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APRESENTAÇÃO À EDIÇÃO BRASILEIRA
DO LIVRO "A MULHER HERÓICA" DE ALLAN B. CHINEN

Amnéris Maroni


É com satisfação que apresento este livro ao público em geral e aos psicoterapeutas em particular. Allan Chinen, psiquiatra, pesquisou milhares de contos de fadas, em diferentes países, e selecionou alguns poucos que oferecem um recorte especial do feminino. Nesse recorte, as mulheres saem do tradicional papel que a cultura lhes atribuiu. As protagonistas destes contos são mulheres fortes que mudam o mundo.

O autor, após narrar os contos sobre mulheres, interpreta-os, valendo-se de categorias junguianas. Não raro abre espaço para as mulheres do presente, em análise, também se manifestarem. Trata-se então de um homem, um forasteiro como ele mesmo se assume, recortando e interpretando o mundo feminino. Talvez exatamente o fato de ser estrangeiro (um homem) lhe garanta o olhar sutil e a delicadeza com que apreende o mundo feminino. Seguramente, este é um dos diferenciais deste livro se tivermos presente a produção da escola junguiana em relação aos contos de fadas e, em especial, os que tentam retratar o feminino.

Há outros diferenciais. Uma das tendências presentes no movimento junguiano é a revalorização do mito e dos contos de fadas como linguagem da alma, do psiquismo. O verdadeiro "achado arqueológico" de Jung, refiro-me à percepção de que as vivências psicológicas estavam encapsuladas nas imagens primordiais - valendo-me de um conceito de Jacob Burkhardt, mestre de Jung - banalizou-se entre muitos autores junguianos. O que repousava no fundo da alma (imagens primordiais, arquetípicas, retalhos míticos) e que só através da análise, do método de amplificação e de um gigantesco lance da inteligência mercurial, como ensinou Jung, era trazido à tona, à consciência, passou ao primeiro plano, quero dizer, tornou-se o momento primeiro, o paradigma do comportamento humano. Numa inversão total das regras do jogo, observamos hoje, estupefatos, os mitos, em algumas tendências da escola junguiana, se constituírem em padrões de comportamento, em modelos funcionais das vivências do homem do século XXI, com a esfarrapada explicação de que são verdades eternas. Aliás a perversão é tamanha que a psicologia passa a ser derivada do mito!. No lugar da Psicologia, a Mitologia; no lugar da prática analítica, floresce o exercício estético. É urgente então voltar ao mundo dos homens, ao mundo cotidiano das vivências sofridas, à psicologia.

Ora, o autor, Allan Chinen, conta-nos que não encontrou um padrão linear ao pesquisar milhares de contos de fadas. Afirma que os contos de fadas sobre mulheres contém temas básicos, entretecidos de variadas maneiras, de tal sorte que cada trama torna-se singular. Assim, a narrativa é repleta de temas diferentes, de múltiplas perspectivas e de muitos personagens. De acordo com a metáfora do autor, trata-se de uma tapeçaria ou de uma sinfonia com muitas partituras e vozes.

Pergunto-me se isto se dá assim só com os contos de fadas sobre mulheres. Quero dizer, será que os produtos oníricos da humanidade - os mitos e os contos de fadas - não são sempre singulares e os pesquisadores que neles vêem um padrão linear não estão ingenuamente projetando - ao interpretá-los a psicologia do homem moderno?

É curioso observar que o grosso da interpretação junguiana sobre mitos e contos de fadas encontre neles todos os elementos da psicologia do homem moderno! Allan Chinen evita essas armadilhas. Busca a singularidade de cada trama e não faz da "psique feminina" (e das suas roupagens, os contos de fadas) verdades fixas e eternas que se aplicam a todas as mulheres, ou que só se referem às mulheres.

E, todavia, os contos de fadas ecoam na psique. Cada leitor deste livro constatará isso. E ecoa porque o maravilhoso desta produção dos "inícios" dos tempos, de alguma forma, está presente em cada um de nós. Como afirma o autor, as doze histórias desta coletânea "estão repletas de notáveis insights, tão úteis hoje quanto há séculos". Ao lê-los resgatamos pedaços perdidos do nosso psiquismo, ocultados, velados e desvalorizados pela tendência cultural dominante.

Sem propor modelos eternos, o autor, psiquiatra e professor da Universidade da Califórnia, em São Francisco, resgata a tradição pragmática americana: os contos de fadas, hoje e sempre, nos dão conselhos práticos e úteis, insights e utopias - ao mostrar os caminhos ideais que a mulher pode trilhar na vida.

Brincando, Chinen resume a sua perspectiva: "os contos sobre mulheres são por demais ricos para que se possa resumi-los segundo algum modelos, porém se um czar de algum deles me encarregasse de fazê-lo sob pena de perder a vida, eu diria que essas histórias giram em torno de quatro tarefas distintas: desafiar o demônio, recuperar seu verdadeiro self, dançar com as irmãs selvagens e despertar o mundo".

O "desafio do demônio" representa a luta da mulher contra a opressão e o menosprezo que as culturas patriarcais devotam às mulheres; bem como ilustra que a busca da singularidade das mulheres começa exatamente quando elas identificam, confrontam, combatem e derrotam esses demônios culturais.

A tarefa de desafiar o demônio está associada à de recuperar o "verdadeiro self" e ocupar seu legítimo lugar no mundo - contra o falso self: pudico, cordato e condizente com as convenções. Nessa aprendizagem, a mulher aprende a dar ouvidos à sua voz interior, ganhando acesso à sabedoria do self profundo.

O aspecto mais surpreendente da mulher que recupera seu verdadeiro self é a descoberta de que sua alma abrange toda a natureza. Esse elo desenvolve-se, segundo os contos de fadas e na interpretação do autor, gradualmente. Com isso, a mulher relaciona-se não só com as pessoas, mas com animais, plantas e estrelas - fundindo-se assim simbolicamente com a natureza. Ao agir assim, a mulher cura a velha cisão teológica entre animais e humanos, entre corpo e mente, entre instinto e espírito.

É exatamente essa comunhão com a natureza que, aliás, pode ser aterrorizante por causa de seu poder numinoso que leva a mulher à sua terceira tarefa nos contos de fadas: "dançar com as irmãs selvagens", ligadas à floresta, distantes da civilização. Em irmandade espiritual, as mulheres, nesta etapa, celebram o feminino profundo, celebram a beleza para o seu próprio deleite, não para os homens . E é no feminino profundo, na terra, que a temática da irmã transmuta-se em conexão do humano com o divino.

O derradeiro desafio das mulheres é, como nos conta o autor, "despertar o mundo". Vale dizer, despertar os homens arrebatados pelo sono, embriagados pelos privilégios masculinos. Despertar o mundo quer dizer desvelar e destruir as ilusões ancoradas em costumes limitadores, em convenções e, com isso, a mulher, no seu fazer, desperta a consciência e transforma o mundo, criando um lugar em que as mulheres sejam honradas por sua força, independência e sabedoria.

Encerro com uma citação do autor, sem dúvida, um amante e amigo das mulheres: "A jornada de qualquer mulher supera o privado e o psicológico e atinge o público e o cultural. As histórias aqui reunidas enfatizam esse ponto com comentários perspicazes - e subversivos - a respeito da cultura vigente... O trabalho individual, a transformação interpessoal e a evolução cultural caminham juntos. Essas histórias não separam os mundos interno e externo, mas insistem em dizer que o desenvolvimento deve ocorrer em ambas dimensões".

Amnéris Maroni - Unicamp/IFCH, Terapeuta junguiana

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