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A DIVERGÊNCIA ENTRE
O DISCURSO E A PRÁTICA
Amnéris Maroni
A fissura entre o dizer e o fazer permeia toda a sociedade moderna: presente na família, na escola, na política,
nas organizações. Ninguém escapa dela e, todavia, por ser sutil, também ninguém
reflete sobre ela. Este capítulo -como parte de um todo que se propõe a levantar questões
essenciais no plano da responsabilidade social das organizações- tem exatamente o propósito
de discutir este auto-engano, à primeira vista superficial, mas, de fato, revelador de uma das engrenagens
básicas de nossa cultura.
Dou exemplos: o conhecido “faz-de-conta”, que talvez seja uma das mais significativas, embora não assumida,
instituições da sociedade moderna. As escolas fazem de conta que dão cursos relevantes, os
alunos, com o reforço de seus familiares e da sociedade em geral, fazem de conta que fizeram cursos relevantes
em escolas relevantes; os funcionários fazem de conta que estão trabalhando a serviço dos
clientes mesmo que os processos e instrumentos de trabalho que estejam usando dêem ênfase à
performance da empresa. Todo mundo hoje em dia parece fazer de conta: eu faço de conta que trabalho, você
faz de conta que me paga, eu faço de conta que atendo o meu cliente, o cliente faz de conta que é
atendido. E assim por diante. Quando, por ventura, alguém não quer mais brincar de fazer de conta,
há uma espécie de curto-circuito do sistema - e sua irracionalidade vem à tona.
Lembro-me, a propósito, de uma conversa recente que tive com um amigo: ele estava almoçando com as
suas duas filhas, em um dia qualquer da semana, quando uma delas perguntou se poderia começar as férias
letivas mais cedo “porque as provas já acabaram, eu já passei de ano, os professores não vão
dar mais matéria e eu quase não tenho faltas; nada vai acontecer se eu não for mais às
aulas”. Esse meu amigo devolveu a pergunta com outra pergunta: “Mas filha... você está indo à
escola para passar de ano ou para aprender coisas que você possa usar na sua vida, que possam lhe ajudar
mais tarde a expressar a sua natureza?” Uma bela pergunta, convenhamos; mas pouco usual nos dias de hoje. Alguns
dias depois, novamente almoçando, a filha desse meu amigo comenta: “Hoje não teve aula; os professores
dispensaram a turma porque a matéria já tinha acabado. Ficamos à toa... enquanto os professores
corrigiam provas no horário de aula”. As aulas, portanto, acabaram uma semana antes, ainda que as crianças
continuassem a ir à escola... fazendo de conta que estudavam. No retorno das férias das filhas, outra
surpresa aguardava o meu pobre amigo: não houve várias aulas e não se deu matéria alguma
durante aquela semana porque... bem, porque era a primeira semana de volta às aulas. É esse o espírito
da coisa; os exemplos poderiam ser multiplicados ao infinito.
Outra instituição moderna, também não assumida, que aponta a fissura entre o dizer
e o fazer, é o que chamo de “área de foco”: a sociedade moderna, cada vez mais especializada, concentra-nos
numa parte minúscula do fazer em qualquer organização e, todavia, somos convidados a falar
em nome do Todo. “Posso ajudá-lo?”, “May I help you?” Sim, desde que o que você me peça não
fuja das minhas atribuições. Se fugir, você deve procurar o gerente. Gerente, nesses casos,
é para isso, para resolver as exceções à melhor conveniência organizacional.
Em outro plano, porém, a área de foco tem uma implicação ainda maior: a fragmentação
do propósito da organização. Em outras palavras, quando o foco é estreito não
é possível saber se a ação empreendida favorece ou não o propósito do
conjunto. Sustento que há especializações nas empresas que nem sempre trabalham em favor das
metas do negócio.
Toda essa introdução apenas para dizer que há códigos implícitos, não
refletidos, não verbalizados e inconscientemente assumidos nas organizações e que vale a pena
trazê-los à tona e lidar um pouco com eles.
