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Poucos panos e muitas imagens:
um estudo de caso de uma paciente com epilepsia

Patrícia Souza Focchi 
Paulo Afrânio Sant´Anna

Faculdade de Psicologia-
Universidade Presbiteriana Mackenzie

INTRODUÇÃO

O presente trabalho consiste no relato de uma experiência de atendimento em clínica-escola de uma paciente com epilepsia. A cliente iniciou seu atendimento 6 meses após o início do atendimento de sua filha, a partir do qual lhe foi proposto um acompanhamento paralelo. A abordagem atual da epilepsia tem sido diferenciada na neurologia e na psiquiatria, e consequentemente na psicologia, pois segundo BALLONE (2001),  existem alterações funcionais no sistema nervoso central, e consequentemente manifestações no comportamento, nas emoções e nos padrões de reações do indivíduo. Constatou-se que  muitos dos sintomas trazidos por Júlia (nome fictício) eram manifestações decorrentes destas alterações. Do complexo quadro de sintomas associado à epilepsia percebeu-se que alguns se evidenciaram ao longo do processo, entre eles: instabilidade e viscosidade afetiva, dificuldade de relacionamento, sintomas depressivos, irritabilidade, impaciência, onipotência. Buscou-se além dos traços comuns aos portadores de epilepsia enfatizar também as constelações psíquicas próprias da dinâmica da paciente. Os aspectos que receberam maior atenção foram: autonomia versus dependência, a natureza da crise epiléptica, a dinâmica familiar, a valorização do trabalho, a responsabilidade em relação a sua saúde, mas foi a questão da maternagem que constituiu o foco principal das intervenções— o “cuidar”, cuidar de si mesma, cuidar dos filhos. Nesse sentido trabalhou-se a constelação do arquétipo materno a partir do qual discutiram-se questões como:  “ser mulher”, de “ser mãe”, de “ser filha”. Em função da precária situação social, das dificuldades inerentes à doença e da pouca capacidade de elaboração da paciente o andamento do processo encontrou vários obstáculos que precisaram ser contornados por meio do estabelecimento de um canal efetivo de comunicação e intervenção. Trabalhou-se com alguns recursos expressivos, como música, poesia, barro, mas foi o bordado de quadros que possibilitou um canal de expressão e de construção da história de vida da paciente. Costurar seus sentimentos, seus sonhos e memórias, favoreceu uma re-costura e a uma reconstrução de sua auto-imagem. O quadro clínico evoluiu satisfatoriamente ocorrendo uma melhora da sua auto estima, da sua capacidade de organização e ação. Paralelamente a seu atendimento acompanhou-se o atendimento de sua filha. Na medida que seu quadro evoluía observava-se movimentos positivos no quadro da filha. A costura de roupinhas para bonecas possibilitou uma revitalização da relação mãe-filha. Para uma amplificação desse caso buscou-se referências nos mitos ligados à tecelagem nos quais é foi possível visualizar o poder transformador e curativo do feminino.

 Métodos:

Estudo de caso clínico

 Dados da Colaboradora: Mulher de 41 anos, com 1º grau incompleto, solteira, mãe de dois filhos, com quadro de epilepsia e alcoolismo.

 Coleta de dados:

Foram realizadas 38 sessões,  na “clínica escola” da Faculdade de Psicologia do Mackenzie.  Durante os atendimentos foram utilizados vários recursos expressivos, porém foi a costura o método mais utilizado, totalizando 17 sessões na confecção e exploração dos “Quadros de Panos”. Portanto o presente trabalho consiste em enfocar  a evolução desse processo. A paciente desenvolveu sua produção em três quadros, com os temas,  “passado”,   “presente”  e  “futuro”.

 Objetivos:

Apresentar por meio de estudo de caso uma experiência de intervenção clínica com uso de técnicas expressivas não-verbais enquanto canal efetivo de comunicação e intervenção.

 Desenvolvimento do Processo:

Com a Técnica de Barro, a paciente produziu peças definidas por ela como sendo três pessoas, ela e seus dois filhos, os temas constelados foram a maternidade, relacionamentos afetivos,  predominação de um padrão infantil de dependência e culpabilização do outro. Mudanças Observadas: Reconhecimento de seus medos e resgate de memórias de sua adolescência e  juventude.

