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Pode, a Mulher, Escolher?
Repensando a “liberdade” de escolha da mulher atual

Marta Chagas

Trabalho apresentado no XI Simpósio Internacional da Associação Junguiana do Brasil, Civilização em Transição. 31 de outubro a 2 de novembro de 2003,
Hotel Porto Belo, Mangaratiba, RJ

 

        O título desse trabalho, em forma de pergunta, já indica a direção que desejo seguir para apresentar algumas reflexões sobre a mulher e a construção de sua subjetividade: a indagação, como uma flecha lançada no espaço, carrega em si mesma a promessa de atingir seu alvo (telos), ao mesmo tempo que se abre para inúmeras variantes que podem obstruir seu objetivo - uma rajada de vento inesperada, a corda um pouco mais frouxa do arco, um lançamento fora do tempo, etc. Partindo da convicção de que não há possibilidade de haver garantias quanto ao atingimento do alvo, ou seja, de que não há nenhuma resposta cabal para essa pergunta, esse trabalho irá procurar, ao menos, descrever o caminho percorrido por algumas questões oriundas de análises com mulheres, e, quem sabe, enviar outras perguntas-flechas, com o objetivo de se lançar a novas reflexões-objetivos.

        Trabalhando como analista junguiana há mais de 20 anos, com uma clientela basicamente constituída por mulheres, cujas idades variaram dos 14 aos 68 anos, logicamente, com demandas e em momentos existenciais muito diversos, tenho me deparado com algumas questões que aparecem de forma constante na grande maioria desses atendimentos, além de encontrarem-se entre as minhas próprias, tão discutidas e trabalhadas em minha análise pessoal, assim como em minhas reflexões.

        Questões como: o que deseja uma mulher? o que é uma mulher? quais são as escolhas feitas pela mulher? qual é o lugar da mulher? o que se espera de uma mulher? sempre acabam por surgir quando a mulher começa a conscientizar-se de seu papel sócio-econômico-cultural, quando ela se depara com a quantidade de modelos e referenciais já pré-estabelecidos, que apontam para caminhos previamente traçados pelo “mundo dos homens”, com a intenção, declarada abertamente ou de forma mais sutil, de dar contorno ou controlar aquilo que aponta para a diversidade, para o outro, para a diferença, para o desconhecido, segundo o referencial masculino. Não que essas questões não encontrem-se presentes também nos homens, mas parece que cabe à mulher uma “dupla” tarefa: achar seu caminho, seu sentido, além de desarmar as várias arapucas desses modelos estabelecidos e reconfortantes (para quem?) já indicados.

        Coube a Freud e à psicanálise a grande façanha de prestar atenção às dores e narrativas das histéricas, trazendo à tona da consciência coletiva a importância da sexualidade, do inconsciente, tanto para as mulheres como para os homens. Logicamente, também naquela época, as mulheres ainda encontravam-se mais reprimidas que os homens. Como bem o ressaltou Jung, a neurose não é apenas um sintoma individual, mas também representa o conflito presente na cultura e época do indivíduo:

...Hoje em dia, sabe-se também que nem sempre é só a natureza instintiva e animal que está em desacordo com a coerção cultural. Muitas vezes, novas idéias são premidas do inconsciente para a luz do dia, entrando em choque com a cultura dominante, tanto quanto os instintos... O neurótico participa, sem ter consciência, das correntes dominantes de seu tempo, que estão configuradas em seu próprio conflito.

        A neurose está intimamente entrelaçada com o problema do seu próprio tempo e representa uma tentativa frustrada do indivíduo de resolver dentro de si um problema universal. A neurose é uma cisão interna.

                                                  (Psicologia do Inconsciente, par. 17 e 18)

 

Porém, Freud e também outros psicanalistas que se seguiram a ele, continuaram a descrever os processos de desenvolvimento psíquico da mulher, tendo por referência os do homem, ou seja, explicando o que acontece com a mulher segundo a ótica da primazia do masculino, como uma conseqüência dessa sua “anterioridade”. Pode-se depreender nessa atitude sua base judaica religiosa, onde Deus teria feito o homem (Adão) à sua semelhança; a mulher (Eva) teria sido feita para fazer companhia a este: Deus a fez a partir de uma costela de Adão. Assim sendo, a mulher carrega, desde os primórdios, a marca de ter sido criada a partir do homem e não diretamente de Deus. Então, “poder-se-ia” entender os processos da mulher através do estudo dos processos do homem, um vez que ele é seu “genitor”, ou, que poder-se-ia falar da mulher, metaforicamente, como um ser que teria sido “clonado” a partir do homem. A mulher encontrando-se sempre no lugar da decorrência...

