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ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE O AMOR
Carlos Bernardi
“Se os mitos são as narrativas tradicionais da interação
de
Deuses e humanos, um relato dramático ‘das ações
dos daimones’, então nosso modo de descobrir os Deuses
em nossas vidas concretas é entrando nos mitos. ‘Entrar
nos mitos’ significa reconhecer nossa existência concreta
como metáforas, como representações míticas.”
James Hillman
Dante não foi o primeiro, nem o último a sofrer seu doce veneno, mas foi um dos que cantaram de forma
mais bela, aquele que Platão chamou de poderoso daimon: o Amor (aqui em maiúscula, à moda Renascentista).
Engana-se, porém, quem pensa ser fácil falar do Amor. Sob esta única palavra esconde-se uma
grande variedade de experiências, muitas das quais contraditórias, que explicam e até justificam
todo o interesse que desperta nas várias disciplinas que buscam entendê-lo e, até mesmo, discipliná-lo.
Este último ponto é, por sinal, muitíssimo importante. Por ser uma das experiências
fundamentais da vida, ele gera inúmeras e angustiantes preocupações quanto a seus efeitos,
criando conseqüentemente, o desejo de controlá-lo.
Dante foi uma prova desta preocupação. Desde que viu a bela Beatriz, pelo menos assim pensava que
ela era chamada, sua vida não foi mais a mesma: “Pus os pés naquela parte da vida além da
qual se não pode ir com a intenção de regressar”. A partir daquele instante, a partir daquela
visão, Dante não seria mais o mesmo. Morrera ao que era antes. A experiência do amor instaura
uma mudança de nível ontológico, cria um antes e um depois, gera um novo ser. Incipit vita nova, começa
a vida nova, expressão por ele utilizada como título à sua obra, onde faz o elogio de sua
amada.
Este amor era altamente idealizado. Caracterizava-se por ser mais contemplativo do que carnal. Isto estava de acordo
com a principal característica do amor segundo Platão, ou seja, acima de tudo um amor pela alma,
que conduz a uma elevação em direção ao belo, através da contemplação
de formas perfeitas. Segundo Erwin Panofsky, também atendia às reivindicações da moral
Cristã, que transformara o amor Platônico numa teoria da ágape ou caritas, o amor divino dessexualizado. Esta apropriação foi tão eficaz que
até nossos dias entende-se por amor Platônico um tipo de amor onde não há contato corporal
sexual, enquanto a dedicação à amada ou ao amado é total.
O conceito de caritas, a princípio limitado ao ‘amor que Deus nos tem’ (S. João I-IV,
16) foi depois estendido ao amor desinteressado a Deus e aos seus semelhantes. Mas, já nesse tempo caritas
(appetitus boni, ou amor Dei, ou amor espiritualis) estava em acentuado contraste com as diferentes formas de amor
‘sensual’ incluídas no conceito de cupiditas (appetitus mali, ou amor mundi, ou amor carnalis).
Iacopo de Lentino, poeta italiano da geração anterior à de Dante, assim se expressava:
Por mim quero servir a Deus de coração
Para que possa entrar no paraíso
O lugar sagrado onde, segundo dizem todos,
Reinam a alegria e a paz.
Sem minha dama, contudo, não quero nem pensar em ir
Ela que tem um lindo rosto e cabelos lindos;
Pois sei que não teria lá
Nenhum prazer com ela ausente, isso eu sei.
Prestai atenção ao que digo: longe de mim a intenção
De que lá cometeria algum pecado;
Contemplaria apenas suas feições graciosas,
Seus ternos e belos olhos e seu rosto encantador,
E haveria de ser completo meu contentamento:
Ver minha dama muito feliz no lugar que ela merece.
Podemos estranhar esta incompletitude do paraíso, mas seus versos são reveladores; aquilo que se
busca com este amor é a contemplação da forma bela e não o desejo sexual pelo corpo
da mulher amada. Iacopo foi claro: está longe de pecar. Este amor é um amor com os olhos.
Encontramos todos estes ingredientes em Dante. Pela impossibilidade da revelação de seu amor, fazia
pensar que olhava para outra, enquanto seu alvo era Beatriz, e ficava feliz ao saber que seus olhos não
traíam seu segredo. Muitas vezes não a percebia como mulher, mas sim como um dos anjos do céu,
pois transmitia humildade e doçura. Diante do dia e da hora da morte da amada, fez tal cálculo numerológico
que acabou encontrando o que procurava: o número três, prova de que ela era um milagre cuja raiz era
a Santíssima Trindade. Por fim, sentido-se atraído por uma outra dama, considerou-se a mais vil das
criaturas.
