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A Paixão de Hillman pela alma

Silvia Ronchey

 

Silvia Ronchey é filóloga, historiadora das religiões e especialista em civilização Bizantina. É professora da Universidade de Siena na Itália. É colaboradora das páginas culturais " Stampa", "Tuttolibri" e " Carnet". É autora de dois livros de entrevistas com James Hillman em italiano: " L`Anima del Mondo"  e " Il piacere di pensare", ambos da editora Rizzoli (www.rizzoli.rcslibri.it).

 

A queda do império romano do Eu

Psicologia é, literalmente, Logos mais Psique. Etimologicamente, a palavra significa “razão ou discurso ou exposição inteligível da alma”. Segundo James Hillman, o dever da psicologia é encontrar um logos para a psique, dar à alma “uma exposição adequada de si mesma”. Se o mundo é “o Vale do Fazer Alma”, segundo uma frase de John Keats que tornou-se o manifesto do pensamento de Hillman, por outro lado, ao examinar tudo isto, a alma tem uma relação eletiva com a morte, uma invencível necessidade suicida, uma filiação com o mundo inferior. Por que qual é, se não a morte, o fim consciente ou recalcadode cada vida? E é então exatamente a perda de um estreito e consciente relacionamento com a morte, com a incerteza indispensável à vida, com a onipresença dos ínferos, a sancionar aquela “perda de alma” na qual Hillman vê o pecado mortal da cultura ocidental moderna.

        Trata-se do mesmo erro ou pecado que Freud e Jung estavam propostos a corrigir “para aliviar a infelicidade do homem moderno, enganado no declínio do Ocidente”. Mas nenhum dos dois pais fundadores da psicanálise aventurou-se realmente a contestar o eu dos modernos, a condenar “a encenação”, como escreve Hillman, “de uma tradição monoteísta milenar que eleva a unicidade sobre a multiplicidade”; ao registrar aquela que Hillman chamou de a queda do Império romano do Eu.

        A necessidade de reconstruir, sobre aquelas ruínas, uma antiga politeia e de restituir uma perspectiva politeísta no domínio da psique, antes de dar resultado às duas obras mais famosas, o Ensaio sobre Pan e a Re-visão da psicologia, tinha sido formulada por Hillman no início dos anos setenta em dois artigos-manifesto: Psicologia: monoteísta ou politeísta? e O cisma como expressão de visões diferentes. Partindo de Jung, Hillman identificava a recuperação da alma ao mundo com a possibilidade de recriar uma psicologia “politeísta”, polimorfa, anti-individualista e anti-monocêntrica. Esse eu “meridional”, mediterrâneo, grego, pagão, anti-monoteísta se colocava em antítese ao “eu nórdico”, heróico, só aparentemente indissolúvel pela tradição do Ocidente, na realidade, escreve Hillman, um mito como os outros, não melhor do que outros, apesar de dominante na nossa filosofia, em particular do século XIX, e portanto na psicanálise tradicional. O eu “ariano, apolíneo, germânico, positivista, voluntarista, racionalista, cartesiano, protestante, científico, personalista, monoteísta” alimenta aquela que Hillman chama de neurose nórdica.

 Descida aos Mundo Inferior

A alusão essencial a Nietzsche e Schopenhauer, Kant e Goethe conferia à psicologia junguiana “um fundo mais tipicamente alemão, com uma coloração cristã-psiquiátrica”. A psicologia arquetípica de Hillman “se sente pelo contrário mais à vontade ao sul dos Alpes”. Neste retorno ao eu austral, a alma, em vez de ver o próprio resgate nas figuras da elevação e da ascensão, está disposta a intuir como única possível saída de resgate e reconhecimento de si a figura da descida.

Agora, a metáfora do profundo é com certeza comum a toda a pesquisa psicanalítica, que a partir de Freud sempre se dirigiu para baixo, caso se tratasse de desenterrar as recordações individuais da infância ou um recalque universal e ancestral. Mas, sustenta Hillman, esta provisória nekyia num submundo de escravidão aspirava sempre a um resurgimento da psique curada e ativa, como na Flauta mágica de Mozart ou no mito wagneriano de Sigfrid reemerge o herói. A descida da alma exposta por Hillman quer aprofundar, ao contrário, uma condição de existência que é permanentemente infernal em si. Quer ser a tomada de consciência da relatividade de um eu visto como nada além de uma entre as diversas fantasias da psique, e da transitoriedade, dolorosa e irredimível ilusão do mundo.

