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A FUNÇÃO RIZOMÁTICA DA LITERATURA EM TEMPOS DE GLOBALIZAÇÃO DO DISCURSO Verônica Cavalcante Bernardi mestre em psicologia - UFRJ O movimento da globalização aponta a forte necessidade do organismo capitalista de criar um centro, funcionando como unidade principal, que suporta as raízes secundárias. A proliferação destas raízes acessórias dão a falsa impressão de uma diferenciação, contudo, são apenas cópias decalcadas da matriz principal. Esta falsidade alteritária despercebida é o ideal globalizante, pois não há sequer percepção de que a diferença é ela mesma um "desvio" pré-estabelecido. A unidade busca se manter inteira, sem fissuras, sem vazios e, portanto, estagnada, uma vez que é o vazio que permite o movimento desejante. A globalização do capital que se apresenta como uma grande movimentação finaceira de mercados, transações políticas e econômicas sem fronteiras/barreiras paralizantes, visa a fabricação do mesmo, de uma unidade de funcionamento que não é democrática, mas déspota, onde um regime de signos impõe um único discurso, através da fala do núcleo globalizante. Aos globalizados restará a mudez, a perambulação, a sobrevivência. As ligações são sempre hierárquicas, orientadas a partir de um nível superior para um inferior, a comunicação é previamente direcionada, havendo uma regulação na passagem de informação. Há, assim, um vínculo de filiação a um discurso, não apenas anterior, mas "superior". As relações imaginárias se organizam em torno dessa matriz, veicula-se um ideal que se busca através da aquisição dos signos propostos pelo discurso "superior" globalizante. De que maneira é possível aos países globalizados sair da condição
de decalque do centro de comando? Os conflitos, guerras, que se observam no mundo, muitas vezes são movimentos
de resistência de regimes de signos econômicos, religiosos, étnicos, etc, que são descaracterizados
pela mídia ou sufocados pelo armamento do exército assegurador do mecanismo globalizante de signos. A violência
que vemos atualmente em nossas cidades, por exemplo, constitui-se como uma saída sintomática para
a imposição massacrante sob a qual vive grande número de pessoas. Mas o que se perdeu foi
a característica da revolta, dessa forma, o propósito de tanta violência não é
mais assegurar o lugar de sujeito, de cidadão. A violência é um recurso que também foi
esvaziado pelo capital, a violência non sense que agora é regida pela necessidade de adquirir os signos do capital,
promovidos pela publicidade. Objetos-fetiches asseguradores do consumo de imagens. A fim de pensar o movimento aterrador da globalização e o lugar da literatura, este ensaio aborda a globalização e a hegemonia do discurso imposto como progresso e igualdade para os sujeitos humanos, a centralização ideológica do discurso, a anulação da diferença e a manutenção do poder. Trata a seguir da função dos discursos margeadores: a literatura como instituição designada para romper com o discurso instituído, a literatura como expressão do arquivo social. E conclui apontando a função rizomática da literatura como linha de fuga diante da negação da diferença. A Globalização do Discurso: O discurso da globalização expressa um regime de signos no qual há um plano de organização estruturado, a partir de um centro, que irradia para todos os lugares existentes o que ali prevalece, regulando todo o organismo. Dessa forma, a globalização é um máquina política que propaga seus interesses através da neutralização da diferença discursiva. No âmago desta proposta está a regulação do organismo-mundo, por intermédio da anulação do desejo, portanto, da singularidade e das relações de alteridade. Para que se fixem idealizações narcísicas propostas pelo discurso globalizado, normatiza-se um modelo capitalista de existência para o sujeito. Neste modelo está inscrito demandas e necessidades para manter o gozo perverso do centro irradiador do capital. O discurso psicanalítico propõe que para o sujeito se expressar no contexto social é preciso que algo regule esta atuação. É necessário interditos e autorizações que possibilitem as relações entre os sujeitos no mundo e a lei é a instituição que marca os limites a que o sujeito deve se submeter para associar-se com o outro, seu semelhante. Freud delineou duas instâncias psíquicas que regulariam as demandas pulsionais de satisfação e de gozo do sujeito com o outro: o supereu, que rege os interditos; e o ideal de eu, que negocia o permitido e o possível, viabilizando a construção do desejo. O supereu define limites impondo proibições