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Algumas questões sobre a temática da
religião na psicologia analítica junguiana

Jeovane de Sousa


A análise da religião e religiosidade em Jung conota-se na complexidade e na diversidade de caminhos e propostas da investigação do fenômeno.

Neste sentido, a necessidade de atribuirmos alguns parâmetros da nossa investigação no presente texto, é de fundamental importância para que possamos designar condições básicas no decorrer do presente trabalho.

Os fragmentos dos aspectos teológicos e sociológicos da religião serão os tópicos centrais do nosso trabalho.

A religião em Jung não adquire necessariamente o limite da confissão, mas amplia-se na complexidade da inconsciência coletiva e nos arquétipos individuais.

É justamente nos sonhos que a instrumentalização da “linguagem” do inconsciente vem a mostrar a necessidade de buscarmos sentidos e significado para o simbolismo, isso porque os nossos sentidos limitam as impressões sobre a existência na realidade objetiva, porém ao buscarmos o entendimento sobre a dimensão simbólica da consciência adquirimos conhecimentos necessários para transformar o próprio símbolo em conhecimento objetivo.

No livro “Presente e Futuro” publicado no ano de 1957, Jung analisa no item “A Religião como Contrapeso à Massificação”, a interação da religião e estado e seus efeitos na população.

As religiões funcionam basicamente como um suporte para a avaliação sobre a existência objetiva, pois as suas fontes são a própria leitura do indivíduo a acerca das condições externas, e ainda uma reserva em relação às exigências que o dia-a-dia vem a nos impor, podemos citar como um desses fatores os efeitos da economia nas sociedades, onde conota-se como uma das poucas realidades possíveis para agregar os valores necessários para o sua existência.

O direcionamento e a proposta das religiões está na leitura do mundo, porém de forma a criar oposições claras entre o material e imaterial, baseado num determinado sistema de sacralizações.

No texto, autor priorizava a aplicação da palavra “confissão” no lugar de “religião”, pois a segunda é ampla e transcende a condição institucional que os efeitos religiosos vem a apresentar no social, Visualizamos então a diferenciação temática na pesquisa sobre o tema, que contribui na distinção entre “a causa primeira” e as suas conseqüências, ou seja, o sincretismo popular.

O fato do indivíduo pertencer a uma confissão, não significa necessariamente a manifestação de sua religiosidade, isso porque, ele pode estar ligado mais pelo efeito social do que transcendente.

Numa condição da relação da crença e a individualidade, tanto uma determinada confissão quanto o estado, podem contribuir para limitar a visão dos indivíduos com o objetivo de impor a dominação. Jung relata, por exemplo, o estado a serviço de uma estrutura ditatorial, onde suas forças além de suprimir a organização da sociedade civil, suprime também às forças religiosas da população, então, o aparelho do estado ocupa o lugar de Deus, ou ainda passa a ser a própria divindade.

Ao levarmos em conta o período da publicação do texto em análise, o autor critica principalmente os diversos regimes socialistas no sistema geopolítico da luta entre as polaridades americanas e soviéticas.

Quando a autoridade, do estado ou religiosa, determina de forma autoritária os destinos e a sacralidade individual, acaba por contribuir para o surgimento do fanatismo, violentando toda e qualquer possibilidade de questionamento sobre os fatores decorrentes do processo.

Outro alvo da crítica junguiana vai para os racionalistas excessivos, (e também ao Freud, indiretamente), pois para os mesmos, os efeitos da religiosidade não passam de superstições e magia, entretanto, em nenhum momento, a magia deve ser subestimada ou reduzida a ilusões, pois os arquétipos e o processo da busca da divindade interna ( ou do Self ), articulam os efeitos da manifestação simbólica e mágica para a contemplação da experiência religiosa e íntima como um valor autêntico, ou ainda como função natural e latente.

Na busca pelo Self a função da fé na experiência religiosa é apenas uma função secundária, pois o próprio Self é uma realidade interna naquele que o busca, embora, com os limites que a parte inconsciente do espaço psicológico, designa na compreensão existencial.

A dimensão da estrutura das imagens produzidas pela psique, em constante transformação e reestruturação dos arquétipos, vem a mostrar a necessidade de transcender os nossos limites e, a partir da análise interna podemos visualizar que a chamada modernidade não significa, necessariamente, o domínio do homem sobre a natureza, os fatos são outros, ou seja; o retrato do orgulho na grandeza humana demonstra o quanto estamos limitados as nossas fraquezas e ao egoísmo, o quanto falta para que possamos aprender com o autoconhecimento.


Bibliografia.

Jung, Carl Gustav - “Presente e Futuro” , Petrópolis / RJ - ed. Vozes - 1991.
Jung, Carl Gustav - “Psicologia da Religião Ocidental e Oriental” , Petrópolis / RJ - ed. Vozes - 1988.
Jung, Carl Gustav - “Civilização em Transição” - Petrópolis / RJ, ed. Vozes - 1993.
Gustavo, Barcelos - “Jung” - São Paulo - ed. Ática - 1991.


Jeovane de Sousa - estudante do curso de ciências sociais na PUC / SP.

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