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POESIA E ALMA Tito R. de A Cavalcanti
Antes da filosofia dar os primeiros passos na Grecia a partir do século VII a.C., a palavra do poeta era considerada a única verdade. Sua capacidade de contar um acontecimento passado era algo divino, maravilhoso. Corresponderia à capacidade de alguém, hoje em dia, poder fazer afirmações acerca do futuro. Fica difícil imaginar a potência da poesia nesses nossos tempos de primazia técnica, científica, objetiva. Não pretendo criticar a racionalidade como a conhecemos no ocidente, mas sim falar do lugar deixado para a poesia, o mito, o inconsciente, a luz lunar. Jung sempre apontou a dissociação do homem ocidental que perdeu o contato com sua alma, com sua subjetividade, para desenvolver o discurso técnico, que nos deu os antibióticos, as viagens espaciais e os antidepressivos. Esse crescimento desigual gera consequências. Hoje, grupos humanos com grande avanço técnico convivem com aqueles que se regem pela tradição e pelo mito. E esses últimos, questionados por esse contato, reagem muitas vezes de maneira violenta, já que seus valores são desrespeitados, o costume é ofendido, o trabalho perde seu valor. O desespero, que pode ser medido pela escalada dos atos terroristas, tem sido a resposta possível. O ocidente, em sua fome de progresso e maximização de recursos responde com guerra. A dissociação ocidente-oriente, ou, sob esse ponto de vista, discurso mítico poético versus discurso técnico científico, se aprofunda e se cristaliza. Nem sempre existiu esse hiato entre mito e ciência . Na época pré moderna Karen Armstrong (1, pg.15) afirma ter existido uma dependência entre essas duas instâncias, sem que houvesse confusão entre os dois discursos. Stephen Jay Gould (2, pg.57) refletindo sobre a ciência e a religião também aponta para a necessidade de reconhecer os domínios distintos destas duas instâncias e não resolver os problemas de um campo com os critérios do outro. Mas é difícil permanecer entre os dois polos. Estamos imersos na cultura ocidental e, portanto, tendendo à compreensão objetiva, à ação imediata e curativa da alma. Repito, não é o caso de atacar o discurso técnico mas sim de evidenciar o mito, destacar sua importância. Reconhecer a razão que tem o mito contra o mito da razão (4, pg.2). Toda a psicologia que considera o inconsciente está convocada por esses tempos atuais. Isso porque a psicologia profunda está localizada neste interregno entre consciente e inconsciente, tendo que construir uma ponte entre o discurso técnico fabricante de ciência e o mito raiz, mão estendida ao inconsciente. Neste quadro, acredito que a psicologia analítica se incline, mais do que qualquer outra, em direção ao mito. Os conceitos junguianos necessitam, e muito, do discurso poético para serem compreendidos. A defesa que Jung faz da amplificação dos símbolos pode ser compreendida como uma defesa do discurso mítico poético, e seus conceitos estão marcados por essa escolha. Hillman afirma que a poesia é a linguagem da alma. Seguindo por esse caminho, farei um exercício de exploração do universo junguiano tendo como guia Paulo Leminski, poeta paranaense falecido em 1987 aos 44 anos. A escolha de Leminski é pessoal. Me apaixonei pela concisão, profundidade e beleza de seus poemas. Leminski afirma: Mito, filosofia, ciência. O mito é um dos explicadores. O mais antigo, donde os outros saíram. Mas não é uma forma superada. / Um mito não se supera. / A Física de Ptolomeu ou a Química de Lavoisier podem ser superadas. / O mito de Édipo não pode. / Ele é o que foi, e assim será, para sempre. / Como todo mito, é uma leitura absoluta das essências. ( 9, pg.70) Reservar e manter um lugar para o mito, que neste texto igualo ao discurso poético, e respeitar sua dinâmica própria, é uma tarefa árdua. O ato de fazer poesia e buscar essências exige muita energia como pode-se perceber pelo poema: um bom poema / leva anos / cinco jogando bola, / mais cinco estudando sânscrito, / seis carregando