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A CALATONIA
A "pele" e o "contato", suave e atento
como parte integrante da
Psicoterapia
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Rosa Maria Farah
Psicóloga- CRP 06/1315
Professora da Faculdade de Psicologia da PUCSP,
onde Coordena o Núcleo: "Integração Psicofísica".
Observação:
Este texto foi originalmente elaborado com o objetivo de apresentar aos nossos alunos uma visão sintética
sobre a Calatonia e o trabalho desenvolvido por Pethö Sándor, criador desse método de trabalho
psicoterapeutico.
Tento encontrar um bom modo de contar ao leitor, um pouco sobre esta forma de trabalho em psicoterapia. Se possível
um modo claro e simples, como aquele utilizado por seu autor - Prof. Pethö Sándor - quando falava a
respeito de seu método. Penso que uma boa maneira de iniciar nossa conversa possa ser através de
um breve histórico sobre sua origem.
O Dr. Sándor era um médico - nascido na Hungria - que na época da segunda grande guerra mundial
trabalhava no atendimento de feridos e refugiados em deslocamento pela Europa. Naquele período, dadas as
precárias condições geradas pela guerra, com freqüência via-se diante de situações
onde os recursos médicos, além de precários, eram de pouca ajuda no atendimento de seus pacientes.
Embora sua especialidade fosse a Ginecologia/Obstetrícia, foi designado para o cuidado de pessoas portadoras
dos mais variados traumatismos, conforme ele mesmo relatou, ao falar sobre o surgimento de seu método:
"Idealizou-se este método durante a segunda guerra mundial,
com base nas observações feitas em casos de readaptação de feridos e congelados, no
período posterior à grande retirada da Rússia. Num hospital da Cruz Vermelha foram atendidas
as mais diferentes queixas na fase pós operatória, desde membros fantasma e abalamento nervoso, até
depressões e reações compulsivas" (1) .
Era praticamente impossível, frente à estas pessoas, estabelecer
um limite entre o traumatismo físico e o sofrimento psicológico que os atingia. Mas Sándor
já estava atento às estreitas relações existentes entre nossos processos corporais
e nosso funcionamento psicoemocional. Foi portanto nestas condições algo dramáticas de trabalho,
que ele tentou utilizar, sem sucesso, os 'métodos de relaxamento' usuais na época, como por exemplo
o método de Shultz. Porém, a gravidade das condições destes pacientes não lhes
permitiam a concentração e a colaboração necessárias para a aplicação
deste método. Foi quando Sándor observou o seguinte:
"Percebeu-se então, que além da medicação
costumeira e dos cuidados de rotina, o contato bipessoal, juntamente com a manipulação suave nas
extremidades e na nuca, com certas modificações leves quanto à posição das partes
manipuladas, produzia descontração muscular, comutações vasomotoras e recondicionamento
do ânimo dos operados, numa escala pouco esperada."(2)
As duas citações acima foram extraídas de um texto
dirigido à profissionais. Mas, se traduzirmos sua observação para uma linguagem do cotidiano,
podemos dizer que, em síntese, ele está nos contando como e quando começou a perceber "a atuação terapeutica propiciada pelo contato suave atento e cuidadoso", ajudando na recuperação daqueles pacientes.
Quem conhece um pouco da história pessoal do Dr. Sándor sabe o quanto ele mesmo, bem como sua família,
foram duramente atingidos pelos horrores da guerra. No entanto, podemos perceber, nas entrelinhas da sua descrição,
o tipo de conduta que o levou à estas observações: a atitude compassiva e amorosa que assumia
diante do sofrimento de seus pacientes...!
Por mais três anos Sándor trabalhou na Alemanha, cuidando de pacientes com queixas psicológicas
ou neuropsiquiátricas. Neste período já começava a sistematizar e fundamentar sua técnica
- a primeira sequência dos toques sutis da Calatonia - com base nos conhecimentos da Psicologia e da Neurologia.
Em 1949 emigrou para o Brasil, onde prosseguiu seu trabalho, atuando principalmente na área da Psicologia.