e o ideal do eu autoriza formas de lidar com estas interdições ditadas pela cultura, funcionando como um inventor, que tece linhas de fuga para não ser detido pelas leis do supereu, embora esteja submetido a elas. Contudo, para que esta regulação do ideal do eu possa operar, o sujeito precisa relativizar a onipotência regida pela estrutura narcísica ( denominada por Freud de eu ideal) que direciona a libido para seu próprio eu. O sujeito regido por esta instância crê que pode impôr seus ideais e suas leis e que não precisa se submeter a nada que lhe seja exterior, diferente do ideal do eu que reconhece a lei e inventa percursos no âmbito do próprio código para satisfazer suas demandas pulsionais. O sujeito narcísico, não submisso a nenhuma lei, crê que pode submeter os outros, não os reconhecendo em suas singularidades e diferenças, acreditando cegamente que se encontra no centro do mundo depredando-o de acordo com sua crença narcísica de poder. O sujeito se autoriza, por si, a tirar o que quiser do outro, recorrendo mesmo a violência se necessário, ele é um predador. O outro é um objeto para seu gozo, por isso descartável, substituível, comprável, reduzido à dimensão de um pedaço de carne. Nele, se deposita projetivamente tudo o que o sujeito narcísico não quer reconhecer em si. O outro é assim um mero fetiche1que serve para o sujeito narcísico gozar. Assim regulado pela economia fetichista o indivíduo não é perpassado pela diferença, e portanto não tem como reconhecer a singularidade e o desejo em si e no outro. Enquanto que o registro do supereu e do ideal do eu marcam um psiquismo atravessado pela alteridade, por algo que lhe é externo, sejam as interdições e os ideais a serem buscados; o registro do eu ideal remete ao indivíduo como seu próprio peso e sua própria medida. Sendo ele mesmo seu próprio ideal, não há atravessamento pela alteridade, pelo externo, pela lei, não há relação de troca, mas de depredação do outro. A questão do psíquico pode parecer fora do âmbito social, contudo, não se pode pensar a circulação econômica no espaço social, sem ponderar o engajamento do sujeito neste lugar. Dessa forma, a economia das pulsões pode ser concebida como o correlato, no psiquismo, da economia política, que regula o espaço social, na medida em que é a partir das relações de troca dos objetos e da satisfação dos desejos que se pode considerar a questão maior da economia sócio-política. (BIRMAN,1999) Tudo isto implica no fato de que o direcionamento libidinal do sujeito
(alteritário ou narcísico) está ligado a circulação de bens e valores do espaço
social. Trata-se do que os americanos denominam como cultura do narcisismo, onde cada ser reflete a cultura dominante perversa, anulando as relações de reciprocidade. A diferença de valores de uma determinada cultura é apontada como inferioridade. O diferente é inferior, o único valor que circula é aquele que favorece o discurso capitalista central. Mas para que este discurso reine dominante ele precisa depredar aqueles países periféricos e sua tradição cultural e sua singularidade, atuando como predador do imaginário cultural destas sociedades. Assim, a globalização tem necessidades que para serem satisfeitas precisam recorrer a polarizações hierárquicas que se traduzem em desigualdades sociais tanto nos países pobres como nos países ricos. Requer a modernização que se expressa em uma organização econômica e política (mercado livre) que se baseia nos valores impostos pela própria globalização. Aquilo que de alguma forma escapa aos fundamentos idealizados da globalização, seja o massacre dos países pobres, seja anulação da diversidade cultural, é entendido como uma disfunção, como uma incapacidade daquele que não consegue se adaptar as demandas do organismo-total. Esta disfunção é o sintoma de uma nova colonização,
a partir de uma estratégia capitalista que precisa esmagar a maior parte da humanidade para garantir a opulência
de uma minoria. Segundo Paraire, uma fase de recolonização precedeu a globalização. Este prelúdio, como ele define, se estenderia de 1945 à 1990, onde instituições como o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional e o Gatt/OMC, aos quais vem somar-se o AMI(conjunto de acordos de liberalização do comércio mundial) atuando conjuntamente com o G7, adiquiriram um estatuto estrutural, principalmente, com a queda do bloco soviético e da passagem da China ao regime do capital. Esta estrutura-institucional foi tornando-se "uma espécie
de centro de
reflexões, de encontros e de decisões funcionando em benefício do capitalismo dominante".
