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Prólogo:
"O mais amaldiçoado diletante"

 

Sonu Shamdasani

 

Este texto é o prólogo do livro Jung e a Construção da Psicologia Moderna: o Sonho de uma Ciência, de autoria de Sonu Shamdasani. Um dos mais importantes livros sobre a psicologia junguiana publicados em português. A Rubedo agradece a Editora Idéias e Letras pela permissão de reproduzí-lo em nossas páginas. Para maiores informações sobre o livro, acesse a seção Revista de Literatura.

 

 

“Não me transformem numa lenda”
C. G. Jung, 1930.1

 

          Ocultista, cientista, profeta, charlatão, filósofo, racista, guru, anti-semita, libertador das mulheres, misógino, apóstata de Freud, gnóstico, pós-moderno, polígamo, curador, poeta, falso artista, psiquiatra e anitpriquiatra – do que C. G. Jung ainda não foi chamado? Mencione o nome dele para alguém e é provável que você escute um desses rótulos, pois Jung é alguém a cujo respeito as pessoas têm alguma opinião, consistente ou não. A rapidez do tempo de reação indica que as pessoas reagem à vida e à obra de Jung como se fossem sufucientemente conhecidas. Entretanto, a própria proliferação de “Jungs” nos leva a questionar se, de fato, todos estariam falando de uma mesma criatura.

          Em 1952, Jung reagiu ao fato de ter sido tão diversamente descrito como religioso, ateu, místico e materialista, com o seguinte comentário: “Em minha forma de ver, quando as opiniões a respeito de um mesmo assunto diferem amplamente, forma-se uma justificada suspeita de que nenhuma delas seja correta, isto é, de que existe um equívoco”.2 Quase cinqüenta anos mais tarde, o número de opiniões e interpretações divergentes sobre Jung multiplicou-se de maneira prodigiosa. Ele se transformou num personagem sobre quem uma infindável sucessão de mitos, lendas, fantasias e ficções continuam a ser tecidas. Paródias, distorções e caricaturas tornaram-se a norma, e esse processo ainda não está exibindo sinais de enfraquecimento.

          Desde o princípio, Jung foi objeto de uma ampla variedade de boatos. Em 1916, ele escreveu para um amigo e colega Alphonse Maeder:

     No que tange aos rumores sobre a minha pessoa, posso informá-lo que estou casado com uma aluna original da Rússia há seis anos (ref. Dr. Ulrich), que me visto como o Dr. Frank, que recomendei um imediato divórcio a uma mulher (ref. Sra. E-Hing), que há dois anos terminei o casamento Rüff-Franck, que recentemente engravidei a sra. McCormick, livrei-me do bebê e recebi um milhão e tanto (ref. Dr. F. & Dr. M. em Z.), que na sede do Clube convido mocinhas bonitas para serem estagiárias e a sra. McCormick se servir delas para fins homossexuais, que mando os rapazes para montarem no hotel, portanto, grandes recompensas, que sou um judeu careca (ref. Dr. Stier, em Rapperswyl), que estou tendo um caso com a sra. Oczaret, que fiquei louco (ref. Dr. M. em Z.), que sou um vigarista (ref. Dr. St. Em Z.), e por fim mas não em último, que o Dr. Picht é meu assistente. O que se pode fazer? De que modo eu deveria comportar-me para que esses boatos se tornassem impossíveis? Sou grato por seus conselhos. Como você vê, não é nada bom o prognóstico da análise! Simplesmente não se deve levar sozinho adiante uma empreitada tão pouco atraente, se não se quiaser sofrer danos.3

         

Após décadas de construção do mito, uma indagação se torna ainda mais insistente: quem foi C. G. Jung?

Certa vez, quando lhe perguntaram quem era, Miles Davis respondeu que havia mudado o rumo da múscia várias vezes em sua vida (1990, 371). Algo parecido pode ser dito de Jung. Como psiquiatra, ele teve um papel crucial na formação do conceito moderno da esquizofrenia, e na concepção de que as psicoses têm uma origem psicológica, tornando-se, portanto, tratáveis pela psicoterapia. Enquanto durou sua associação com Freud, foi o principal arquiteto do movimento psicanalítico, inaugurando o rito da análise didática que se tornou a forma predominante de treinamento da psicoterapia moderna. Sua formulação dos tipos psicológicos, introvertidos e extrovertidos, e suas numerosas subdivisões geraram uma incontável quantidade de questionários. Sua atenção à constante relevância dos mitos serviu de incentivo ao renascimento dos temas míticos. Seu interesse pelo pensamento oriental foi o precursor da orientalização pós-colonial do Ocidente. Dedicado a reconciliar a ciência e a religião por meio da psicologia, seu trabalho tem-se deparado com infindáveis controvérsias a cada etapa do caminho. Ao lado da disciplina intitulada psicologia junguiana e de institutos e sociedades, clubes e associações que continuam ostentando seu nome, existe uma sólida contracultura que o considera seu fundador – e o impacto de sua obra na cultura oficial do Ocidente no século XX tem-se mostrado muito maior do que se reconheceu até aqui.

O trabalho de Freud e Jung tem sido, em grande medida, assimilado pelo público em geral. Para muitas pessoas, seus nomes são os primeiros que vêm à mente quando alguém pensa em psicologia. Ambos se tornaram sinônimos de psicologia. Como as bonequinhas russas, ocultam muitas figuras esquecidas em seu interior. Freud e Jung se tornaram representantes de debates que vêm sendo travados há muitos anos, sobre a história intelectual da Europa e as transformações vividas pelas sociedades ocidentais desde o final do século XIX até o presnete. A diversidade de posições atribuída a ambos, se essas formulações pudessem ser resumidas num pensamento coletivo, resultariam em algo muito próximo da totalidade do espectro das idéias modernas.

A figura de “Jung” se situa na interface da psicologia acadêmica com a psiquiatria, a psicoterapia, a psicologia popular e as psicologias da Nova Era. O surgimento dessas disciplinas e movimentos é um dos acontecimentos decisivos da sociedade ocidental do século XX. E talvez seja seu legado mais intrigante. A formação da psicologia e da psicoterapia moderna aconteceu durante uma época de grandes revoluções no pensamento e na cultura ocidentais, de cuja tessitura ambas participaram íntima e profundamente. Por esse motivo, a reconstrução das duas disciplinas é um elemento essencial à compreensão do desenvolvimento das sociedades ocidentais contemporâneas e de nosso pensamento presente.

Desde as alas psiquiátricas nos hospitais até os púlpitos nas igrejas, dos anfiteatros universitários aos programas de entrevistas na televisão, dos tribunais aos tablóides, das celas às salas de aula, a psicologia está hoje firmemente estabelecida, e vem operando transformações de longo alcance e profundidade tanto na vida civil como na mais íntima percepção de cada indivíduo a seu próprio respeito. Agora que segmentos tão largos da realidade social e do “senso comum” mostram-se permeados pela psicologia, as idéias psicológicas se tornaram naturais e assumiram o caráter de certezas imediatas e indubitáveis. Acabaram tornando-se referências por intermédio das quais julgar as pessoas de outros tempos e de outras sociedades. Para podermos nos colocar a uma distância ideal e refletir sobre a instalação da psicologia na vida contemporânea, torna-se essencial um levantamento histórico dessas mudenças sem precedentes.

Por volta de 1938, o próprio Jung comentava sobre o impacto social da psicologia nos seguintes termos: “Uma discussão incessante e iluminada sobre a psicologia vem inundando o mundo nos últimos vinte anos, mas ainda não produziu uma melhora visível das atitudes e perspectivas psicológicas.”4 Tanto leigos como cientistas “ficaram extasiados com o exuberante aparecimento de tantos paradigmas teóricos, e atordoados com o labirinto de propostas desequilibradas” (ibid). A história da psicologia pode oferecer um modo de se entrar, e um modo de air, desse labirinto de confusões.

 

 O advento da nova psicologia

“Deve-se ser absolutamente moderno”
(Arthur Rimbaud, A Season in Hell, 1873)

 

          “Parece que hoje todo o mundo está publicando uma Psicologia”, escreveu William James em 1893 para seu amigo e colega psicólogo, Théodore Flournoy5. Brotavam de todo lado manuais, princípios, esboços, introduções, compêndios e almanaques de psicologia. Periódicos, laboratórios, cátedras, cursos, sociedades, associações e institutos de psicologia eram fundados a rodo. Uma verdadeira horda de testemunhas foi chamada e interrogada: o louco, o primitivo, o gênio, o degenerado, o imbecil, o normal, o bebê, e, por fim, mas não em último, o rato branco. Novos personagens entraram socialmente em cena: o esquizofrênico, o narcisista, o maníaco-depressivo, o anal-retentivo, o oral-sádico, e todos os “vertidos” – invertidos, pervertidos, introvertidos, extrovertidos. Mas o que denotava sua fermentação?

          Por volta do final do século XIX, muitos personagens ocidentais tentaram estabelecer uma psicologia científica independente da filosofia, teologia, biologia, antropologia, literatura, medicina e neurologia, ao mesmo tempo em que absorvia seus tradicionais objetos de estudo. A própria possibilidade de existência para a psicologia estava numa bem-sucedida negociação nesses entrocamentos de disciplians. A maior parte das questões que os psicólogos se propunham a estudar já havia sido representada e debatida por outras disciplinas. Eles tiveram de arregimentar seus sujeitos nas reservas dos demais especialistas. Assumindo o status de ciência, esperava-se da psicologia que fosse capaz de solucionar aquelas questões que vinham desafiando os pensadores há séculos, e enfim substituir a superstição, a sabedoria folclórica e a especulação metafísica pelas regras de leis universais.

