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www.rubedo.psc.br | Artigos | © Luis Fernando Mederios de Carvalho |
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O animal que logo sou Luis Fernando Mederios de Carvalho
Os bichos de Miguel transmutam-se em hospitalidade pelo homem, há neles uma permuta com a experiência humana. Eles estão performatizando uma idéia do humano. Estão conversando com os homens na perspectiva de bichos que se entendem. Assim é a preguiça que faz alongamento obrigando a uma ginástica do olhar para apanhar, entrar-se em contato com a sua cara, que é de gente calma, que se compraz no estar consigo mesmo, na dela. O olho vê vestígios do paraíso. Momentos em que o mundo vai devagar, sem pressa, saboreando o instante de se ficar feliz, de se estar no feliz, o lugar finalmente encontrado no rosto do animal que é promessa do rosto da humanidade. O bicho preguiça de Miguel faz alongamento para a não-velocidade. Da mesma forma a tartaruga conversa com a preguiça exibindo a sua orgulhosa face contente ao cabo de seu pescoço com auto-estima. O desenho de Miguel se deixa ver pelo animal, cruzando o olho com o dele. O desenho aponta para esse limite de impasse na história da filosofia constituída como relato dessa diferença radical entre um singular genérico, o animal, e esse ponto de vista distanciado, o homem. No ponto extremo de uma resistência a uma divisibilidade que resultaria no encontro estaria o homem com sua delimitação de território, sua propriedade ou constituição do que lhe é próprio. Não há animal no singular genérico, separado do homem por um limite indivisível. Há uma multiplicidade de seres viventes que não se deixam homogeneizar. Portanto, só existem animais. Qualquer um que se diga “eu” ou se apresente como “eu” já é um vivente animal. O desenho intensifica a contemplação do instante em que os existentes viventes revelam a face luminosa. Assim o olhar acolhe a formiga com sua gargalhada, passante ávida de desertos, anadrilha triunfante, uma vencedora sem desânimos. |