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O Espelho, a Persona e o Poder

Henrique Torres



Este Moitará juntou psicologia e literatura, pois então, vou ler uma história sobre o conto "O Espelho" de Machado de Assis

Espero ser conciso e claro, para transmitir o acontecido que tive o prazer de presenciar: um encontro entre 4 figuras especiais. Encontro denso, como sói acontecer.

O primeiro dos ilustres desse encontro, foi Nelson Rodrigues, que inventou as entrevistas imaginárias que aconteciam em um terreno baldio, e que, exagerado, escancarava a condição humana, numa espécie de tragédia de costumes.

Pois foi Nelson quem armou esse encontro no céu, onde já estavam todos os outros convidados, e onde eu, apesar de vivo, fui parar também.

O segundo convidado foi o Glauber Rocha, guerreiro do cinema novo, que escrevia cinema com K, de Kine, e roliude com erre, de cultura nacional.

Os outros dois eram o Jung e Machado de Assis.

No céu do Brasil, Jung falaria nossa língua, leria Machado de Assis, e beberia psicologia às mancheias.

E Machado de Assis, era, e claro o convidado de honra.

Baldio será o céu se os homens não puderem lá se encontrar e cultivar suas fantasias.

Esse era o quaternio da festa no céu, ao qual eu, por sorte de estar no lugar errado na hora errada, fui me juntar.

Único ‘desilustre’, recebi o convite do bico do pelicano, ave símbolo de Cristo.

O pássaro me disse, à boca pequena, que na festa haveria lugar para uns e outros.
Entrei naquele papo e lá estava eu no céu, buscando um jeito de participar, e encontrei: vou cuidar do vinho, pois “in vino veritas”.

Taças à mesa, todos sentados, começou a conversa.
Nelson pediu a Machado:

"Conta pra ele, conta , aquela história, a do Jacobina.

"A história do Jacobina? pois conto sim"
e Machado começou a narração de como Jacobina inteirou-se de suas duas almas:

“quatro ou cinco pessoas debatiam, uma noite, questões de alta transcendência... a sala era pequena, alumiada a velas, cuja luz fundia-se misteriosamente com o luar que vinha de fora.”

"Rigorosamente eram quatro os que falavam, mas além deles havia na sala um quinto personagem, calado, pensando, cochilando..."

"não discutia nunca; e defendia-se da abstenção dizendo que a discussão era a forma polida do instinto batalhador, que jaz no homem como uma herança bestial;
e acrescentava que os serafins e os querubins não controvertiam nada, e aliás eram a perfeição espiritual e eterna.”

Glauber retrucou dizendo que era preciso lutar pelas verdades, posto que ninguem é anjo.

Está certo, - disse Nelson - somos todos canalhas, mas deixe o homem falar, e Jacobina continuou

“ .... A conversa, em seus meandros, veio a cair na natureza da alma”

“... se querem ouvir-me calados, posso contar-lhes um caso de minha vida, em que ressalta a mais clara demonstração acerca da matéria de que se trata. Em primeiro lugar, não há uma só alma, há duas...

nada menos que duas almas. Cada criatura traz duas almas consigo; uma que olha de dentro para fora e outra que olha de fora para dentro...
A alma exterior pode ser um espírito, um fluído. Há casos em que um simples botão de camisa é a alma de uma pessoa. Há cavalheiros, por exemplo, cuja alma exterior, aos primeiros anos, foi um chocalho com um cavalinho de pau, e mais tarde, uma provedoria de irmandade."

"Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que metaforicamente é uma laranja: quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior significa a da alma inteira. ”

Jung, atento, cachimbava e intuia, admirado, a sabedoria do escritor, vendo a sua teoria da Persona tomar corpo na história de Jacobina.

Tomou a palavra e disse:

“ A consciência pessoal é, mais ou menos, um segmento arbitrário da psique coletiva. Ela consiste em uma soma de fatos psíquicos, sentidos como algo pessoal... uma consciencia apenas pessoal acentua, com certa ansiedade, seus direitos de autor e propriedade no que concerne a seus conteúdos, procurando, desse modo, criar um todo. Mas os conteúdos que não se ajustam a esse todo são negligenciados, esquecidos, ou então reprimidos e negados. Isto constitui uma forma de auto-educação, que não deixa de ser porém, demasiado arbitrária e violenta.