          Em 1892, Flournoy recebeu a cadeira de psicologia na Universidade de Genebra. Essa foi a primeira cadeira de psicologia numa Faculdade de ciências, e não de filosofia. Em 1896, ao refletir retrospectivamente sobre o significado desse acontecimento, Flournoy disse: 

O governo de Genebra reconheceu implicitamente (talvez sem o saber) a existência da psicologia como uma ciência separada e independente de todos os sistemas filosóficos, com o mesmo status da física, da botânica ou da astronomia... Tem-se, assim, o direito de considerar que está historicamente concluído, com a mesma autorização e alta consagração do poder político, ao longo do processo por meio do qual o estudo da alma se constituiu pouco a pouco a sua própria maneira, libertando-se do tronco geral da filosofia, para se estabelecer como uma ciência positiva. Quanto a se saber até que ponto a psicologia contemporânea faz justiça a essa declaração de maioridade, e efetivamente conseguiu livrar-se de todas as espécies de tutela metafísica, é uma outra questão. Pois aqui, tal como em qualquer outra parte, o ideal não deve ser confundido com a realidade. (1)

 

          Este estudo foi desenvolvido dentro do âmbito dos comentários finais de Flournoy. Os proponentes da nova psicologia proclamaram uma ruptura radical com todas as formas anteriores de entendimento do fator humano. Os fundamentos da psicologia moderna eram considerados nada menos do que o ato final e mais decisivo de condução da revolução científica. Não só comunicava sua retórica como informava também sua missão e propósito. Quer tenha sido realmente alcançada ou não, a noção de uma ruptura absoluta com o passado tornou-se um elemento vital no autoconceito dos psicólogos, e no modo como formataram seus trabalhos.

          A declaração comemorativa de Flournoy expressa um sentimento bastante difundido entre os psicólogos, na década de 1890. Em 1892, refletindo sobre o “progresso” da psicologia, William James escreveu: 

Assim, quando falamos da “psicologia como uma ciência natural”, não devemos presumir que isso signifique aquela espécie de psicologia que, finalmente, se assenta em solo firme. Significa justamente o oposto: trata-se de uma psicologia especialmente frágil, em cujo bojo as águas da crítica metafísica vazam em cada junção... é verdadeiramente muito estranho ouvir as pessoas falando de maneira triunfal sobre a “Nova Psicologia”, e escrevendo “Histórias da Psicologia”, quando sequer existe o menor vislumbre de clareza e introvisão nos componentes e forças reais abrangidos pelo termo. Uma fieira de fatos em bruto, uma dose de intrigas e conjecturas opináticas, um pouco de classificação e generalização em campo meramente descritivo; o acentuado preconceito sobre termos estados mentais e nosso cérebro os condicionar; mas nem uma única lei no sentido em que os físicos nos expõem suas leis, nem uma única proposição a partir da qual possam ser deduzidas conseqüências causais. Não sabemos sequer os termos com os quais as leis elementares seriam formuladas, caso as tivéssemos. Isto não é uma ciência; no máximo, uma esperança de ciência... No momento atual, então, a psicologia se encontra nas mesmas condições que a física antes de Galileu e as leis do movimento, ou a química antes de Lavoisier e a noção de que em todas as reações, ocorre a conservação da massa. O Galileu e o Lavoisier da psicologia serão homens realmente famosos, quando surgirem, pois é certo que um dia isso acontecerá (468).

 

É discutível que nas décadas seguintes tenha ocorrido essa espécie de progresso; é controverso se, nos termos de Flournoy, a distância entre o ideal e o real foi efetivamente encurtada, ou se foram realizadas a contento as separações fundamentais entre a psicologia e os campos da teologia, filosofia, literatura, antropologias, biologia, medicina e neurologia. Pode-se questionar ainda se a psicologia, hoje, está realmente em melhor estudo do que em 1890, na época em que James a avalia como uma coleção de intrigas, conjecturas opináticas, preconceitos e assim por diante. Entretanto, a freqüência com que os psicólogos foram comparados (ou se compararam) a Galileu, Lavoisier, Darwin aumentou de forma dramática.

                Os comentários de Flournoy e James indicam as perspectivas e os problemas da “nova” psicologia. Desde o princípio, os psicólogos tentaram captar a forma e a formação de ciências já estabelecidas e prestigiadas, como a física e a química. Essa imitação – ou estimulação – assumiu vários formatos. Nesse esforço era central a concepção de que a psicologia também deveria ser uma disciplina unitária. Não obstante, muito depressa a proliferação de psicólogos de variados estilos demonstrou que havia muito pouco consenso quanto ao que poderiam ser considerados os métodos e objetivos da psicologia.

          Em 1900, o psicólogo berlinense William Stern fez um levantamento da nova psicologia. Afora a tendência empírica e o uso de métodos experimentais, ele pouco constatou em termos de traços comuns. Havia diversos laboratórios com pesquisadores trabalhando em problemas específicos, assim como muitos manuais, mas eram todas iniciativas marcadas por uma particularismo onipresente. Ele afirmou que o mapa psicológico daquele tempo era tão colorido e demarcado quanto o da Alemanha na época dos pequenos Estados, e que os psicólogos 

freqüentemente falam línguas diferentes, e os retratos da psique que eles esboçam são pintados com cores tão diversificadas e em pinceladas de teor e estilo tão acentuadamente diferentes que muitas vezes se torna difícil reconhecer a identidade do objeto representado (Stern, 1990b, 415).

 

          A psicologia se via diante de uma enormidade de questões fundamentais por resolver. Stern conclui: “Em suma, há muitas novas psicologia, mas ainda não a nova psicologia” (ibid). A cada ano, a desunião da psicologia aumentava exponencialemtne. É curioso pensar que imagens Stern escolheria hoje para ilustrar a situação da psicologia.

          A profusão de definições rivais da psicologia era de tal ordem que, em torno de 1905, o psicólogo francês Alfred Binet produziu uma tipologia das definições da psicologia (175). As variedades de psicologias já se haviam tornado um tema para reflexão para os psicólogos. Ele dizia que a multiplicidade de definições que haviam sido geradas apontava para sua própria insuficiência. O único elemento em comum a todas as deferentes definições era que, afinal, cada uma delas terminava designando pelo mesmo nome – psicologia – o que era considerado um novo campo do saber. A multiplicidade das definições de psicologia também acarretava uma multiplicicade correspondente de concepções da psicologia como ciência. Em última análise, o único denominador comum era a suposição geral de que, no campo da psicologia, cabia aos próprios psicólogos determinar os critérios para o status cientìfico de sua disciplina.

          A distância flagrante entre a desunião da psicologia e seu pretenso status de ciência unitária abriu caminho a uma tentativa grandiosa de retificação de tal contradição, mediante o estabelecimento de uma linguagem comum para a psicologia. Essa iniciativa ocorreu no congresso internacional de psicologia experimental, realizado em genebra em 1909, sob a presidência de Flournoy. Na circular preliminar, os organizadores do evento propunham que a psicologia atingisse agora um ponto em seu desenvolvimento, que era comum a todas as ciências, ou seja, o momento em que se tornava necessário unificar as concepções terminológicas e os procedimentos técnicos (ed. Claparède, 1910, 6). Foi dedicada uma sessão a esse fim. O psicólogo suiço Edouard Claparède abriu essa sessão observando que na psicologia reinava uma grande confusão quanto ao uso dos termos. Parte dessa confusão advinha das discórdias relativas à exist~encia, natureza e origem de determinados processos. Mas, segundo ele, a maior parte da confusão era causada pela ausência de uma nomenclatura adequada. Com isso, muitas divergências tidas como doutrinárias viram-se reduzidas a divergências de palavras. Para consertar essa situação, Claparède e o psicólogo americano James Mark Baldiwn apresentaram algumas sugestões sobre como os psicólogos poderiam chegar a um acordo quanto a uma liguagem comum, de pois de concordarem quanto a um conjunto de regras e procedimentos para a adoção de novos termos técnicos (ed. Claparède, 1910, 480-1). Depois disso, René Saussure argumentou que esse processo de unificação, em última análise, levaria à criação de uma linguagem interncaional. Contudo, já existia uma opção para isso, na linguagem de esperanto, que naquele congresso era reconhecida como língua oficial (ed. Claparède, 1910, 484). Na segunda metade do século XIX, haviam sido criadas numerosas línguas internacionais subsidiárias. O esperanto tinha sido apresentado pela primeira vez, em 1887, pelo russo Ledger Ludwik Zamenhof e chamara muita atenção. Auguste Forel, Rudolf Carnap e Bertrand Russell foram alguns dos que se interessaram muito por essa língua. Associações para a difusão do esperanto foram criadas nas maiores cidades, foram numerosas as conferências dedicadas ao tema, e as principais obras da literatura foram traduzidas para esse idioma. De Saussure defendeu a noção de que o esperanto poderia servir a todas as ciências, como língua internacional, e que, no caso da psicologia em especial, poderia formar a base de suas comparações e de sua unificação. Ele também acrescentou rapidamente que não antevia a substituição dos idiomas individuais, e sim, apenas, a criação de um meio complementar de intercompreensão. Simplesmente sabendo a própria língua materna e esperanto, todos seriam capazes de se comunicar com todos. Claparède, Baldwin e de Saussure estava propondo uma reforma da psicologia baseada numa retificação de sua linguagem.

          Seguiu-se um acalorado debate, no qual uma parte dos congressistas se expressou em esperanto. A discórdia mais pronunciada era a respeito de como essa unificação seria alcançada. Essas discussões revelam a profunda convicção em vigor naquele tempo de que a psicologia, enquanto ciência, deveria funcionar como os psicólogos imaginavam que as demais ciências funcionavam. Assim como a química, ela deveria ter sua própria tabela periódica. Esse projeto foi um fracasso total. A discussão já havia sido marcada por referências à torre de Babel. Longe de uma unificação da linguagem psicológica, o que aconteceu foi a proliferação incomensurável de dialetos, idiomas e idiotices lingüísticas. As relações entre as escolas e as linhas de psicologia tornaram-se tão aguerridas e belicosas que a mera menção de alguma colaboração para unificar a terminologia era motivo de riso, para nem se falar da crescente impossibilidade de se realizar uma tarefa. A ligação com o esperanto dá uma idéia da espécie de esperança que se mentava com respeito à psicologia: a esperança de que ela se tornasse uma linguagem internacional de apoio, permitindo um nível sem precedentes de comunicação e entendimento recíproco, entre os psicólogos e, em última aálise, com o público em geral. Será que o sonho de uma disciplina unitária da psicologia, contando com a cooperação e a colaboração de tantos colegas, era tão utópico quanto a promoção e a adoração do esperanto? Entre os próprios psicólogos tinham se tornado alta prioridade, além da glossolalia, suas linguagens particulares.