pedra, / nove namorando a vizinha, / sete levando porrada, / quatro andando sozinho, / três mudando de cidade, / dez trocando de assunto, / uma eternidade, eu e você, / caminhando junto (11, pg. 9) Leminski chega mesmo a dizer que é necessário existir uma reserva ecológica sem porquê, sem um pensamento articulado que vise um resultado prático. É como se a poesia, em nossos tempos, precisasse de proteção por meio da instituição dessa reserva ecológica (7, pg.18) Um diálogo criativo entre os discursos poético e técnico só é possível a partir do respeito mútuo. O que o poeta tem a dizer sobre a alma? RUMO AO SUMO Disfarça, tem gente olhando./ Uns, olham para o alto, / cometas, luas, galáxias. / Outros, olham de banda, / lunetas, luares, sintaxes. / De frente ou de lado, / sempre tem gente olhando, / olhando ou sendo olhado. / Outros olham para baixo, / procurando algum vestígio / do tempo que a gente acha, / em busca do espaço perdido. / Raros olham para dentro, / já que dentro não tem nada. / Apenas um peso imenso, / a alma, esse conto de fada. (11, pg. 49) Esses tempos culturais extrovertidos pedem pouca atenção para a alma. Essa atenção parece mesmo algo que carrega uma ponta de marginalidade, é preciso disfarçar, tem gente olhando. Somos olhados, invadidos em nossa atitude perante a vida, a objetividade supostamente necessária para sermos cidadãos de nosso tempo perscruta de todos os lados, olhando, olhando para que prossigamos produtivos. O olhar para dentro, a reflexão e a consequente responsabilidade pelo que vem do interior, a passividade atenta, a metafísica, não são artigos em voga na cultura ocidental. E todos esses aspectos humanos são terreno da anima, esse conceito concebido por Jung e, como toda a sua psicologia, mais afim ao oriente, ao mito e, portanto, de difícil tecnicização. A poesia de Leminski corrobora essa compreensão ao apontar o aspecto conto de fada ou simbólico da alma. Ela é nada que pesa, os vales pantanosos cheios de reflexos de lembranças que podem aprisionar e paralisar a vida na intensidade da dor ou nas confusões das nuvens que se desprendem das águas. Ponte que leva para o aspecto coletivo da psique, em direção ao outro desconhecido, mistério e aventura. Algo que se escuta e se contempla, que proporciona associações e ampliações, e que pode se misturar com outros arquétipos do inconsciente já que está no umbral entre a consciência e o inconsciente. Se, dentro da perspectiva do poema, a alma é um peso, como se livrar dessa força gravitacional? A ascenção, o libertar-se de qualquer tipo de amarra é prerrogativa do espírito. O arquétipo do puer representa uma das possíveis vertentes do espírito. É o jovem eterno em constante busca, vulnerável, transgressor. Hillman e vonFranz olham de perspectivas (ou psicologias) diferentes para o fenômeno e perceberam aspectos opostos do arquétipo. Para ele, representa o anseio pelo que existe de mais superior ou angelical em nós. Para ela, esse anseio liga-se ao arquétipo materno e ao incesto. Mas verifiquemos o que a vida diz, filtrada pela perspectiva poética de Leminski: ASAS E AZARES / Voar com asa ferida? / Abram alas quando eu falo. / Que mais foi que fiz na vida? / Fiz, pequeno, quando o tempo / estava todo ao meu lado / e o que se chama passado, / passatempo, pesadelo, / só me existia nos livros. / Fiz, depois, dono de mim, / quando tive que escolher / entre um abismo, o começo, / e essa história sem fim. / Asa ferida, asa / ferida, / meu espaço, meu herói. / A asa arde. Voar, isso não dói. (6, pg. 79) Estamos em pleno vôo, no céu tão caro ao puer, ilimitado, sem qualquer materialidade que possa impedir a viagem de prosseguir. O poeta afirma não ter feito outra coisa na vida a não ser voar. Quando criança, sem interferência do passado que, além de passatempo é pesadelo, ou seja, carrega em si algum tipo de ameaça. Talvez encerre em si o ato que feriu a asa, mas o passado ainda se mostra de maneira bastante abstrata, existindo somente nos livros. Depois de adulto essa ameaça se materializa