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Crash: a psicologia analítica no
limite entre o particular e o coletivo

 

Santina Rodrigues

 

Trabalho apresentado na I CONFERÊNCIA DE OUTONO promovido pelo Núcleo Mineiro de Estudos Junguianos e no I ENCONTRO BRASILEIRO promovido pelos Grupos Junguianos Independentes. Minas Gerais, 29 de abril a 01 de maio de 2006

 

Domingo à noite. Acabo de assistir ao filme Crash (2005), que em português, vem acompanhado da expressão “no limite”. Que impactante surpresa!

CRASH, no inglês, é um termo normalmente usado para se referir a uma batida de carros ou a um encontrão, um esbarrão, o que deixa qualquer um com os nervos à flor da pele. Aliás, desculpem, mas já vou avisar, o filme começa e termina com uma cena de batida de carros e com os motoristas discutindo em inglês, embora cada um fale a língua à sua maneira, com o sotaque que denuncia sua origem: americano, latino, árabe, asiático e por aí afora.

A expressão “No limite”, anuncia uma tensão permanente no filme: todo mundo fica irritado com a impossibilidade de se comunicar numa língua, que supostamente universal, adquire nuances diferenciadas em função da relação que o falante estabelece com ela.

Pode ser um persa, confundido com árabe – um homem que está sempre exasperado em suas frustradas tentativas de comunicação. No fundo, ele tem a impressão de que está sempre sendo passado para trás. Uma cena significativa mostra sua esposa limpando uma pichação feita por assaltantes na parede da lodjinha familiar. Entre lágrimas, ela lamenta para a filha: “Veja o que eles escreveram! Pensam que somos árabes! Desde quando persa é árabe? A particularidade marcada na universalidade. No mundo muçulmano, não é possível reduzir todas as diferentes tribos ou culturas a um único nome: árabe!

Este foi o aspecto que me pareceu mais marcante em todo o filme e quero deixar claro que minha intenção não é realizar uma análise psicológica dos personagens ou da trama. Minha contribuição neste encontro pretende-se pautar em torno de duas questões, uma delas refere-se à reflexão do lugar do grupo no cenário junguiano e outra, sobre o lugar da psicologia junguiana no cenário acadêmico. Se faço uso do filme é porque o título me fez pensar nos choques que podemos experimentar ao lidar com questões do particular e do universal na psicologia analítica, especialmente porque o tema deste I Encontro Brasileiro de Grupos Junguianos se propõe a discutir “Contribuições Junguianas às questões da contemporaneidade”.

O filme faz um apelo ao particular: em todas as situações, o que diferencia as reações dos personagens, suas atitudes - xenófobas ou de solidariedade, de abuso de poder ou de pânico diante de uma arma ou da morte -, parece ser a circunstância, o momento preciso e localizado num tempo e num espaço, vivido pelo personagem que muda, de uma hora para outra, sua possibilidade de estar no mundo e fazer parte de um encontro, por vezes com a mesma pessoa com quem brigou ou machucou num momento anterior.

Vítimas das circunstâncias - ou sujeitos de suas escolhas, diríamos nós - num determinado momento mais conscientes e controladas, em outros, completamente impotentes para se proteger do outro em si mesmos, os personagens não podem fugir das coisas que vão além de sua vontade racional, e contra as quais lutam, por vezes cheios de boas intenções, como fazem bem os americanos - sobretudo os influenciados pela verve protestante. Mas, de boas intenções, o inferno está cheio. Los Angeles, o cenário escolhido para esses dramas, não escapa ao ditado!

A cidade é tomada, para variar, como réplica do inferno e parece que os personagens e os espectadores do filme são levados a viver seu próprio inferno, enquanto acompanham o trânsito dos diálogos tensos dos personagens, que se esbarram e se chocam todo o tempo. O inferno não está em nenhum outro lugar, está ali fora, em todos aqueles crashs ou conflitos declarados, e está simultaneamente lá dentro, na pele e na alma de cada um. Essa separação dentro-fora, interno-externo, simplesmente está cancelada.