          O fato de o termo “psicologia” ser usado no singular não deve levar a pessoa a se equivocar e concluir que tenha sido realizada a contento a fundação de uma disciplina unitária. Ou que exista na “psicologia” uma essência capaz de abranger as  várias definições, metodologias, práticas, visões de mundo e instituições que aplicam essa mesma designação.7 Como Edmund Husserl notou, “a história da psicologia é, na realidade, somente uma história de crises” (1937, 203). A contínua referência à psicologia no singular, mesmo com tantas cisões e subdivisões em tendências e escolas, é um exemplo do que Kurt Danziger apropriadamente chamou de “unificação pela nomenclatura”. Como acabamos de ver, é o que Claparède e Baldwin haviam proposto explicitamente de forma programática. Embora o projeto tivesse sido um fracasso, o processo da unificação pela denominação teve um papel crítico na psicologia do século XX – não ao apresentar o ideal de um significado único à possibilidade de encobrir as incomensurabilidades e dissensões que se multiplicavam. Isso foi importante não só em âmbito conceitual, com a promoção de termos como aprendizagem estímulo-resposta ou inconsciente, por meio dos quais os psicólogos buscaram reunir a totalidade da experiência humana sob a égide de um só conceito chave universal, mas também na própria constituição do campo em si. Danziger sugere que um efeito do conceito da psicologia no singular for ele ter promovido a causa da profissionalização, ao implicar que as linhas de orientação prática estavam coligadas a uma disciplina cientìfica. Essa rede de vinculações, por sua parte, implicava que até as pesquisas mais abstrusas tinham um significado prático (1997, 84, 133). Além disso, ao conferir a essa disciplina um perfil próprio, por mais que se visse crivado por conflitos, o processo da unificação pela nomenclatura mascarou a anarquia epistemológica que prevalecia no seio da psicologia. O fracionamento crescente desse campo do saber foi, em parte, conseqüência do fato de a psicologia nunca ter sido uma coisa só. Em vez disso, seu nome passou a ser usado para designar um conglomerado de diversas práticas e conceitos, em diferentes domínios.

          Já nos anos 20 e 30, profissionais de respeito, que haviam participado da fundação da psicologia, expressavam graves dúvidas quanto ao progresso dessa ciência. Em 1921, Stanley Hall observou que havia um consenso cada vez maior entre “os competentes” de que a condição da psicologia era insatisfatória e que sua promessa inaugural não havia sido cumprida. Sobretudo, ele achava que o estado da psicologia provavelmente iria ser ainda pior (9). De acordo com Hall, 

Nunca na história das ciências aconteceu um estágio, em qualquer uma delas (com a possível exceção da sociologia; se é que esta pode ser chamada de ciência), no qual, ao lado de um alto volume de atividades, tenha havido tal diversidade de objetivos, tal tensão entre grupo e tamanha insistência da parte de um grupo em ignorar o que para outro círculo de estudiosos é seu assunto cardinal; por exemplo, os psicanalistas e os introspeccionistas (477).

 

          Na opinião de Hall, o que o mundo precisava era um “Platão psicológico”, para resolver essa situação.

          Um aspecto adicional do autoconceito da psicologia como ciência é a lenda de sua evolução, a crença axiomática de que – diferentemente da compreensão da condição humana praticada, por exemplo, pela literatura – a psicologia passa por um processo de desenvolvimento. Como conseqüência, é uma crença generalizada a de que estamos hoje bem mais bem equipados de teorias do que estivemos antes, em virtude de algum mal-esboçado processo de seleção natural. A lenda dessa evolução, que vigora sem o crivo de qualquer exame, conferiu um aspecto normativo ao uso dos conceitos psicológicos ocidentais contemporâneos, e levou a um distanciamento implícito das forma de entendimento psicológico presentes em outras culturas. Além disso, essa lenda obscurece a extensão na qual determinadas psicologias se tornaram dominantes por intermédio de eventos historicamente contingentes e, ainda, por intermédio de uma releitura da história.

          Torna-se necessário diferenciar aqui, um dos outros, os diversos projetos teórico para fundar uma psicologia científica, e as psicologias como formações sociais. Estas últimas designam as disciplinas, práticas e efeitos decorrentes. Os projetos para fundar a psicologia tiveram um importante papel na legitimação das formações sociais. Está claro que as dificuldades teóricas que permearam os projetos para uma psicologia não impediram o aparecimento e o “sucesso” das psicologias como formações sociais. Longe disso. Como Nikolas Rose observou, foi precisamente a ausência de uma homogeneidade e de um paradigma único que permitiu a ampla disseminação social das psicologias. Elas mesmas se prestaram a toda uma variedade de aplicações, numa diversidade de situações. Quaisquer que fossem os propósitos pretendidos, de lavagem cerebral a liberação sexual, havia uma psicologia oferecendo-se como algo idealmente adequado à tarefa (1900, 60).

          Os problemas levantados pelo”desejo de ciência” da psicologia não podem ser resolvidos, como tentaram fazer alguns, simplesmente abandonando-se a rubrica da ciência e declarando a psicologia como uma arte ou hermenêutica. A questão crítica não é certa disciplina intitular-se ciência ou não, mas sim a natureza de suas práticas e instituições. Tanto é assim que, hoje, podemos constatar nos estudos científicos que a questão da demarcação entre a suposta ciência e a suposta não-ciência é, cada vez mais, uma não-questão. Esse fato é conseqüência de uma constatação progressiva de que a ciência, com “C” maiúsculo, nunca existiu; em outras palavras, não existe uma essência atemporal no que se poderia rotular de método científico.9

          A significação do período compreendido entre as décadas de 1870 e 1930 é que as principais formas teóricas e disciplinares da psicologia e da psicoterapia modernas foram estabelecidas nessa época. A partir daí, tem-se registrado um maciço crescimento na produção da literatura psicológica, na população dos psicólogos e na dos consumidores do conhecimento psicológico. Os psicólogos têm demonstrado sua inventividade em localizar audiências e mercados sempre novos para seu saber. Tem-se registrado uma aceleração no ritmo de propagação das novas psicologias, sem sinais até agora de alguma desaceleração. Um dos títulos mais comuns em livros de psicologia, neste século, é “A nova psicologia de...”. Uma questão inteiramente à parte, contudo, é se a quantidade das verdadeiras inovações corresponde de fato à maciça expansão das psicologias.

          Ao mesmo tempo, apesar desse crescimento maciço, têm havido poucas mudanças nas formas disciplinares e nos métodos das psicologias e psicoterapias. A experimentação continua dominando a psicologia acadêmica, e o divã continua servindo de esteio à psicanálise. Ao nos deparar hoje com a psicologia, temos algumas opções a nossa disposição. Podemo tentar simplesmente ignorá-la, embora esteja se tornando cada vez mais difícil fazer isso. Ou, ao contrário, podemos desenvolver um ativo interesse por ela, instalar-nos em uma das escolas de psicologias já existentes, talvez adotar uma postura eclética, ou mesmo formar uma escola só nossa. A maioria das reações à psicologia cai numa dessas categorias. Entretanto, existe uma outra possibilidade: a de estudar o próprio processo de construção da psicologia, pois o alcance desse fenômeno na vida contemporânea vem cada vez mais pressionando por uma explicação.

          Uma grande dificuldade na avaliação da psicologia e psicoterapia do século XX é o fato de suas próprias concepções do sujeito humano terem, em parte, transformado esse mesmo sujeito que se dispõem a explicar. Suas categorais interpretativas vêm sendo adotadas em larga escala pelas comunidades e subculturas, e deram origem a novas formas de vida. Se existe uma coisa que a psicologia e a psicoterapia demonstraram, no século XX, é a maleabilidade dos indivíduos, que têm se mostrado dispostos a adotar os conceitos psicológicos para enxergar sua vida (e a dos outros) como uma malha de reflexos condicionados, ou um desejo de matar o próprio pai e dormir com a própria mãe, ou uma psicomaquia entre o seio bom e o seio mau, ou um desfile de alter egos dissociados, ou a busca da auto-realização através de experiências de êxtase, ou uma série de piruetas entre as dimensões simbólica, imaginária e real. Ainda está por ser realizado um estudo comparativo dessas variedades de experiências psicológicas. O que importa notar é que a formação das diferentes escolas de psicologia e psicoterapia, com suas linguagens e dialetos especiais, levou ao surgimento de arquipélagos de comunidades e subculturas rivais. Qualquer que seja o status das entidades, processos e estruturas propostos, está claro que estes se tornaram os pressupostos indiscutíveis de grupos cada vez maiores de pessoas. A “realidade psíquica” é, por excelência, o real fabricado.10 Isso não é senão levar um pouco mais adiante os comentários de William James sobre o estado de transe, quando dizia que sua “propriedade” mais notável era a capacidade de se apresentar de acordo com qualquer teoria proposta para explicá-lo.11

          Um aspecto distintivo da psicologia e da psicoterapia modernas é sua identidade peculiarmente histórica. A psicanálise contemporânea e a psicologia junguiana remontam-se a Freud e Jung de uma maneira muito diferente da de outras disciplinas. As linhagens históricas e as genealógicas têm funcionado como importante meio de legitimação e autorização para os profissionais do momento, enquanto as narrativas propriamente ditas seguem sem o devido exame. O historiador vê-se diante do espetáculo incomum de textos do final do século XIX e início do século XX sendo transpostos e traduzidos em novos contextos, e usados como base para várias práticas. Ao mesmo tempo, os nomes de Freud e Jung são invocados regularmente como máscaras para concepções e práticas que não têm uma conexão inerente ou necessária com o trabalho que ambos realizaram. Surgiu uma nova escolástica e os nomes desses dois autores são usados para assinar e ratificar uma série infindável de cheques teóricos em branco.

  

Jung sem Freud

           Tanto na percepção popular como no campo da história, o nome de Jung está tão intimamente vinculado ao de Freud que é difícil até mesmo se pensar em Jung sem Freud. Nas histórias da psiquiatria, psicologia e psicanálise, a psicologia de Jung é geralmente classificada como fruto da psicanálise, como uma dentre uma miríade de escolas neopsicanalíticas.12 Repetindo Henri Ellenberger, enquanto existe uma copiosa produção de obras críticas discutindo a “Lenda Freudiana”, nada comparável foi realizado até agora sobre o que pode ser denominado a “Lenda Junguiana”, segunda a qual Jung seria descrito como o rebelde herético da psicanálise que, percebendo as deficiências desse sistema, rompeu com ele para formar sua própria escola, baseando-swe em suas “descobertas”. Em geral, as avaliações de Jung têm adotado essa perspectiva, diferindo apenas em seu modo de apresentar a visão de seu afastamento em relação à psicanálise, ou sua expulsão do paraíso, ou seu retorno a um estado mais proximo da sanidade.