e, então, só resta ao poeta essa “história sem fim”, que poderíamos entender como o vôo. A terra, ou o aeroporto necessário para o descanso entre todos esses vôos fica identificado com o abismo. Impossível parar e cuidar da asa. A necessidade heróica de continuar a voar ferido e a ardência e a dor decorrentes são o cotidiano do puer. Ver / é dor / ouvir / é dor / ter / é dor / perder / é dor / só doer / não é dor / delícia / de experimentador (5, pg.59) Transformar a própria dor em delícia por meio da experimentação. Isso pode ser entendido como uma espécie de fé, uma afirmação acerca do modo de compreender e viver a vida. Tudo aquilo que se nos apresenta é uma experiência que traz algo a ser assimilado. Porém, se não existe algum lugar no qual possam ser armazenadas essas experiências, elas acontecem e se perdem no fluxo. Além disso, é impossível escapar da dor o tempo todo. Em algum momento ela nos apanha. Estetizá-la resolve? um homem com uma dor / é muito mais elegante / caminha assim de lado / como se chegando atrasado / andasse mais adiante / carrega o peso da dor / como se portasse medalhas / uma coroa um milhão de dólares / ou coisa que os valha / ópios édens analgésicos / não me toquem nessa dor / ela é tudo que me sobra / sofrer, vai ser minha última obra (11, pg. 74) Onde está essa mãe terra que não acolhe? O poema sabe à resignação desesperançada e transforma a dor, de fonte de sofrimento em fonte única de identidade. Será que a mãe está muito idealizada? minha mãe dizia / - ferve, água! / - frita, ovo! / - pinga, pia! / e tudo obedecia (5, pg. 19) ou ainda: lá fora e no alto / o céu fazia / todas as estrelas que podia / na cozinha / debaixo da lâmpada / minha mãe escolhia / feijão e arroz / andrômeda para cá / altair para lá / sirius para cá / estrela dalva para lá (11, pg. 26) Essa mãe é uma deusa que tem por companhia as estrelas e sabe dominar a matéria. Tanto poder encerra uma grande força de atração, e isso pode ser sentido pelo filho, que precisa empreender sua própria jornada, como um abismo que sorve sua energia. A aproximação desse complexo materno pode significar sua prisão eterna e mesmo a morte. Pode-se depreender daí a atração do puer pela morte. Sabe ser impossível viver continuamente por meio de abstrações, e necessita de muito combustível extra que é, em geral, obtido por meio de drogas. Mesmo assim, a possibilidade de quedas é sempre presente: MINHAS SETE QUEDAS / minha primeira queda / não abriu o pára-quedas / daí passei feito uma pedra / pra minha segunda queda / da segunda à terceira queda / foi um pulo que é uma seda / nisso uma quinta queda / pega a quarta e arremeda / na sexta continuei caindo / agora com licença / mais um abismo vem vindo (5, pg. 39) Uma queda assim deixa suas marcas e traz uma visão pouco otimista. É a deflação que se segue à inflação do vôo. um dia / a gente ia ser homero / a obra nada menos que uma ilíada / depois / a barra pesando / dava pra ser aí um rimbaud / um ungaretti um fernando pessoa qualquer / um lorca um éluard um ginsberg / por fim / acabamos o pequeno poeta da província / que sempre fomos / por trás de tantas máscaras / que o tempo tratou como as flores (10, pg. 28) Ou então: eu queria tanto / ser um poeta maldito / a massa sofrendo / enquanto eu profundo medito / eu queria tanto / ser um poeta social / rosto queimado / pelo hálito das multidões / em vez olha eu aqui / pondo sal / nesta sopa rala / que mal vai dar para dois (5, pg.72) Momentos de depressão, de inutilidade, chamado da anima pedindo o encontro com um aspecto da vida que não foi trabalhado. Por outro lado, o arquétipo do pai poderia contrabalançar esse estado de coisas impondo limites justos que impediriam vôos excessivos. Imagino os arquétipos, ou melhor, os complexos por ele determinados, em mútua relação desde o início da vida. Claro que existem momentos nos quais existiria uma preponderância maior de um sobre os outros – a primeira infância, por exemplo - mas, de maneira geral, não existiria uma situação na qual um complexo