Esta idealização é um tanto quanto estranha às concepções atuais, muito
apoiadas numa visão natural do amor, onde ele é considerado uma necessidade biológica que
deve ser realizada. Esta concepção, embora não seja uma experiência que tenha desaparecido,
entra em choque com este culto da mulher ou do feminino, comum na Europa medieval e Renascentista. Já nesta
época, as duas teorias rivalizavam-se mutuamente. O culto da mulher era a base da poesia mística
erótica árabe, que tinha em Ibn ‘Arabî, místico sufi nascido em 1165, um de seus maiores
nomes. Nesta poesia, a percepção de uma mulher bela servia de mediação para a percepção
de uma entidade supra-sensorial. Este era o caminho escolhido pelos místicos sufis e pelos fedele d’amore, os fiéis
do amor, dos quais Dante foi um de seus membros mais ilustres.
O grande estudioso do misticismo iraniano, Henry Corbin, em seu livro sobre a imaginação em Ibn ‘Arabî,
recitou um desses encontros entre o místico e a mulher. Quando esteve em Meca, no ano de 1201, Ibn ‘Arabî
conheceu muitos homens sábios, mas nenhum suplantava Zâhir Ibn Rustam. A sutileza e o encanto de seus
conhecimentos era insuperável. Porém, quem mais o impressionou foi a filha de Zâhir, que se
chamava Nizâm (Harmonia). Inspirado por sua beleza compôs um longo poema, cujos objetivos eram os seguintes:
Qualquer nome que eu possa mencionar neste trabalho, é a ela que
eu estou aludindo. Qualquer casa cuja elegia eu canto, é de sua casa que estou pensando. Mas isto não
é tudo. Nos versos que escrevi para o presente livro, nunca cessei de aludir às inspirações
divinas [wâridât ilahîya], às visitas espirituais [tanazzulât
rûhânîya], às correspondências
[de nosso mundo] com o mundo das inteligências angélicas; nisto estou de acordo com minha maneira
de pensar em símbolos; isto porque as coisas do mundo invisível me atraem mais do que aquelas da
vida concreta, por isso esta jovem sabia perfeitamente a que eu estava aludindo [isto é, o sentido esotérico
dos meus versos].
Este fenômeno foi denominado por Henry Corbin de modo de apercepção teofânico, ou seja,
por intermédio da percepção de um objeto concreto, aqui, no caso, uma jovem bela, percebe-se
a manifestação de uma divindade (teofania) ou de uma experiência religiosa: em Ibn ‘Arabî
ela era a Sophia Æterna, para Dante e seus companheiros, Madonna Intelligenza , reveladas sob a forma de
Nizâm e Beatriz. Estamos diante da concepção neoplatônica do Amor. Os efeitos dessa experiência
foram muito bem descritos por Maud Bodkin:
A sensação de iluminação e preenchimento
que ocorre igualmente no amante, no poeta, no místico filosófico ou religioso, parece fornecer os
indícios que nos torna inteligível a representação do poeta da transição
que vai do amor alegre, através de dor e da frustração, ao êxtase espiritual, como contínuo
- um processo de alguma forma necessário e internamente determinado. O ceticismo de nosso tempo, em contraste
com a fé da era de Dante, pode rejeitar como ‘incorreto’ o sistema de pensamento pelo qual o teólogo
buscou provar como ‘corretas’ as intuições do êxtase religioso; mas a figura da Dama, ao mesmo
tempo companheira humana e guia divino, através da qual o sentimento do poeta achou expressão, retém
sua significância como leal a um padrão realizado novamente dentro da experiência emocional
de toda época.
O objetivo deste amor é despertar o amante através da percepção sensível e visível
do belo, na figura do amado ou amada. Conhecemos, sem dúvida, pessoas que necessitam desta experiência
amorosa para que possam iniciar (ou serem iniciadas) um processo de avaliação e transformação
de suas vidas, para que nelas surja o desejo de uma vida nova. Este padrão, como apontou Maud Bodkin, está
presente em todas as épocas, como um movimento inato no psiquismo dos seres humanos, mesmo que não
seja mais amplamente compreendido como na época de Dante.
Mesmo idealizando Beatriz, Dante, contudo, não pode evitar descrever sua experiência amorosa como
dolorosa e perturbadora.