Neste sentido, poderíamos tentar aproximar o pensamento de Hillman das filosofias místico-orientais que dissolvem o eu e as suas interpretações literais assim como as divisões entre o eu e as coisas. Mas na realidade, como também os alunos de Hillman demonstraram, este particular “realismo místico” ou esvaziamento dos positivismos ocidentais” presente no seu sistema não opõe Ocidente a Oriente mas Norte a Sul, e por isto tradição (greco-antiga) a modernidade (cristã-cartesiana). É mais esicasta, ou quietista, do que zen, mais platônico, ou neoplatônico, do que budista. O seu é, como foi chamado, um “Western Nirvana”.

No eu que Hillman chama de politeísta convergem a multiplicidade de qualquer maneira essencial também segundo Freud à natureza humana e o modelo múltiplo todavia  junguiano de personalidade. É por isso que em cada caso, a partir de intuições próximas à fonte da psicanálise, a construção de Hillman forma o seu ideal de psicologia polimorfa, que se avizinha à concepção neopagã ainda viva na tradição do pensamento à qual se chama de: tríade helênico-mágico-renascentista-romântica.

Repete-se em Hillman a citação de um fragmento de Heráclito, já muito amado pelos filósofos românticos: “Embora em profundidade o intelecto se aventure não poderá jamais alcançar os confins da alma”. Para Hillman, a imersão da alma em profundidade se refere diretamente à tradição iniciática grega, órfico-pitagórica e depois platônica, até a mística antiga tardia, medieval e bizantina.

Desde o início, de resto, a práxis clínica da análise não parece uma reprodução moderna e positivista dos métodos dos antigos sete mistérios gregos? A iniciação não pode ser comunicada de mestre para discípulo, mas procede no mutismo do primeiro e na cegueira do segundo (o verbo kammyein, “fechar os olhos”, a partir do qual os etimologistas gregos fazem derivar toda a gama lexical do misticismo). A ressonância de alma a alma, de psique a psique, realiza-se não só além da vista ou da palavra, mas de qualquer racionalização que possa fornecer o logos, o intelecto. É uma descida nas trevas feita de reminiscência e sofrimento, que o principiante submetido a iniciação não conseguiria tolerar, a não ser através de Eros - na moderna psicanálise, a transferência - que na procura noturna de Psique, de Alma, o reforça e o socorre.

Se portanto, no fundo, já a psicanálise do século XIX tinha se movido no sulco ancestral da tradição dos mistérios helênicos, não é estranho que no fim do século XX o seu mais desinibido herdeiro ligue a exploração do profundo e a descida no sonho aos mitos do mundo infernal, de Hades e Perséfone, aos mistérios de Dioniso.    

A seção de incuráveis e a patologização

O importante é que a alma conserve aquela sua incansável peculiaridade inventiva, que Hillman chama de patologização, palavra que define “seja a capacidade autônoma da psique de criar doenças, estados mórbidos, desordens, anormalidades e sofrimentos em cada aspecto do comportamento, seja aquela de ter experiência da vida e de imaginá-la através de uma perspectiva deformada e atormentada”. Para Hillman “as grandes imagens são grandes paixões, e os palácios e as cavernas da memória são também as arenas do inferno”. O reino dos mortos e o reino das imagens se identificam. O olho patologizado é o olho do psicanalista mas ao mesmo tempo o olho místico, do poeta, do artista. As condições aparentemente anormais da psique são eminentemente humanas, e logo fundamentalmente normais.

“A educação da sensibilidade começa nas secções de incuráveis, a cultura no distúrbio crônico”. A psicologia arquetípica vai até além da anti-psiquiatria neste seu aspecto, ao considerar que todos, quando começamos a suportar realmente a nossa condição humana, ao tornarmo-nos, isto é, lucidamente conscientes do nosso destino, que é a morte, não podemos não cair em alguma patologia psíquica, que esta se exprima na depressão ou nos vários distúrbios do humor, como a melancolia, ou, para alguns, em manifestações de delírio místico ou inspiração poética ou artística.

“Aqueles exercícios de ascese que chamamos de sintomas, e os seus tratamentos, os desesperos e o remorso do sentimento de culpa, que aparecem com o descorar da nigredo - do negro, do escuro - redimensionam a velha personalidade egóica, mas esta necessária redução é somente preparatória no sentido da alma que começa a aparecer na imaginação azulada da depressão. Acredita-se ou não, há mais cor no deserto alquímico do que no dilúvio, na pobreza de emoções do que na superabundância.”

O desespero dos místicos é semelhante para Hillman àquele blues anglo-saxão, que é também “o azul do manto de Maria, a rosa azul do romance de cavalaria, um desejo que se consome pelo impossível contra naturam. E pothos - desejo - era o nome do pálido asfódelo”, a flor dos mortos.

