PSICOLOGIA TEXTUAL: UMA PROPOSTA METODOLÓGICA

Elisabete Christofoletti

Psicóloga, mestre em educação

christofoletti@enter-net.com.br

INTRODUÇÃO

Ecléa Bosi em Memória e Sociedade (1987) realizou pesquisa importante com velhos, utilizando a História de Vida. Inovadora dentro da Psicologia, recobrou a história vivida a partir de relatos individuais, dando voz àqueles que não são, tradicionalmente, ouvidos. Posteriormente, Ciampa, publicou A História do Severino e a História da Severina (1987), também fazendo uso da História de Vida, dando voz a Severina.

Numa época em que o habitual era trabalhar com depoimentos e fragmentos de entrevistas, Bosi apresentou as entrevistas dentro do corpo de seu livro, além de não trabalhar com entrevistas tradicionais de perguntas e respostas, permitindo-se de certa forma entrar no espaço e na história do outro.

Os textos gerados por meio das gravações das entrevistas nos colocaram diante do diálogo com múltiplas narrativas, embora Bosi em seu trabalho refira-se à arte de contar histórias, trabalhando com o resgate da memória, uma memória individual, povoada de nomes próprios, e tempo social.

A Psicologia Textual, trabalha a memória a partir do conceito de desdobramento, constituindo uma outra maneira de considerar a temporalidade que, ao ser desdobrada enquanto presente de memória, formata o passado como uma "narrativa escolhida".

A História Oral como metodologia tem apontado para uma ação interdisciplinar, possibilitando várias conexões (texto, oralidade, lingüística, ficção, temporalidade, interioridade, discurso) e fornecendo diversos caminhos para construção do "texto interior", ou "texto contado", onde a pessoa em atendimento se reconheça e reconheça sua interioridade, suas tramas e personagens.

O trabalho em História Oral, desenvolvido por José Carlos Sebe Bom Meihy, abre a possibilidade de tratar as gravações como textos abertos (fruto das regravações e correções) de cada pessoa, que se reconhece neles, refazendo, redirigindo, remontando, num jogo de modelagem da narrativa sobre si mesmo, onde o processo (período de gravações dos momentos narrativos, das várias leituras e alterações, e dos esclarecimentos e alterações necessárias) representam conteúdo terapêutico tanto quanto o produto final (a narrativa tida como final de uma etapa do processo terapêutico).

O texto final (e mesmo os intermediários) não é portanto, um documento sobre seu narrador, mas um fragmento de imagem a partir dele, imagem interpretada, imagem convincente, imagem desfocada, imagem conseqüente. Dessa maneira, como uma síntese entre a Psicologia e a História Oral, pudemos desenvolver a proposta de uma Psicologia Textual (Caldas, 1998, 1999), onde o texto nos leva para além da imagem, do dito, do engodo do discurso tão alertado por Freud e Jung.

A Psicologia Textual, como instrumento aponta um caminho, possibilitando um olhar para parte da interioridade, através do olhar sobre realidades, discursos, narrativas, permitindo inúmeras leituras, de um mesmo texto, espelho e reflexo de tantas contradições.

Essa Psicologia se desenvolve como possibilidade de não buscar verdades ou realidades, não parta de premissas universalizantes, mas a partir da constituição de cada texto singular; com uma interpretação singularizante aberta às múltiplas leituras.

"Um texto é um universo indefinidamente aberto em que o intérprete pode descobrir interligações infinitas. (...) Todo texto que pretenda afirmar algo de unívoco é um universo que erra, ou seja, a obra de um Demiurgo transtornado (que tentou dizer "isto é isto") e em vez disso permitiu um encadeamento ininterrupto de suspensões infinitas em que "isto" não é "isto")." ECO, 1993, p. 41)

A Psicologia Textual aproxima o encontro com a interioridade, provoca na pessoa o olhar sobre si próprio, mesmo que fragmentadamente mantida na narração textualizada.

PROCEDIMENTOS

Este ensaio se detém ao trabalho realizado com Ana (nome fictício). Com ela realizamos o primeiro trabalho com a Psicologia Textual (1998/1999). No inicio do trabalho, conversei sobre este processo como seriam feitas as gravações, a textualização, o retorno do texto a ela, a leitura em conjunto, e o texto finalizado.