Logo no começo de seu livro, retratou a luta dos vários espíritos diante da visão de
Beatriz. O espírito vital, que habita o coração, batendo com força violentíssima,
exclamou: “Eis um deus mais forte do que eu que vem para me dominar”; o espírito animal, que reside no local
onde chegam as percepções, maravilhado diante de tamanha beleza, disse alegremente: “Apareceu já
a nossa felicidade”; por último o espírito natural, cuja residência é onde faz-se a
digestão, chorando falou: “Ai de mim! que desde agora serei freqüentemente atormentado”.
Estas três declarações são uma prova de que a experiência amorosa não era
considerada uma coisa tranqüila e harmoniosa. Dos espíritos que habitam nos homens, somente o espírito
animal alegrava-se com a visão da beleza, enquanto o espírito natural sabia que havia perdido sua
paz. Mas foi o espírito vital que reconheceu o Amor como um deus mais forte.
Desde a antiguidade Greco-Romana a figura de Amor, Eros ou Cupido representou o princípio divino, a potência,
sem a qual nada ocorria. Todos o temiam, até mesmo os deuses, pois tinham consciência de que sua ação
era devastadora e, muitas vezes, dolorosa, ao mesmo tempo que desejada ou, no mínimo, inevitável.
Só para ficarmos na Grécia, basta dizer que Eros desfrutava de uma posição privilegiada
no panteão dos deuses, quer como princípio cósmico quer como filho ou associado de Afrodite.
Jean-Pierre Vernant achou importante diferenciar estas duas manifestações do deus. A descrição
do primeiro Eros encontra-se na Teogonia de Hesíodo: surgiu o Caos, depois Gaia, a Terra, e por fim Eros.
Vernant indagou sobre qual seria a função de Eros neste contexto, pois em toda a geração
da prole feita por Caos e Gaia, isoladamente, não foi preciso a existência de um ato sexual. “Ela
não consistiu em aproximar e unir dois seres sexualmente diferenciados, desse modo acrescentando um terceiro
aos dois primeiros. Eros, ao contrário, provocou as divindades primordiais a trazer à luz o que ocultavam
dentro de si próprias”.
Este Eros era um deus da superabundância, da plenitude do um que gera o múltiplo oculto em seu interior.
Devido ao seu caráter cósmico, Eros foi muito utilizado pela filosofia, em especial por Empédocles,
que estabeleceu o amor (philótes), assim como o ódio (neikos), como os princípios de união
e separação dos elementos.
O segundo Eros, cujo nascimento é repleto de variantes, está sempre associado à deusa do amor
e da beleza, Afrodite ou Vênus. É geralmente representado como uma criança ou jovem, loiro
com pequenas asas, carregando um arco com flechas, por meio das quais envenena com amor suas vítimas. Sua
função é a de mediar o encontro entre duas partes. É justamente este encontro que faz
surgir temor em todos, pois nada garante que o amor que o amante sente pelo amado será por este correspondido,
ou seja, o amor não é necessariamente recíproco. Por este motivo, apareceu uma outra figura
que visava garantir esta reciprocidade, Anteros. Com este amor o retorno estava garantido.
Mesmo assim, a vivência da dor do amor nunca deixou de estar presente. Foi, inclusive, belamente retratada
numa das Odes de Anacreonte:
Em noturnais desoras,
Quando rodara a Ursa
Por entre as mãos de Bootes,
E o vivente em tais horas,
Extenso de fadiga
No sono se conforta.
Eros bateu com força
Do meu tugúrio à porta.
Quem bate e se avizinha
Para quebrar-me o sono?
Abre-me - diz - Não temas.
Eu sou uma criancinha
No temporal medonho
Da noite a errar, molhada.
Ouvindo-o, tive pena.
Logo reacendo uma lâmpada
E vejo uma criança,
De asas, bem pequena,
De aljava e de arco armada.
Assento-a junto ao fogo
E as mãos nas minhas logo
Procuro acalentar.
Espremo-lhe os cabelos
Para a água evaporar.
Ele então diz, enxuto:
Vou ver se o frio bruto
Não encurtou meu arco.
Estende-o logo, atira
E pega-me de cheio...
E salta, a rir, delira
E grita: - Exulta! Eu creio
Que o arco está perfeito
Hospedeiro querido!
No coração, no entanto,
Padecerás ferido.