Afinal, a cidade está doente e, como diz Hillman (1995a), isso não vai ser resolvido com cada um dos milhões de cidadãos do mundo fazendo análise nos moldes clássicos e expensivos de uma Europa do final do século XIX. E, também porque, venhamos, não é possível afirmar que esta seja A saída; vamos nos poupar do risco de nos tornar, como fundamentalistas religiosos, cegos que defendem um caminho ou outro de redenção para os pecados do mundo.

O Islã não é a única solução, o cristianismo possivelmente também não, a psicanálise e a psicologia junguiana, por certo, também não! Nenhuma dessas correntes religiosas, filosóficas ou psicológicas pode ser colocada como saída exclusiva para o medo e a raiva que assolam o mundo, em diferentes medidas, não importa em qual parte do planeta. Mas é importante mantermos a tensão que funda cada um desses campos para não universalizar aquilo que guarda entre si suas particularidades e que pode contribuir de diferentes maneiras para lidar com tais problemas..

No filme, há algo no particular da experiência que modifica a participação do personagem na trama ou no todo. Não importa que ele tenha sido impiedoso e abusivo num momento em que estava furioso e buscava uma vingança, como o policial Ryan – interpretado por Matt Dillon, numa noite em que foi arbitrário durante uma batida (ops!) contra um casal negro, expondo-os a uma terrível humilhação; ele pode virar herói horas depois, quando salva uma mulher, desta vez e de novo num acidente de trânsito -, a mesma mulher, aliás, que ele tocou desrespeitosamente enquanto fazia a “revista” na noite da tal batida policial. É o mesmo homem e, ainda assim, não é! É um outro homem. É uma outra imagem pintada com as tintas daquela nova circunstância, que não pode ser universalizada ou aprisionada em clichés e estereótipos, que ilusoriamente cumprem a função de anestesiar a ansiedade, a culpa, a raiva e o medo.

Saímos do universo polarizado de mocinhos e bandidos, pois o bandido vira mocinho e o mocinho vira bandido e entramos num campo complexo e intrincado que não pode ser reduzido a isso OU àquilo. Não! É isso E aquilo, só depende de hora, local, parceiros de cena e humor daquele momento.

Tudo isso para enredarmos pelos rumos da psicologia analítica e refletirmos sobre sua aplicação, teórica e metodológica. Como pensar a tensão que permeia os limites entre o plano individual e o coletivo, o particular e o universal, na abordagem junguiana? O primeiro passo e possivelmente o mais difícil para alguns é justamente reconhecer a pluralidade de olhares e leituras que podem se dar diante da obra de Jung, afinal estamos aqui reunidos como diferentes grupos de psicologia junguiana e, certamente, isso se deve a algo em particular que caracteriza a relação que cada um desses grupos estabelece com o texto de Jung.

Esta tarefa pode ser considerada uma heresia, sobretudo ao se observar com uma certa freqüência, uma tendência universalizante na leitura de um texto que certamente permite tudo, menos dizer que existe apenas um Jung ou uma psicologia junguiana, como podem desejar os mais ortodoxos!

Nesse momento, sinto o desejo de retomar um texto de Hillman (1999) sobre o mito de Babel, em que ele polemiza o caráter punitivo do castigo dado aos homens que tentaram construir uma torre que chegasse até o céu: eles falavam todos a mesma língua, e o castigo dado por deus foi a dispersão de todos eles pelo mundo! Os homens que falavam uma língua uníca foram enviados aos quatro cantos da terra, carregando consigo a sina de falar línguas diferentes e por vezes incompreensíveis! Hillman questiona se de fato isso é um castigo, visto que inaugura miticamente, por assim dizer, a multiplicidade de nações, histórias, e fantasias sobre um mesmo deus.