Ana procurou auxílio terapêutico aos vinte e oito anos, quando sofria de crises de gastrite. Aos vinte e dois anos, quando iria estudar fora da cidade em que morava, engravidou do namorado, que a deixou até o nascimento do filho e questionava o estar grávida de Ana. Com o nascimento do filho ocorre o casamento, ficando juntos por dois anos e meio.

A partir do nascimento do filho a vida para Ana passa a ser um tempo sempre a espera de algo. Construiu para si um discurso de vítima, permitindo que tudo fosse conseqüência da interrupção de seus planos, quando engravidou. Seus sonhos contemplavam: casar, passar num concurso público e prestar carreira diplomática.

Durante o trabalho com Psicologia Textual, Ana foi compreendendo os discursos que vem criando, "amarrando" a si mesma numa trajetória narrada.

Foi vitima de abuso sexual na infância por um tio, sentindo-se desprotegida e abandonada principalmente pela mãe. Depois da adolescência a irmã foi estudar fora, queria ser igual a ela; precisava da atenção dos pais, ser o centro. Confia em seu namorado de quem engravida, e passa a aceitar tudo que lhe é imposto, porque seus pais a aceitaram mesmo grávida. Submete-se inclusive ao tio que a abusou sexualmente.

Os três sonhos em sua vida: primeiro, o casamento, lhe remetendo a um comportamento socialmente esperado de aceitação; segundo, a luta pela aprovação em concursos pois, busca segurança; terceiro, seguir carreira diplomática, que lhe garantiria a manutenção do discurso criado, pois as condições de realização deste sonho sempre foram bastante improváveis (vítima).

Com o trabalho com texto, Ana compreendeu algumas estruturas discursivas que vem compondo sua vida, percebendo ainda que poderia refazê-las como um texto. O texto resultante, não tem a função de acorrentar, mas colaborar para que sua narrativa possa ser "vista", mesmo que parcialmente, não caindo nas armadilhas de busca de coerência do próprio discurso engessando-o com "realidade" ou como o que "realmente aconteceu": é em torno dos discursos, das ficções particulares, da singularidade em processo textual, que a Psicologia Textual funda sua perspectiva.

Iniciei com Ana, o processo com uma seqüência de três gravações de aproximadamente uma hora cada, realizadas em três semanas consecutivas, tempo necessário para Ana fechar um ciclo narrativo completo (vide capsula narrativa – Caldas, 1999).

De posse das gravações, iniciei a segunda etapa, onde cada fita gravada foi transcrita, com a preocupação de ser o mais fiel possível ao dito, inclusive mantendo grande parte do ritmo das pausas, que é um dos elementos mantidos para as leituras do texto de Ana. Terminada a transcrição, o trabalho se voltou para as correções dispostas em várias versões sendo suprimida a voz do terapeuta pois, as intervenções que ocorreram pretendiam acompanhar a trama constituída como continuidade dela. Ajustes necessários ao texto foram ocorrendo nas versões posteriores levando-se em consideração a passagem da oralidade para a escrita e as dificuldades lingüísticas decorrentes.

Na etapa seguinte, o texto foi re-apresentado para leitura e interpretação nos encontros posteriores. Quando Ana se deparou pela primeira vez com seu texto, extasiada perguntou: "O meu relato? Minha história? Posso levar para ler minha história?", e o levou para casa, preferindo, nos encontros seguintes, que eu o guardasse.

Realizamos depois disso encontros de quarenta e cinco minutos, onde Ana fazia a leitura até o momento em que interrompíamos para alguma observação, esclarecimento, aprofundando a reflexão terapêutica. Este processo de leitura e discussão ocorreu em dezesseis meses, com sessões semanais, novamente gravadas. Durante a leitura houve dias em que Ana trazia para sua sessão terapêutica, a partir da leitura do seu texto, outros assuntos, que faziam parte de sua vida naquele momento. São os inter-textos, que foram se entrecruzando, formando-se dentro do texto inicial um novo tecido narrativo.

Foram aproximadamente vinte e duas horas de gravações nesta fase. Quando faltava menos de duas páginas para terminarmos a leitura do texto, de aproximadamente vinte, Ana diz que nas últimas semanas esteve pensando o quanto seria importante terminar a leitura de seu texto, pois acreditava que sua vida mudaria a partir desse momento, aproximando o fim percebeu que não haveria mais necessidade de terminar a leitura desse texto; sua tarefa havia sido cumprida e que por ela poderíamos encerrar a leitura interrompendo-a neste momento, pois as mudanças em sua vida, já estavam acontecendo, não era o texto que as traria. O texto para Ana havia sido superado.