Também foi sucintamente retratado num dos Epigramas de Paladas de Alexandria, comentando a refundição,
executada pelos cristãos, das estátuas pagãs em utensílios domésticos: “O fundidor
de bronze mudou Eros numa frigideira e não sem razão: ela queima de igual modo.”
Na ode de Anacreonte, Eros é um deus traiçoeiro, brincalhão, esperto. Sua aparição
é abrupta, sua ação é fatal. Inaugura um novo momento, uma nova esperança, uma
nova vida, mas arde, queima, angustia e amedronta. Não é à toa que Sócrates, no Sympósion,
colocou-se distante da visão de uns dos participantes em relação às características
do deus. Agatão, o jovem poeta, em seu discurso, afirmou ser Eros o melhor e o mais belo dos deuses: delicado,
de constituição úmida, para se amoldar com mais facilidade às situações,
não cometia nem sofria injustiças. Finalizou dizendo que ele produz: “paz entre os homens, e no mar
bonança, repouso tranqüilo de ventos e sono na dor.”
O próximo a elogiar o amor foi Sócrates. Logo de início, dirigiu algumas perguntas a Agatão.
É de tal natureza o Amor que é amor de algo ou de nada?...
Será que o Amor, aquilo que é amor, ele o deseja ou não?... Não é isso então
o amar o que ainda não está à mão nem se tem, o querer que, para o futuro, seja isso
que se tem conservado consigo e presente?...
As respostas de Agatão foram todas afirmativas. Com isso Sócrates concluiu que Eros não poderia
ser nem belo, nem bom, nem um deus. Eros era um daimon.
Daimon, na Grécia Antiga, refería-se a uma categoria especial de ser que habitava uma faixa intermediária
entre os deuses e os homens, exercendo o papel de mediador entre estes dois. Sem cultos ou templos, na maior parte
das vezes anônimo, sem representação plástica que o distinguisse, atuava como uma espécie
de voz interior. Foi assim que se apresentou ao próprio Sócrates, corrigindo e esclarecendo seus
excessos e suas distorções. Sua função pode inclusive ser comparada com a dos anjos,
na tradição judaico-cristã.
Continuando seu discurso, Sócrates relatou todos os ensinamentos que Diotima, misteriosa sacerdotisa de
Mantinéia, lhe outorgou sobre o amor. A origem do deus é o que mais vai nos interessar aqui. Segundo
Diotima, na festa em comemoração ao nascimento de Afrodite, Póros, o deus dos recursos, dos
expedientes e das estratégias, embriagado, deitou-se no jardim. Penia, a pobreza, a carência, percebendo
o estado do belo jovem, tirou proveito da situação e resolveu ter um filho dele. O fruto deste encontro
foi Eros, Herdou dos pais seus respectivos atributos: da mãe a eterna pobreza e carência, do pai a
capacidade de encontrar soluções e recursos que pudessem ajudá-lo a preencher suas necessidades.
Por este motivo, Diotima-Sócrates-Platão tiveram que concebê-lo como um daimon, visto que a
um deus nada lhe falta.
O próprio ser que fere é, por sua vez, ferido. Eros transmite, ao mesmo tempo, o sentimento de necessidade
e o impulso a buscar uma saída para esta necessidade, mesmo que esta realização não
esteja garantida. Este ferimento doloroso e ardente, temido e desejado, é um dos temas mais difundidos na
literatura, quer seja em prosa quer em verso.
Camões, em sua Lírica, nos deu um soneto famoso, no qual podemos observar não só o
caráter dúbio e ambíguo do Amor, assim como a relação igualmente ambivalente
que temos com ele.
Amor é um fogo que arde sem se ver;
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente;
é dor que destina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?
Emoções paradoxais que se enfrentam e sentimentos opostos: Camões lidou com a incerteza e
como o desconhecimento que nasce com o desejo pela pessoa amada. Como algo que muito desejo pode me causar dor?
Como algo que muito desejo pode me fazer perder? Como algo que muito desejo pode me matar? Como pode ser o amor
contraditório a si mesmo?
Escolheremos mais dois exemplos literários, para realçar ainda mais estas características.
O primeiro retirado da Eneida de Virgílio, o segundo de Don Quixote de Cervantes. Dido, uma mulher, Grisóstomo,
um homem, serão nossos guias neste labirinto de amor e sofrimento.