E como ironicamente comenta Michael Vannoy Adams (2004a) em um dos capítulos de seu livro “Princípio de Fantasia”, um conceito ou um autor, quando tomados monoteisticamente, podem ser idealizados como O DEUS, único e redutivo que acompanha a compreensão de uma teoria. Nesse capítulo, intitulado “a importância de ser blasfemo ou de blasfemar”, Adams está criticando a tendência do próprio Jung de cristianizar um conceito, no caso, o Self, como se fosse um Deus, exatamente como fez Freud com o dogma da sexualidade. Então, Adams diz “se para Freud, sexo era Deus, podemos dizer que para Jung, Deus era o Self!”.

Não será isso o que se faz também com o afamado e aclamado conceito de “individuação”? Ainda que Jung tenha enfatizado que a individuação é um processo de diferenciação psicológica, diferente de individualismo - e, nesse sentido, algo que pode ser alcançado tanto por um individuo quanto por um grupo, evidentemente de formas diferenciadas –, por que os junguianos em geral, e aqui peço perdão pela generalização, tendem a reduzir a compreensão da vivência desse processo a UM indivíduo tomado como mônada, mantendo-se fechados em seus gabinetes, sustentados pela fantasia do mito do analista introvertido e da transformação pelo isolamento no alto da montanha?

O tema “processo grupal” inspirou fortemente minha pesquisa há cerca de quatro anos quando iniciava o mestrado e ocupou boa parte da dissertação, recém-finalizada (OLIVEIRA, 2006). É interessante fazermos um pequeno passeio em relação a este tema levando em conta principalmente os anais dos congressos latino-americanos de psicologia junguiana, realizados em 2001, 2002 e 2003, e esclareço que minhas colocações não estão baseadas somente nessas leituras.

Ao consultarmos os anais, observamos que há uma ênfase em temas sociais – notadamente referentes à questão da identidade cultural da América Latina –, mas ainda assim, a discussão é mantida numa perspectiva macro-social 1. O terceiro congresso, em especial, apesar de ter como tema “o paciente e o continente - desafios da prática”, não apresentava categorias para se pensar o enquadre grupal e o funcionamento de pequenos grupos sociais ou mesmo as variáveis do processo terapêutico grupal propriamente dito, tomando por base a teoria junguiana.

Sabe-se que a teoria de Jung prima pela consideração do coletivo como pano de fundo arquetípico para as ações do indivíduo, mas a nós, junguianos que se preocupam em  ter uma inserção em contextos mais amplos, além do consultório, resta o desafio de propor intervenções efetivas nos variados grupos que compõem essa dimensão coletiva. É o que confirma a Revista da SBPA de 2003, quando reconhece que a contribuição da psicologia junguiana para a compreensão de fenômenos políticos e sociais ainda é relativamente pequena.

O grupo – enquanto categoria – portanto ainda é pouco pesquisado no campo junguiano, permanecendo à sombra de uma compreensão literal e a meu ver equivocada do processo de individuação, e o foco da Psicologia Analítica, por sua vez, permanece excessivamente centrada no setting dual da análise tradicional, sem uma reflexão teórica que particularize intervenções mais efetivas nas diferentes instituições sociais, ou o coletivo como dimensão objetiva de sua praxis.

E com isso quero dizer que NÃO considero como melhor caminho a transposição desse conceito – individuação – de modo automático para um campo que guarda suas particulariades, como o grupo. Pelo contrário, penso que uma vez mais devemos tomar cuidado com generalizações que levam a pensar o grupo como se fosse um indivíduo. Esse campo tem características próprias e requer daqueles que queiram dele se aproximar uma abertura para se relacionar com a realidade psíquica que se dá nesse campo e em nenhum outro mais.