Através dos Bordados, obteve três produções, a primeira onde realizou  um quadro com duas cenas, uma em que ela se coloca  nos momentos em que tinha crises epilépticas e o outro quando encontrou na fé a sua cura. Nomeou-o  de “Passado”. Os temas constelados : a problemática referente  as crises epilépticas desde sua  natureza até  a dinâmica familiar, dificuldade para dormir a noite, alcoolismo e ingestão de medicamentos de forma irregular. Mudanças Observadas: demonstrou muito orgulho de sua primeira produção – melhora da auto-estima, sentiu-se mais tranqüila, começou a regularizar o seu ciclo de sono o que repercutiu de modo extremamente positivo no seu estado de saúde e na dinâmica familiar. Ampliou seus conhecimentos sobre as crises epilépticas melhorando seus auto-cuidados.

Na segundo quadro bordado, também desenvolveu em dois temas, o primeiro colocou sua família, e no segundo o momento de terapia, definindo-o como “PRESENTE” – A questão da maternagem constituiu o foco principal das intervenções— o “cuidar”, cuidar de si mesma, cuidar dos filhos. Trabalhou-se  a constelação do arquétipo materno a partir do qual discutiram-se questões como:  “ser mulher”, “ser mãe” e “ser filha”. A costura estava lhe proporcionando um contato com sua “realidade”, deixando um pouco suas fantasias e seus medos. Aos poucos foram diminuindo as queixas e o sentimentos de solidão, assim como o processo de esvaziamento, empobrecimento e “morteparcial de suas potencialidades. Começou a demonstrar preocupação com o seu futuro, passou a questionar as relações com seus familiares, impondo limite e respeitando o seu limite, retomou suas atividades de lazer, buscando novas amizades e divertimento. Buscou a melhor forma para se medicar corretamente, passou a beber menos, tendo maior cuidado com sua casa e com seus filhos. A partir destas produções, o processo de tecer, foi o instrumento por onde pode possibilitar o “ caminho de volta”, a paciente pode voltar do mundo “ invisível” de forma a costurar desta vez, sua alma, como uma aranha que tece, tece, para depois se alimentar, para depois “ descansar” e procriar.

 Reflexões sobre o processo:

 A precária dinâmica familiar de Júlia é marcada por péssimas condições sociais e psicológicas: alcoolismo, falta de trabalho e moradia, relações familiares muito desestruturadas e violência.

Percebeu-se nos primeiros atendimentos que ela nutria um sentimento muito profundo de que ninguém a amava ou as pessoas nunca iriam amá-la. A dor de “não ser vista”, reconhecida e amada fez com que desenvolvesse um conjunto protetor de comportamentos para controlar a ansiedade das situações vividas. Atribuía estes sentimentos às crises epilépticas, mas na realidade, estes sentimentos estavam provavelmente enraizados na sua psique.

No início os  atendimentos tinham como foco principal a conscientização da paciente sobre as crises epilépticas e esbarraram em muita resistência. Júlia queixava-se constantemente da família e das outras relações nas quais não obtinha satisfação pois nelas predominava um padrão infantil de dependência e culpabilização do outro.

A  introdução do barro nas sessões foi muito produtiva, no sentido de ter despertado sentimentos que levaram Júlia a reconhecer seus medos e a resgatar memórias de sua adolescência e juventude. Moldando o barro começa a falar sobre questões relativas a maternidade: a perda de um filho e um aborto espontâneo. Nesse contexto surgem relatos da época em que trabalhava com costura o que possibilitou propor um trabalho de o bordado de quadros.

O trabalho com bordado fez com que Júlia fosse aos poucos resgatando sua alma, na medida que cada retalho de tecido possibilitava uma nova história. Costurar seus sentimentos, seus sonhos e memórias, permitiu uma re-costura e a uma reconstrução de sua auto-imagem. Weinrib ( 1993,) afirma que “a paciência e o cuidado exigidos para criar a realidade física dos cenários na areia são as mesmas qualidades necessárias nas terapias tradicionais de fiação e tecelagem ou de fazer massa. A paciência fomenta vínculo e proximidade.”(p.44).