Jung tentou ser mais “democrático” quanto a esse impasse. Usando a questão do gênero, trouxe a idéia de que tanto os homens como as mulheres seriam dotados de aspectos masculinos e femininos, em proporções e “lugares” psíquicos diferentes, tentando trazer essa diferença para um campo não hierarquizado. Mas aí também encontram-se percalços.

Por exemplo, segundo ele, o pensamento seria uma função mais ligada ao masculino. Como na mulher o masculino encontra-se, geralmente, no inconsciente, seu pensamento seria marcado por um certo arcaísmo e compulsividade. Ou seja, a mulher “faz mais força” para pensar do que para sentir, ela utiliza mais energia psíquica para pensar... Comprovar-se-ia tal idéia através do número bem maior de homens que se destacam nas áreas do pensamento em contraste com o de mulheres. Mas, será que pode-se abolir a questão sócio-cultural nessa “estatística”? Há quanto tempo as mulheres “podem” pensar e se exprimir? Será que há espaço para o pensamento das mulheres?

Outra afirmação sobre a mulher é de “autoria” do psicanalista francês Jacques Lacan: a mulher quer ser desejada, não amada. Ou seja, a mulher só consegue se pensar, se constituir, a partir do desejo do outro. A autora junguiana, Polly Young-Eisendrath, em seu livro A Mulher e o Desejo, aborda essa questão de forma mais ampla e, ao meu ver, mais exata:

        Hoje acredito que Lacan estava basicamente certo acerca do problema do desejo feminino, mas em vez de encarar isto como sendo um aspecto normal da personalidade feminina, como ele acreditava, eu encaro como sendo uma angústia danosa, decorrente do desenvolvimento feminino ocorrer em sociedades em que se espera que as mulheres agradem aos homens. A compulsão de querer ser desejada e desejável corrói o autocontrole, a autoconfiança e a autodeterminação das mulheres da adolescência à velhice, em todos os nossos papéis, de filha à mãe, de amante à esposa, de estudante à trabalhadora ou líder, seja esta angústia consciente ou não. (pág. 16)

 

Essa “compulsão de querer ser desejada e desejável” surge com muita freqüência na análise, muitas vezes de forma bastante disfarçada. Depois de tantas lutas feministas para colocar a mulher em posição de igualdade frente ao homem, com os mesmos direitos e deveres sociais e econômicos, a existência dessa questão parece não ser muito aceitável conscientemente, indicando um certo movimento regressivo da mulher frente às “novas” responsabilidades requisitadas pela vida, como se ela buscasse, inconscientemente, retornar ao estado de dependência do homem. É necessário e fundamental para o processo analítico que essa demanda venha à consciência, para que se possam abrir outras questões, profundamente vinculadas a essa, como: quais foram as escolhas feitas pela paciente durante toda sua vida? o que ela quer?, etc.

Esse tem sido o tema central de várias análises de mulheres comigo. Sob muitas formas diferentes de aparição, quando surge a pergunta “o que você quer?”, quase sempre nos deparamos com uma grande lacuna: “como responder esta questão, se eu não sei o que o outro deseja de mim, se não sei o que o outro espera de mim para que eu possa agradá-lo?” De outro modo, “como posso escolher meu caminho, como posso saber de mim mesma, saber quais são meus desejos, se existe em mim uma ‘obrigação’ interna, anterior até à minha própria existência, que me liga de maneira irreversível ao desejo do outro, sob a forma de um nó, que propicia o aparecimento de fantasias de morte, caso o mesmo seja desatado?” A mulher ainda carrega esse modelo de existência, mesmo que racionalmente não concorde com ele.

Pode-se argumentar que essas questões já estariam um tanto ultrapassadas hoje em dia, que a mulher atual não é tão discriminada em suas escolhas profissionais, em suas escolhas amorosas, etc.; que a mulher pode ser muito “poderosa” se deixar fluir sua intuição, desenvolvendo seu lado místico de entrega total à “grande Deusa”, às leis da natureza, por exemplo; que a mulher alcançou sua independência, ou que esta já lhe foi concedida...