Lamentava Catarina de Siena de poder colher da alma somente o superficial reflexo como de um poço muito obscuro e profundo. Agostinho já a tinha descrito como uma caverna de tesouros intocáveis, e tinha narrado a ânsia de percorrer os corredores e cubículos da memória no abissal palácio ou castelo da alma. Não é um caso que esteja presente nesta entrevista com Hillman também Kafka, o autor de Castelo, o profeta da delirante depressão do século.

Na interpretação que Hillman faz da terapia aquela que chama de patologização, ou seja, como foi dito, a compreensão da condição patológica crônica da própria vida, é a ação primária do Fazer Alma, porque a pergunta do Fazer Alma é, substancialmente: “Este evento, este objeto, este instante o que significam para a minha morte?”. Na concepção da vida como um contínuo preparar-se para a morte, do Soul-Making como meditatio mortis, desta última como meditatio vitae, Hillman é verdadeiramente um “antigo” e um pagão. “A verdadeira revolução a favor da alma começa no indivíduo que sabe ser fiel à própria depressão. Que não se debate para sair dela, preso em um alternar-se de esperança e desespero.”

Hillman liga o horror ocidental moderno pela depressão com a tradição do eu heróico e da salvação cristã na ascensão em direção ao alto, da qual se falava acima. “A depressão é ainda o Grande Inimigo. Contudo, através da depressão nós entramos no profundo e no profundo encontramos a alma. A depressão é essencial para o sentido da vida. Umedece a alma árida e enxuga aquela úmida demais. Dá refúgio, confins, centro, gravidade, peso e um sentimento de humilde impotência. Faz recordar a morte.” O hino de Hillman à depressão, que tornou célebres os seus escritos nos anos setenta, assemelha-se àquele de Paulo ao amor cristão na primeira epístola aos Coríntios; mas com a subversão trágica típica do nosso século.

Ao “sentido trágico da vida que possui uma alegria e uma comédia próprias”, citado freqüentemente nas suas obras, Hillman se refere, nesta entrevista, a um estado a ser recuperado universalmente, a não ser reservado a uma elite de pessimistas, mas a ser transformado em cognição comum de um povo iluminado de “Gregos psíquicos”. E isto em polêmica contra as simplificações espiritualistas do neo-orientalismo religioso: “Quando me sinto envelhecer e decair, e a civilização em minha volta está desmoronando por um excesso de desenvolvimento, não posso tolerar a palavra crescimento; e quando me sinto despedaçar nas minhas complicações, não posso suportar as defensivas simplificações das mandalas, nem os sentimentalismos da individuação como unidade e totalidade. O que dizer ao contrário de um tratamento através da semelhança, onde o semelhante trata do semelhante?”.

A visão em transparência

Este tratamento é homeopatia da psique, um sal corrosivo, uma espécie de cozimento alquímico que restitui psique onde a psique era já ausente. A metáfora da alquimia é uma das mais adequadas para descrever o processo interno de transmutação através da imaginação que Hillman propõe como terapia da alma. “Dentro da perspectiva do sal alquímico o vivido subjetivo assume um significado radicalmente diverso. Podemos imaginar as nossas profundas feridas não mais somente como lacerações a serem cicatrizadas mas como fontes de sal das quais tira uma essência preciosa e sem as quais a alma não pode viver”. No deserto americano de Hillman a infelicidade é azul alquímico, “o azul prepara o branco e é incorporado, assinalando como se torna terra, isto é fixo e real, quando o olho se faz azul, isto é, capaz de ver em transparência, reconhecendo os pensamentos como formas imaginativas e as imagens como o fundamento da realidade”. A cor do olho transfigura as aparências em realidades imaginais, o humor blue alimenta a rêverie, o céu azul chama a imaginação mítica aos seus âmbitos mais distantes.

O tratamento homeopático, neo-alquimista da psique ocidental se realiza portanto na re-proposição da sua essência venenosa com as suas raízes, agregações e fórmulas originais. “Análise”, como foi enfatizado, é uma palavra que alude à morte. Não provém do grego ana-lyo, “desfazer, dissolver”? E não foi Platão a definir a morte, pela primeira vez na filosofia ocidental, como lysis, “dissolução”?

“O círculo vicioso é também a iteratio da alquimia e uma saída para se tornar aquilo que se é. O purgatório da fiel repetição dos mesmos erros é também a redenção destes em um estilo individual. Deste modo, o eu é atraído nas salas da memória. As minhas fantasias e os meus sintomas me colocam no meu lugar. Não se trata mais de saber a qual lugar pertencem, mas a qual lugar pertenço eu, sobre qual altar devo deixar a mim mesmo, dentro de qual mito o meu sofrimento se transformará em devoção.”