isolado regeria os acontecimentos psíquicos. Mesmo que ocorresse tal situação, os outros complexos expressariam simbolicamente seu abandono e tentariam se impor também à consciência. Formariam então o complexo da sombra, composto por aspectos reprimidos ou que nunca alcançaram a consciência. Como estaria então, o complexo paterno dentro deste quadro específico que estamos acompanhando? De tudo / Um pouco fica / Um pouco vai / Quem me dera / Ter tua pica / Meu pai (12, poema 21) Retrato pouco promissor para um complexo do qual se esperaria uma atuação positiva. O poder fálico não está disponível, o pai ainda é o poderoso que deixa pouco espaço para o filho encontrar sua própria força. Poder-se-ia imaginar que tal situação acarretaria uma revolta contra qualquer lembrança de ordem instituída ou hierarquia, o que dificulta sobremaneira a vida de qualquer cidadão: nunca quis ser / freguês distinto / pedindo isso e aquilo / vinho tinto / obrigado / hasta la vista / queria entrar / com os dois pés / no peito dos porteiros / dizendo pro espelho / -cala a boca / e pro relógio / -abaixo os ponteiros (5, pg. 95) Revolta de um espírito que não quer fronteiras, busca pelo espaço livre distante do peso imenso da alma, das emoções sempre renovadas. Como trabalhar toda essa voragem emocional? A função sentimento precisaria valorar e ordenar essa torrente diária de afetos. PARADA CARDÍACA / Essa minha secura / Essa falta de sentimento / Não tem ninguém que segure / Vem de dentro / Vem da zona escura / Donde vem o que sinto / Sinto muito / Sentir é muito lento (6, pg. 56) A zona escura citada pelo poeta pode ser lida como uma metáfora para o inconsciente. A descrição de seu sentir é perfeita, realçando o que, talvez, seja uma característica da função inferior: a lentidão. A morosidade é o ponto cego. Até a pessoa realizar o que acontece décadas passam. É como um caminhão carregado na ladeira. Porém, quando se anda devagar pode se apreciar e notar detalhes da paisagem. O inconsciente se deixa perceber na ausência de pressão por resultados, e talvez possamos, novamente, perceber o trabalho sutil da anima tentando um reconhecimento, chamando para a reflexão. Mas a tendência é sempre identificar a função inferior com a inexistência daquilo que é trabalhado por ela. No caso do poema, seria imaginarmos que o poeta não tem sentimentos, o que até ele mesmo deixa transparecer ao falar de sua secura e da falta de sentimento. Ao mesmo tempo, deixa a ambigüidade da pequena frase “sinto muito” revelar, além do sentido de desculpas, o excesso de sentimento não articulado. A função não dá conta de tanta intensidade de sentimento e dá a impressão que não existe sentimento algum. O gargalo é muito estreito. Existem pessoas aparentemente frias que sofrem desse mal, muita intensidade de sentimentos para uma função incompetente. Trabalhar os próprios sentimentos fica quase impossível e, muitas vezes, a pessoa se nega a falar sobre ou aceitar uma realidade dolorosa. A dificuldade enorme em trabalhar situações de perda estão vivas no poema: OLINDA WISCHRAL / pessoas deviam poder evaporar / quando quisessem / não deixar por aí / lembranças pedaços carcaças / gotas de sangue caveiras esqueletos / e esses apertos no coração / que não me deixam dormir (8, pg. 30) As dificuldades da função sentimento não impedem que a anima continue a reverberar sentimentos de amor e ódio. Embora a anima, como visto, seja indireta, ambígua, receptiva, Eros e Psique formam um par de opostos que pode ser representado pela imagem da anima sensual, ativa em sua ânsia amorosa. O que é o amor, como amar, qual a melhor maneira de amar? você está tão longe / que às vezes penso / que nem existo / nem fale em amor / que amor é isto (11, pg. 40) Preciso como um bisturi. Amar é existir, é ação que não se aprisiona em conceitos. Somente por meio dos poemas pode-se ter alguma sabedoria sobre o que é a favor ou contra o amor, e aquilo que o alimenta. ai daqueles / que se amaram sem nenhuma briga / aqueles que deixaram / que a mágoa