No entanto, a própria idéia de independência parece estar contaminada por outras imagens, situada em um território restrito, onde ela passa a significar também solidão, isolamento. Dessa forma, isso representa um presente ou uma punição? Frases como: “quis ser independente, agora vire-se sozinha...” são ouvidas muito comumente, em vários contextos, mas que trazem a idéia de desobediência-castigo, como o pecado original e a expulsão do Paraíso. A idéia de independência para o homem não traz essa marca. Ao contrário, ela é muito valorizada, como se fosse o “objetivo natural” do masculino. A mulher, enquanto desejosa por sua independência, pareceria estar querendo apenas “copiar” o homem, logo, estaria cada vez mais afastada de sua “verdadeira essência” no sentido platônico.

Mas independência não pode ser só isso! Conquistar a independência não pode apenas significar para a mulher a caída no isolamento, no egocentrismo, na solidão. Conquistar a independência pode significar que a mulher está se desatrelando do desejo do outro, que está se constituindo como um outro também, que precisa de relacionamentos afetivos, sociais, profissionais, que está presente no mundo, na vida e que deve responder de forma consciente a tudo que a cerca. Isso foi apontado por Jung (não em relação à mulher propriamente dita) em sua descrição do processo de individuação, seus sacrifícios, suas conseqüências, seu imperativo.

Muito mais poderia ser dito aqui, ser questionado, mas o objetivo desse trabalho é, como foi dito no início, levantar questionamentos, trazer à nossa consciência perguntas que não gostamos de nos fazer, mas que são importantíssimas para uma maior reflexão de quem somos.

Gostaria de terminar essa apresentação com um trecho extraído de um discurso feito pela escritora Virginia Woolf, em 1931, acerca das profissões para mulheres:

“O que é uma mulher? Eu lhes asseguro, eu não sei. Não acredito que vocês saibam. Não acredito que alguém possa saber até que ela tenha se expressado em todas as artes e profissões abertas à habilidade humana... Mesmo quando a trilha está nominalmente aberta - quando não há nada impedindo uma mulher de ser médica, advogada, funcionária pública - há muitos fantasmas e obstáculos, como acredito, avultando em seu caminho. Acho que discuti-los e defini-los seja de grande valia e importância, pois somente a partir daí o trabalho pode ser repartido, e as dificuldades serem superadas. Mas além disso, é necessário também discutir os fins e os objetivos pelos quais estamos lutando, pelos quais vamos batalhar contra aqueles terríveis obstáculos. Tais objetivo não podem ser tomados por certos; devem ser perpetuamente questionados e examinados. A situação como um todo, como a vejo - aqui neste auditório, cercada de mulheres exercendo pela primeira vez na história não sei quantas profissões diferentes - é de extraordinário interesse e importância. Vocês ganharam seu próprio espaço na casa até agora possuída exclusivamente por homens. Vocês são capazes, embora não sem grande trabalho e esforço, de pagar o aluguel. Vocês estão ganhando suas quinhentas libras ao ano. Mas esta liberdade é apenas um começo; o cômodo é de vocês, mas ainda está vazio. Ele tem que ser mobiliado; tem que ser decorado, tem que ser repartido. Como vocês vão mobiliá-lo, como vocês vão decorá-lo? Com quem vão dividi-lo, e em que termos? Estas, eu acho, são as questões da maior importância e interesse. Pela primeira vez na história vocês são capazes de colocá-las; pela primeira vez vocês são capazes de decidir por si mesmas quais poderiam ser as respostas. Eu poderia ficar e discutir essas questões e respostas de bom grado - mas não esta noite. Meu tempo acabou, e devo terminar.”

Bibliografia

1. EISENDRATH, Polly Young - A Mulher e o Desejo - ed. Rocco

2. JUNG, C. G. - Psicologia do Inconsciente - OC .vol. VII/1 - ed. Vozes

3. PIERI, Paolo Francesco (dir.) - Dicionário Junguiano  -  ed. Vozes

4. WOLF, Virginia  -  Profissão para Mulheres  -  ed. Paz e Terra

Marta Chagas
martachagas@rubedo.psc.br

 

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