É aquela que Hillman chama de “visão em transparência”, à qual dedica o terceiro capítulo da Re-visão da psicologia. A visão em transparência, ou psicologização, é aquilo que permite colher o sedimento fantástico no interior dos chamados fatos, dos “problemas” imediatamente evidentes. A visão vertical, o “profundo” da tradição psicológica, é assim também, na psicologia arquetípica, a capacidade de colher a interioridade de todas as coisas: “A fantasia do profundo encoraja a olhar o mundo com outros olhos, a ler cada evento à procura de algo mais profundo, a procurar dentro... A fantasia das profundidades escondidas infunde alma ao mundo”.

Fazer Alma é portanto também um ver em termos figurados, liberando os objetos e os eventos da compreensão literal e transferindo-os para uma dimensão mítica. É isto que Hillman chama de “desliteralização”, um procedimento compreensível a fundo só chamando, como os Humanistas aos quais Hillman se inspira, a milenar experiência da alegoria bizantina e da exegese anagógica, também ela legível, em termos psicológicos, como “a atitude que rejeita com desconfiança o nível ingênuo e dado dos eventos para ir à procura dos sombrios, metafóricos significados que têm para a alma”. Esta definição psicológica se adiciona - certamente, levando em consideração a “revolução de Copérnico” implicada pela perspectiva subjetivista de cada psicologia - à inteira civilização da imagem (eikone) bizantina, toda permeada do realismo místico do qual se falou e daquela fantasia metafísica que está no centro do Fazer Alma assim como do fundamental trabalho do sonho.

Sonhos, imagens, sintomas

O sonho é a atividade central da alma: é um Soul-Making noturno, onde as experiências da vida empírica são secundárias em respeito às imagens arquetípicas nas quais a alma se depara e se imerge, que se tornam o meio para transmutar em alma os acontecimentos da vida. Por isto, o sonho mais do que qualquer outra coisa demonstra a presença das imagens a montante, o fato de que não é a psique com as suas experiências a criá-las mas ao contrário são elas a “fazer” a psique. “O sonho não está no paciente, não é algo que ele ou ela faz ou constrói; é, ao contrário, o paciente a estar no sonho e a vir construído na sua ficção.”

As imagens incluem a alma, não a alma as imagens, assim como é o sonho a incluir o sonhador e não o inverso. E a existência do sonho, explica Hillman, é a demonstração de como a alma se desinteressa substancialmente da sua experiência mortal para se nutrir primariamente das imagens que vão formando-a e que constituem o que Hillman chama de sua embarcação imaginal, ou seja, o seu Navio de Morte, retomando um dos grandes poetas do século vinte, D. H. Lawrence, que também na nossa entrevista aparece citado.

Tem-se acesso às imagens só depois de um lento e difícil caminho que, como um quadro de Moreau, tem freqüentemente o rosto melancólico - foi escrito - de um fim das ilusões, do desfazer-se de um poder, de um inutilizar-se das certezas, de um debilitar-se das identidades; um caminho que, assim como no mito grego de Teseu ou Jasão, Héracles ou Perseu, do herói ao mesmo tempo vitorioso e derrotado, somente Ananke, a necessidade, podia induzir a percorrer. De novo, por isto, o processo de formação da alma não pode ser ascensional, mas somente o caminho de Orfeu: uma lenta descida ao Hades com a lira na mão.

Assim a imaginação “eleva a alma além dos seus confins egocêntricos e dilata os eventos da natureza, transformando-os em cifras estéticas portadoras de informações para ela”, que se torna, como se exprime Hillman, uma psique menos individual e mais próxima daquilo que o pensamento neoplatônico chamava de Alma do Mundo. Neste sentido a psicologia arquetípica concebe tanto a psicopatologia quanto a terapia como a “encenação” da fantasia.

O retorno dos deuses

“Olha, retornam”, escrevia Ezra Pound sobre os deuses gregos, “um por um,/ com medo, só pela metade acordados”. Descende daquilo que o seu sistema chama  de “o trabalho com a imagem”, e que é parte fundamental, a familiaridade às vezes até extravagante, de Hillman com os deuses e com os seus mitos. O “retorno” que Hillman propõe é aos deuses como modelos de psicopatologia, aos deuses como vetores de conhecimento do próprio destino de cada alma e de cada aspecto seu, aos deuses como formas arquetípicas nas quais ela pode reconhecer-se. As imagens, as fantasias e os símbolos sobre os quais Hillman vê incansavelmente tecer-se a alma são em parte as realidades as quais Jung havia dado o nome de arquétipos, mas são também os “universais fantásticos” dos quais já Vico tinha antecipado a recuperação a partir da noção, substancialmente estóica, de fantasia. Sem um imaginar não poderia existir nenhuma consciência. Já a filosofia grega clássica julgava a phantasia atitude essencial e função primária daquela vida da alma da qual o mundo das imagens é o contexto. Antes, e mais pontualmente desde Jung, o intermediário entre a tradição antiga e a psicologia moderna tinha sido criado a partir da erudição histórico-religiosa alemã do século passado. A ligação entre mythos e pathos estava já presente, além de 1897 em Freud, a partir do qual o mito de Édipo teria sido proposto como chave da patologia da neurose, em duas fontes primárias do pensamento de Hillman, uma aparição anterior ao, o Nascimento da tragédia de Nietzsche, de 1872, e a outra, o Ephialtes de Roscher, uma dissertação sobre Pan e o Pesadelo, lançada em 1900 com o subtítulo Um estudo mitopatológico, mais vezes citadas uma no Suicídio e a alma, outra no início de Ensaio sobre Pan.