(Ibidem, p 466 - o grifo é meu) Segundo o autor acima citado, a estratégia deste núcleo estrutural
foi evolutiva, distinguindo-se em quatro grandes fases: num primeiro momento, o objetivo central era gerar a dependência
técnica e financeira dos países pobres através de uma ajuda ao desenvolvimento, o que se traduz
por uma vasta concentração urbana e industrialização das zonas rurais; uma segunda
fase, entre 1968 à 1982, orientou-se para o endividamento desses países a quem se ofertou uma ajuda;
a terceira fase dirigiu a corrosão das bases de sustentação da União Soviética
e a quarta fase, designada pelo termo — a reconquista — implicou o reajuste estrutural, ou seja a submissão
das países ajustados. Submete o ser humano a maior violência que se pode impôr ao ser: impedí-lo de ser sujeito do seu desejo. A violência imediata, brutal é menos ameaçadora do que aquela que se oculta e se arrasta no tempo e no espaço, não deixando um lugar ausente para o ser mover-se, ela preenche todas as lacunas com seu regime de signos, lenta e progressivamente. Assim, o mundo da mercadoria, e tudo o mais que ele implica, buscou invadir todos os espaços: países não inseridos na demanda capitalista e setores dos países ocidentais, de primeiro escalão, antes fora de seu alcançe, como a educação, a saúde, a informação, passaram a ser regidos pelas leis da rentabilidade do mercado. Dessa maneira, torna-se fácil perceber que não há necessidade de um exército armado para organizar a tomada desses países antes alheios ao capital, nem para assegurar a invasão dos setores públicos, mas sim de um sistema publicitário que "alicia os espíritos pelo seu matraquear incessante e mata com mais ferocidade do que um bombardeio". (FRÉMION, 1999, p. 517) A própria cultura está submetida ao mundo comercial. O espaço de criação está sendo globalizado, há um bloco de atitudes e pensamentos que se deve aceitar como próprio e, na verdade, não há espaço para se perceber isso, pois tudo se organiza em torno de uma política da livre iniciativa. A conquista colonial agora não se faz mais com armas, mas com demandas: criam-se demandas, antes desnecessárias àquela cultura, que passa então a necessitar de um produto cuja existência ignorava; criam-se valores em torno de um produto, que pode ser desde uma peça de roupa até um jogador de futebol, e este torna-se um objeto-fetiche, tamponador da falta , do espaço necessário para que a diferença permita a mobilidade do desejo. O gozo do capital, em seu ritmo perverso impõe o confinamento do desejo, porque não admite a diferença, tudo é coberto pela lógica mercantil e financeira. Frémion citando Toscani demonstra: O discurso do capital globalizado por meios publicitários é a expressão do centro narcísico que tem a si próprio como ideal, negando a singularidade das culturas diferentes. Através da mídia seduzem os países do 3º mundo a se oferecerem como objeto de puro gozo para o centro dominador. Impera o colonialismo onde apenas o discurso do colonizador pode ser propagado pela rede de comunicações. Se a lei é a forma simbólica do sujeito ser ultrapassado por algo externo que regula o psiquismo a que todos estão subordinados, a lei do capital subordina a partir de um centro despótico todos os outros, mas isenta o núcleo a submeter-se ao que propõe como lei. A publicidade é a forma do discurso do capital seduzir o sujeito anulando seu desejo, na medida em que não admite outro ideal senão aquele proposto por seu esquema centralizador. Enquanto o sujeito é capturado pela linguagem, pela lei simbólica, para se confrontar com seu outro, o sujeito capturado pela publicidade é inserido no discurso narcísico que impossibilita o relacionamento com seu próximo. Os desejos mobilizados pela regulação do supereu e do ideal do eu, são inviabilizados no registro do eu ideal. Não há desejo, há simulações gozosas. Passamos a precisar cada vez mais de mais coisas que nem sequer imaginaríamos precisar, porque o mecanismo da economia globalizante necessita de impôr suas demandas, para satisfazer suas necessidades, mesmo que para isso tenha que submeter todo