No último congresso de psicologia junguiana realizado em Salvador, ao finalizar minha apresentação sobre este tema, tive a surpresa de ouvir um colega vociferante que se levantou na platéia para dizer em outras palavras que “atender grupos é um jeito de ganhar mais dinheiro em menos tempo”. Esse mesmo colega emendou sua fala dizendo que Jung era contra intervenções em grupos, já que sua grande contribuição e legado  para a Psicologia Analítica era o trabalho com o processo de individuação. O tom de sua crítica era inflamado! Não havia dúvidas, estava diante de um fundamentalista!

Este é um exemplo claro e crasso da postura de alguns junguianos diante daquilo que Jung - quando tomado como deus-pai-todo-poderoso - não pôde fazer e que sendo assim, ninguém mais deve fazer! É uma postura infantil e ingênua frente a obra de um autor que sim, escreveu e pensou algumas questões de forma brilhante, mas também não pensou ou pensou de forma tímida ou equivocada tantas outras!

FAZER ALMA NO MUNDO – esse é o lema da psicologia arquetípica, fundada por James Hillman (1995a; 1995b). Fazer alma, cuidar da alma do mundo, e eu enfatizaria, no mundo! Des-identificar a alma de uma fantasia cientificista cerebral e também de uma localização intra-psíquica, celebrada pela clínica representacional do século XX e caminhar em direção a uma psicologia fenomenológica, em direção a uma clínica imaginal!

A imaginação ou fantasia, em termos mais precisos, como matéria-prima da realidade psíquica não é privilégio de uma esfera ou outra, pois se apresenta em diferentes circunstâncias, individuais ou coletivas, evidentemente, com características peculiares a cada um desses contextos! Independentemente da idéia de uma alma internalizada no indivíduo – resquício de uma compreensão metafísica da obra de Jung que, sabemos, não se dá à toa –, há a alma do mundo, das cidades, dos grupos para ser contemplada e re-imaginada. Intervenções coletivas e culturais que extrapolem as paredes de um consultório, normalmente sobrevivente no cenário urbano das grandes cidades – será esse um caminho também possível para a psicologia analítica?

E nós, como vamos nos colocar diante de tais desafios, também contemplados por esta conferência? Gênero, discriminação, violência, trabalho, exclusão social, política, conflitos religiosos, o que temos a dizer sobre isso? Eu incluíria com uma certa ênfase: e a universidade?! É de lá que venho para dizer que nesse cenário a psicologia junguiana ocupa possivelmente o menor ou o menos privilegiado dos territórios e acredito que não esteja contando nenhuma novidade. Lá, entre outras coisas, Jung ainda é tido como místico e misógeno – ainda que não possamos desmentir essa afirmação de forma irrestrita, especialmente ao considerarmos alguns de seus textos sobre o conturbado conceito de anima-animus. Lá, Jung ainda é tido como aquele discípulo de Freud que renegou a psicanálise e chafurdou na lama do misticismo, como o acusou o pai da psicologia profunda ou como o mentor intelectual do esoterismo, como usam e abusam os bruxos de plantão da chamada Nova Era.

E POR QUE DEVEMOS NOS APROXIMAR DA UNIVERSIDADE? PODEMOS NOS PERGUNTAR?

Antes de arriscar uma resposta, vamos refletir um pouco sobre esse afastamento.

A palestra de Michael Vannoy Adams realizada no último Congresso Internacional promovido pela IAAP em Barcelona no ano de 2004, talvez possa nos ajudar a compreender esse estranhamento com que os junguianos e a teoria junguiana são recebidos na Universidade, ao localizar o problema precisamente no distanciamento dos junguianos em relação à vida acadêmica: Ele diz:

 “A ausência de junguianos e da psicologia junguiana na universidade é visível. Não é de forma alguma imediatamente óbvio para os acadêmicos que os junguianos e a psicologia junguiana pertencem à universidade.” (ADAMS, 2004b:1)

Ao tecer tais considerações em seu artigo, Adams refere-se ao cenário internacional, especialmente à sua experiência como professor numa universidade em Nova York. No Brasil, e mais especificamente em SP, é importante registrar que talvez não seja possível generalizar essa questão como algo que abrange todo o cenário acadêmico, levando-se em conta a experiência da PUC-SP, onde se observa a inserção da teoria junguiana em bases diferenciadas.