Tinha sido de qualquer modo Jung a enunciar abertamente o assunto base, segundo o qual os deuses são “modelos de psicopatologia”. “Os deuses se tornaram doenças”, tinha escrito, doenças da alma. A divindade do sintoma, o seu significado arquetípico e de reflexão no universo olímpico estão na base das pesquisas de Hillman sobre as configurações patológicas do mito: em particular, além do estudo sobre Pan, sobre Saturno, sobre Eros e Dioniso, sobre Atena e Ananke, sobre o puer aeternus.

É, por outro lado, a essencial “enfermidade” do arquétipo, forma não perfeita nem transcendente mas respondente à natureza e ao sofrimento humano, a colocá-la em condições de oferecer à psique conforto e assistência. “Preciso de um fundo adequado à falência da vida. Preciso que me fale com precisão daqueles deuses que são servidos por, prosperam sobre e podem oferecer um fundo arquetípico a e também uma conexão erótica com a derrota, a decadência e o desmembramento, porque estas dominantes refletem a psique experimentada na realidade da sua única metade conhecida, que é ao mesmo tempo a sua forma e a sua substância: a morte.” E também: “O mito oferece um fundo aos sofrimentos da alma in extremis... os deuses penetram através das feridas na vida humana... a patologia é o testemunho mais palpável dos poderes que transpõem o controle do eu.

Uma imagem arquetípica, ama escrever Hillman, é animada como e quanto um animal, é inteiramente uma presença, pode ser um guia, Anjo da Guarda ou Daimon, para o nosso destino, quase “portadora de um pré- conhecimento anterior”, que nos pode alcançar através dos sonhos ou outras experiências de imagens portadoras de mensagens que suscitam “um sentimento de benção” e recordam os mensageiros (angheloi) neoplatônicos.

Se estas noções podem parecer de ascendência diretamente junguiana, está presente uma diferença fundamental: a psicologia arquetípica de Hillman não leva em consideração o arquétipo em abstrato, mas o seu fenômeno, e se recusa, ao contrário, a levar em consideração um arquétipo que não se manifeste fenomenologicamente”. Quando Hillman fala de deuses, as entidades às quais se refere são efetivas e não, faz questão de precisar, metáforas, categorias de conveniência ou expedientes retórico-lexicais.

A religião tem portanto um lugar central no seu sistema, no sentido de que o instinto religioso, a dimensão sacra e sacrificial adquirem um grande valor, conforme, precisamente, à tradição da Religionswissenschaft. A visão que se tem disso nunca pode ser verdadeiramente agnóstica e isto, como Hillman escreveu, convence completamente a psicologia a reconhecer também a si mesma como atividade religiosa”.

Uma estranha religiosidade

Como aprender esta religião?

                                                  Seferis

Todavia, deve ser enfatizado que Hillman parte de uma perspectiva fundamentalmente laica e anti-cristã. Antes de mais nada, se a depressão, como se dizia anteriormente, em vez de ser um afeto a se curar, é vista como a normal condição humana e o ponto de partida da tomada de consciência curadora, como um estado já em si quase divino, a primeira etapa necessária para o restabelecimento psíquico é a consciência da falência de cada vida, além de qualquer convenção social ou convicção moralista, especificamente protestante ou genericamente cristã, pelo que diz respeito à obrigatória bondade e construtividade  da vida humana. Com este propósito, a polêmica de Hillman contra o cristianismo, contra o seu antropocentrismo destrutivo da natureza, contra o seu otimismo que projeta a salus - saúde ou salvação - no além, está mais que decidida e está acesa e sulfúrea nesta entrevista até o paradoxo.