Em benefício de uma imagem ideal, à qual o indivíduo deseja moldar-se, sacrifica-se muito de sua humanidade....
A esse segmento arbitrário da psique coletiva, elaborado às vezes com grande esforço, dei o nome de Persona.”

Jacobina continuou contando sua experiência:

“tinha vinte e cinco anos, era pobre, e acabava de ser nomeado alferes da guarda nacional. Não imaginam o acontecimento que isto foi em nossa casa. Minha mãe ficou orgulhosa! Tão contente! Chamava-me o seu alferes. Primos e tios, foi tudo uma alegria sincera e pura; na vila, note-se bem, houve alguns despeitados, choro e ranger de dentes, como na Escritura; ”

“ Em compensação, tive muitas pessoas que ficaram satisfeitas com a nomeação; e a prova disso é que todo o fardamento me foi dado por amigos..."

"Vai então uma das minhas tias, D. Marcolina, que morava léguas de distância da vila, num sítio escuso e solitário, desejou ver-me e pediu que fosse ter com ela e levasse a farda...

"....Chamava-me também o seu alferes...
Eu pedia-lhe que me chamasse Joãozinho, como dantes, e ela abanava a cabeça, brandindo a mão, que era o “senhor alferes”. ....não imaginam.

"Se lhes disser que o entusiasmo da tia Marcolina chegou ao ponto de mandar por no meu quarto um grande espelho, obra rica e magnífica, que destoava do resto da casa...

"Era um espelho que lhe dera a madrinha, e que esta herdara da mãe, que o comprara a uma das fidalgas, vindas em 1808, com a corte de D. João Vl.
Não sei o que havia nisso de verdade; era a tradição.

"...e finalmente que o “senhor alferes” merecia muito mais; o certo é que todas essas coisas, carinhos, atenções, obséquios, fizeram em mim uma transformação que o natural sentimento da mocidade ajudou e completou.

"O alferes eliminou o homem.
"Durante alguns dias as duas naturezas equilibraram-se; mas não tardou que a primitiva cedesse a outra: ficou-me uma parte mínima de humanidade.

“ Era exclusivamente o alferes.

"Ora, um dia recebeu a tia Marcolina uma notícia grave: uma de suas filhas, residente dali a cinco léguas, estava mal e à morte. Adeus sobrinho! Adeus alferes! Era mãe extremosa, armou logo uma viagem, pediu ao cunhado que fosse com ela e a mim que tomasse conta do sítio.

"...o certo é que fiquei só, com os poucos escravos da casa. Confesso-lhes que desde logo senti uma grande opressão, alguma coisa semelhante ao efeito de quatro paredes de um cárcere...

Era a alma exterior que se reduzia.

Enchendo minha taça pensei: Deus põe, a vida é mãe e a morte dispõe.

E Jung falou novamente:

“seria incorreto, porém, encerrar o assunto sem reconhecer que subjaz algo de individual na escolha e definição da persona. Assim, apesar da consciência identificar-se inicialmente com a persona - essa figura de compromisso que representamos diante da coletividade - o self inconsciente não pode ser reprimido a ponto de extinguir-se.
....uma vez abolidas as repressões de ordem pessoal, a individualidade e a psique coletiva começam a emergir, fundidas umas na outra, liberando fantasias pessoais até então reprimidas.
Aparecem sonhos e fantasias, que se revestem de um aspecto diferente.

Nelson, impaciente, pediu:

- Fala Jacobina, fala, conta a história, e Jacobina seguiu contando:

“- corri a casa toda, a senzala, tudo, nada, ninguém, um molequinho que fosse. Galos e galinhas tão somente, um par de mulas que filosofavam a vida sacudindo as moscas, e três bois....

Nenhum ente humano.
Parece-lhes que isto era melhor do que ter morrido?

"Minha solidão tomou proporções enormes. Nunca os dias foram mais compridos, nunca o sol abrasou a terra com uma obstinação mais cansativa.”

Jung não pensou mais em seus pacientes; ali estava um exemplo vivo de suas teorias. Glauber não resistiu e filmou o mestre coçando o ouvido..

Jacobina continuou:

“ O sono dava-me alívio, não pela razão de ser irmão da morte, mas por outra....o sono, eliminando a necessidade da alma exterior, deixava atuar a alma interior.