Uma das queixas da paciente era a dificuldade de dormir a qual procurava solucionar mediante a ingestão de álcool misturado com a sua medicação. O resultado era desastroso, pois além de não conseguir dormir o efeito dos medicamentos era despontecializado. Ao começar bordar a noite percebe que se sente mais tranqüila e que aos poucos o sono aparece. Começa a regularizar o seu ciclo de sono o que repercute de modo extremamente positivo no seu estado de saúde e na dinâmica familiar.

Ao apresentar seus quadros para a terapeuta percebe-se que está orgulhosa de sua produção. Gostar daquilo que faz  é uma ponte para começar a se perceber de modo mais positivo e melhorar sua auto-estima. Nesse sentido procurou-se direcionar os atendimentos para as atividades que ela gostava de fazer, pontuando sua autonomia, sua possibilidade de fazer escolhas e sua responsabilidade por elas.  Aos poucos foram diminuindo as queixas e o sentimentos de solidão, assim como o processo de esvaziamento, empobrecimento e “morteparcial de suas potencialidades. Júlia começa demonstrar preocupação com o seu futuro, o que em si é positivo na medida que ela pode olhar para frente e não só para uma situação para a qual não encontra saída. Depois de confeccionar o primeiro pano ela dizjá sei, como eu costurei o passado, agora vou costurar o presente para depois costurar o futuro” (sic). O quadro clínico evoluiu satisfatoriamente ocorrendo um aumento de auto estima, da capacidade de organização e ação. Júlia passou a perceber o mundo ao seu redor de forma diferente, e está se percebendo como outra pessoa, como ela mesmo a definiu  “impaciente”, demonstrando certa “sede” de viver, ansiedade para trabalhar, para produzir, para amar, para viver....para tecer.

  

Bibliografia:

 ABRAMS, Jeremiah (org). O Reencontro da Criança Interior . Editora Cultrix – São Paulo – 1999 – 9º edição.

 BALLONE, Geraldo. Violência e Psiquiatria: Epilepsia, personalidade e agressividade. Disponível em: WWW.psiqweb.med.br7forense7violen2.html . Acesso em: 27 mar.  2003.

 CIRANI, Roberto - A utilização do barro em psicoterapia – Disponível em: www.rubedo.psc.br | Artigos | - Acesso em: 29 abr.2002

 EDINGER, Edward F. Ego e Arquétipo.  Editora Cultrix. São Paulo. SP. 1995

 HILLMAN, James. Encarando os Deuses. Editora Cultrix. São Paulo. São Paulo. 1980.

 Manual de Cambridge para Estudos Junguianos/ organizado por Polly Young-eisendrath e Terence Dawson, trad. Daniel Bueno – Porto alegre: Artmed Editora, 2002.

 QUINTAES, M. EROS, NOUS e ANANKE: Reflexões sobre algumas imagens da Alma. Disponível em: www.rubedo.psc.br|artigos|©MarcusQuintaes. Acesso em: 09 set.2002.

 QUINTAES, M. Pedras na Psiquê:Por uma clínica do Caráter, da Excentricidade e da Diferença . Disponível em: http://www.rubedo.psc.br/artigosb/pedrapsi.htm Acesso em: 28 out. 2002.

 SAMS, Jamie  & CARSON, David. Cartas Xamânicas. Editora Rocco, RJ. 2000.

 WEINRIB, Estelle L. Imagens do Self: o processo terapêutico na caixa-de-areia. [tradução de David Gilbert Aubert]. – São paulo: Summus, 1993.

 WHITMONT, Edward C.  A Busca do Símbolo – Conceitos básicos de Psicologia Analítica.Editora Cultrix  - Sâo Paulo – 1996 – 12ª edição.


Patrícia Souza Focchi
patriciafocchi@hotmail.com

Paulo Afrânio Sant´Anna
paulosantanna@mackenzie.com.br 

 

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