Na visão “religiosa” de Hillman qualquer idéia de transcendência é banida, e os deuses não são tomados - como nada deve ser tomado - no sentido literal, como “credo”, mas resultam “modalidade de experiência, pessoas numinosas ao limite, perspectivas cósmicas das quais a alma participa”. Em Hillman a crítica da religião é ainda mais radical do que em Freud e em Jung. Não só cada credo é uma ameaça, um perigo, enfatiza Hillman nesta sua entrevista, mas, como escreveu, “não estamos ressuscitando uma fé morta, porque a nós não interessa a fé”.

Deve-se sempre ter presente que no sistema de Hillman, tão aparentemente fervilhante de deuses, a religião é compreendida como fenômeno que nasce e morre na psique humana e também na mais vasta das acepções difere do imanentismo ou do panteísmo indiferenciado mesoafricano ou do extremo oriente, por exemplo o politeísmo xintoísta ou o vitalismo sacro das religiões xamânicas. A politeia grega é um mundo onde a palavra religião não existe e o único termo que de algum modo designa o âmbito é eusebeia, noção que é entendida como atitude ou modo de vida intrinsecamente respeitoso de cada forma distinta do vivente. Como Hillman esclarece no texto, o que serve recuperar, de uma tal religiosidade, é a “psique diferenciada”, a capacidade tipicamente ocidental de distinguir res de res, coisa de coisa no interior do vivente e do real, também através e em função de uma alma polimorfa.

Neste sentido os deuses de Hillman são compreendidos como “inteligibilidade formal do mundo fenomenal, que consente a cada coisa de ser distinta pela própria inteligibilidade intrínseca e pelo próprio lugar específico de pertença”. Os deuses são “lugares”, e os mitos criam um lugar para os acontecimentos psíquicos que de outro modo seriam vistos como patológicos. Oferecendo “asilo e altar”, tudo se pode ordenar e todos os fenômenos vêm salvos dando a eles uma colocação. Escreve Hillman: “Caso se saiba o lugar de pertença de um acontecimento e a qual deus ele pode se referir, se está em condições de prosseguir”. Como declara na entrevista: “Se sei a qual mito pertenço, compreendo a necessidade da minha perturbação e a minha luta cessa, funde-se em visão e escuta”. A capacidade de viver a própria vida na companhia de fantasmas, de demônios familiares, de antepassados, de espíritos guias é objetivo de uma terapia arquetípica, e é este, se quisermos, o lado terapêutico que faz de Hillman o filósofo mais amado das ampliações mais conscientes do movimento New Age.

A consciência hermética ou seja o Terceiro Elemento

Mesmo não sendo empírica no método nem racionalista na concepção e não fazendo apelo a nenhuma espiritualidade do outro mundo, a tradição helênico-pagã a qual Hillman faz referência é portanto radicalmente ocidental e caracterizada, pela precisão, da concepção neoplatônica que vê a alma como “consciência hermética”, terceiro elemento entre as perspectivas do corpo (matéria, natureza, mundo empírico) e as da mente (espírito, lógica, idéia). Corpo, alma e espírito: uma antropologia tripartida, que olha para trás com todo o respeito pela divisão dualista do Ocidente, por Hillman identificada com Cartesio, não sem procurar a origem no aristotelismo medieval oposto justamente, à tradição platônica.

Se na perspectiva filosófica é esta a diferença entre o modo “antigo”, platônico e neoplatônico, medieval, mágico-renascentista , pré-cartesiano de entender a alma, Hillman o restituiu à cultura e à língua comum deste século, em contraste com a noção de psique mais normalmente usada pelos psicanalistas. Nos é pois uma perspectiva mais puramente técnica em Hillman no entender e definir o conceito de alma. Usamos o termo alma, escreve no seu fundamental primeiro livro, O suicídio e a alma, de 1964, “para nos referirmos àquele fator humano desconhecido que torna possível o significado, que transforma os eventos em experiência e que se comunica no amor”. A alma, esclarece Hillman na Re-visão da psicologia, de 1975, demonstra-se um fator independente dos eventos nos quais estamos imersos, mas, se não podemos identificá-la com nenhuma coisa, não podemos nem entendê-la sozinha, isolada das outras coisas, “talvez porque é semelhante a um reflexo em um espelho fluido, ou à lua, que transmite somente luz não sua... A alma é uma perspectiva mais que uma substância, um ponto de observação sobre as coisas mais que uma coisa em si”.

É o “perspectivismo” da psicologia arquetípica, que exige “um aprofundamento da subjetividade além das teorizações nietzschianas”. Não se está nunca, sustenta Hillman, além do subjetivismo, que se dá junto às estruturas inatas da fantasia. A única objetividade a qual se pode aproximar “é aquela do olho subjetivo virado para o interior, em direção a si mesmo, que olha o próprio olhar”. A psicologia não pode mais ser vista como uma ciência objetiva no momento em que se reconhece que “também a objetividade é um gênero poético”, um mito, um modo de construir o mundo. A psicologia fica possível, como Hillman enfatiza, só mantendo a distinção entre alma e espírito e concedendo a este último a possibilidade de colocar-se acima da fantasia ao menos tanto quanto é profunda a descida da alma ao mundo inferior.