Ainda nessa conferência Adams arrisca um encaminhamento para o problema:

“Acredito que os junguianos têm muito mais a ganhar com a universidade do que a universidade com os junguianos. Se isso for verdade, então, para que os junguianos “tenham” a universidade, eles terão que se aproximar dos acadêmicos – e não apenas daqueles que são simpatizantes da psicologia junguiana, mas também daqueles que são indiferentes ou mesmo contrários a ela (...) de modo que os junguianos tenham uma oportunidade de misturar-se com eles, ouvi-los e falar com eles, compartilhar com eles e, eu enfatizaria, aprender com eles.” (ADAMS, 2004b:7)

Compreendo a crítica de Adams quando fala da falta de interesse em geral dos junguianos pelos assuntos acadêmicos, mas não concordo com sua opinião de que talvez a universidade não tenha muito o que ganhar com nossa presença.  Entretanto, sua afirmação contextualiza esta situação histórica marcada pelo distanciamento dos junguianos em relação a este território, o que foi também e previamente criticado por Hillman:

“Os junguianos tendem a se interessar por outras idéias além das de Jung apenas quando essas idéias parecem confirmar as idéias de Jung. Tais junguianos são ainda mais oportunistas ao se apropriar de qualquer idéia que aparentemente ofereça tal confirmação. Para estes junguianos, a epítome de uma nova e perfeita idéia é na verdade uma idéia muito antiga que eles orgulhosamente acreditam que já tinha sido descoberta por Jung anos antes e que os acadêmicos só agora redescobriram, de modo independente e tardio. Estes junguianos convenientemente desconsideram qualquer nova idéia que refute as velhas idéias de Jung. Tudo isso como uma tentativa de defender as idéias de Jung de maneira que estes junguianos possam complacentemente continuar a aplicá-las, eu enfatizaria, de modo não crítico”. (HILLMAN apud Adams, 2004b)

Mas como contribuir para compor esse gap ou abismo escuro e desocupado que nos mantém afastados da academia? Pois naquelas terras, somos todos estrangeiros: Jung, os junguianos e a psicologia junguiana! Mas como diz Derrida (2003:126), “Em alguns países, o estrangeiro acolhido é um deus por um dia.” É claro que cada povo acolhe o estrangeiro de um modo particular! Por isso, deixo claro que estou me referindo particularmente a minha experiência de pós-graduação na USP.

Num território conhecido, sobretudo, pelo referencial teórico-metodológico psicanalítico, como é sabido do cenário acadêmico “uspiano” – ainda que permeado por outros referenciais que dispõem de uma representatividade considerável, como por exemplo a psicologia social e experimental –, a questão da linguagem, da tentativa de comunicação com seus pares e por que não dizer também com seus im-pares, desde que você fale do lugar daquele que não fala ou que não privilegia a referida língua preponderante, pode ser uma experiência extremamente solitária.

É assim que parece acontecer com a maioria dos visitantes-estrangeiros que por ali se embrenham na esperança de conseguir um espaço, quando vindos de outros lugares, especialmente porque, como aponta Derrida, um hóspede pode ser facilmente confundido com um inimigo ou invasor – tomando por base a raiz etimológica da palavra “hostis” que, em latim, significa hóspede, mas também hostil, inimigo (DERRIDA, 2003, pp. 6).

