que constitui os loucos como objetos de saber – isto é, desse estranho laço entre razão e desrazão que autoriza a primeira a produzir um discurso de saber sobre a segunda. Trata-se, por conseqüência, de fazer antes de tudo a história de um poder: “ o que estava implicado, antes de tudo, nessas relações de poder, era o direito absoluto da não-loucura sobre a loucura. Direito transcrito em termos de competência, exercendo-se sobre a ignorância, de bom senso, de acesso à realidade, corrigindo os erros (ilusões, alucinações, fantasmas), da normalidade, impondo-se à desordem e ao desvio”85. Esse triplo poder constitui a loucura como objeto de conhecimento, e é por essa razão que é preciso então fazer a história das modificações dos discursos sobre a loucura: do grande enclausuramento – invenção de um lugar inclusivo da exclusão – à aparição de uma ciência médica da loucura (da “doença mental” à psiquiatria contemporânea), Foucault faz, na vedade, a genealogia de uma das faces possíveis dessa forma singular do poder-saber que é o conhecimento. Compreende-se então porque o discurso de Foucault foi rapidamente associado à antipsiquiatria de Laing e Cooper, de Basaglia, ou – mais tardiamente – ao Anti-Édipo, de Deleuze e Guattari, isto é, aos discurso que criticam a ligação netre conhecimento / assujeitamento na prática psiquiátrica: “É possível que a produção da verdade da loucura possa se efetuar em formas que não sejam as de relação de conhecimento?”86. A leitura da história da loucura como história da constituição do poder-saber impulsiona Foucault a utilizar a figura do asilo como paradigma geral da análise das relações de poder na sociedade até os começos dos anos 70. A passagem para uma outra formulação do poder permite então compreender o abandono relativo do tema da loucura em proveito de tema mais geral da medicalização (o controle da medicina social): não somente porque no momento em que o enclausuramento não dava a ver senão o paradoxo de um conhecimento que joga contemporaneamente com a exclusão (espacial) e com a inclusão (discursiva), a figura do hospital permite integrar a maneira pela qual, a partir do começo do século XIX, o poder passa a gerir a vida (sob a forma de biopoderes); mas também porque Foucault abandona uma concepção puramente negativa do poder (“Pareceu-me que, a partir de um certo momento, era insuficiente, e isso no curso de uma experiência concreta que eu pude fazer, a partir dos anos 1971-1972, a propósito das prisões”87). Das pesquisas sobre a loucura às análises dos mecanismos de governamentalidade, o que está em jogo, portanto, é uma mudança de leitura das relações de poder. *** Durante os anos 60, o tema da loucura está geralmente cruzando com aquele da literatura e, mais geralmente, com aquele da irredutibilidade de um certo tipo de fala que é, em geral, encarnado por três figuras superpostas: o louco (Hölderlin, Nerval, Nietzsche, Roussel, Artaud), o escritor (Sade,Hölderlin, Nerval, Mallarmé, Roussel, Breton, Bataille, Blanchot), o filósofo (Nietzsche – e o próprio Foucault?). “A literatura parece reencontrar sua vocação mais profunda quando ela se retempera na fala da loucura. A mais alta fala poética é aquela de Hölderlin, como se a literatura, para chegar a se desinstitucionalizar, para tomar toda medida de sua anarquia possível, fosse em certos momentos obrigada ou a imitar a loucura ou, mais ainda, a tornar-se literalmente louca”88. Na imagem das análises da História da Loucura, a idéia de uma fala filosófica ou literária que encontraria na loucura sua irredutibilidade à ordem do discurso não é somente o resíduo fenomenológico de uma experiência crucial ou a retomada da experiência do limite que se encontra em Bataille: ela permite a Foucault problematizar pela primeira vez a idéia da resistência ao poder – um tema que se reencontrará, nos anos 70, formulado diferentemente no quadro das análises políticas sob a forma de um discurso sobre a produção de subjetividade como desajustamento, isto é, também sob a forma de uma relação ética com o si mesmo. Notas 85 Le pouvoir psychiatrique. In: Annuaire du Collège de France. Chair d’histoire des systèmes de pensée, année 1973-1974. [Tradução brasileira: O poder psiquiátrico. In: Resumos dos Cursos do Collège de France (1970-1982). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1977, p.56]. 86 Le pouvoir psychiatrique, op. cit. nota 85. 87 Les rapports de pouvoir passent à l’interieur du corps, op. cit. nota 35. 88 La folie et la societé. In: Foucault, M. e Watanabe, M. Telsugaku no butai. Tokio. 1978. [Tradução brasileira: A loucura e a sociedade. In: Ditos e Escritos, vol. I, p. 263]. |