          Acompanhando a lógica dessa abordagem, seria de se supor que, sendo a psicologia de Jung supostamente uma decorrência da psicanálise, a erudição revisionista sobre as origens da psicanálise, secundada por um exame minucioso da ruptura entre Freud e Jung, deveria ser suficiente para explicar a genealogia da psicologia complexa. Desde a publicação, em 1974, das cartas trocadas entre ambos (“aquela maldita correspondência”, nos termos de Jung),13 essa vem sendo a perspectiva normalmente adotada. Em toda a vasta publicação de estudos sobre a relação Freud-Jung, os comentaristas têm em geral concordado a respeito de um aspecto: o período em questão assinalou uma época crucial no desenvolvimento institucional e teórico da psicanálise, e do que futuramente se iria tornar a psicologia complexa. Com poucas exceções, 14 esses trabalhos têm uniformemente sofrido de um enquadramento centrado em Freud, a partir do qual entendeu a gênese da psicologia complexa.

          Durante boa parte do século XX, foi tido como certo que Freud havia descoberto o inconsciente, que fora o primeiro a estudar cientificamente os sonhos e a sexualidade, e a revelar seus significados psicológicos para um público estarrecido, e que fora ele o inventor da psicoterapia moderna. Além disso, insistiram os estudiosos em afirmar que essas descobertas e inovações baseavam-se em sua auto-análise e na aálise de seus pacientes.

          Henri Ellenberger criou a expressão “lenda freudiana” e demonstrou que essas alegações tinham menos a ver com a realidade dos fatos históricos e mais com o modo como os próprios freudianos reescreveram a história a seu favor.15 A partir daí, essas alegações vêm há decadas sendo objeto de avaliação críticas. Os historiadores têm recontextualizado as “origens da psicanálise” no âmbito dos desenvolvimentos do século XIX registrados na neurologia, na psiquiatria, na biologia, na psicoterapia e nas áreas correlatas. Embora ainda haja muita controvérsia em torno dessas questões, fica claro, apesar de tudo, que a maior parte das alegações sobre a originalidade de Freud não tem fundamento. Ao mesmo tempo, a posição de Jung como uma derivação da psicanálise não foi ainda questionada a sério. A adequação de uma visão centrada em Freud para explicar o surgimento da psicologia complexa é assumida como evidente por si. Isso significa nada menos que uma completa distorção da psocição de Jung e de sua psicologia complexa dentro da história intelectual do século XX.16

          A lenda freudiana tem mistificado a formação da psicoterapia moderna e das psicologias do inconsciente. Na realidade, os termos “Freud” e “Jung” terminaram inclusive tornando-se signos sistêmicos que, inadvertidamente, se referem a várias décadas críticas de debates, no âmbito do moderno pensamento europeu. Enquanto isso, muitos protagonistas e aspectos decisivos foram completamente esquecidos, o que levou à curiosa situação atual em que somos confrontados com “respostas” sem as “perguntas” a que, supostamente, estariam ligadas. Por sua vez, essas respostas vêm sendo consideradas fórmulas para aplicação imediata, descobertas em si mesmas, cuja função e formato originais se perderam com o tempo.

 

 Psicologia complexa

           Como se deveria, então, estudar a psicologia de Jung? Para responder a essa indagação, é preciso considerar primeiro a formação da psicologia moderna e também esclarecer o que ele pretendia que fossea sua psicologia. A disciplina chamada atualmente psicologia junguiana, tida como uma escola de psicoterapia que se diz descender de Jung, obscurece a questão do que era exatamente a meta original de Jung, pois se presume em geral que seja o que constitui a disciplina que leva seu nome. Aqui é importante não confundir a profissão atual com a disciplina que ele mesmo tentou fundar.17 Para início de conversa, não utiliza sequer a designação que ele havia escolhido.

          Embora inicialmente Jung tivesse usado a expressão “psicologia analítica” para designar sua psicologia, na década de 1930 ele a rebatizou de “psicologia complexa”. No volume comemorativo pelo sexagésimo aniversário de Jung, O significado cultural da psicologia complexa, Toni Wolff observou que, nos últimos tempos, ele passara a se referir a sua psicologia como psicologia complexa, especialmente ao abordá-la do ponto de vista teórico. Em contrapartida, ela comentou que a expressão “psicologia analítica” era apropriada quando aplicada aos métodos práticos da análise psicológica (1936, 7). Dessa forma, a mudança terminológica não era só estilística; assinalava também uma mudença de ênfase, da análise prática para a psicologia geral. Em 1934, Jung escreveu: “Psicologia complexa significa a psicologia das ‘complexidades’, ou seja, dos sistemas psíquicos complexos em contraposição a fatores relativamente elementares”.18 C. A. Meier sugeriu que, comparando-se com a psicologia “analítica”, a psicologia “dos complexos” tinha o valor de ser menos restrita às associações patológicas do consultório (1984,xi). Entretanto, com raras exceções, essa expressão não foi adotada pelos seguidores de Jung. Uma das razões para essa atitude foi ela nunca ter sido adotada na comunidade de língua inglesa, que se tornou o setor mais influente para o desenvolvimento da psicologia junguiana, depois da Segunda Guerra Mundial.19

          Essa surpreendente desconsideração pelo nome escolhido por Jung para sua disciplina é, em si, um indício da separação entre Jung e a psicologia junguiana. Além disso, também indica uma mudança crucial de ênfase para uma direção oposta, da psicologia geral para a análise prática. Atualmente, a psicologia analítica é em grande medida uma disciplina psicoterapêutica profissional, envolvida numa relação problemática com o amplo público leigo leitor de Jung. A tentativa que ele fez de estabelecer uma psicologia geral ficou em segundo plano, embora continue viva nos bastidores, desempenhando seu legítimo papel. E, diversas oportunidade, Jung também se expressou de forma muito crítica a respeito de seus seguidores, como por exemplo nesta afirmação: “São muitos os alunos que fabricaram bobagens de toda a espécie a partir do que tiraram de mim”.20

          A história da psicologia analítica consiste em como a linguagem que Jung desenvolveu foi reformulada e utilizada para fins variados, pelos que o cercavam. Esse processo de re-significação foi central ao desenvolvimento dessa disciplina. Em muitos casos, os termos de Jung chegaram a significar coisas radicalmente diferentes. Nesse processo, muitas questões e fenômenos com que ele estava trabalhando – como os que foram retomados nesse volume – foram simplesmente esquecidos ou deixados de lado. Ocorreu uma proliferação de silenciosas releituras que, sem qualquer unicidade, se propõem como representações das teorias de Jung, ou suas fiéis elaborações. Em muitos casos, seus conceitos inéditos são simplesmente usados como sinalizadores de uma identidade profissional. Foram removidos das questões e contextos nos quais foram originalmente empregados. Por conseqüência, tornaram-se revestidos de uma extrema plasticidade. Com isso, abriu-se um território ilimitado para reinvenções de Jung. Continua-se falando no singular da “psicologia analítica”. Dentro de uma perspectiva descritiva, seria mais preciso, hoje, falar de um arquipélago de psicologias junguianas díspares, que basicamente pouco têm a ver umas com as outras ou, inclusive, até com Jung. Tornou-se um anacronismo continuar fazendo referência à psicologia junguiana no singular – mesmo que a subdividindo em escolas.

          Para início de conversa, Jung não tinha a intenção de formar uma escola particular de psicoterapia, mas, de acordo com as concepções unitárias da psicologia do final do século XIX, pretendia esboçar uma psicologia geral. Em 1934, fundou um Centro de Psicologia no Eidgeössische Technische Hochschule (Instituto Federal de Tecnologia Suíça), em Zurique, cujo propósito inicial era fundar um ciclo de palestras a serem proferidas numa universidade suíça. A esse respeito, as especulações do próprio Jung são reveladoras: 

O tratamento da psicologia deveria, no geral, ser caracterizado pelo princípio da universidade. Não deveria ser proposta nenhuma outra teoria ou questão especial; a psicologia deveria ser ensinada em seus aspectos biológicos, etnológicos, médicos, filosóficos, culturais-históricos e religiosos.21

 

A proposta, continuava ele, era libertar o ensinamento da alma humana da “constrição de departamentos”.

          Jung afirmava que a psicologia constituía a disciplina científica fundamental, sobre a qual as outras disciplinas deveriam, daí em diante, basear-se. Na opinião de Jung, era a única disciplina capaz de apreender o fator subjetivo que sustentam as demais ciências. O estabelecimento de uma psicologia complexa permitiria a reformulação das humanidades e revitalizaria as religiões contemporâneas. A história da psicologia junguiana, em parte, tem consistido numa diminuição radical e inadvertida das propostas de Jung.