Quando por qualquer motivo alguém resiste a esses códigos implícitos, quando alguém
sai fora do padrão esperado, surge a possibilidade de reflexão: alguma consciência a respeito
da fissura entre o dizer e o fazer pode vir à tona como um problema a ser mais bem equacionado. Em geral,
porém, as pessoas aderem a tais códigos implícitos sem nenhuma reflexão, sem nenhuma
resistência, mesmo porque são inconscientes. Elas dizem A e fazem B: todo mundo “faz de conta” porque
as pessoas não têm consciência, não têm clareza dessa fissura entre a sua fala
e a sua ação.
Por que esse problema se põe com tanta volúpia em todas as esferas do social? Talvez porque a velocidade
seja uma das marcas mais características das sociedades modernas. O mundo, as relações, os
papéis transformam-se incessantemente; o tempo reflexivo necessário para que tais transformações
possam ser assimiladas e assumidas conscientemente é quase nenhum. O jeito é aderir ao “politicamente
correto”: os pais sabem que é politicamente correto dialogar com os filhos e dizem que assim agem - embora
não raro contratem detetives para saber se os seus filhos estão se envolvendo com drogados, desconfiem
e rebusquem as suas gavetas. O professor sindicalizado, atuante e com grande consciência de cidadania sabe
que é politicamente correto dialogar com os seus alunos e afirma que assim age; comumente, porém,
notas e controle da presença continuam a ser instrumentos eficazes para calar qualquer senão. O político
sabe que é politicamente correto agir em nome da ética; a corrupção, entretanto, nunca
foi tão expressiva e tão declarada. Mesmo diante de fortes evidências, sempre prevalecem os
mecanismos de proteção social erigidos para os que parecem mas não são.
Enfim, a fissura entre o dizer e o fazer, que não faz senão alargar-se perigosamente, explica-se
em parte se considerarmos as transformações alucinantes -inclusive no plano das emoções-
pelas quais a sociedade está passando. Elas são de toda a ordem, explicitando-se particularmente
no plano da política com a ampliação de direitos e de práticas democráticas
que impõem determinadas falas e condutas e, todavia, o sujeito é ainda o velho sujeito que reage
emocionalmente à “maneira antiga” quando as questões são mais concretas e a ele diretamente
relacionadas.
E já que mencionamos isso, vamos pensar um pouco sobre esse processo democrático no nível
das organizações. Há duas ou três décadas, a questão da participação
democrática passou a rondar o ambiente organizacional e, gradualmente, uma infra-estrutura que a viabilizasse
foi sendo construída. Isso se impôs por vários motivos e um deles parece banal: o controle
das pessoas através de feitores, supervisores, chefes, gerentes, diretores e vice-presidentes estava caro
demais para suportar uma concorrência que cada vez mais se fazia sentir no mercado. No lugar dessa estrutura
de controle dispendiosa, foram gradualmente entrando no ambiente organizacional diferentes práticas democráticas.
Talvez a que tenha ganho mais notoriedade seja a que ficou conhecida como gerência participativa. Mas, para
que pudesse haver democracia de fato num ambiente tradicionalmente controlador -e uma democracia traduzida por
liberdade de atuação e agilidade-, era necessário construir um eixo central em torno do qual
as pessoas se pusessem de acordo e cumprissem a sua parte nos objetivos da organização. Surgiram,
então, as definições de missão e os “códigos de conduta”: em outras palavras,
a direção, os valores e os princípios que deveriam ser assumidos por todos. Doravante, as
pessoas trabalhariam em torno dessas definições e desses códigos de conduta, que passariam
a se constituir, com “ares mais democráticos”, nos novos instrumentos de controle.
Todos parecem concordar hoje, nas organizações, que as gestões são bem mais participativas;
muitos parecem concordar que as relações são bastante democráticas e que há
espaço para criar, inovar, enfim, para se expressar. Mas, será que essa é toda a verdade?