“Mas quando acordava, o dia claro, esvaia-se com o sono a consciência do meu ser novo e único - porque a alma interior perdia a ação exclusiva e ficava dependente da outra, que teimava em não tornar...Não tornava.

Vão ouvir coisa pior. Convém dizer-lhes que, desde que ficara só, não olhara uma só vez para o espelho. Não era abstenção deliberada, não tinha motivo; era um impulso inconsciente, um receio de achar-me um e dois, ao mesmo tempo, ... no fim de oito dias, deu-me na veneta olhar para o espelho com o fim justamente de achar-me dois. Olhei e recuei. O próprio vidro parecia conjurado com o resto do universo; Não me estampou a figura nítida e inteira, mas vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra.

“ ...então tive medo; atribuí o fenômeno à excitação nervosa em que andava; receei ficar mais tempo e enlouquecer.
Vou-me embora, disse comigo
Subitamente, por uma inspiração inexplicável, por um impulso sem cálculo...

lembro-me de vestir a farda de alferes. Vesti-a, aprontei-me de todo; e como estava diante do espelho, levantei os olhos, e ...não lhes digo nada: o vidro reproduziu a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava enfim, a alma exterior, dispersa e fugida com os escravos; ei-la recolhida no espelho.

“ Olhava para o espelho, ia de um lado para o outro, recuava, gesticulava, sorria, e o vidro exprimia tudo. Não era mais um autômato, era um ser animado. Daí em diante fui outro. Cada dia, a uma certa hora, vestia-me de alferes, e sentava-me diante do espelho, lendo, olhando, meditando; no fim de duas, três horas, despia-me outra vez. Com este regimen pude atravessar mais seis dias de solidão, sem os sentir...”

Jung tornou a falar de sua teoria:

“ O colapso da orientação consciente não é assunto negligenciável. Corresponde a um fim de mundo em miniatura, como se tudo voltasse de novo ao caos original. O indivíduo sente-se abandonado, desorientado, como um barco sem leme entregue aos caprichos dos elementos....na realidade, porém, mergulhou novamente no inconsciente coletivo, que assume a direção.
Poderíamos multiplicar os exemplos em que, no momento crítico, um pensamento “salvador”, uma visão, uma “voz interna” imprimem uma nova direção à vida, com um poder de convicção irresistível. Provavelmente, seria possível mencionar também, outros tantos casos, em que o colapso significou uma catástrofe que destruiu uma vida...”

E eu ali, ouvindo aquelas palavras, pensava no processo de análise, que começa com o confronto da Persona, condição para o aparecimento claro da sombra de toda luz, e da luz de toda sombra.
E que, a partir daí, anima e animus podem continuar sua função de interação entre os opostos.

Pensei na superidentificação de Jacobina com a Persona, o poder lhe subira à cabeça.
Pensei no risco da Persona se cristalizar, rígida, nos impedindo de tomar consciencia da sombra e sua função na individuação.

No plano coletivo social cultural, pensei na farda e na bandeira nacional:
A bandeira nacional é a farda da pátria.

Vencedores, levantamos a bandeira para comemorar; torcedores, a vestimos em nosso desejo de vitória; nossos jovens caras pintadas, dão, no rosto, bandeira de seus sonhos para o Brasil.

O verde da juventude e da esperança;
O azul de nossas águas, doces e salgadas;
O amarelo de nossa Prima Matéria, de nosso Self.
E o branco de nossa paz e das estrelas, de quem somos a poeira.

Temos um jardim enorme, ali em cima, um dos pulmôes do mundo, no nosso terreno, mas temos também, pessoas, empresas e políticos que insistem em destruí-lo.

Temos um mar de navegantes, saveiros e jangadas, cultura e sabedoria popular. Dê-lhes tecnologia e os veremos à frente, pois temos também os marinheiros modernos, - iatistas campeões, mundiais e olímpicos.
Um de nossos barcos, medalha de ouro olímpico, é patrocinado pela Prada, grife de moda italiana e por um clube brasileiro falido.
Tecnologia de ponta, brasileira, globalizada.
Significativamente o barco chama-se " Vida Bandida".

Somos também um povo muito religioso e damos a nossos pesqueiros nomes de santos, mulheres, sereias, invocando a proteção de Iemanjá.