          Quando se considera a tentativa que os psicólogos realizam de separa sua disciplina das disciplinas pré-existentes, torna-se evidente que não estamos lidando apenas com episódios isolados, como tem sido convencionalmente descrito nas histórias da psicologia e nos capítulos obrigatórios de introdução, nos manuais da área. A realidade é que estamos diante de uma infinidade de tentativas de concretizar essas propostas. Os modos como essas interfaces disciplinares forma negociadas deram origem às formas específicas que essas distintas psicologias assumiram. As separações constitutivas entre a psicologia e as disciplinas pré-existentes não ocorreram num só lugar e num único momento. Essa afirmação é verdadeira mesmo quando se leva em conta o trabalho de um único teórico, como Jung. Apesar da tendência dominante em praticamente todas as apresentações de sua obra, esta não seguiu uma evolução cronológica linear e direta. As apresentações comuns sobre esse tema, na grande maioria das vezes, mais obscurecem do que revelam o processo. Na realidade, Jung chegou inclusive a ponto de considerar expressamente essa falta de linearidade como marca registrada de seu trabalho. Durante as esntrevistas que concedeu a Aniela Jaffé par Memórias, Sonhos, Reflexões, ele disse: 

Não sei se têm valor para você as coisas que eu lhe disse, e lamento ficar repetindo as coisas. Também fiz isso em meus livros, e sempre considero certas coisas de novo, e sempre por um novo ângulo. Por assim dizer, meu pensamento é circular. Esse é o método que me convém. De certa maneira, é uma nova forma de peripatética.22 

 

          Quando lemos o trabalho e a correspondência de Jung, encontramos dois modos distintos de pensamento e apresentação. No primeiro, teorias específicas são propostas, estabelecidas, e tidas como comprovadas. Este modo, intensamente acentuado na primeira geração de analistas junguianos e em numerosos trabalhos introdutórios e explanatórios, é o mais bem conhecido.23 Assim, “como todos sabem”, ele apresentou sua teoria dos complexos, dos tipos psicológicos e, mais notavelmente, dos arquétipos do inconsciente coletivo.24 O segundo modo de pensamento de Jung consiste num questionamento incessante das condições de possibilidade da psicologia. Para citar dois casos deste segundo modo, em 1929 ele comparou o estado vigente na psicologia ao da filosofia natural da Idade Média, na qual só existiam opiniões sobre fatos desconhecidos.25 Ele escreveu, em 1951: 

Nossa experiência psicológica ainda é muito jovem e pouco extensa para nos permitir teorias gerais. Por algum tempo ainda, o pesquisador precisará de uma quantidade de fatos capazes de esclarecer a essência da alma, antes de sequer sermos capazes de pensar em fazer propostas universalmente válidas.26

 

          Quando consideramos as restrições de Jung à possibilidade da psicologia e suas declarações sobre o status prematuro das teorias gerais da psicologia, é importante compreender que ele está incluindo também sua obra no escopo dessa avaliação. E é justamente esse modo de seu pensamento que tende a ser excluído. Esses dois modos se entrelaçam ao longo de toda a sua obra, e a interação entre ambos é um tema presente em toda a extensão do presente volume.

          Para muitas pessoas, o nome Jung é sinônimo de Arquétipos e de Inconsciente Coletivo. Esses conceitos são sua marca registrada e, em geral, despertam repúdio imediato ou aceitação instantânea, na qualidade de um caso aberto ou fechado. Quer se aceitem ou se rejeitem tais conceitos, assume-se em geral que aquilo que designam pode ser considerado suficientemente conhecido. As razões para isso não são difíceis de se localizar. O próprio Jung adiantou um sem-número de definições. Na esteira dessa atitude, não foram poucas as obras explanatórias, dedicadas a estipular o conteúdo desses termos. Por fim, praticamente não existe um só trabalho de inspiração junguiana, neo-junguiana ou pós-junguiana que não leve a marca desse selo.

          É difícil encontrar um autor cujos trabalhos reunidos ocupem mais de vinte volumes, seja por economia de expressão ou parcimônia lingüística. Entretanto, a respeito de importantes aspectos, é justamente isso que acontece com Jung. Os conceitos que ele criou continham muitas idéias diferentes que buscavam resolver alguns debates relevantes na filosofia, na psicologia, na sociologia, na biologia, na antropologia, na religião comparada, e em outros campos, permitindo a formação de uma disciplina distinta da psicologia. É precisamente essa operação combinatória que dá à psicologia de Jung seu estilo e substância distintivos. Contudo, a utilização dos mesmos termos para cobrir uma gama tão ampla de assuntos também gera a possibilidade de confusões conceituais, como pode ser amplamente atestar qualquer levantamento sobre a psicologia analítica. Isso sugere que certa cautela é bem-vinda quando se presume que esses termos podem até ser já suficientemente conhecidos, ou mesmo apropriadamente avaliados. Em vez disso, a mesma cautela recomenda que sejam reconstituídos os debates nos quais Jung se alimentou e que levaram à formulação desses termos; em especial, como e por que ele enfim usou os mesmos termos como solução para questões distintas, e o significado dessa operação combinatória. Para entender profundamente o sentido desses conceitos inéditos, é indispensável compreender as questões e os debates em que ele estava envolvido, e aos quais ofereceu suas soluções.

          O estudo da formação da psicologia complexa pode ser entendido como um histórico de caso dentro da história mais ampla da formação da psicologia e da psicoterapia modernas. Entretanto, isso não é o mesmo que sugerir que esta deva ser considerada uma oportunidade paradigmática. Pois o que está precisamente em jogo, neste momento, é a impossibilidade de qualquer encapsulamento singular da formação da psicologia e da psicoterapia modernas.27

 

 A nova enciclopédia 

          Durante séculos, as pessoas tentarm redigir compilações representativas de todo o conhecimento humano, na forma de enciclopédias. Samuel Johnson definia uma enciclopédia como “o círculo das ciências, a roda do aprendizado”, citando Glanvill, “Toda ciência recorre a todo o resto, e não podemos chegar a qualquer uma delas em separado sem a enciclopédia” (1755,166).

          Para Jung, a psicologia era um empreendimento enciclopédico. O fato de ele ser um homem de conhecimentos enciclopédicos tem sido comentado com freqüência. Sua biblioteca, ainda intacta em sua casa em Küsnacht, apresenta um cenário panorâmico e enciclopédico do aprendizado humano, sem paralelos na psicologia moderna. O último grande trabalho individual de fôlego de Jung, Mysterium Coniunctionis (1955-1956), contém mais de 2.300 notas de rodapé. Mas o que não tem sido suficientemente comentado é o fato de sua erudição ser um fator constitutivo de sua psicologia, e ter contribuído de maneira significativa para o formato que esta adotou. Para Jung, a psicologia era a disciplina capaz de unir o círculo das ciências.

          Na opinião de Jung, não havia qualquer campo da iniciativa humana que fosso irrelevante para a psicologia: como em todas as questões humanas, a psicologia estudava o ato e o agente. Jung assumiu como seu dever a máxima de Terêncio, “nada que seja humano é alheio a mim”.28 Conseqüentemente, não havia uma clara delimitação quanto ao território da psicologia. A amplitude dos assuntos que ele discutiu no curso de sua obra corrobora sua declaração.

          Dentro da história dos projetos de enciclopédias, o fator distintivo sobre o de Jung foi ele ter tentado fundamentar outras disciplinas e conhecimentos por meio da psicologia. Essa concepção tornara-se possível diante do nascimento das modernas ciências humanas, desde o final do século XVIII até o final do século XIX. Como é de se esperar, o aspecto enciclopédico da iniciativa de Jung a distingue de muitas outras psicologias modernas. É o que lhe confere seu selo distintivo. O que não é o mesmo que dizer que sua psicologia fosse sistemática. Na realidade, ele afirmava que a impossibilidade de encapsular a alma dentro de um sistema era ditada pela própria natureza da alma, e há muitas afirmações sobre como ele repudiava abertamente qualquer vontade de criar um sistema.29 Seu modo de tentar desenvolver uma psicologia era contrário às especializações autônomas que em geral estavam na moda em sua época.

          O trabalho que marcou a inauguração de seu projeto enciclopédico foi Transformações e Símbolos da Libido. Mas isso não é o mesmo que dizer que seu trabalho anterior tivesse sido alheio a essa abordagem. Em 1913, em carta aos editores da recém-fundada Psychoanalytic Review, ele observou: 

Está além dos poderes de uma pessoa, mais especialmente dos médicos, de dominar o conhecimento dos múltiplos domínios das ciências mentais que deveriam lançar luz sobre a anatomia comparada da mente... Precisamos não só do trabalho dos psicólogos médico, mas também do esforço de fil´[ologos, historiadores, arqueólogos, mitólogos, estudiosos do folclore, etnólogos, filósofos, teólogso, pedagogos e biólogos.30

 

          Isto era psicologia em grande escala. A nova enciclopédia psicológica era um empreendimento interdisciplinar que exigia realinhamentos complexos das disciplinas existentes, e a demarcação de um novo território dentro de uma área já ocupada. A realização de tal iniciativa demandava nada menos do que a reforma de toda a Academia. O modo como ele resolveu embarcar nessa empreitada é indicado numa carta que escreveu em 1940, para Ruth Ananda Anshen, que o havia convidado a colaborar num grande projeto. Ele comentava que, por meio do trabalho que havia feito com vistas a uma síntese das ciências, tomara consciência do quanto era difícil obter cooperação, dado o nível vigente das especializações. E depois acrescenta: 

Sempre me pareceu que um trabalho desses não deveria ser tentado de cima para baixo, ou seja, especialistas falando de maneira geral sobre cooperação. Ao contrário, o que parece que devia acontecer era o processo começar de baixo, por meio de uma colaboração científica concreta, no âmbito dos detalhes. Dessa maneira, poderíamos ver com mais facilidade os méritos da cooperação. Você pode ver claramente o que quero dizer quando estuda um de meus livros.31

 

          Jung dava uma grande importância às colaborações interdisciplinares que havia estabelecido com Richard Wilhelm, Wilhelm Hauer, Heinrich Zimmer, Karl Kerényi, Wolfgang Pauli e Victor White, respectivamente nos campos da sinologia, da indulogia, da mitologia, da microfísica e da teologia.

          Um projeto que Jung tentou realizar nos anos 30 serve bem de ilustração para sua concepção enciclopédica da psicologia. Daniel Brody, editor da Rhein Verlag, o havia convidado para editar um novo jornal, que se chamaria Weltanschauung.

          Alguns anos antes, Jung havia publicado um artigo que explorava as relações entre a psicologia anaítica e uma Weltanschauung [visão de mundo]. De Wilhelm Dilthey a Karl Jaspers, o tópico das visões de mundo era amplamente discutido na filosofia alemã.32 Para Jung, a visão de mundo designava não só uma concepção do mundo, mas também a maneira como cada pessoa via o mundo.33 Ele dizia que nos últimos 150 anos tinham sido apresentadas infindáveis visões de mundo, e que a noção básica de uma visão de mundo, por esse motivo, havia caído em descrédito. O problema de todas as visões de mundo anteriores tinha sido o fato de apresentarem uma verdade objetivamente válida. Diante da presente situação, renascera o clamor por uma nova visão de mundo e algumas tentativas mal-sucedidas para propor algo segundo os velhos moldes tinham-se seguido, como por exemplo a teosofia e a antroposofia. A nova visão de mundo teria de “abandonar a superstição de possuir uma validade objetiva, e admitir que só é uma imagem pintada com o intuito de agradar nossas almas, não um nome mágico com que se possam designar as coisas”.34 Para Jung, a psicologia analítica era uma ciência, não uma visão de mundo. Mas tinha um papel especial a desempenhar na formação de uma nova visão de mundo. Sua contribuição consistia na importância do reconhecimento dos conteúdos inconscientes, o que permitiria a construção de uma visão de mundo relativista, com uma concepção não mais considerada absoluta. É verdade que, após Jung, sua ´sicologia deu origem a um sem-número de visões de mundo. O que ele teria a dizer sobre elas é totalmente outra questão.