Se tomarmos a inovação como referência, ela não conhece fronteiras, se traduz em verdadeiras
explosões de possibilidades, se refere a uma re-invenção, à criação permanente
de novas realidades. Será que já percebemos que qualquer organização é um sistema
vivo em permanente transformação e que esse sistema vivo se dá na complexidade da sua rede
de relações? E que é exatamente isso que legitima a inovação? Ou a proposta
de inovação nas empresas ainda é um faz-de-conta com aspirações de ser para
valer algum dia?
Não basta então a definição da missão e do código de conduta. Isso é
muito pouco, tanto para as expectativas das pessoas como para as expectativas das empresas. É preciso desenvolver
ainda uma postura de acolhimento para novas possibilidades criativas; é preciso que nós, as pessoas,
possamos re-inventar permanentemente o nosso trabalho, construir a trajetória do que nos propomos a realizar
juntos, amadurecer um sentido de responsabilidade para com o outro e para com o coletivo. Esse, de fato, é
o ambiente que interessa a todos.
DIÁLOGO E ALTERIDADE
O fetiche das palavras é algo muito mais poderoso do que imaginamos. Falamos de participação,
democracia, liberdade, criatividade nas organizações e, passo seguinte, acreditamos que o mundo se
cria pela palavra. Ora, a palavra é um signo arbitrário, mas que pode ser muito sedutor e, ao seduzir,
seduz não só ao outro que me ouve; pior, seduz a mim mesmo, que falo. Vivemos ainda o mito bíblico:
Deus criou o mundo por meio da palavra; nós agimos da mesma forma: acreditamos que o mundo se cria pela
palavra. Esse é um dos lados da moeda: a palavra como instrumento de alienação, como fetichização
do mundo.
Mas há também o lado redentor da palavra. O diálogo pode se tornar o fator revolucionário
de toda e qualquer organização social. Talvez, exatamente por isto, o diálogo é tão
difícil, tão absolutamente raro. O diálogo é uma arte, infelizmente limitada a círculos
restritos da sociedade. Isso é muito curioso porque a sociedade moderna tagarelar intensamente. Mas tagarelar
não é dialogar. Em geral, as pessoas falam de coisas absolutamente acidentais e exteriores; quem
fornece os temas de discussão são os meios de comunicação, o maquinário com
o qual trabalho ou o manual de instruções do novo Windows 2001! Ou melhor, o problema não
é propriamente o tema da conversa, mas o quanto estou dissociado daquilo que falo: o ser profissional dissociado
do ser social, dissociado das emoções, das experiências e por aí vai. A tarefa, como
diz Enrique Pichon-Rivière, é fundamental. Em torno dela o diálogo deve girar. O diálogo
exige requinte e, dificuldade suprema para uma cultura narcisista, capacidade de apreender o outro como outro.
Na ausência disso -o que é o mais comum- o diálogo produz tensões, conflitos. Dialogar
é conviver com o conflito, geri-lo, e não, como é usual, reprimi-lo, paralisá-lo, escondê-lo.
Os grupos operativos, nascidos na Universidade e respondendo às necessidades interdisciplinares, proposto
por Pichon-Rivière, rapidamente ganharam as escolas, os hospitais psiquiátricos; com vagar ganham
também as organizações produtivas. Há, portanto, um instrumento psicológico
-os grupos operativos- dotado de flexibilidade, capaz de adaptar-se a vários níveis das exigências
institucionais que pode ser o “vaso alquímico” capaz de conter os conflitos e tensões que o diálogo
necessariamente produz. Além dos grupos operativos, há inúmeras outras modalidades de facilitação
psicológica que podem ser úteis às instituições, inclusive empresas, especialmente
quando face a processos de consultorias organizacionais, planejamento estratégico ou outras situações,
que, justamente por imporem a necessidade de intenso diálogo, são geradoras de tensão.
Vou dar um exemplo muito freqüente do diálogo -ou da ausência dele- no processo terapêutico.
Aliás, aprendi a valorizar o diálogo e ver nele uma potencialidade revolucionária como psicoterapeuta.