o resto ao estatuto de objeto fetiche para seu gozo perverso. A Função Rizomática da Literatura: A globalização, enunciada como oportunidade para as expressões singulares, pretensamente, se oferece como um plano democrático, cujo objetivo seria derrubar fronteiras e, portanto, romper barreiras burocráticas e geográficas, percorrendo os quatro cantos do mundo a fim de permitir igualdade de oportunidades a todos os habitantes do globo. Este mecanismo político se apresentaria, portanto, como um movimento rizomático que não se restringiria por razões nacionalistas e assim, regimes de signos não cristalizados se deslocariam de diversos lugares do mundo e se intercruzariam transversalmente sem que se estabelecesse uma hierarquia discursiva. Contudo, o mecanismo da globalização não engendra o múltiplo, a multiplicidade discursiva, mas sim uma totalização que paradoxalmente se inscreve através da dicotomia hierárquica: países portadores do discurso e suas instituições, e pertencendo ao mesmo bloco, mas em condições de inferioridade, países submetidos. O que viabiliza ao núcleo central, formado pelos países globalizantes, a apropriação do discurso que estende aos seus países globalizados, a partir do regime de signos impostos pela via do capital, cujas leis se expressam pela fala da publicidade. Diante desta globalização hierárquica e fascista, a literatura e a arte de forma geral, precisam resguardar seu locus político democrático. Estes discursos têm uma função rizomática por estarem não-todo submetidos a lei do capital, lei esta que não viabiliza a inscrição do sujeito do desejo, mas antes o anula. Esta função democrática dos discursos margeadores implica a pulverização dos grandes centros que são substituidos por formações de linhas que se cruzam ocasionalmente e em qualquer parte. Assim, toda tentativa de centro vai sendo quebrada, pois nesse movimento as linhas se tocam e até fazem um ponto, mas um ponto local no tempo e no espaço, forjando pólos de subjetivação que não têm a rigidez da formalização central. O movimento rizomático liga-se a idéia do inconsciente atemporal freudiano e à indestrutibilidade do desejo e, portanto, à produção criativa do texto literário. Associa-se ao caráter parricida da escrita que necessita da orfandade para lançar-se no mundo sem uma significância cristalizada na herança paterna. Embora limitado pela regulação do supereu e o contexto do autor, o ideal do eu inventa um devir significante em cada apropriação feita por um leitor e seu contexto. O parricídio é, dessa forma, um deslocamento do eu ideal e portanto, do estabelecimento narcísico do significado, para o ideal do eu, como agenciamento criativo, implicando uma fuga, um deslizamento, uma indestrutibilidade, ou seja, a função rizomática do texto literário. Esta função estabelece uma correspondência com a concepção do agenciamento pulsional sempre como um ato de criação. O sujeito posicionado entre a pressão contínua da força pulsional e a insuficiência do sistema simbólico para mitigá-la, "inventa" caminhos possíveis para que as forças pulsionais encontrem percursos de satisfação no universo psíquico e no campo da alteridade, conformando um estilo de existência. (BIRMAN, 1995) O texto literário pode se entendido dessa maneira, como outro que oferece possibilidades de satisfação/efeito de sublimação, constituindo-se como um chamado ao sujeito para inscrever seu desejo num circuito pulsional. Assim, cada leitura de um sujeito/leitor é uma produção de um texto, ou seja é uma desconstrução de significados e efetuação de novas significâncias, é uma apropriação desejante, plástica, não cristalizada que impossibilita a rigidez da exatidão. Contudo, os discursos margeadores do movimento globalizante, como a literatura e a psicanálise, apontam que a falta de rigidez e exatidão que operam no domínio do argumentativo e do retórico não implicam um relativismo irracional, mas o relativo que permite a coexistência das diferenças. Portanto, a literatura não exprime signos convencionais e abstratos que garantem a univocidade, mas "signos que possuem história e emergem do remotíssimo passado, guardando vestígios de mitos arcaicos, ressonâncias de hinos a deuses antigos, ecos de espantos primitivos ou descobertas aterradoras, crenças, temores, emoções, alumbramentos, diante da vida ou da morte, do prazer ou da dor, do conhecido e do desconhecido. Linguagem que tem raízes múltiplas, alimentadas pelo húmus da equivocidade."