Protegido por sua mãe, a deusa Vênus, Enéias, filho de Príamo, rei da derrotada Tróia,
fugiu com um grupo de soldados, indo desembarcar nas praias de Cartago. Sua meta era grandiosa: a conquista da
península itálica, sonho de Vênus, prometido por Júpiter em troca da destruição
de Tróia pelos gregos. Um obstáculo nesta conquista era a deusa Juno, esposa de Júpiter, pois
sabia que, com a invasão da Itália, teria início a formação do povo Romano,
futuros dominadores da Grécia, terra protegida e querida por Juno.
Cartago fora fundada pelos fenícios. Era liderada por uma mulher, a Rainha Dido. Por motivos opostos, Vênus
e Juno desejavam que Enéias e Dido se apaixonassem. Vênus por temer que ela o prendesse ou matasse;
Juno por temer que Enéias partisse para a realização de seu destino.
As duas rivais, agora em comum acordo, mas com intenções diferentes, colocaram em prática
o plano. Vênus fez com que seu filho Amor se transformasse no filho de Enéias e sentasse ao colo de
Dido.
“Este, depois que esteve pendente do pescoço de Enéias
e com seus beijos contentou a viva ternura dum pai enganado, dirige-se para a rainha. Esta dirige-lhe seus olhares
e toda sua alma; aperta-o às vezes ao seio e não sabe, a infeliz! que deus poderoso está assentado
em seus joelhos!”
A missão de Amor era tornar Dido loucamente apaixonada por Enéias. No Canto IV da Eneida, Virgílio
descreveu minuciosamente a tortura pelo amor, o comportamento enlouquecido da apaixonada rainha e a profunda dor
que sentiu ao perceber que iria perder Enéias, pois Vênus havia-lhe ordenado que partisse rumo à
sua meta, e esta não era ao lado de Dido.
O amor, nas palavras de Virgílio, agia como uma ferida, uma chaga nas veias. Dido era “consumida por oculto
fogo” ; consultava os oráculos; percorria a cidade em delírio; “o furor a penetrou até os
ossos”.
Mas Enéias foi obrigado a abandonar Cartago. Procurou Dido para informá-la dos preparativos para
o embarque. Enfurecida e humilhada, rogou-lhe inúmeras pragas. “Maldito Amor, a que não obrigas os
corações mortais!”
Desesperada, pediu à sua irmã que a ajudasse: “Vai, minha irmã, e fala como suplicante ao
meu soberbo inimigo.” Enéias, porém, não podia satisfazer os desejos da rainha. Não
por não querer, mas por ser obrigado por Vênus, que mandava-lhe recados ameaçadores. Partiu,
então, com seus navios e seus soldados. Dido, desesperada, suicidou-se com a espada por ele presenteada:
“Vivi e terminei a missão que a Fortuna me tinha dado, e agora minha sombra irá grande para debaixo
da terra.”
“Yo no podré afirmar si la dulce mi enemiga...”. Com estas palavras
Don Quixote contribuiu para una animada conversa sobre o amor. Encontrava-se no meio de pastores de cabras quando
um deles, retornando da aldeia, chegou com a triste notícia da morte de Grisóstomo, rico estudante
que teve a infelicidade de se apaixonar pela linda e endiabrada pastora Marcela: “... nadie la mirava que no bendecía
a Dios, que tan hermosa la había criado, y los más quedaban enamorados y perdidos por ella.”
Marcela, porém, nada queria com seus inúmeros pretendentes.
Mesmo vivendo a liberdade que o ofício de pastora concedia, tinha por orgulho sua honestidade e pureza.
Por isso, nunca deu a nenhum deles a menor esperança de realizarem seus desejos, embora os tratasse de forma
cortês e amigável.
“Y con esta manera de condición hace más daño en
esta tierra que si por ella entrara la pestilencia; porque su afabilidad y hermosura atrae los corazones de los
que tratan a servirla y a amarla; pero su desdén y desengaño los conduce a términos de desesperarse,
y así, no saben qué decirle, sino llamarla a veces cruel y desagradecida, con otros títulos
a este semejantes, que bien la calidad de su condición manifiestan. Y si aqui estuviésedes, señor,
algún día, veríades resonar estas sierras y estos valles con los lamentos de los desengañados
que la siguen.”