nova / virasse a chaga antiga / ai daqueles que se amaram / sem saber que amar é pão feito em casa / e que a pedra só não voa / porque não quer / não porque não tem asa (6, pg. 74) Duas coisas fundamentais. Não acumular mágoas e não deixar de acreditar na transformação inesperada que o amor pode trazer. A razão da solidão está ligada ao primeiro desses possíveis erros: INSULAR / mil milhas de treva / cercadas de mágua / por todos os fados (11, pg.132) Quanto ao segundo erro, é necessária uma atenção constante no cuidado e na natureza inconstante do amor. Afrodite não tem uma natureza muito plácida... o amor, esse sufoco, / agora há pouco era muito, / agora, apenas um sopro / ah, troço de louco / corações trocando rosas, / e socos (6, pg. 46) Amar não é uma experiência tranqüila. A polaridade do ódio sempre ronda, tentando se impor. Como um lutador de artes marciais, Leminski usa a força do inimigo a favor do amor: Matar, a forma mais alta de amar, / Matar em nós a vontade de matar, / Voltar a matar a vontade, / Matar, sempre, matar, / Mesmo que, para isso, / Seja preciso todo o nosso amar (11, pg. 97) Outra possibilidade é deixar o tempo fluir e esperar um desenlace que pode ser positivo ou não: Amor, então, / Também, acaba? / Não, que eu saiba. / O que eu sei / É que se transforma / Numa matéria-prima / Que a vida se encarrega / De transformar em raiva. / Ou em rima. (5, pg. 89) Ninguém está livre do sofrimento imposto pelas vicissitudes dos arquétipo do relacionamento. Leminski descreve saídas para os azares do amor, embora também descreva situações de ódio sombrio: SURRA / Viver é podre / aquele que em mim quis ser limpo / aquilo não pode / Viver suja / suja a roupa suja / a louça suja boca / suja sobretudo / a maldita dita cuja / que não para de dizer / que só para pra dizer / viver é podre / o ciúme suja o amor / como o amor de ódio se suja / fuja fuja fuja / que lá vem a vida / fuja fuja fuja / que lá vem a suja / limpa limpa limpa / nem vem que lá vem / a dita cuja a dita suja / a dita (12, poema 5) Como é difícil fazer sentido de algumas experiências que a vida nos impõe! Mas essa busca é o que mantém a bandeira da vida desfraldada. Jung afirmou em diversas passagens que o si-mesmo é o arquétipo que incita à busca de um sentido para nossos atos e existência. Quando perdemos o sentido é como se murchássemos. Tudo fica parado, a libido estanca. Se o si-mesmo se expressa como único ou múltiplo o que implicaria monoteísmo ou politeismo é, nesse momento, uma questão acessória. São os ventos da alma que determinam o ponto de vista com o qual o si mesmo será percebido, seja como único ou múltiplo, seja repressor ou libertário. Quem pode dizer que conhece o rosto real e os desígnios da divindade? O importante é existir um sentido a ser descoberto, esteja ele em Alá ou nos os orixás como Leminski assinala. Acredito ser a individuação, a busca do sentido, um dos conceitos que caracterizam o pensar junguiano. Leminski compartilha a visão acerca da necessidade do sentido: “O sentido, acho, é a entidade mais misteriosa do universo. / Relação, não coisa, entre a consciência, a vivência e as coisas e os eventos. / O sentido dos gestos. O sentido dos produtos. O sentido do ato de existir. / Me recuso a viver num mundo sem sentido. / Este anseio/ensaios são incursões conceptuais em busca do sentido. / Pois isso é próprio da natureza do sentido: ele não existe nas coisas, tem que ser buscado, numa busca que é sua própria fundação. / Só buscar o sentido faz, realmente, sentido. / Tirando isso, não tem sentido”. (13, pg. 256) O conceito de individuação, a busca do sentido que faz sentido, está magistralmente colocado frente ao si-mesmo, que é compreendido como algo dinâmico, que se revela por meio da relação entre a consciência e as vivências. Fundado por essa relação e no decorrer dela se dá o processo de individuação, que exige um esforço por parte do ego para mantê-lo, o opus contra naturam dos alquimistas reafirmado por Jung. Esse esforço nem sempre está disponível