(MOTTA PESSANHA, 1991, p. 10) O saber psicanalítico inaugurado por Freud, denunciou o fechamento do sentido imposto pela ciência positivista, que aspirava a certeza e a exatidão. Mas, o discurso científico, ao que parece, não é mais exatamente o contraponto dos discursos retóricos, pois o estilo pode ser reconhecido mesmo no discurso da ciência, por exemplo, o estilo euclediano, o estilo cartesiano, em relação a construção do objeto matemático. Atualmente, o discurso hegemônico dominante recorre mais a argumentação e a retórica, num jogo de sedução petrificante do sentido, do que ao discurso científico como garantia de verdade. O discurso publicitário faz uso do fechamento do sentido num modelo de verdade cultuado como único. Se o propósito positivista era encontrar a verdade, o publicitário é de fabricar a verdade e cultuá-la, anulando o desejo singular. O discurso publicitário, assim como a lógica formal e a racionalidade, visa desfazer a angústia de um desconhecido incognoscível. Costa Lima (1991) aponta o "controle do imaginário" por parte do pensamento europeu, com a intenção de domesticar a diferença cultural, encontrado no relatos de viagem dos séculos XVI e XVII. O autor demonstra que nestes textos, o sujeito é concebido como um "Eu unitário" a partir da denegação da diferença cultural, excluindo o estranho, o não familiar (o unheimlich freudiano), para que o sujeito configure-se em uma unidade e não se confronte com a alteridade. Atualmente, este "Eu unitário" figura ainda a partir da denegação cultural alteritária, fato que se expressa pela concepção econômica capitalista de um mercado único. A diferença cultural, advinda da relação do sujeito com seu contexto, configurando seu estilo de existência é degradada como inferior àquela proposta pelos meios publicitários capitalistas. O único modo de vida satisfatório é aquele proposto pelo centro promovedor da estabilização de uma significância, o que escapa é entendido como estranho que, contudo, é familiar. A psicanálise e a literatura, considerando a polissemia da linguagem,
usam a interpretação como uma prática da dúvida que se opõe a estabilidade do
sentido. A superdeterminação, na psicanálise, vinculada ao conceito de inconsciente atemporal,
implica o rompimento com a causalidade linear. Assim, a origem fica desde sempre barrada e causa e conseqüência,
não se equacionam num ritmo linear, o sentido é sempre evanescente e pontual. No texto literário,
por sua vez, comparece a alteridade, o Outro, linhas onde se inserem a cultura e a história e que, ao mesmo
tempo as constituem. Isto implica que o texto é sempre plural e que sua significância é pontual,
junto à conjuntura do contexto, não havendo a palavra totalizante, conclusiva, impossibilitando uma
representação única das diversidades de leitura. A partir da constituição de um discurso único pela via do capital, a hegemonia de um regime de signo impõe a neutralização da diferença e da multiplicidade que se expressa nas diversas culturas com suas tradições nacionais. O rompimento dessas fronteiras não se opera como igualdade de direitos para os diversos cidadãos do mundo, mas como resignação e aceitamento do regime de signos imposto. Atuando nas fissuras deste bloco discursivo, a literatura, segundo Derrida, guarda o espaço da democracia, pois apesar de atuar dentro de um contexto lingüístico anterior a ela própria e de estar inserida no mundo onde um código de leis rege uma estrutura discursiva, ela opera desconstruindo este regime que também a submete. A literatura por sua possibilidadede dizer tudo, qualquer coisa, expressa o imaginário social, as fantasias que compõem o discurso do Outro. A literatura é, assim, a sombra2 da publicidade. Enquanto esta, "pública" o