A alma do mundo

A psique como anima mundi, a alma do mundo antes estóica e depois neoplatônica, existe, escreveu Hillman, “desde quando existe o próprio mundo, e portanto o outro dever da psicologia é escutar a psique que fala através de todas as coisas do mundo, recuperando deste modo o mundo como lugar para a alma e da alma”. Como escreveu o poeta-filósofo americano Wallace Stevens, “é mais difícil encontrar a saída através do mundo do que a saída além do mundo”. Neste sentido, diante de qualquer discurso religioso e em frente ao risco sempre presente de confusão entre psicanálise e disciplinas espirituais, Hillman continuamente reivindica e pontua a sua especificidade de psicólogo, e isto é, prescrutador e geógrafo do caminho terrestre da psique paciente, ou seu, como escreve, patógrafo. “Esta psicologia, apesar do seu caráter neoplatônico e “arcano”, está radicada e ocupada no “vale” e no dever que a alma deve desenvolver.”

Se o ato de Fazer Alma consiste no imaginar, e se então tudo que acontece no mundo é produto da alma, e se a alma é feita da substância do mito e do sonho, somente através do reconhecimento dos deuses no mundo a alma pode, segundo o preceito délfico, conhecer a si mesma e começar a curar-se. Procurando no nosso cosmo deuses, heróis, anjos e demônios gregos, Hillman procura ver em transparência e interpretar tudo aquilo que acontece no nosso cosmo. A crítica hillmaniana do progresso se aplica, como ao microcosmo da psique, onde a metade é aquela do eterno, circular retorno e não certa a perseguição linear de um objetivo positivo, ou “positivista”, assim ao macrocosmo, ao progresso da sociedade, da humanidade, do planeta. Este procedimento analógico de recondução do microcosmo ao macrocosmo é semelhante àquele da alquimia ou da astrologia ou da antiga medicina.

É desde sempre que a filosofia de Hillman expande os objetivos da psicologia a toda a cultura e a cada manifestação física, social, política, lingüistica, estética, espiritual. O Fazer Alma, a psicopoiese, se realiza também na compreensão da situação específica da alma no mundo. A insistência sobre os temas da política contemporânea pertence aos últimos desenvolvimentos e modos de intervir do pensamento de Hillman: a reimaginação do mundo público é recuperação de alma para a vida coletiva. Neste diálogo, realiza-se sobretudo na crítica à pars construens do marxismo e na reproposição só em parte trocista e paródica de todos os valores críticos, subversivos, destrutivos da sua pars destruens, até o paradoxal elogio do terrorista como “portador de vida” na sociedade ocidental em declínio, mítico revificador daquela que Hillman chama de base poética da alma.

O terrorismo da sua crítica psicológica se aplica ao mundo “mortífero” e impregnado de morte dos edifícios públicos, dos sistemas burocráticos, das linguagens convencionais, dos transportes, do ambiente urbano, da alimentação, da instrução. Os deuses doentes de Hillman revivem nos templos apócrifos da nossa civilização. Circulam na Rede Mundial do computador, procurando aí os sintomas daquela que Hillman chama de intoxicação hermética. Combatem e deslizam nos seriados e nos desenhos animados da televisão, templo de Ares consagrado à violência. Seduzem-nos na pornografia das cobertas patinadas, nas mercadorias dos grandes magazines, nos empoeirados autogrill do deserto das auto-estradas.

A base poética da alma e a arte como terapia

O que Hillman chama de reimaginação e reanimação da psique cultural provoca o desenvolver-se de uma fantasia que destroça o mundo real. É uma instância, aquela segundo a qual “há sempre uma poesia no centro das coisas”, que Hillman retoma programaticamente de Wallace Stevens, e que põe o seu pensamento em sintonia com muitos outros poetas contemporâneos, também na Itália, ou na América, por exemplo a colaboração com Robert Bly.

A terapia através das imagens, da qual Hillman fornece alguns exemplos, faz sim com que “de um estado em que se removem as imagens e/ou se é por elas obcecados se passe gradualmente ao amor pelas imagens, ao reconhecimento que o próprio amor está radicado nas imagens, na sua incessante epifania criativa e no seu amor por aquela particular alma na qual se manifestam”. O verdadeiro fim da terapia é então a transformação do amor deste, ou desta, amante-paciente: paciente também porque padece a paixão amorosa da transferência, por Hillman definida como “o quantitativo de eros necessário ao despertar da realidade psíquica, despertar que impõe a paciente e terapeuta papéis arquetípicos” sintetizáveis, de novo, naqueles do mito de Amor e Psique narrado nas Metamorfoses de Apuleio.