No processo terapêutico o diálogo é peculiar e, todavia, acredito que tenha aí o seu
paradigma. Tão velho quanto a dialética socrática, o diálogo terapêutico re-inaugura
uma prática esquecida. Não raro, uma criança adoece porque a família também
está doente. Uma das práticas terapêuticas comuns nesses casos é pedir para a família
conversar durante 15 minutos semanalmente. O diálogo que no início se limita à expressão
do desejo de cada um, pode demorar meses para se tornar uma prática durante 15 minutos por semana! Simplesmente
as pessoas não têm o hábito de se ouvirem e, coisa mais rara ainda, de responderem àquilo
que foi perguntado. Hoje, temos monólogos; as pessoas moram juntas por anos a fio na mais radical solidão.
A fissura entre o dizer e o fazer, através do diálogo poderia ganhar outras dimensões, porque
se o diálogo efetivamente se estabelece, acontece um fenômeno revolucionário: começamos
a perceber o outro como outro, as máscaras sociais caem, a verdade pontual a respeito de um problema, pouco
a pouco, aparece. Para os românticos (Jean-Jacques Rousseau, Carl Gustav Jung) o social, a natureza, o mundo
é coberto de véus. Projetamos nos outros, todos os outros, os nossos processos inconscientes, nossas
fantasias, nossos jogos imaginativos. A tendência é que o outro seja extensão desses jogos;
oculto pela minhas fantasias, ele é incapaz de se revelar como alteridade. Por isso, o monólogo é
a tônica: falamos e encontramos a nós mesmos sob mil disfarces. Ora, o diálogo desarma exatamente
isto. Quando me dirijo ao Sr. Fulano coberto por meus véus, o Sr. Fulano pode me dizer: “Alto lá,
eu sou diferente do que você afirma que eu sou” ou “Esse Sr. Fulano só existe na sua imaginação”.
Se eu puder escutá-lo e aprender com a situação, serei capaz de estabelecer uma relação
mais autêntica, mais verdadeira. A revolução, no meu entender, é dialógica e
pontual. Não há remédio-macro que dê conta da nossa realidade social. Se nos voltarmos,
porém, para o micro, o pontual, o pequeno, o sutil -na família, na escola, nas organizações
em geral- será possível obter importantes resultados, pois quando de fato há diálogo,
as pessoas tornam-se criativas porque colocam sobre a mesa quem elas realmente são (seus sentimentos, seus
desejos, suas capacidades de realização, suas necessidades de expressão). Na ausência
do diálogo autêntico, as pessoas são artificiais, vivenciam papéis estereotipados, repetitivos,
absolutamente não criativos. Vivenciam profunda solidão, sentem-se despersonalizadas e massacradas
por um mecanismo gigantesco onde cada uma é peça intercambiável. Para criar é preciso
abrir passagem para o deus Eros, o deus do amor, da junção, da união, da multiplicação.
É preciso abrir passagem para a idéia de que cada um de nós é insubstituível
e, quero enfatizar: cada um é insubstituível tanto nas organizações, sejam elas quais
forem, como na vida. Pense por um momento, leitor, como uma empresa seria outra realidade simplesmente adotando
como paradigma o fato de que ninguém é substituível. Pense como seria a organização
sem a visão mecanicista de mundo na qual somos todos assemelhados a peças que podem ser substituídas
por outras sem afetar o funcionamento do maquinário. Pense como seria considerar que as relações
que integramos jamais seriam as mesmas sem que as integrássemos.
Pense, leitor, em como você é bem mais do que uma peça amorfa para que assim seja considerado.
Esta proposta que estou fazendo de aprender a dialogar -e de exercer o diálogo- é muito simples.
Não implica custos que não possam ser absorvidos, e pode vir a se tornar uma prática realmente
transformadora das relações, em direção àquilo que todos almejamos: a sua autenticidade.