Assim, experimentei a condição de estrangeira, tanto como aluna da pós-graduação como ao participar da apresentação da psicologia de Jung aos alunos da graduação, numa experiência de monitoria. O sentido que atribuo a estrangeiro aqui remete mais a uma questão relacionada a um certo preconceito do que à falta de lugar para a novidade, uma vez que esse autor e sua teoria já desfrutavam de um espaço na USP, pois a disciplina apresentada à graduação fazia parte do currículo há alguns anos. Há também teses orientadas por professores de outras áreas, que simpatizam com a psicologia junguiana e o trabalho pioneiro e por muito tempo solitário desenvolvido pela Prof. Laura Villares de Freitas, no departamento de psicologia escolar e do desenvolvimento. Entretanto, sabe-se também, das poucas opções oferecidas aos alunos, pelo menos no currículo regular, tanto na graduação como na pós-graduação, para um contato mais próximo com as idéias de Jung e imagino que isso também ocorra em outras universidades no Brasil.

O que desejo apontar é que outros referenciais que também ocupam um espaço menos privilegiado na USP parecem não enfrentar, diferentemente da Psicologia Analítica, o mesmo grau de resistência. Provavelmente há mais de uma razão para isso, e ainda que seja difícil elencar todas as possíveis razões, não podemos desconsiderar a herança histórica do rompimento com Freud, que repercute negativamente ainda hoje nos espaços em que suas teorias são apresentadas, levando em alguns momentos a cisões e separações radicais, por vezes tendenciosas e inespecíficas do ponto de vista teórico, que podem contribuir para a continuidade dos males-entendidos e para a perpetuação do preconceito.

Jacques Derrida usa a imagem da noite como metáfora de “uma abertura para o que abala”. Ele nos diz: “Ela [a noite] nos pede para atravessar a experiência de perda do sentido, experiência da qual decorre a autenticidade do pensamento.” (DERRIDA, 2003:44)

O desafio “noturno” pode ser entendido como abertura e conseqüente entrega a um processo de des-construção de um suposto saber: seja a teoria, sejam os conceitos dessa teoria, seja a fantasia que se tem a respeito dessa teoria. O desafio na universidade para os junguianos é mergulhar numa desconstrução recorrente e subversiva para acolher um novo saber que só pode se constituir no aqui-agora do espaço acadêmico, ao se misturar a outros saberes - daqueles que já têm alguma familiaridade com as idéias de Jung, mas também daqueles que não querem ouvir o que temos a dizer, especialmente se o que temos a dizer é uma conversa reprodutora de conceitos que por vezes são claramente datados e carregados de certezas e equívocos. Talvez esta seja a mais difícil das “lições”: suportar entrar em contato com outros autores que não falam a nossa língua junguiana.

Uma língua que pode ser lida, enquanto teoria, de muitos lugares diferentes, que pode ser reformulada de acordo com a língua do estrangeiro que com ela tente estabelecer uma relação, seja hostil ou hospedeira. Essa é a causa, inclusive, de tantas leituras literais ou românticas – idealizadas em excesso, da teoria junguiana, como apontou Carlos Bernardi em seu artigo sobre a Individoação (BERNARDI, 2003). A metáfora da “abertura para o que abala” pode ser utilizada também para falar dos encontros e desencontros, críticas e elogios no embate vivido com esses diferentes olhares para com o texto junguiano.

Para finalizar, sem o compromisso de concluir, podemos nos perguntar: entre tantas leituras possíveis, e a partir de tantos lugares diferentes, o que poderia facilitar a comunicação da Psicologia Analítica com a Universidade? O que permitiria o diálogo entre junguianos, pós-junguianos e não-junguianos neste território? Se a língua pode ser diferente e colocar o não falante como estrangeiro, que outra linguagem permitiria que estrangeiros se comunicassem entre si?

Algo me diz que se trata mais de uma atitude que de uma língua. Uma atitude que não discrimina a priori e preconceituosamente o estrangeiro, mas que se coloca como uma abertura para o encontro. É uma atitude ética, um oferecimento para aquilo que pode abalar no sentido de tirar o ego do eixo, uma abertura que “mexe” no narcisismo daquele que fala e daquele que ouve. Talvez se trate de uma disponibilidade para ouvir a língua com um sotaque diferente, suportando a diferença daquilo que não pode ser resumido ao que já é conhecido e pode ser controlado ou dominado, no código da lei do lugar que hospeda.