que o regime de signos quer impor como verdade para uma dada cultura, aquela exprime as "verdades" afetivas de uma cultura, expressando-se através de signos que lhe são anteriores, mas para impor-lhes uma linha de fuga, uma vez que não se submete totalmente a lei do capital. Como a arte de forma geral, a literatura expressa aquilo que os fatos históricos, a ciência, o discurso dominante buscam explicar e conter em números estatísticos. A literatura é a manifestação erótica, ela é afetamento, o que ela diz de uma cultura, de um lugar social, é aquilo que escapa ao registro numérico, escapa a lei econômica do capital, pois pertence a economia libidinal das pulsões como efeito de sublimação. É o que excede, o que o suplementa este regime, que quer se impor como único, como bloco monolítico. O discurso literário é a expressão do não-todo, do singular que, inserido no mundo globalizado, tece cadeias significantes que são verdadeiras linhas de fuga, que resguardam o movimento erótico humano. A função rizomática da literatura está na característica parricida de seu texto, no gesto orfão de se lançar ao mundo levando sua escrita erótica para qualquer leitor-amante. Ela se oferece como objeto do desejo aquele que lhe lançar um olhar libidinoso, pois está sempre em fuga da interpretação cristalizadora, da atribuição apriorística de sentido, do estabelecimento de um signo que a decifre. A literatura é a manifestação de um afetamento pelo mundo, pois ela é do mundo e não, etérea, ela é mundana, imanente, corriqueira, erótica. É o estranho-familiar, pois no âmago de sua representação discursiva há a paixão do irrepresentável, em algum lugar naquelas linhas, na remissão significante, passa o erotismo que designa aquele texto como literário. Assim o livro se lança na aventura amorosa do desconhecido a cada novo leitor que o toma nas mãos, cada leitor é assim um novo autor, que remete sua leitura/texto a um novo leitor, numa interminável e intercambiante linha de fuga, numa cadeia significante geradora de sentidos que não se fixam, senão para gerar uma nova inquietação significante. Lançando-se sempre no desconhecido da alteridade, o texto-orfão é a expressão do desamparo humano na sua busca, permanente e interminável, de sentido, de paternidade/logos. Em sua fluidez, a literatura rompe fronteiras geográficas e cronológicas, mas este globalizar não é um movimento de conquista territorial, é um movimento rizomático que se espalha, de uma maneira transversal, sem um ritmo compassado ou direcionado, mas com um ritmo poético que chega a lugares e tempos nem sequer imaginados. Não há domínio sobre o afeto,não se pode registrar qual será seu caminho e que consequências terá, não há predição sobre o devir. O contraponto da globalização do capital que se impõe como unicidade é o movimento rizomático de globalização proposto pela literatura, que se espalha levando as intensidades singulares de uma cultura para outra formando novas intensidades que se relacionarão com outras em uma inscrição e fuga permanente. Assim, a literatura tem a função ética de exceder esta submissão ao código imposto e a função estética de causar estranhamento, de espantar, de afetar e quebrar o encantamento da oferta máxima do capital: a oferta de sentido único para todos, de normatização do desejo, de antecipação da demanda e de cristalização do mundo, impossibilitando as diferenças culturais, as expressões singulares do sujeito de cada povo, de criar o imaginário social e de compô-lo avesso à pobreza de enredos onde só há um tipo de relação possível: globalizante globalizado 1 O fetiche tem como função impedir o reconhecimento da diferença sexual que, para a psicanálise, é a matriz psíquica do reconhecimento da diferença em si, racial, étnica, política, religiosa, etc. 2 Em 1945, Jung definiu sombra como: a coisa que uma pessoa não tem o desejo de ser"(C W 16, parág. 470) Ampliando este conceito para as manifestações discursivas, a literatura é, por assim dizer, aquilo que a publicidade não consegue desenvolver em si mesma. 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