Quando nos abrimos para o diálogo, quando fazemos esse gesto supremo, passamos a ter outra referência
de nós mesmos e do outro, passamos a sentir a dor, o sofrimento e a solidão do outro. Tornei-me psicoterapeuta
exatamente porque precisava começar a conversar de uma nova forma. Fui professora por mais de 20 anos, na
UNICAMP, e lá vivenciei o que chamo de “solidão coletiva”: transmitir conhecimento para classes de
mais de 50 alunos não pressupõe diálogo; nessa forma de ensino nem perguntas cabem, pois atrapalham
um cronograma exigente, burocrático e imposto de fora. As universidades tornaram-se os mais perniciosos
reprodutores dessa solidão e alienação; lá as pessoas são amargas, pouco receptivas,
competitivas. No lugar de Eros, Tanatos: desunião, separação, enfraquecimento, morte.
AS MÁSCARAS SOCIAIS
Outra fissura importante da sociedade moderna se dá entre o fazer e o ser. O ser e o fazer dissociados.
O dizer e o fazer dissociados. Todas essas dissociações fundam-se a partir da fissura entre o ser
e o parecer. Jean-Jacques Rousseau teceu essa argumentação no Discurso sobre a origem e os fundamentos
da desigualdade entre os homens, no início da segunda metade do século XVIII. É essa fissura
entre o ser e o parecer que permitiu ao filósofo um olhar crítico sobre a modernidade no seu alvorecer.
Explicando um pouco: se tivermos como referência as sociedades tradicionais e a própria cultura ocidental
até o início da modernidade, percebemos que as pessoas tinham lugares muito definidos na “cadeia
do Ser”; o que elas deveriam fazer e, inclusive, falar, estava dado. A fissura entre o que eu sou e o que aparento
ser simplesmente não se punha, não tinha sentido e, com ela, também não tinha sentido
a fissura entre o dizer e o fazer e a fissura entre o ser e o fazer. Essa fissura, no entender de Rousseau, só
fez alargar-se. Talvez tenhamos chegado ao seu ponto culminante, pois aquilo que somos -quando sabemos quem somos-
escondemos, diminuímos, espezinhamos; só é permitida a emergência do aparecer, das máscaras,
daquilo que Jung chama de persona. As máscaras nos permitem realizar no social um pequeno fragmento do nosso
ser - o restante permanece atrofiado, reprimido e, muitas vezes, como o sangrento século XX provou, pronto
a emergir de forma sombria, projetada nos “bodes expiatórios” sociais. Sem caminhos, os “melancólicos
da cultura” sabem que perderam algo: partes importantes do ser; mas não sabem nomear o que perderam. Como
seres errantes, passam a identificar-se com suas máscaras sociais. O parecer agiganta-se, o ser atrofia-se.
O homem confunde-se com o papel social que realiza, com os penduricalhos sociais (títulos, cargos etc.)
que as organizações lhe permitem ter, tornando-se cada vez mais frágil, inseguro, instável.
Obviamente não há possibilidade de uma sociedade saudável com um abismo tão grande
entre o ser e o parecer, entre o dizer e o fazer, entre o ser e o fazer. É preciso que haja uma nova recomposição
do ser. O diálogo, de novo, poderia ser o elemento fundamental de recomposição do ser dissociado
de si mesmo.
A PITIÉ E A RE-DESCOBERTA DO OUTRO
Para Rousseau, o “homem natural” é dotado de duas paixões: o amor de si e a pitié (a compaixão).
O amor de si é o cuidado consigo mesmo e tudo aquilo que garante a sobrevivência do homem; a pitié
é uma paixão que nos transporta para o outro, todos os outros, pois através dela nos é
impossível ficar indiferentes diante daquele que sofre. A pitié tempera o amor de si, impedindo que
se transforme em amor-próprio, que, para o filósofo, é uma paixão social que transforma
o homem num ser egoísta, voltado para os seus interesses pessoais. Ora, o processo civilizatório
enfraqueceu sobremaneira a pitié: convivemos com a miséria, a iniqüidade, a desigualdade social
extrema, a morte e a destruição e permanecemos completamente indiferentes. O outro na sociedade moderna
deixou de nos fazer apelos. A pitié enfraqueceu-se e, com isso, agigantou-se o amor-próprio: o egoísmo
extremado do homem moderno, o furor pelo mundo do aparecer, das imagens, dos simulacros, das máscaras. O
“mundo do ter” substituiu o “mundo do ser”, como tão bem apontou Erich Fromm. Com o enfraquecimento da pitié
só resta o “mundo do eu”, a fúria do eu que só cuida dos seus interesses e é incapaz
de alcançar o outro. O eu identifica-se com os interesses e os valores dados pelo imaginário coletivo.