A caminho do enterro os pastores, curiosos diante de tão estranha figura, começaram a perguntar quem
e qual era o ofício de Don Quixote. Contando tudo a respeito dos cavaleiros andantes, chegou finalmente
a questão do amor. Disse que sua doce inimiga chamava-se Dulcinéia, sua rainha e senhora, possuidora
de sobre-humana formosura, “pues en ella se vienen a hacer verdaderos todos los imposibles y quiméricos
atributos de bellezas que los poetas dan a sus damas: que sus cabellos son oro, su frente campos elíseos,
sus cejas arcos del cielo, sus ojos soles, sus mejillas rosas, sus lábios corales, perlas sus dientes, alabastro
su cuello, mármol su pecho, marfil sus manos, su blancura nieve, y las partes que a la vista humana encubrió
la honestidad son tales, según yo pienso y entiendo, que sólo la discreta consideración puede
encarecerlas, y no compararlas.”
Após esta idealizadíssima descrição de sua amada, Don Quixote e os pastores chegaram
ao local do enterro de Grisóstomo, o local onde ele viu pela primeira vez os encantos de Marcela. Seu amigo
Ambrosio fazia as homenagens ao defunto, que “rogó a una fiera, importunó a un mármol, corrió
tras el viento, dio voces a la soledad, sirvió a la ingratitud”. Ambrósio, a pedido dos pastores,
leu o último escrito de Grisóstomo, um longo poema intitulado Canción Desesperada. Nesta canção,
Grisóstomo acusava Marcela de algumas coisas que poderiam manchar sua reputação. Uma discussão
teve início a respeito da veracidade das acusações, pois estas poderiam muito bem brotar do
delírio de um apaixonado. De repente todos se calaram, uma maravilhosa visão lhes era oferecida:
era Marcela, que do alto de um pequeno elevado, presenciava o funeral.
Ambrosio recebeu-a com palavras ásperas:
“¿Vienes a ver, por ventura, ¡oh fiero basilisco destas
montañas!, si con tu presencia vierten sangre las heridas deste miserable a quien tu crueldad quitó
la vida, o vienes a ufanarte en las crueles hazañas de tu condición, o a ver desde esa altura, como
otro despiadado Nerón, el incendio de su abrasada Roma, o a pisar arrogante este desdichado cadáver,
como la ingrata hija al de su padre Tarquino?”
Marcela se defendeu dizendo que estava ali para provar sua inocência. Reconhecia que o céu a fez formosa,
e que todos amam esta formosura, sentindo-se no direito de obrigá-la a amá-los, mesmo que fossem
feios. Relembrou que o verdadeiro amor tem de ser voluntário e indagou, caso o céu a tivesse feito
feia, se seria justo ela exigir que qualquer homem também a amasse.
“Y así como la víbora no merece ser culpada por la ponzoña
que tiene, puesto que con ella mata, por habérsela dado la naturaleza, tampoco yo merezco ser reprehendida
por ser hermosa; que la hermosura en la mujer honesta es como fuego apartado, o como la espada aguda: que ni él
quema ni ella corta a quien a ellos no se acerca.”
Após defender-se, voltou para o bosque, sem evitar que muitos dos que ali estavam presentes, ficassem completamente
apaixonados.
Enfim, enterrado Grisóstomo, seu amigo pensou em colocar em sua lápide, o seguinte epitáfio:
“Yace aquí de un amador
El mísero cuerpo helado,
Que fue pastor de ganado,
Perdido por desamor.
Murió a manos del rigor
De una esquiva hermosa ingrata,
Con quien su imperio dilata
La tiranía de Amor.”
Até agora observamos como o Amor (na forma da pessoa amada) foi retratado como um grande torturador e outras
qualificativos: soberbo, inimigo, doce inimiga, sendo inclusive comparado com o feroz basilisco, lagarto fantástico,
habitante dos desertos, que tudo destrói só com seu olhar e, por este motivo, foi melhor retratado
por Jorge Luis Borges como o animal que cria o deserto.
Revelada a natureza dupla do amor - por um lado torturador, monstruoso, ferida ardente, inimigo, por outro belo,
amigo e divino - podemos retornar a Platão, em busca de seu significado: através da Beleza o Amor
gera seres, quer no corpo quer na alma. Com outras palavras, a visão da Beleza do amado liberará
o desejo de gerar, até então adormecido no interior do e da amante.
Na opinião de David Halperin, Sócrates só poderia ter sido iniciado nos mistérios do
amor por uma mulher, visto que lhe era necessário uma perspectiva feminina acerca do amor. Dessa maneira,
Halperin explicou a presença da profetisa Diotima no mundo masculino do Sympósion. A intenção
de Sócrates-Platão não era a de transmitir uma concepção hierarquizada do amor,
mas concebê-lo como um sentimento de reciprocidade. Na época de Platão, acreditava-se, somente
as mulheres experimentavam com facilidade esta reciprocidade no amor.