Os exemplos citados por Hillman indicam no despertar da psique através da solicitação da base poética da mente a única forma possível de cura psíquica, coletiva ou individual. De resto, como foi visto acima, a psicologia e a terapia analítica apresentam-se em si como atividades poéticas (também se para sê-lo, adverte, a terapia deve sair dos esquemas constritivos e racionalizantes de uma ortodoxia freudiana mortificante, talvez mais americana que européia).

Partindo da idéia de base poética da mente, Hillman se aventura até a repensar o inteiro trabalho terapêutico em termos de narrativa, em algum modo de catarse aristotélica. Com o trabalho da terapia e a tomada de consciência de ser parte de uma “história mítica” ativa independentemente de nós e fora e dentro de nós, a nossa história se torna uma outra história, que somos capazes de narrar novamente em um estilo mais autêntico e mais profundo. Neste reconhecimento trágico (anagnorismòs) da própria história, catarse e transformação do sofrimento em arte, consiste, definitivamente, na relativa “cura” para a terapia analítica arquetípica.

Por assim dizer, o conceito hillmaniano de saúde psíquica democratiza e sugere universalmente desfrutável  forma de terapia ou catarse da neurose na arte que no século dezenove, no qual a psicologia analítica tem raízes, era reservada a uma elite. O único tratamento do mal absoluto arranjado à psique pela vida no mundo é estético e poético. Por assim dizer, a proposta terapêutica de Hillman ao largo público do fim do século vinte é alargar indefinidamente o perfil psicológico do artista romântico, com as suas aflições e os seus privilégios, a sua sensibilidade e associalidade, a sua melancolia e anarquia, a sua compaixão e irônica lucidez. “A ironia, o humorismo e a compaixão serão os seus sinais... A personalidade “sã” não será imaginada sobre o modelo de um homem natural, ou político-social, ou racional-burguês, mas sobre o modelo do homem artístico, para o qual imaginar é um estilo de vida e cuja moralidade é dedicação à modelação da alma, sensibilidade às continuidades tradicionais, importância do “viver ao limite”, sensibilidade estética.” É um perfil por sua vez derivado do Renascimento esotérico, dos Neoplatônicos e da antiga moral pagã.

O Terapeuta dos Discursos, a dieta dos símbolos e a alegoria

Num certo sentido, a terapia de Hillman segue por isso o método alegórico, essencialmente neoplatônico, bizantino e renascentista. É uma familiaridade com os mitos, um alimento alquímico, uma dieta de símbolos. A frequentação da cultura estética consente em valorizar a universalidade das imagens e conduz o pensamento de Hillman a uma zona próxima à arte, à invenção poética, à inovação lingüistica. A uma revalorização daquela capacidade que tem a psique “de experimentar e imaginar a vida através de uma perspectiva deformada e perturbada”, para a qual não há tratamento, mas que constitui um tratamento em si, se vista como arte.

Aparecia em um célebre texto bizantino do século IX, o Romance de Barlaam e Ioasaf - apólogo gnóstico cheio de mitos, divã ocidental-oriental conhecido também como Vida bizantina do Buddha - um personagem chave chamado Terapeuta dos Discursos. Se a retórica por excelência da psicologia é o mito, segundo uma estrada que Hillman julga aberta por Freud, mas também por Jung e Cassirer, a única possível terapia está nisto que a psicologia arquetípica chama de “recuperação da alma no discurso”: uma retórica ligada à virtude mítica das imagens e à capacidade poética da alma de “fazer-se” nele, imergindo-se na retórica deles, e somente neste universal reencontrando o seu Daimon, o seu destino individual.

Como escreveu Hillman, a liberação do sentido interior através da metáfora mata e com isto traz saúde, aproxima a alma da morte, e com isto favorece a cura do originário engano sobre o seu destino, da cegueira de Édipo ou da hipnose do olho da Górgona. A função metafórica da psique “destina cada coisa à sua sombra”. A própria modalidade da metáfora, “evasiva, alusiva, ilusória”, procura na alma aquele “sentido de fraqueza, de inferioridade, de mortificação e de falência que derrota a compreensão consciente como controle sobre os fenômenos” e conduz a um estado próximo, no fundo, ao misticismo, na mais ocidental das suas acepções. O verdadeiro mito fundador da filosofia de Hillman é, de fato, o mito do Eterno Retorno, e também neste se reencontra a afinidade eletiva com Nietzsche: “A civilização é um primado histórico, a cultura é uma tarefa mítica... A sílaba chave da cultura é o prefixo RE”.

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