Queremos aquilo que o “imaginário coletivo” afirma ser bom e belo. O que Rousseau chama de “estima pública”
pauta nossos pensamentos, nossos valores, nossa moral e, até mesmo, nossas emoções. Evidentemente,
a identificação entre cada um de nós e o “imaginário coletivo” varia; na modernidade,
todavia, a identificação é tão intensa que indivíduos que preservam ou conquistam
a sua singularidade tornaram-se heróicos. Entre seres coletivos, é bom que se frise, não há
diálogo, mas tagarelice. Para Rousseau, a renovação social e mesmo cultural só seria
possível com o re-florescimento da pitié, da compaixão. Com o renascer dessa paixão
natural, o outro, todos os outros seres -a própria natureza- passariam a fazer apelos, doravante perceptíveis.
O outro deixaria de ser indiferente para o eu. É esse despertar do outro em cada um de nós que dará
base ao diálogo.
Não há formulas, não há receitas para esse despertar. Cá e lá, se tivermos
ouvidos para esse som, perceberemos falas indizíveis daqueles que estão tentando “furar o cerco”
desse tecido espesso que é o “imaginário coletivo”. Se, de perto, pudermos acolher essas falas, ouvir
esses sons, será possível facilitar o caminho desses novos buscadores. Na grande maioria dos casos
tal busca começa independentemente da vontade das pessoas; não raro a busca começa contra
a vontade do ego que, como órgão de adaptação da realidade interna e externa, vê
com muita má vontade o despertar da singularidade. Como afirma Jung, a natureza é extremamente conservadora,
a libido (a energia psíquica) quer percorrer os caminhos desde sempre trilhados, quer repetir o mesmo. Se
tal busca da singularidade se impõe, se o processo não pára, tal se dá, como diziam
os alquimistas, “contra a natureza” - e não em favor dela! O bonito é que quando esse processo começa
não tem mais fim; puxa-se o fio de uma meada que nos leva ao infinito de nós mesmos. Toma-se gosto
por essa estranha aventura que é o encontro consigo mesmo, com seus obstáculos, sutis pontos de apoio,
guerras titânicas não audíveis, não visíveis, impensáveis. A cumplicidade
no encontro com o outro que também busca e que reconhece o eco de suas palavras é prazeroso e dotado
de tal sutileza que encanta.
Talvez o momento seja propício para esta tomada de consciência em favor do singular. Eis que habitamos
um mundo contraditório e uma época tensa: ao mesmo tempo que vivemos a alienação, o
fetichismo das palavras, a especialização, a unilateralidade, a banalização da democracia,
temos também a oportunidade de viver a pluralidade, a emergência de novas possibilidades, a re-invenção
do mundo, o diálogo, a singularidade. Em nenhum outro momento histórico tal tensão seria suportável
ou imaginável. Nós temos postos os dois lados da balança: de um lado a unilateralidade, o
coletivo massacrante e, de outro lado, crescente busca da singularidade, da criatividade. Se a crítica da
modernidade é pertinente, não podemos nos esquecer que a modernidade e a democracia são as
parteiras dessa incrível novidade: a “produção” de indivíduos singulares.
E, todavia, há “perigo no ar”: catástrofes naturais produzidas pelo desequilíbrio ecológico;
catástrofes sociais e políticas produzidas pelo desequilíbrio da alma; catástrofes
que podem ser produzidas pela própria ciência quando esta separa-se da ética. É responsabilidade
de cada um de nós, mas também das Instituições, mudar a direção da seta:
da catástrofe para a esperança de um mundo que re-conhece e venera Eros. Agir no pequeno, no pontual,
permite a todos exercer-se aqui e agora ancorados no diálogo e no coração: não existe
arma mais eficaz do que trazer à tona o outro e a si mesmo.
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