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UMA INTRODUÇÃO À DISCUSSÃO
SOBRE AS
FORMAS DE DOMINAÇÃO PRESENTES NAS RELAÇÕES
SOCIAIS SOB PERSPECTIVA DA PSICOLOGIA ANALÍTICA
Roberto Carlos Leal
| Trabalho apresentado como tema livre no IX Simpósio Nacional da Associação
Junguiana do Brasil, Lindóia, SP. Outubro de 2001. |
A idéia dessa exposição provém, inicialmente, da importância atribuída
por Jung de que o processo de análise perpassa também a história do indivíduo, de sua
família, povo e país. Desta forma busca-se conhecer e compreender as imagens originais, a essência
dos arquétipos e o inconsciente coletivo. Algumas vezes sonhos demandam essa compreensão que vão
além das reminiscências pessoais.
Um paciente ao entrar no consultório carrega consigo valores, códigos sociais, estando portanto inserido
num contexto, em um mundo, participando de uma história coletiva. É o que em linhas gerais James
Hillman designou como “Anima Mundi”.
Ao ter a oportunidade de ler o importante livro de Roberto Gambini, “Espelho Índio”, onde o autor desenvolve,
pela leitura de cartas do período inicial da colonização brasileira, uma profunda análise
da formação da alma brasileira, tive como estímulo seguir algumas pistas que apontassem que
nossa história foi e é até hoje, permeada por um processo psicossocial que denota no bojo
de suas relações, formas de dominação que compõem, por assim dizer, conteúdos
de nossa sombra que precisariam ser enfrentados.
Gambini, sob o prisma da psicologia analítica, aponta a necessidade de olharmos cuidadosamente para nossas
origens. Destaca que ao invés de “descobertos”, fomos invadidos. Esta invasão implica que o povo
brasileiro em sua origem é também o começo do fim de povos que já habitavam nossas
terras a cerca de trinta mil anos, com diferentes linguas e formas de organização social. O “paraíso”,
as “terras virgens” (projeção dos ibéricos) eram já habitadas por culturas peculiares.
Em termos psicológicos essa invasão implicou na sobreposição de um estilo de consciência,
de um modo de funcionar, sobre outro que foi negado, desconsiderado em suas raízes, seus valores. Segundo
Gambini, mitos foram enterrados, com a subjetividade e psiquismo dos povos indígenas. Aqui temos no início
da história do povo brasileiro uma primeira forma de dominação. A opressão e desconsideração
do conquistador ibérico frente a um povo desconhecido, visto como inferior, selvagem. A colonização,
do ponto de vista psicológico, acontece processualmente por projeções de uma cultura sobre
outra, gestos de uma sombra dominadora em ação. Esta dificuldade psicológica marca nossa origem.
Gambini propõe resgatar, reintegrar e superar nossa condição dissociada. Somos filhos bastardos
de um pai conquistador que nos renega na corte e também somos fruto da mãe índia que não
pode mais retornar a condição de pertencente ao seu povo. Isso demanda um processo psíquico
profundo. Integrar o que foi desconsiderado: mitos, línguas, culturas e organização social.
Vale lembrar que o processo de colonização brasileira também se deu através da chegada
de escravos negros, sendo mais uma vez, cultura, língua e povo desconsiderados pelos conquistadores ibéricos.
Se esta é nossa herança dos tempos de invasão, creio que em nossa história também
observam-se outros elementos constitutivos que confirmam um processo contínuo de criação e
recriação de diferentes formas de dominação que caracterizam nossas relações
sociais, desembocando na sociedade contemporânea brasileira.
O que quero dizer é que em nosso psiquismo, na natureza de nossas relações sociais, constitutivo
de nossos valores sociais, a sombra da superioridade do conquistador nos domina através de um constante
inter-jogo.
Mas que pistas indicam a presença deste conteúdo em nossa sombra? Brevemente gostaria de apontar
dois olhares distintos sobre nossa história.
O primeiro, de natureza política e sócio-econômica, que pude identificar em estudos de Caio
Prado Junior e pelo cientista político Francisco de Oliveira, acerca dos aspectos internos das estruturas
de dominação social existentes em nosso país.
Cabe lembrar que os súditos do Rei de Portugal que se dispuseram a iniciar a exploração agrária
no Brasil, o fizeram através da cessão de grandes propriedades, caracterizadas pela monocultura (cana
de açucar) e com trabalho escravo dos índios e depois dos negros africanos. Da mesma forma deu-se
a exploração e extração mineral. Riquezas foram transferidas, sem qualquer preocupação
ou política voltada para a população local.
Entretanto, em linhas gerais, mesmo após a abolição da escravatura, nosso sistema econômico
foi caracterizado pelo custo significativamente baixo de mão de obra frente a concentração
de poucos proprietários dos meios de produção. O que se verifica a partir daí é
a prevalência de grandes latifúndios e manutenção de padrões “escravocratas”
nas relações de trabalho. Isso se segue até o início do processo de industrialização
nos anos 30, no século XX.
Entretanto, tais características permanecem em novos moldes, em conformidade com as novas necessidades das
forças produtivas. Relações arcaicas do campo se reproduzem na concepção moderna
de economia através da industrialização. Mesmo com a decadência da burguesia do campo
e a ascensão de uma burguesia urbana, por assim dizer, o sistema caminhou para uma concentração
da renda, propriedade e poder.