          O objetivo do periódico Weltanschauung era produzir uma síntese das ciências. Jung procurou vários estudiosos para verificar se tinham interesse em colaborar com a publicação. Para Zimmer, ele escreveu nos seguintes termos: 

Tenho pensado que, diante da tremenda fragmentação das ciências hoje, talvez fizéssemos bem em ter um veículo com o qual pescar no oceano das ciências especializadas todos aqueles fatos e conhecimentos que são de interesse geral, tornando-os enão disponíveis para o público instruído. A pessoa que atualmente quer achar um caminho na vida tem de esquadrinhar dezenas de periódico que não tem condições de assinar, e folhear milhares de livros, desperdiçando uma vasta quantidade de tempo, até enfim chegar a algo que considere proveitoso.35

 

          Ambiciosamente, o jornal propunha-se a fazer frente a tal situação: “Deve ser um instrumento de sinopses e sínteses, um antídoto contra a tendência atomizadora do especialismo, que é um dos maiores obstáculos ao desenvolvimento espiritual” (Cartas, 1, 107). Essa publicação seria endereçada ao leitor em geral, e um grupo de especialistas selecionaria o material capaz de despertar o interesse geral e transmitir seu conteúdo de maneira acessível. Para Hauer, ele explicou como o jornal funcionaria. Os especialistas receberiam questões enviadas pelo comitê editorial. Preparariam então ensaios, e Jung e sua escola forneceriam o material psicológico, que formaria “uma síntese destinada a permitir a compreensão do significado vivo dos fatos e idéias, reunidos em todos os tempos e lugares”.36 Para Jolande Jacobi, Jung explicou que o ponto de vista psicológico só pretendia servir de centro; ele mesmo não tinha a menor intenção de espremer o mundo para que coubesse numa camisa-de-força psicológica. Informou-a de que havia obtido respostas positivas de Hauer, Zimmer e Wolfgang Pauli. Estava pensando em convidar Erwin Rousselle para a área de estudos budistas, Leopold Ziegler para comentar sobre filosofia, seu aluno Wolfgang Kranefeldt para falr de psicoterapia e Hermann Broch para a literatura moderna. E continuava procurando colaboradores para “biologia, astrofísica, geologia, fisiologia, estudos egípcios, assírio-babilônicos e arqueologia americana, e para antigüidade (mistérios!)”.37 Esses comentários indicam a enormidade do escopo do empreendimento de Jung. O projeto não saiu do papel e, pouco tempo depois, ele assumiu o comando editorial do Zentralblaufür Psychotherapie, com conseqüências fatais.

          Embora esse projeto tivesse naufragado, Jung buscou outros meios de alcançar os mesmos fins. Em 1933, Olga Froebe-Kapteyn fundou o encontrou anual de Eranos, em Ascona, para o qual era convidado um grupo de estudiosos internacionais para falarem sobre um determinado tema. As conferências tinham como tópico central a história da religião e da cultura, enfatizando em particular as relações entre o Oriente e o Ocidente. Jung serviu como consultor para Froebe-Kapteyn, indicando temas e conferências, ao mesmo tempo em que cuidava para que Eranos não se tornasse simplesmente um veículo de divulgação de sua escola.38

          Em 1938, propuseram o projeto de publicar uma seleção dessas palestras em inglês. Jung escreveu o prefácio e, em seu texto, novamente retomou o tema dos efeitos deletérios da especialização. Segundo suas afirmações, essa conduta havia promovido o estreitamento dos horizontes e uma endogamia intelectual: 

A enorme extensão do conhecimento excede a capacidade de um único cérebro que sozinho conseguisse compor uma síntese envolvendo inúmeras partes, provenientes de todos os departamentos. Até mesmo o maior dos gênios, equipado com uma memória poderosamente fabulosa, seria forçado a permanecer um diletante incompetente quanto a alguns aspectos importantes.39

 

          Para neutralizar essa situação e apresentar uma “imagem completa de nosso mundo”, informações de todos os ramos do conhecimento precisavam ser coligadas. Essa coligação poderia ser tentada localizando-se uma plataforma ou idéia que fosse comum a muitas formas de conhecimento. Era justamente isso o que os encontros de Eranos se propunham realizar.

          Com base no que expusemos antes, fica claro que Jung concebia como a função cultural de sua psicologia complexa contrabalançar a fragmentação das ciências e oferecer alicerces para uma síntese de todo o conhecimento. Essa tentativa de neutralizar a crecente fragmentação e especialização das disciplinas era uma tarefa monumental e, em última instância, inexequível. Por volta do final da vida, ao fazer uma avaliação de toda a sua obra, Jung comentou com franqueza: 

Sou o mais amaldiçoado diletante que já viveu. Quis alcançar algo com minha ciência e depois me vi lançado neste mar de lava, tendo de classificar todas as coisas. É por isso que uso o termo diletantismo: vivo de empréstimos, empresto comumente o conhecimento dos outros.40

 

          Essa declaração foi feita durante as entrevistas que Jung concedeu a sua secretária, Aniela Jaffé, e usadas para Memórias, Sonhos, Reflexões, e não surpreende que tenha sido omitida por ser tão distante da imagem predominante de Jung. O que vem a seguir é, em parte, uma explicação desse diletantismo.

 

 As obras incompletas de Jung 

          Até o presente momento, as principais fontes para se estudar Jung têm sido as Obras Completas; Memórias Sonhos, Reflexões; A correspondência entre Freud e Jung; e C. G. Jung Letters [Cartas de C. G. Jung]. Até aqui, essa coleção de fontes teve conseqüências insuspeitas para como seu trabalho vem sendo entendido. Até agora, os artigos sobre Jung têm sido tolhidos por fontes textuais incompletas ou não confiáveis. Quando recebeu de Jack Barrett, da Bollingen Foundation, um exemplar do primeiro volume das Obras Completas a ser publicado, Jung se queixou de que parecia um caixão.41 A equipe que produziu as Obras Completas realizou um grande trabablho, mas que de modo algum inclui tudo o que ele publicou em vida, e há uma quantidade suficiente de manuscritos inéditos para ocupar pelo menos mais uma meia dúzia de volumes. Além disso, a reprodução dos textos de Jung e o aparato editorial não estão isentos de erros, e a tradução para o inglês deixa muito a desejar.

          Em 1973 e 1975, foi publicada uma seleção das cartas de Jung, editadas por Gerhard Adler, em colaboração com Aniela Jaffé. Gerhard Adler afirmou que, das 1.600 cartas escritas por Jung entre 1906 e 1961, tinham sido selecionadas mais de 1.000. Isso dá a impressão de que, aproximadamente, dois terços das cartas de Jung que sobreviveram foram publicadas nesse volume. Este é um sério equívoco. Nos documentos de Jung, na ETH de Zurique, há cerca de 30 mil cartas; além disso, há muitas cartas espalhadas em arquivos públicos e particulares do mundo todo. É seguro dizer que menos de 10% de sua correspondência está publicada. Este estudo se baseia no primeiro estudo abrangente desse corpo inédito de manuscritos e cartas. Ver www.philemonfoundation.org .

          Um problema especial foi colocado pelo Memórias, Sonhos, Reflexões, que tem sido considerado a autobiografia de Jung e, assim, a fonte canônica de informações relativas a sua vida. A venda desse livro superou em muito a qualquer outro trabalho de Jung. Até a realização das pesquisas de Alan Elms e a de minha própria autoria, não se haviam levantado dúvidas a respeito de sua autenticidade e confiabilidade.42 Como esse texto continua eroneamente sendo considerado a autobiografia de Jung, é necessário esclarecer rapidamente sua gênese.

          O editor Kurt Wolff vinha há anos tentando inutulmente convencer Jung a escrever uma autobiografia. No verão de 1956, ele sugeriu a Jung um novo projeto, na mesma linha editorial da obra de Eckermann, Conversations with Goethe [Conversando com Goethe, N. do T.]. Um primeiro título provisório seria Carl Gustav Jung’s Improvised Memories [Memórias Improvisadas de C. G. Jung]. Seria todo apresentado na primeira pessoa. Jolande Jacobi propôs que Aniela Jaffé trabalhasse nesse livro, porque, na qualidade de secretária de Jung, seria mais fácil para ela fazer as perguntas sobre a vida dele, nas horas vagas.

          Jaffé então começou a realizar uma série de entrevistas regulares com Jung, no decorrer das quais ele falou sobre uma ampla variedade de assuntos. Contando com o íntimo envolvimento de Kurt Wolff, Jaffé selecionou o material dessas entrevistas e o organizou em temas. Depois, estes foram dispostos numa seqüência de capítulos aproximadamente cronológicos.

          Durante esse processo, Jung escreveu um manuscrito no início de 1958, intitulado “Sobre as primeiras experiências de minha vida”. Com autorização de Jung, Jaffé incorporou esse manuscrito ao Memórias. O pedido que ele fez de que esse ensaio ficasse claramente demarcado em relação ao volume como um todo não foi atendido. Algumas passagens foram deletadas ou anexadas ao texto geral por Jaffé, e outras mudanças também foram feitas por pessoas que trabalhavam nesse projeto. Por conseguinte, existem diferenças radicais entre o manuscrito de Jung e a versão publicada.43 Jaffé incorporou também excertos de versões de outros manuscritos de Jung até então não publicados, tais como material de seu seminário de 1925, e relatos de algumas de suas viagens. Por fim, Jung contribuiu com um capítulo intitulado “pensamentos finais”. De acordo com Richard Hull, partes desse capítulo foram reescritas por Jaffé.