Vivendo já em São Paulo, como terapeuta e professor, passou a aplicar e ensinar a Calatonia, que
passou a ser conhecida por seus alunos, como um "método
de relaxamento". E, como tal,
passou a ser utilizada no atendimento psicoterapêutico.
Já sabemos como a Calatonia surgiu, e como chegou até nós. Mas, afinal, no que consiste? Como
atua? No que ela difere de outros métodos de relaxamento? Qual sua utilidade? No significado do próprio
termo encontramos alguns elementos para responder à estas questões:
Segundo o próprio Prof. Sándor, Calatonia é uma expressão que
"... indica um tônus descontraído, solto, mas
não apenas do ponto de vista estático e muscular. No original grego o verbo khalaó indica relaxação e também alimentação,
afastar-se do estado de ira, fúria, violência, abrir
uma porta, desatar as amarras de um odre, deixar ir, perdoar aos pais, retirar todos os véus dos olhos,
etc." (3)
Portanto, podemos dizer que a Calatonia, enquanto método de relaxamento
visa, evidentemente, promover efeitos de soltura e/ou distensão muscular, ou seja a "regulação"
do tônus. Mas sua atuação vai além do nível apenas muscular, promovendo também
"reorganizações psico-fisiológicas" em vários níveis.
Vejamos como isto acontece: o procedimento básico da Calatonia consiste em uma série de "toques",
que o terapeuta realiza em vários pontos do corpo do cliente; A sequência de toques mais conhecida
- pois foi a primeira ensinada por Sándor - é realizada em nove pontos da área dos pés,
acrescida de um toque na nuca (região occipital). Estes toques são feitos em silêncio, de forma
simples e suave, durante 1 a 2 minutos em cada um dos pontos citados. Portanto os estímulos realizados pelo
terapeuta vão atuar, em princípio, sobre a pele da pessoa que os recebe.
Vale aqui pararmos um momento para mencionar algumas características muito especiais da nossa pele. Esta
espécie de "envelope" que estabelece os limites do nosso corpo é, na verdade, altamente
provida de minúsculas estruturas: os receptores nervosos. Estudos mais recentes sobre as particularidades
e funções dos receptores nervosos da pele já fazem com que autores como Montagu (4) considerem a pele como um
"órgão", e não apenas um tecido que nos protege das intempéries...
Assim, segundo este enfoque, a pele é considerada como o nosso principal aparato sensorial. Não apenas
porque os nossos órgãos dos sentidos sejam, na verdade, tecido cutâneo que se diferenciou (como
acontece com as mucosas da boca, na percepção do paladar); Mas principalmente porque cada milímetro
de nossa pele é provido de numerosos "receptores nervosos", ou seja, estruturas neurológicas
capazes de captar e conduzir os variados tipos de estímulos: calor, frio, pressão, etc. Como se fossem
minúsculos radares, nos mantêm informados sobre a infinidade de estímulos à que somos
submetidos à cada instante.
Mas existe ainda uma outra característica importante da pele, que diz respeito à sua própria
origem e formação durante nosso desenvolvimento ainda no útero materno: As células
que lhe dão origem provêm da mesma camada embrionária da qual se forma nosso sistema nervoso
central, ou seja, a ectoderme.
A descrição deste fato levou o pesquisador Montagu a escrever esta curiosa observação:
"Portanto, o sistema nervoso é uma parte escondida
da pele, ou ao contrário, a pele pode ser considerada como a porção exposta do sistema nervoso".
(5)
As implicações deste fato podem ser observadas na própria estrutura da nossa pele. Para ilustrar
este comentário vamos apresentar no quadro a seguir uma síntese das descrições feitas
pelo mesmo autor Montagu (6) sobre a constituição da estrutura da nossa pele. Vejamos como essa estrutura
é altamente complexa e potencialmente "sensível" aos estímulos táteis:
Algumas Características da Estrutura da Pele
a. O sentido do tato é o primeiro a ser desenvolvido
no feto, podendo ser observado ainda no período embrionário, a partir da 6a. semana de vida intra-uterina.
b. Média de Corpúsculos de Meissmer presentes na epiderme por milímetro quadrado:
- Cerca de 80 em crianças.