Através do Amor, portanto, vivenciamos o outro e, ao mesmo tempo, vivenciamos a nós mesmos. Este
movimento sutil foi percebido por Fernando Pessoa e transformado num de seus mais belos poemas: Eros e Psique.
“Conta a lenda que dormia
Uma princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.”
Para James Hillman, psicólogo junguiano e fundador de um movimento chamado de psicologia arquetípica,
o mito de Eros e Psique é o mito por excelência do psiquismo humano, ou melhor, do processo de auto-conhecimento
humano, onde Princesa e Infante, mesmo sendo diferentes, são também um só. Eros e Psique são
necessários um ao outro. Amor e Alma se pertencem.
“Assim começamos a reconhecer em nós mesmos, que eros e
psique não são meras figuras num conto, nem apenas configurações de componentes arquetípicos,
mas são duas metas de todo processo psíquico. Eles sempre implicam e requerem um ao outro. Não
podemos ver nada psicologicamente sem um envolvimento com amor: não podemos estar envolvidos com qualquer
coisa sem ele entrar em nossa alma. Ao experimentar um evento psicologicamente, tendemos a sentir uma conexão
com ele; em sentimento e desejo tendemos a compreender a importância de algo para a alma.”
O mito de Eros e Psique nos foi transmitido por Apuleio, poeta romano do século II d.C., em seu livro O
Asno de Ouro ou Metamorfoses. Foi contado por uma idosa, que vivia com uns ladrões, para uma jovem que eles
haviam seqüestrado à beira do altar, com a intenção de consolá-la. Por ser muito
longo, daremos apenas alguns detalhes que nos são importantes. Psique era uma das três filhas do Rei
e da Rainha de uma cidade. Era muito bonita e viajantes de todo o mundo visitavam-na, desejando conhecê-la.
Por sua beleza chegou-se a ser falado que ela era a própria deusa Vênus. A verdadeira Vênus
ficou enfurecida com a comparação. Armou uma vingança. Para realizá-la, precisava da
ajuda de seu filho Amor, “o menino alado, esse perverso velhaco que, agravando com sua má conduta a moral
pública, armado de tochas e de flechas, corre daqui e dali durante a noite, pela casa dos outros, incendeia
todos os lares, comete impunemente os piores escândalos, nunca faz coisa boa.”
Quando este chegou, Vênus lhe pediu que atingisse Psique com uma flecha para fazê-la se apaixonar pelo
mais vil dos homens. Saiu voando para cumprir a tarefa. Quando viu a beleza de Psique, ficou aturdido e espetou-se
em suas próprias flechas, ficando assim por ela apaixonado.
Foram viver juntos num palácio encantado, mas Amor impôs uma condição: que ela nunca
tentasse conhecê-lo. Por isso sempre se encontravam à noite. Antes de surgir a luz do sol, Amor voava
para longe, deixando Psique sozinha em seu palácio, esperando a próxima visita de seu marido desconhecido.
Pensando ter casado com um monstro, envenenada pela inveja das irmãs, Psique foi aconselhada a matá-lo.
Quando Amor dormia, acendeu uma lamparina com a intenção de iluminá-lo para lhe cortar a cabeça
monstruosa. Mas diante de tamanha beleza, mas conseguiu se mover, pois percebeu que ali deitado estava o próprio
deus do amor. Tentou beijá-lo. Ao se inclinar, deixou uma gota de óleo quente da lamparina queimar
o ombro de Amor. Acordado pela dor, percebeu-se traído. Com tristeza, despediu-se de Psique para nunca mais
retornar.
Psique ficou desesperada. Desejou se suicidar, mas Pã, o deus-bode, aconselhou-a a procurar Vênus
e a contar-lhe o que havia ocorrido, na tentativa de recuperar seu Amor. Vênus já sabia de tudo. Enfurecida
prendera Eros numa torre e esperava Psique para torturá-la. Levada à sua presença puxada pelos
cabelos, Vênus ainda chamou suas criadas Inquietação e Tristeza, para que a castigassem por
mais tempo.
Vênus disse, então, que se ela quisesse recuperar seu Amor, deveria ser bem sucedida em quatro tarefas,
que a própria deusa julgava impossíveis de serem realizadas. Psique foi ajudada e conseguiu completá-las.
Mesmo assim, Vênus não queria permitir o casamento. Só com a intervenção de Júpiter
ele pode ser consumado. “Foi assim que Psique passou, conforme os ritos, para as mãos de Cupido. Chegado
o momento, nasceu-lhes uma filha que chamamos Volúpia.”