Enquanto a leitura era feita em conjunto, as fitas eram transcritas, seguidas de correções e transcriações (Meihy, Caldas), repetindo o procedimento inicial. A versão lida nas sessões recebeu todas as novas inclusões, ganhando novamente várias versões para que alcançasse uma linguagem que se aproximasse daquilo que Ana queria de seu próprio texto.

Ao final desse processo, chegamos a versão final desse texto de Ana, possibilitando múltiplas intervenções em uma mesma questão. O olhar de Ana, agora bem mais centrado em sua interioridade, mostrava-se surpresa com o que lia de si mesma e com os comentários que fazia do próprio texto.

A compreensão de si mesma como multi e inter-textos, da vida como ficção, fez com que o trabalho neste texto de Ana fosse encerrado ao final desta leitura.

Entregue essa versão final a Ana, ela o levou para sua casa, leu e solicitou algumas alterações, que após discussão conjunta decidimos pela inclusão de apenas algumas.

Iniciamos então nova gravação, partindo de sonhos, que chegaram lhe incomodando muito. Repetindo o mesmo processo de trabalho.

RESULTADOS

Esse texto de Ana se abriu em muitos inter-textos, proporcionando, pelo caráter do registro escrito, um conjunto variado de interpretações, dentre tantas possíveis. O trabalho pode ser dividido em quatro etapas: a primeira quando decide buscar ajuda e escolhe sua terapeuta. Na época não tinha emprego, passados seis meses retorna, tendo sido aprovada num concurso, sentindo-se então em condições de iniciar.

A segunda etapa deu-se com o início dos atendimentos, quando Ana fez breves relatos de sua vida: um filho indesejado no início da juventude; decisão por terminar um namoro de sete anos que não caminhava para um casamento; a busca e início de outro relacionamento, deixando a casa de seus pais, onde morava.

A terceira etapa é iniciada com o trabalho de Psicologia Textual, quando começou a aproximar-se de si mesma, tomando uma narrativa sua como ponto de partida para se conhecer melhor; e a quarta quando terminamos a leitura do texto.

Gravar as sessões terapêuticas, obrigou-a a ser mais atenta ao que dizia e ao que lia sobre si mesma, provocando um envolvimento maior de sua parte. Um ano depois de iniciado o trabalho com a Psicologia Textual, Ana demonstra ansiedade e necessidade em terminar a leitura desse seu texto, acreditando que ao terminá-la, algo irá mudar em sua vida pois, não mais suporta a maneira como vivia.

Ana compreende que sua vida depende do discurso que está criando, podendo, somente ela, romper com a monotonia de sua vida.

Nesta etapa conversa com seu atual marido sobre o abuso sexual que sofreu na infância cria situações para conversar sobre o abuso com sua irmã, que também foi vítima no mesmo período que ela.

No dia em que Ana relata o encontro com sua irmã e a conversa sobre o abuso sexual, surpreende-se com a própria tranqüilidade e naturalidade para tratar da questão, sente que teve mais maturidade do que esperava e do que a própria irmã manifestou. Neste dia, relatou que poderíamos encerrar a leitura de seu texto, interrompêndo-a, (faltando menos de duas páginas), pois, segundo Ana, o texto acabava de cumprir sua função: sua vida já está sendo diferente.

BIBLIOGRAFIA

BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade. Lembrança de Velhos. São Paulo, EDUSP, 1987.

CALDAS, Alberto Lins. Psicologia Textual: Entre a Psicologia e a História Oral. Caderno de Criação, ano V, nº 16, junho. Porto Velho, 1998.

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CAMPBELL, Joseph. O Herói de Mil Faces. 5ª ED. São Paulo, Cultrix/ Pensamento, 1999.

CIAMPA, Antônio da Costa. A Estória do Severino e a História da Severina. São Paulo, Brasiliense, 1987.

ECO, Umberto. Interpretação e História. COLLINI, Stefan (org.) Interpretação e sobreinterpretação. Lisboa, Presença, 1993.

MEIHY, José Carlos Sebe Bom. A Colônia Brasilianista: História Oral de Vida Acadêmica. Nova Stella, São Paulo, 1990.

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