para o ego ou para a consciência. Com bom humor, Leminski descreve essa situação: eu ontem tive a impressão / que deus quis falar comigo / não lhe dei ouvidos / quem sou eu para falar com deus? / ele que cuide dos seus assuntos / eu cuido dos meus (6, pg.54) Não dar ouvidos a um chamado do si-mesmo veiculado pela anima pode ser desastroso. Mas não é necessário pensarmos em uma situação limite. Pode-se relacionar esse poema a situações mais cotidianas nas quais nos entregamos à preguiça, ou ao mundo exterior. Olhar sempre para a alma, para o “nada que tem peso”, pode ser muito desgastante e se tornar, também, uma obsessão. Corre-se o risco de ficar doente. Não olhar nunca para a alma não é o oposto de olhar sempre. A síntese, sempre a síntese é o ponto de fuga. Em outro poema, que remete ao mesmo tema de outra maneira, Leminski diz: INCENSO FOSSE MÚSICA / isso de querer / ser exatamente aquilo / que a gente é / ainda vai / nos levar além (6, pg. 93) Que além é esse? Nessa estrada da individuação não existe olhos de gato, faixas pintadas no asfalto ou guard rails...existem símbolos enviados pelo inconsciente na medida em que os esforços do ego sejam sentidos - reverberados pelo si mesmo. Ou então o si mesmo inicia o processo e produz símbolos que, para o ego, podem vir a fazer sentido. Acho difícil fazer afirmações acerca do si mesmo. Prefiro encará-lo como um mistério. Algo que harmoniza o bem absoluto e o mal absoluto está muito distante da experiência humana. Esse arquétipo pode aparecer como quiser e onde quiser. Como um deus único nos monoteismos, ou com muitas faces. Mas como poder-se-ia reconhecer a conscientização do si mesmo? Escutemos Leminski: ÓPERA FANTASMA / Nada tenho / Nada me pode ser tirado. / Eu sou o ex-estranho, / o que veio sem ser chamado / e, gato, se foi / sem fazer nenhum ruído. (11, pg. 66) Me parece que esse poema descreve um modo de entender o papel do ego na psique. Ele é um estranho, cercado por realidades alheias com as quais tem de manter contato e se entender. Mas existe a possibilidade de deixar tudo isso para trás e, gato, ir. Tornar-se um ex-estranho, portanto, um conhecido, ou reconhecido. Outro poema, que é como uma continuação deste, aprofunda o tema: O EX-ESTRANHO / Passageiro solitário / o coração como alvo, / sempre o mesmo, ora vário, / aponta a seta, sagitário, / para o centro da galáxia (11, pg.79) Surge a metáfora do centro, unida à do coração. Ocorre a identificação entre o centro humano (coração) e o centro cósmico, arquetípico (galáxia). A unilateralidade necessária para o início e a manutenção do processo de individuação se amaina. Pode-se entrever o final da tensão entre o ego e o si mesmo, ou seja, a aceitação de Moira, do destino que cabe a cada um de nós. BIBLIOGRAFIA (1) ARMSTRONG, Karen – Em Nome de Deus. O fundamentalismo no judaísmo, no cristianismo e no islamismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. (2) GOULD, Stephen Jay – Pilares do Tempo. Rio e Janeiro: Rocco, 2002. (3) HILLMAN, James – Anima. Anatomia de uma Noção Personificada. São Paulo: Cultrix, 1990. (4) KOLAKOWSKI, Leszek – A Presença do Mito. Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1981. (5) LEMINSKI, Paulo – Caprichos e Relaxos. São Paulo: Brasiliense, 2a edição, 1983. (6) _______________ - Distraídos Venceremos. São Paulo: Brasiliense, 10a reimpressão, 1999. (7) _______________ - Um escritor na biblioteca: Paulo Leminski. Curitiba: BPP/SECE, 1985. (8) _______________ - O ex-estranho. São Paulo: Iluminuras, 1966. (9) _______________ - Metaformose, uma viagem pelo imaginário grego. São Paulo: Iluminuras, 2a edição, 1988. (10) ____________ - Polonaises. Curitiba: sem referência à editora, 1980. (11) ____________ - La vie em close. São Paulo: Brasiliense, 5a edição, 2a reimpressão, 2000. (12) ____________ - disponível em <http://www.leminski.hpg.ig.com.br/>.Agosto de 2001. (13)VAZ, Toninho – Paulo Leminski. O bandido que sabia latim. Rio de Janeiro: Ed. Record, 2001.
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