Entrando pelas nossas águas doces, temos um rio especial, que demos de presente a São Francisco, santo que fez voto de pobreza. É dele o velho Chico.

São Francisco, com certeza, gostaria de irrigar com suas águas,
o corpo e a alma da seca nordestina.
Mas, pobre homem, não consegue vencer a luta contra os políticos.......e o nosso povo tem que engolir, a seco, as gordas rãs da insensibilidade política. Voto de miséria!

Pensei na constituição e nos regimentos que são a farda das instituições. Nos tornam uniformes, nos abrigam, nos hierarquizam, nos fazem iguais apesar das diferenças.

Mas, olhar bem para cada um, faz a diferença.

Pensei nos três poderes da nação:
Um juiz presidente de tribunal se transforma num "lalau"
Figuras expoentes do legislativo, nos roubam a ética e a moral,
e executivos de todos os escalões, se refestelam no bem público.

Que mistura perversa de persona e poder paralisa os mecanismos reguladores internos - comissões de ética, corregedorias e ministério público, - fazendo com que somente situações extra-muros, familiares, por exemplo, um irmão dolorido, um genro ameaçado, os façam, efetivamente, funcionar?

Somos um povo jovem, só 500 anos. Adolescente. Temos tudo a nos educar. Somos capazes de aprender a economizar 20% da energia que gastamos, mas na contra mão dessa lição, temos o exemplo da corrupção, dos 20% da propina, do ‘rouba mas faz'.

Lembrei de Freud falando do superego, do ego ideal e do ideal de ego. Instâncias que regem nosso poder, que falam de como nos imaginamos, e do que aspiramos ser.

Pensei no desperdício de riqueza, energia e experiência criados pela impunidade.

Temos um povo gentil, generoso , sensual e capaz. Mas somos, também capazes de judiar, maltratar, prostituir nossas crianças, pô-las para trabalhar ao invés de comer, brincar e estudar. Também perseguimos, torturamos e matamos, afinal somos humanos por trás de nossas fardas cujos botões brilhantes não refletem a sombra.

Pensei nas parcerias e me vi de novo com o a psicologia analítica:
Se o Self busca a totalidade, fatalmente os opostos se atualizarão na consciencia coletiva, na persona cultural, e na mentalidade do grupo.

Por trás da persona da interação perfeita, vamos encontrar uma distribuição às vezes canhestra de funções e poderes.
Um pensa e o outro sente, um sonha e o outro faz, um subsidía e o outro não pode mais, um fala e o outro se cala, um se esconde e o outro se expõe demais.

Pensei ainda mais fundo, nas raízes narcísicas da persona, torcendo para que o desejo de evitar a dor, não nos faça surdos à fala original de Eco, e cegos à repetitiva rejeição narcisista.

Assim, há que se construir uma persona, pessoal e coletiva, que possa incorporar os conteúdos reprimidos ou a serem atualizados, com menos ameaça e menos perigo de afundar o barco, e, ao mesmo tempo, sem nos perdermos de nossas raízes profundas, 'sélficas'

? É possível uma identidade mais flexível, maleável, que atenda a um velho conceito de psicologia social, que reza que é saúdavel poder desempenhar outros papeis sociais? Pode um analista ser bombeiro num incêndio, ou a ele só cabe interpretar o fogo?

Me lembrei das pessoas que inventam moda - farda da liberdade - que nos mostram, não onde todos devemos estar, mas sim até onde podemos ir. Pensei na inglesa que inventou a mini-saia, liberando as pernas das moças, e no francês que inventou o biquini, no qual Leila Diniz levou sua barriga à praia, mostrando a todos a vida nova que construía dentro de si.

E foi assim com o pensamento indo e vindo, meia voltando num oito infinito, que me dei conta que a noite se fora, que outro dia chegara e que os quatro comungavam a última taça de vinho.

"Quando os outros voltaram a si, o narrador tinha descido as escadas".

Com estas palavras Joaquim Maria Machado de Assis, terminou a nossa história.

"O Espelho, de Machado de Assis, em Contos/uma antologia, Ed. Companhia Das Letras SP.
"Persona", de CGJung, em The relation between the ego and the unconscious" CW 7
"Glauber Pátria Rocha Livre, de Gilberto Felisberto Vasconcellos, Ed SENAC, SP
"A Cabra Vadia", de Nelson Rodrigues, Ed. Companhia Das Letras.

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