          Houve muitos desentendimentos entre as partes envolvidas, durante a composição do trabalho, com respeito ao que o livro deveria conter, quanto a sua estrutura, a dose de contribuições relativas de Jung e Jaffé, o título, e a questão da autoria. Estava claro para os editores que uma autobiografia de Jung – ou algo que pudesse ser levado a parecer o mais possível com uma autobiografia – tinha muito mais possibilidade de venda do que uma biografia escrita pela ainda desconhecida Aniela Jaffé. Também havia embaraços legais envolvendo os editores, a respeito de a quem pertenciam os direitos do livro.

          Em 1960, foi assinada uma resolução entre Jung, Jaffé e o comitê editorial das Obras Completas, contendo a seguinte declaração: 

C. G. Jung sempre afirmou que não considerava este livro como de sua própria lavra, mas expressamente como livroescrito pela Sra. Jaffé. Os capítulos escritos por C. G. Jung deveriam ser considerados como sua contribuição ao trabalho da Sra. Jaffé. Este livro deverá ser publicado no nome da Sra. Jaffé e não no de C. G. Jung porque não representa uma autobiografia composta por C. G. Jung (Shamdasani, 1995, 132-133). Ver também Shamdasani, 2005.

 

          A atitude de Jung com respeito ao texto flutuava. Após ter o primeiro manuscrito, ele criticou como Aniela Jaffé tinha lidado com o texto, queixando-se de “adulterações” (ibid, 130). Jung nunca viu ou aprovou o manuscrito final, e os manuscritos que examinou sofreram, após sua morte, extensas interferências editoriais.44

          A publicação da Correspondência entre Freud e Jung, em 1974, assinalou o primeiro trabalho depois da morte de Jung a ser editado segundo padrões de rigor acadêmico, e prestou um grande serviço à história das origens do movimento psicanalítico. No entanto, como até agora só foi publicada uma parcela muito reduzida da vasta correspondência de Jung com outros personagens, além do fato de que o lendário Livro Vermelho de Jung continua inédito, ambas as circunstâncias concorreram para o fortalecimento de uma equivocada perspectiva centrada em Freud para articular a origem da obra junguiana.

          De 1912 em diante, Jung se envolveu num processo de auto-experimentação que ele designou como “confronto com o inconsciente”, que consistia principalmente em provocar em si mesmo uma extensa série de fantasias, enquanto estava acordado. Posteriormente, ele chamou esse método de “imaginação ativa”. Baseando-se nesse material, ele compôs um trabalho de formato literário e pictórico chamado de Livro Vermelho, que ilustrou com as pinturas que ele mesmo produziu. Durante décadas, o Livro Vermelho não esteve disponível para estudos, e com isso tornou-se alvo de boatos, lendas e muitos relatos quase míticos. Uma maneira melhor de descrevê-lo é dizer que se trata de um trabalho literário psicologia. Jung afirmava que ele era o alicerce de seu futuro trabalho. Em maio de 2000, os herdeiros de C. G. Jung decidiram liberar esse trabalho para publicação, para que pudesse torna-se acessível ao público, pela primeira vez, numa edição rigorosa e definitiva, a ser preparada por este autor. Meu trabalho com o Livro Vermelho, iniciado em 1996, transformou meu entendimento da obra de Jung, e permitiu-me compreender sua gênese. Embora não seja explicitamente citado no presente volume, foi de importância crítica para sua formação.

          Atualmente existe um forte apetite por trabalhos autobiográficos. As vidas de Freud e Jung vendem muito mais do que os trabalhos desses dois autores. Após cem anos de psicanálise, nos acostumamos a considerar a biografia como a chave para o entendimento do trabalho de uma pessoa. Lamentavelmente, todas as biografia de Jung até agora deixam muito a desejar. O próprio Jung dizia o seguinte, a respeito da perspectiva de aparecerem biografias sobre seu trabalho: “A menos que o desenvolvimento do pensamento dele tenha sido um fator central de sua biografia, esta não seria mais do que uma mera série de incidentes, como escrever a vida de Kant sem conhecer a obra dele”.45 Esse comentário é uam hábil alusão às deficiências dos muitos trabalhos já escritos sobre Jung, e, com alta probabilidade, de tantos outros ainda por surgir. Escrevendo ao término de um projeto biográfico de Lucy Heyer, Jung expressou sua aversão pelas biografias, e sua inadequação pessoal como tema para um trabalho desse teor: 

Sou muito pouco capaz de continuar essa espécie esquisita de brincadeiras com biografias. Você poderia ter-me pedido que ajudasse aquela bobagem da Empresa de Rádio Americana, e eu me produziria como um filme. Não vou à igreja aos domingos com um missal debaixo do braço, nem uso avental branco, nem construo hospitais, ou me sento ao órgão para tocar, Desse modo, não sirvo de forragem para as necessidades sentimentais normais do público em geral. E com minha biografia será a mesma coisa. Simplesmente, não existe nada de interessante ali.46

 

          Quando foi homenageado com um prêmio literário pela cidade de Zurique, em 1932, ele refletiu sobre o crescente reconhecimento que seu trabalho estava recebendo: 

Com este “eu” como persona pública, não quero naturalmente significar nenhum indivíduo humano, mas simplesmente meu desempenho mental – uma idéia, cujo porta-voz sou eu. Essa idéia é minha visão da psicologia, meu reconhecimento e confissõe sindividuais [Erkennen und Bekennem] quanto a aspectos da alma humana.47

 

          Um grande número de trabalhos apresentou ambas as dimensões como se fossem uma só. Embora o valor e o interesse dos trabalhos biográfico não precise ser justificado, ocorrem problemas críticos se o trabalho em questão for entendido de forma imprópria e, como aconteceu com Jung, se não existe um corpo extenso de estudos confiáveis e bem-fundamentados aos quais recorrer. Sendo assim, o presente livro constitui um trabalho preliminar essencial a qualquer biografia consistente sobre Jung.

  

Cubismo histórico

           Este livro foi concebido como um retrato cubista, e se vale de uma abordagem multifacetada a um trabalho multifacetado. Um encorajamento decisivo para sua forma e estrutura também foi decorrente de alguns trabalhos de Ornette Coleman e John Coltrane, e dos escritos de Fernando Pessoa. A reunião final do material que apresenta teve a ajuda de algumas composições de Carla Bley e Charlie Haden’s, e sua Liberation Music Orchestra [Orquestra para a Libertação da Música. N. do T.].48 É um livro que tem mais de um começo e mais de um fim. Em vez de apresentar um contexto supradeterminante, e um desenvolvimento teleológico capaz de ser lido da frente para trás a partir de uma perspectiva olímpica, este trabalho propõe cronologias que se sobrepõem, facetas que se entrecruzam e diversos ângulos. Portanto, não foi pressuposta nenhuma coerência (ou incoerência) soberana para o trabalho de Jung. Conseqüentemente, os mesmos textos e figuras são discutidos em amis de um lugar, e de mais de um ponto de vista. Temos a esperança de que as lacunas e os entrelaçamentos engendrados por uma tal abordagem sejam capazes de iluminar a arquitetura do trabalho de Jung, sem reduzir-lhe a complexidade.

          Este livro está dividido em uma série de seções que discutem as principais questões da obra junguiana, da psicologia e de disciplinas correlatas. Elas podem ser lidas em ordens variadas, e a introdução também pode ser lida como a conclusão. Cada uma delas reconstrói os respectivos bastidores do século XIX e do início do século XX do trabalho de Jung, e situa seu surgimento e o modo como foi recebido em relação aos desenvolvimentos contemporâneos nas ciências humanas e naturais. As interligações entre as seções mostram as coligações críticas dos diversos tópicos por meio dos quais Jung constituiu sua psicologia.49 A gama de assuntos discutidos não está completa e, num trabalho posterior, outros temas serão estudados.

          O presente trabalho pode ser considerado um livro sobre Jung, e um livro sobre o surgimento da psicologia e da psicoterapia modernas. Esses dois assuntos têm sido os pontos focais em minhas pesquisas. A tentativa de compreender e situar o trabalho de Jung, iniciada em 1981, levou-me à idéia de que em muitos pontos críticos Jung estava lidando com temas amplos relativos às condições de possibilidade da psicologia e das ciências humanas, e sobre os quais muitos outros estudiosos em outras disciplinas também se debruçavam. A psicologia de Jung estava tão profundamente entrelaçada a essas redes que simplesmente não pode ser compreendida isoladamente. Por sua vez, ter lidado como esses assuntos foi útil para constituir um ponto de orientação que ofereceu uma mínima delimitação do tema.

          A obra de Jung gerou uma vasta literatura de comentários, elogios e críticas. Ao longo das últimas duas décadas, tentei cobrir tanto quanto possível esse universo. Contudo, tentar comentar detalhadamente esse volume de escritos tornaria este livro impraticável. Além do mais, o nível de compreensões equivocadas de Jung é tão alto que retificar os enganos de uma infinidade de fantasias, ficções e fabricações se tornaria uma tarefa mais complexa do que começar do começo, como demonstrei recentemente.50 Na realidade, uma parcela proporcionalmente cada vez maior dos trabalhos sobre Jung recai na categoria de “histórias de vida” (histórias isentas da necessidade de se apresentar evidências).51 Assim, a abordagem adotada aqui se concentra em material obtido junto a foontes primárias. Embora reconstrua os elementos da acolhida dispensada ao trabalho de Jung, só utiliza material secundário quando esse tem uma ligação direta com o tópico em tela.

          Quando se lê um livro, é normal esperar uma tese e uma conclusão. Embora neste sejam exploradas muitas teses, não há uma conclusão, pois a meta deste volume não é concluir e, sim, abrir novas questões. A psicologia de Jung pode evitar uma consideração mais larga da constituição da psicologia como um todo, e das ciências humanas em geral. Como a avaliação da psicologia e de seus efeitos sobre a sociedade envolve a consideração da medida em que ela conseguiu a contento, ou não, separar-se das disciplinas vizinhas e se estabelecer em território próprio, decorre que a tarefa de avaliar é uma iniciativa necessariamente multifacetada e interdisciplinar. Para que seja possível sua realização, é indispensável uma descrição exata do surgimento do psicologia. Esta história é uma contribuição a tal empreendimento. Não tem havido escassez de avaliações do trabalho de Jung. Mas o que tem faltado até aqui temi sido uma base adequada para avaliações consistentes.