Vocês devem ter notado que abusei das idéias do filósofo francês Jacques Derrida. Aprecio muito sua articulação em torno da questão da hospitalidade e, consequentemente, do estrangeiro. E digo, nós, junguianos precisamos ir mais vezes ao estrangeiro, no sentido de nos abrir a uma conversa com outras línguas, devemos sair de nossos encontros monotemáticos e nos lançar ao desafio de falar para um outro, de preferência que não fale a língua dos arquétipos ou do self, mas que nos convoque a sair do escuro e a falar para fora!

Hillman, pergunta:

“No que os acadêmicos estão interessados? Estão interessados em idéias. Ao contrário, parece que os junguianos não estão interessados em idéias. Ou para ser mais preciso, parece que muitos junguianos não estão interessados em qualquer idéia a não ser nas idéias de Jung. (…) Muitos junguianos acreditam que têm todas as idéias de que precisam, Jung lhes deu essas idéias, tudo o que eles têm a fazer é aplicá-las. Eles estão satisfeitos. Muitos junguianos simplesmente vivem às custas das idéias de Jung.” (HILLMAN apud Adams, 2004b)

Em conformidade com essa crítica de Hillman, já ouvi mais de uma vez o seguinte comentário: “para que ler os pós-junguianos se a gente pode ler Jung?”

Para mim isso é o mesmo que dizer “para que ler a tragédia de Édipo em Sófocles, se temos Freud?” Guardadas as devidas proporções, por que achamos que não temos que ler nada mais além de Jung? Por que acreditar cegamente que tudo já foi dito e pior, que tendo tudo sendo dito, nada há a ser revisto, como se este autor fosse O Deus, quando ele mesmo pediu que ninguém fosse junguiano no sentido de um seguidor fanático ou mero reprodutor de suas idéias?

Ser ou não ser: junguiana, pós-junguiana, não-junguiana? Esta foi a questão que mais apareceu nas conversas nos grupos com quem estive ontem: no cafezinho, no jantar, no sarau a céu aberto que avançou noite a dentro. Incapaz de oferecer uma resposta para tal questão – que como sugere com uma certa freqüência meu colega André Mendes, talvez possa ser colocada em suspenso – avancei junto da noite, escura e fria, mas aquecida pela presença das pessoas e das conversas animadas.

Confesso, André e colegas, ainda não consigo fazer esse exercício completamente, o que posso fazer é não me colocar em relação a essa questão como se fosse mais um dogma de teor religioso, então, eu continuo achando que apesar de bastante difícil, é melhor continuar a viver os encontrões ou esbarrões, crashs - as batidas e embates em outros territórios; continuo achando que é fundamental ler filosofia, psicanálise, literatura, e principalmente, ir aos museus, aos parques e ao cinema.

Enfim, ao invés de perguntar para quê nos aproximar da Universidade, eu perguntaria por que não fazer essa aproximação? Pois se lá podemos escrever, pesquisar e publicar, ampliando nossas trocas com outras teorias que encontram, na academia, possivelmente o melhor dos palcos para se dar e consolidar.

Porque se queremos ir além do cenário que extrapola a clinica, ou melhor, se queremos rever o conceito de clínica de modo a ampliar seu alcance no mundo, temos de sair desse território protegido de quatro paredes e de nossos guetos endogâmicos em que falamos incestuosamente para nós mesmos, como provocativamente já comentou nosso colega, Marcus Quintaes. Temos de nos aproximar e debater com aqueles que politicamente definem os rumos da universidade e das verbas para pesquisa, e participar mais ativamente da construção do lugar que a teoria junguiana pode ocupar nesse território. E para isso temos de produzir mais pesquisas, porque se queremos realmente ter voz ativa nas questões da contemporaneidade, precisamos produzir saber, menos cegamente ou ingenuamente e falar outras línguas! Precisamos promover uma certa des-identificação com e uma des-idealização de Jung e da Psicologia Analítica.