No início, como vimos, Eros e Psique só se encontravam no escuro, pois a condição era
a de que ele permanecesse invisível a Psique. Por mais agradável que fosse esta situação,
embora Psique expressasse alguns sentimentos de frustração, este encontro noturno e invisível
deveria terminar. Só à luz da consciência é que o Amor e a Alma podem se transformar
mutuamente. Este despertar foi uma luta contra Vênus, que neste mito comportou-se como o princípio
aquático do amor instintivo e inconsciente, onde os amantes se diluem, intoxicados pela dádiva da
deusa nascida das águas. Por este motivo, Vênus tentou evitar que Eros e Psique se encontrassem. No
entender de Hillman, “... ela parece não querer que o amor descubra a alma ou a alma descubra o amor. Ela
não só representa o componente arquetipicamente anti-psíquico do ato de amar, como também
bloqueia a transformação de eros, impedindo-o de se conectar com a alma.”
No poema de Fernando Pessoa, a Princesa Adormecida precisava ser retirada de seu sono. O Infante lançou-se
à estrada instintivamente, pois não sabia qual era sua meta, impulsionado pela força de Eros.
Ao despertá-la, descobriu que estava acordado também. “Nosso mito retrata”, escreveu Hillman, “a
interação de eros e psique como um ritual que hoje tem lugar entre as pessoas e dentro de cada pessoa”.
Por este motivo Eros deve ter os olhos bem abertos. Contudo, o deus do amor foi algumas vezes representado como
sendo um cego ou estando vendado. Na opinião de Erwin Panofsky, este Amor Cego (Caecus Amor) estava sempre
associado a uma mitografia moralizante, isto é, sempre que se queria valorizá-lo negativamente como
uma forma de amor baixo, vulgar, sensual, profano em contraposição a um amor elevado, nobre, espiritual
e sagrado.
“Por exemplo: quando Cupido triunfa sobre Pã, que representa os
meros apetites da natureza, nunca está cego. Por outro lado, quando está acorrentado e a ser castigado,
os seus olhos estão invariavelmente vendados. Isto é especialmente correto nas representações
mais cuidadosas da rivalidade entre Eros e Anteros, que no Renascimento foi muitas vezes erradamente interpretada
como uma luta entre o amor sensual e a virtude.”
Para a psicologia arquetípica, o sofrimento infligido pelo Amor nada tem de profano, nem a não obrigatoriedade
do amor ser acompanhado por um amor recíproco. Este sofrimento é iniciático. Visa tornar o
indivíduo mais consciente de si mesmo, mais sutil, mais desperto, ciente de suas fraquezas, limitações
e dependências, consciente da dor e da morte no mundo, mais vulnerável ao outro que se apresenta diante
dele. Acima de tudo, o sofrimento do amor conduz o indivíduo a vivenciá-lo como um verdadeiro poder
divino e daimoníaco que transcende seus desejos egóicos, lançando-o em um movimento de aprofundamento
tanto com o mundo exterior quanto com sua alma.
Para Carl Gustav Jung, Eros resiste a toda tentativa de compreensão racional, por isso a importância
de considerá-lo uma divindade que transcende os limites humanos.
“Poderia, como muitos antes de mim tentaram fazer, aventurar uma aproximação
a este daimon, cuja abrangência de atividade estende-se desde o espaço infinito do céu até
os abismos escuros do inferno; mas eu gaguejo diante da tarefa de descobrir a linguagem que poderia adequadamente
expressar os incalculáveis paradoxos do amor... Aqui está o maior e o menor, o mais remoto e o mais
próximo, o mais elevado e o mais baixo, e não podemos discutir um aspecto do amor sem também
discutir o outro. Nenhuma linguagem é adequada a este paradoxo. Qualquer coisa que se possa dizer, nenhuma
palavra expressará o todo. Sendo uma parte, o homem não pode compreender o todo. Ele está
a sua mercê. Pode concordar com isso, ou se rebelar contra isso; mas ele é sempre pego pelo amor e
fechado dentro dele. Ele é dependente e sustentado pelo amor. O Amor é sua luz e sua escuridão,
cujo fim ele não pode ver.”
Como não pode ser racionalizado, nem controlado, nem domesticado, os efeitos do Amor podem ser descritos,
e esta é, sem dúvida, uma das tarefas da poesia lírica.
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