No plano político, mesmo com inúmeras formas de enfrentamento e resistência em nossa história,
desde o tempo em que os índios tornaram-se escravos e lutaram contra os brancos, até hoje prevalecem
formas de dominação que caracterizam nossa triste história de injustiça social, ainda
que, particularmente, no final do século XX, tenhamos evoluído nosso sistema político democrático.
O que gostaria de salientar é quais sutilezas contidas em nossas relações sociais, nos dias
atuais, que denotam ainda uma certa ambigüidade, por assim dizer, expressas por diferenças que implicam
em formas de dominação implícitas e por vezes também explícitas nas relações
sociais.
Pude observar, ao ler um estudo do antropólogo Roberto Damatta a respeito da cidadania na sociedade contemporânea
brasileira, considerando o universo relacional que a caracteriza, que a suposta igualdade dos cidadãos sofre
uma profunda interferência pela existência de uma hierarquia calcada pelas relações que
cada indivíduo possui ou não. Como diz Damatta: “se o indivíduo ou cidadão não
tem nenhuma ligação com pessoa ou instituição de prestígio na sociedade, ele
é tratado como um inferior. Dele, ...quem toma conta são as leis”. Nesse sentido sentencia: “é
a relação que explica a perversão e a variação da cidadania, ...uma nítida
hierarquia em termos de sua proximidade do poder, ou melhor, daquilo que representa o centro do poder”.
Nesse sentido, constata o autor, isso implica na convivência de dimensões e esferas de vida com valores
diferentes e complementares entre si.
Cabe salientar, que Damatta chega a essas conclusões a partir do estudo de uma expressão corrente
em nossa sociedade contemporânea, perguntada de modo agressivo: “você sabe com quem está falando?”
Essa expressão, segundo o autor, ocorre normalmente na tentativa de romper com alguma regra que teoricamente
o indivíduo está submetido. Trata-se de “uma estratégia ou forma de ser julgado e percebido
por outro tipo de conduta e papel”. Apesar de reinvidicar a igualdade dos cidadãos perante as instituições,
o desenrolar de fatos que permitem contrariar ou amenizar o indivíduo perante a lei geral nessas ocasiões,
revela um cotidiano da sociedade que implica em múltiplas formas e fontes de cidadania.
Pessoas são reconhecidas por suas relações. “O mundo das relações em nossa sociedade
entrecorta ou atravessa por cima das solidariedades naturais de segmentos e classes sociais de forma instrumentalizada,
sem, paradoxalmente, estar exclusivamente ligada a uma posição econômica ou convicção
ideológica”. Talvez por isso, obedecer as leis gerais seja por vezes alvo de chacota ou descaso.
Damatta conclui, finalmente, que as instituições sociais brasileiras estão sujeitas a dois
tipos de pressão: pela pressão universalista, que vem das normas burocráticas e legais que
as definem como agência/serviço público e pelas redes de relações pessoais a
que todos estão submetidos e aos recursos sociais que essas redes mobilizam e distribuem.
Queira-se ou não, Damatta em seu estudo, verifica que em nossa sociedade contemporânea, alguns são
julgados segundo um status superior, sustentado por uma rede de relações e outros pelo jugo da lei,
supostamente universal.
Finalmente, em termos psicológicos, ao constatar que no bojo de nosso universo psicossocial diferentes formas
de dominação caracterizam as relações sociais, considero pertinente salientar dois
aspectos.
O primeiro diz respeito a nossa herança ancestral, cuja a figura do conquistador nos invade, domina e, antes
de mais nada, nos desconsidera. Isso nos remete a questão da alteridade, da consideração pelo
outro, implicando por conseguinte, na qualidade dos vínculos, laços (inclusive de solidariedade)
que constituímos dia a dia. Afetivamente, a qualidade de um vínculo, possibilita-se ou não
pela escuta, tolerância, por tentar experienciar o lugar da possibilidade do outro. Certamente um exercício
difícil, mas necessário para considerar o outro.
O segundo refere-se a questão da identidade. A identidade, ou identidade social se assim quisermos, é
uma definição que expressa correspondência com papéis desempenhados, valores sociais,
moral, ética, etc. É por isso constitutiva de um universo de valores sociais que carregam uma herança
histórica combinadas ao jogo social presente. Conforme Hannah Arendt, nenhum valor histórico social,
por assim dizer, é completamente perdido, podendo emergir por uma premência de acontecimentos e relações
que se estabelecem no presente. Ao mesmo tempo, a identidade só existe pelo reconhecimento alheio. Daí
a importância de compreender e conhecer nossa história e a aprofundarmos psicologicamente.
Nesse sentido, creio, a identidade aproxima-se mais da persona do que da possibilidade da expressão do self.
Este último relaciona-se mais a singularidade, possibilidade de ser. Nestes termos, as pistas que busquei
apontar, tentam dar conta dos elementos que historicamente conformam uma especificidade do conteúdo de nossa
sombra ancestral.
Além da sombra, nos deparamos frente a todo esse processo, com a persona ou máscara que nos reveste
e/ou caracteriza.
Referências Bibliográficas:
C.G.Jung, Memórias, sonhos e reflexões
Roberto Gambini, Espelho Índio;
Roberto Damatta, A Casa e a Rua;
Caio Prado Junior, História Econômica do Brasil;
Francisco de Oliveira, Crítica a razão dualista;
James Hillman, Anima Mundi;
Hannah Arendt, Entre o passado e o futuro.
Roberto Carlos Leal
Analista Junguiano, residente em São Paulo-SP.
Atualmente está cursando o mestrado em Psicologia Social no Instituto de Psicologia da USP
Para entrar em contato com o autor:
robertocleal@yahoo.com
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