- Cerca de 20 em adultos.
- Cerca de 4 em idosos.
c. Média de receptores nervosos presentes a cada 100mm2. de pele: Cerca de 640.000.
d. Pontos táteis por cm2
de pele: Cerca de 7 a 135.
e. Número de fibras nervosas oriundas da pele que entram na medula espinal, conduzindo estímulos
aferentes: Superior a meio milhão.
f. Outras estruturas presentes em um pedaço de pele com 3 cm de diâmetro:
- 3 milhões de células.
- Entre 100 e 340 glândulas sudoríparas.
- 50 terminações nervosas.
- 90 cm de vasos sanguíneos.
Falando agora do ponto de vista da Psicologia, encontramos hoje em vários autores o reconhecimento da importância
do contato -
no sentido literal do termo - tanto para o adequado desenvolvimento de uma criança, quanto para a manutenção
do equilíbrio psicofísico do adulto. Aliás, se olharmos um pouquinho para trás, vamos
perceber que este nem é um achado tão recente da Psicologia: Jung já dizia, em 1935, que no
tempo de nossos ancestrais a "consciência" humana formou-se a partir do "relacionamento sensorial da nossa pele com o mundo exterior" (7).
Pesquisadores como Neumann (8) ao estudarem o desenvolvimento infantil, expressaram uma idéia semelhante,
ao afirmar que no recém nascido "noção de eu" forma-se gradativamente, a partir
do contato que se estabelece entre a criança e sua mãe.
Voltando agora à forma de atuação da Calatonia: Já dissemos que os toques são
realizados na pele. Estes estímulos vão portanto atuar sobre os inúmeros receptores nervosos
ali existentes. E, mais ainda: vão se propagar naturalmente
(9) (através das vias neurológicas aos quais estão
conectados) para o sistema nervoso como um todo. Daí percebermos, na prática, que tal atuação
se expressa de forma muito particular para cada pessoa com quem trabalhamos.
Para alguns, podem surgir, predominantemente, reações ao nível fisiológico e/ou motor
(como "sensações", ou movimentos mais ou menos sutis); Para outros em termos afetivo/emocionais,
(na forma de recordações, associações, etc.); Para outros ainda podem ocorrer alterações
do estado de consciência análogos àqueles promovidos pela 'meditação', com a
eventual recordação de imagens. Imagens estas que, do ponto de vista psicoterapeutico, têm
um valor semelhante ao valor dos sonhos.
Assim, a Calatonia atua potencialmente em vários níveis sobre a complexa estrutura psicofísica
de cada indivíduo, trazendo à tona elementos, que podem ser elaborados dentro do contexto da psicoterapia.
Além disso, pode atuar também promovendo "reequilibrações" do sistema psicofísico,
através de processos mais sutís, e um tanto complexos para que os abordemos aqui. Para os leitores interessados
neste aspecto, sugerimos a leitura dos casos clínicos relatados no livro "Técnicas
de Relaxamento" (10), indicado ao final.
Mas, se aceitarmos que a principal meta da psicoterapia é criar condições para que a pessoa
amplie a consciência que tem de si própria, a ponto de poder expressar tão plenamente quanto
possível suas potencialidades individuais com equilíbrio e criatividade; Se aceitarmos ainda que
cada pessoa é um todo indivisível e que seu corpo e seu psiquismo são apenas diferentes formas
de expressão desta mesma unidade sincrônica, então podemos entender a função
da Calatonia, como um importante recurso na facilitação do nosso acesso ao mundo interno do ser humano.
Conforme podemos perceber no parágrafo acima, a forma de trabalho terapêutico que Sándor desenvolveu
trás implícita uma determinada maneira de entender tanto a natureza do ser humano, quanto a função
da psicoterapia. De fato, a Calatonia, mais do que uma simples técnica, (que se define pelos seus procedimentos
práticos) constitui-se hoje em um método de trabalho terapêutico. Método este que integra elementos da Psicologia Profunda (em especial
as idéias de Jung) visando promover a integração
psicofísica do indivíduo.