          Por fim, dado o escopo da erudição de Jung, qualquer tentativa individual de cobrir historicamente o mesmo terreno, e sua correspondente literatura secundária, fatalmente sucumbirá diante das deficiências de seu próprio diletantismo. Sendo assim, a presente iniciativa tem mais do que apenas uma vaga semelhança com a trajetória de Pierre Menard, o protagonista do conto de Jorge Luis Borges, que se propôs reescrever Dom Quixote de Cervantes (1939).

 

 NOTAS

 1 Jung para Margaret Flenniken, 20 de junho de 1930, JP, original em inglês.

2 “Religião e Psicologia”, OC 18, §1500, trad. Mod.

3 9 de outubro de 1916, documentos de Maeder

4 Prefácio à proposta de uma edição em inglês da obra de Tina Keller’s. L’Âme et les nerfs [A alma e os nervos] (JP). Original em inglês.

5 31 de outubro de 1893, ed. Le Clair, 31.

6 Em 1958, Alasdair McIntyre observou que “os físicos pré-newtonianos tinham, no entanto, comparados aos psicólogos experimentais contemporâneos, a vantagem de não saber que estavam esperando Newton”. Para ele, a situação na psicologia era semelhante a estar “esperando por um Godot teórico”, 2.

7 No texto que se segue, continuarei referindo-me à “psicologia”, fiel à linha adotada pelos protagonistas da história. Entretanto, não se entenda com isso que o termo pressuponha uma unidade ou essência.

8 Admitindo a verdade da situação, o psicólogo americano Sigmund Koch propôs que a designação no singular, “psicologia”, seja abandonada e substituída pela expressão “estudos psicológicos”, alegando que a psicologia nunca foi, nem poderia ser, uma disciplina única e coerente (1993). Ele diz: “Os estudos psicológicos, em princípio, devem abranger muitas comunidades lingüísticas que se expressam em linguagens idiossincráticas e basicamente incomensuráveis” (1975, 481). Agradeço a Eugene Taylor ter-me chamado a atenção para esse artigo.

9 Para trabalhos recentes sobre estudos científicos, ver Golinski, 1998, e Latour, 1993.

10 Para comentários sobre a constituição do real fabricado, ver Borch-Jacobsen, 1997, e Latour, 1996. Ver também Goodman, 1978.

11 1890, I, 601. A esse respeito, ver Shamdasani, 2004 a ser publicado em breve, Como disse Nietzsche, “Basta criar novos nomes, estimativas e probabilidades para, no longo prazo, criar ‘coisas’ novas, 1887, §58.

12 Para citar apenas dois dos primeiros locais em que essa noção é ventilada, em Contemporary Schools of Psychology, Robert Woodworth classificava a psicologia analítica de Jung junto com a psicologia individual de Alfred Adler como “modificações da psicanálise” (1931, 172-192) No capítulo sobre Jung em An Outilne of Abnormal Psychology, William McDougall citava: “Em certa época, o Dr. C. G. Jung foi considerado o mais influente seguidor do Prof. Freud... Mas, como alguns outros dos mais influentes seguidores de Freud, entre os quais os drs. Alfred Adler e W. Stekel, ele achou cada vez mais impossível aceitar em sua totalidade o sistema freudiano e seus ensinamentos então divergiam acentuadamente dos de Freud” (1926, 188).

13 Carta para anônimo, 9 de abril de 1959, citada em Cartas I, 19.

14 Notadamente Haule, 1984, e Witzig, 1982.

15 Ellenberger, 1970, 1993. A este respeito, ver também Sulloway, 1979, e Borch-Jacobsen e Shamdasani, 2001, e Borch-Jacobsen e Shamdasani, 2006.

16 A respeito da gênese dessa lenda, ver Shamdasani, 1996. Eugene Taylor apresentou um argumento paralelo e complementar, baseado principalmente em trabalhos anteriores de sua e minha autoria (1996b).

17 John Peck recorreu à história de Herman Melville The Confidence Man como analogia para o modo como alguns junguianos nos Estados Unidos reembalaram e rotularam o trabalho de Jung (ou, conforme o caso, apresentaram seus próprios sistemas como se fosse o trabalho de Jung), 1995. esse processo está longe de ter-se limitado aos EUA. Ver o capítulo de Wolfgang Giegerich. “Junguians: Immunity to the notion and the forfeit heritage” [Junguianos: imunidade à noção e herança contaminada], em Giegerich, 1998.

18 Anotações de Jung à margem do texto de Calvin Hall, “Jung’s analytical theory”, CLM, 12; original em inglês.

19 Há 13 lugares nas Obras Completas de Jung em que a expressão “Komplexe Psychlogie” foi ou traduzida como psicologia analítica, ou simplesmente omitida. Neste trabalho, adotei ao longo de todo o texto a terminologia do próprio Jung.

20 Jung para Jürg Fierz, 13 de janeiro de 1949, Cartas, 1, 519.

21 Citando em Meier, 1984, x. A doação inicial foi de 200 mil francos suíços. Jung afirmou que essa soma era resultante de diversas fontes, inclusive Harold F. McCormick (Jung, anotação sobre o Centro ETH, JP). Anteriormente, Jung tinha doado fundos para o Instituto Jean-Jacques Rousseau, em Genebra.

22 MP, 260. Ver notas, 23 e 24.

23 Tem sido publicada uma secessão interminável de antalogias introdutórias dos escritos de Jung. Ele mesmo alimentava sérias reservas contra esse gênero de trabalho. Em 1946, em resposta a um pedido de W. H. Kennedy para uma antologia dos escritos junguianos, Jung escreveu: “Devo dizer que a ´déia de uma antologia não me atrai. Não acho que se deveria incentivas as pessoas a ficar satisfeitas com umextrato mais ou menos superficial de minhas idéias, sem obter a verdadeira substância. Sei que não é especialmente fácil ler livros como os meus, mas afinal a ciência não é inteiramente fácil – em particular, não uma tentativa pioneira como o meu trabalho. Em minha forma de ver, as idéias psicológicas, privadas de suas evidências documentais, são pior de nada” (documentos de Routledge, Universidade da Leitura). Original em inglês.

24 Numa entrevista para um jornalista finlandês, Nordenstreng, publicada em Suomen Kuvalenti, em 1961, Jung teria dito o seguinte: “A maior decpção de minha vida foi as pessoas não terem entendido o que eu quis dizer. Certamente elas sabem o que é um complexo, um introvertido, um extrovertido, têm uma noção de que, em minha concepção, sentimento e pensamento não ficam juntos numa cabeça só, mas outra coisa é entender o que eu disse com mais profundidade. Como jargão superficial, essas coisas são aceitas pelas pessoas, embora todos os professores digam que não passam de um absurdo!” (documentos da McGuire, LC), original em inglês.

25 “O significado da constituição e da hereditariedade na psicologia”, OC, 8,§223.

26 “Problemas fundamentais da psicoterapia”, OC, 16, §236, trad.mod.

27 A esse respeito, ver Roger Smith, 1988. Para a leitura do melhor volume único sobre a história da psicologia, ver Roger Smith, 1997.

28 Jung para Herbert Read, 2 de setembro de 1960, Cartas 2, 589.

29 Por exemplo, Jung para Jolande Jacobi, 13 de março de 1956, Cartas 2, 293.

30 Outono de 1913, Cartas 1, 29-30.

31 Jung para Ruth Ananda Anshen, 10 de junho de 1940, Arquivos da Universidade de Colúmbia, Nova York (original em inglês). Jung recusou o convite.

32 Dilthey, 1911; Jaspers, 1919.

33 “Psicologia analítica e visão de mundo”, OC 8,§689.

34 §737, trad. mod. Oswald Spengler assinalou um ponto semelhante em The Decline of the West, 1918, 23.

35 21 de novembro de 1932, Cartas, 1, 106-107.

36 Jung para Hauer, 14 de novembro de 1932, Cartas, 1, 103.

37 23 de dezembro de 1932, Cartas, 1, 113.

37 Sobre a história de Eranos, ver Hakl, 2001.

39 JP. Original em inglês. Ver ed. McGuire, 1984.

40 MP, 149. Em certa ocasião, falando sobre seu trabalho, Jung citou “nosso diletantismo histórico”. “Psicoterapia e visão de mundo”, OC 16, §190, trad. mod.

41 Comunicação pessoal, Ximena de Angulo.

42 Ver Shamdasani, 1995 e 2000a, 2000b; e Elms, 1994.

43 A respeito do manuscrito, Helen Wolff escreveu retrospectivamente: “Revelador das mudanças ‘amenizando o tom’ do original de Jung – versão expurgada! Muito interessante como ilustração do que foi feito para deixar de fora as francas e verdadeiras declarações de Jung a seu próprio respeito” (Biblioteca Beinecke, Universidade de Yale)

44 No texto que segue, as citações ao Memórias foram comparadas com os manuscritos.

45 Citado em Bennet, 1982, 61.

46 Jung para Cary Baynes, 4 de abril de 1954, documentos de Cary Baynes.

47 “Sobre a psicologia”, 1933, 22.

48 Por fim, os meios para integrar o manuscrito em sua extensão foram promovidos por uma apresentação de Joe Zawinul.

49 Após ter completado este estudo, encontrei este fragmento de Jaime de Angulo, em sua introdução de um manuscrito de sua autoria intitulado “O que é linguagem”: “Na introdução dissemos que a linguagem é algo que tem a natureza de um Proteus, e a comparamos a um caleidoscópio, sempre mudando a cada pequeno giro do instrumento, e a uma opala, com iridescências sempre novas, conforme o ângulo em que é vista. Justamente por tais motivos, é quase impossível apresentar a linguagem numa seqüência ordenada. Para fazer justiça ao tema, o leitor teria de ler simultaneamente todos os capítulos! Tentei apresentar, no começo de cada um, o que mais poderia interessá-lo. Mas era impossível sustentar durante muito tempo o mergulho em questões que exigem certa dose de pensamento concentrado. Aconselho o leitor a não dar muita atenção à disposição dos capítulos neste livro, e fazer suas próprias escolhas, saltando adiante e depois voltando para trás, ziguezagueando pelo texto. Quando algum assunto o aborrecer, ou o considerar muito técnico ou sutil, passe por ele de coração leve. Sempre haverá tempo poara retomá-lo depois e apreender seu significado” (Documentos de De Angulo, UCLA, Los Angeles).

50 Ver Shamdasani, 1998a.

51 Para uma caracterização desse gênero literário, ver Shamdasani, 1999a.