É passada a hora de vivermos um encontro com a diferença entre nós e fora do nosso círculo de idéias, ainda que como os vividos em Crash. É hora de falarmos, ainda que com o nosso sotaque, para um outro, o que pode ser um verdadeiro inferno, em lugares com aparência angelical. Para isso, precisamos des-mitificar essa imagem de junguianos do reino dos contos de fadas e servir no altar de Ares, fazendo oferendas pelos embates inevitáveis que surgem quando esbarramos com novas idéias em territórios estrangeiros!

1. Discussão realizada em parceria com André Mendes no Congresso da SPAGESP (MENDES; RODRIGUES, 2004). Ver também MENDES, 2005.

 

BIBLIOGRAFIA

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BERNARDI, C. Individoação: Do eu para o Outro, Eticamente. 2003. http://www.rubedo.psc.br/artigosb/jgetiind.htm (consultado em 01.07.2004).

CRASH – no limite. Direção: Paul Haggis. 2005. http://www.cinemaemcena.com.br/crit_editor_filme.asp?cod=2930 (consultado em 17.04.06)

DERRIDA, J. Anne Dufourmantelle convida Jacques Derrida a falar da hospitalidade. Tradução de Antonio Romanne. São Paulo: Escuta, 2003. 135 p.

HILLMAN, J.; VENTURA, M. Cem anos de psicoterapia e o mundo está cada vez pior. Tradução de Norma Telles. São Paulo: Summus, 1995a. 223 p.

______. Psicologia arquetípica: um breve relato. Tradução de Lúcia Rosenberg e Gustavo Barcellos. 9. ed. São Paulo: Cultrix, 1995b. 125 p.

HILLMAN, J. Em Louvor de Babel. 1999. http://www.rubedo.psc.br/artigosb/babel.htm (consultado em 01.05.05).

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MENDES, A.; RODRIGUES DE OLIVEIRA, S. O uso de recursos expressivos e a psicologia junguiana aplicada a grupos: uma abordagem possível? In: Anais de Resumos e Programa: II Congresso da SPAGESP - Sociedade de Psicoterapias Analíticas Grupais do Estado de São Paulo. Editor: Waldemar José Fernandes. Itu: Editora Ottoni, 2004.

MENDES, A. A Psicologia Analítica e o emprego do termo grupo. 2005.  http://www.rubedo.psc.br/artigosb/psigrupo.htm (consultado em 10.11.05)

O PACIENTE E O CONTINENTE: DESAFIOS DA PRÁTICA, 3., 2003. Salvador, Brasil. Anais do III Congresso Latino-Americano de Psicologia Junguiana. São Paulo: Paulus, 2003. p. 189-195.

OLIVEIRA, S. Reflexões sobre a materialidade numa abordagem imagético-apresentativa: narrativa de um percurso teórico e prático à luz da psicologia analítica. 2006. 138 f. Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2006.

RODRIGUES, S. Uma reflexão sobre a influência do uso de recursos expressivos nos fenômenos transferenciais em grupos terapêutico-vivenciais. In: O paciente e o continente: desafios da prática, 3, 2003. Salvador. Anais do III Congresso Latino-Americano de Psicologia Junguiana. São Paulo: Paulus, 2003. p. 189-195.

 

Santina Rodrigues
Psicóloga Clínica e Arte-terapeuta. Mestre pelo Instituto de Psicologia da USP.
Pesquisadora dos temas: materialidade, recurso expressivo e processo grupal.
Membro da IAJS – International Association for Jungian Studies.
Membro do Grupo Himma – Estudos em Psicologia Imaginal.
End.: Rua Domingos de Morais, 2777 – cj 73
04035-001 – São Paulo – SP - Tel.: 5549-0613

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