Pode ser importante ainda acrescentar aqui algo a respeito dos desenvolvimentos mais atuais deste método.
Com relação aos toques descritos no início desta nossa conversa, cabe dizer que aquela foi
a forma inicial da Calatonia. Ao longo de mais de quarenta anos de trabalho o Prof. Sándor foi acrescentando
inúmeros outros procedimentos àquela sequência inicial, conhecida como "toques nos pés":
Mantendo sempre as características básicas da atuação (ou seja os estímulos
táteis, realizados de forma suave) idealizou muitas novas formas de toques, além de realizar e transmitir
aos seus alunos farta pesquisa sobre os processos anátamo/fisiológicos envolvidos na aplicação
destes toques.
Finalmente, cabe dizer ainda que este método, embora tão estreitamente baseado em fundamentos psicológicos,
não se constitui em um recurso de uso estritamente psicoterapêutico. Vários colegas, de áreas
afins têm já relatado a sua efetiva utilidade em campos variados, tais como na Fonoaudiologia, na
Fisioterapia, na Odontologia, na Pedagogia, etc.
O Prof. Sándor veio a falecer, de forma inesperada para nós, a 28 de Janeiro de 1992, ainda em plena
atividade criativa. Seu trabalho no entanto continua através das atividades de vários grupos de estudos,
conduzidos por seus ex-alunos. Prosseguem também, no Instituto Sedes Sapientiae de São Paulo, as
atividades do curso de "Cinesiologia Psicológica", ao qual Sándor vinha
se dedicando com especial empenho nos últimos anos, promovendo a formação de novos terapeutas.
Referências Bibliográficas:
1. Em "Técnicas de Relaxamento",
Pethö Sándor e outros, Ed. Vetor; São Paulo:
Capítulo sobre a Calatonia.
2. Ib.
3. Ib.
4. "Tocar: o Significado Humano da Pele",
A. Montagu, Ed. Summus; São Paulo.
5. Ib. Pág.
23.
6. Ib.
7. Em "Fundamentos de Psicologia Analítica", C.G. Jung, Ed. Vozes; Petrópolis, pág. 5, parágrafo 14.
8. Neumann, E. :
"A Criança - Estruturas e Dinâmica da Personalidade
em Desenvolvimento desde o Início de sua Formação",
Ed. Cultrix; São Paulo.
9. Destacamos a
forma "suave", bem como a "propagação natural" dos estímulos táteis
utilizados na Calatonia, porque estas características nos permitirão distinguí-la de outros
métodos de relaxamento. Cada uma das demais técnicas já conhecidas utiliza-se de outros estímulos
preferenciais. Mas em geral pressupõem, através de determinadas 'instruções', que o
terapeuta dirija
verbalmente o comportamento que deve ser realizado pelo cliente. Existe portanto, nestas formas de trabalho, algum
padrão
pre-estabelecido, acerca dos resultados que se pretende atingir com aquele procedimento, padrão este que
é definido, obviamente, pelo terapeuta. Mesmo na maioria das formas de massagens utilizadas para fins de
relaxamento, a atuação do terapeuta, visa "diluir a tensão" dos grupos musculares
que manipula. Não se trata aqui de fazermos uma comparação avaliativa. Cada uma destas técnicas
têm suas indicações úteis. Estamos apenas estabelecendo uma diferenciação
importante quando se trata do trabalho corporal utilizado dentro da psicoterapia. No caso do uso psicoterapêutico
a Calatonia é um método de relaxamento em que a
direção e a medida do ritmo dos procedimentos são
definidos e determinados individualmente pela própria estrutura psicofísica da pessoa que passa pelo
processo.
10. Obra citada
em 1, capítulos elaborados pelas terapeutas Beatriz Helena Marques Mauro e Maria Isabella de Santis. Além
destes, poderão ainda ser consultados (nas bibliotecas universitárias da USP e PUC-SP) trabalhos
de pesquisa para obtenção de títulos de mestrado e doutoramento, de vários ex-alunos
de Sándor.
Contatos com a autora:
Rosa Farah
rfarah@uol.com.br
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