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A UTILIZAÇÃO DO BARRO EM PSICOTERAPIA

Roberto Cirani

A meu ver, a psicologia analítica junguiana prima pela sensibilidade com que se ocupa do material inconsciente. Não se preocupa em logo enquadrá-lo para reduzi-lo a algo mastigável e aliviante. Também não o considera simplesmente um depósito de coisas recalcadas e reprimidas, mas fica como depositário de um imenso tesouro, onde moram todas as possibilidades e riquezas. A viagem em direção ao inconsciente ora nos coloca em confronto com um aspecto, ora com outro; mas seja o que for que se apresente diante de nós, a aproximação será amorosa e cuidadosa, sem pressa e raramente direta e interpretativa.

Olhar e perceber um conteúdo se manifestando não é, em geral, algo para ser logo explicitado. O movimento é próprio, já está lá. Seja algo novo e transformador ou mesmo algo velho e obstruidor, a consideração cuidadosa é que permite à consciência a sua assimilação.

Esta sempre foi minha maior preocupação como psicoteraputa: o que fazer com o material que surge? Como trabalhar o que foi constelado?

Essa busca me levou ao encontro de um material intermediário: o barro. O barro é a matéria prima de onde tudo pode surgir. É o material básico que propicia a aproximação e a expressão do inconsciente, onde podemos plasmar conteúdos do aqui-e-agora, do ontem e do que virá. Abrir-se para o barro é abrir-se à possibilidade de transformação.

Claro, estou falando de um material com o qual, em primeiro lugar, sinto-me à vontade em lidar, tenho intimidade e onde me expresso bem. Conheço-o o suficiente para estar com ele e utilizá-lo com segurança e amizade. Sim, amizade! Gosto do barro, sinto-o como amigo. Creio que foi por isso que aconteceu de ele ser introduzido nas sessões. Isso permite estabelecer um clima, digamos, informal e descontraído na mesa de argila, onde peço para a pessoa trabalhar com o barro durante as sessões terapêuticas. Só assim ela sentirá que há espaço para a expressão espontânea de seu material interior. Mesmo que haja um certo estranhamento ou alguma resistência, a pessoa acaba se familiarizando com o barro. Isso é importante.

Tomando a argila como material intermediário, verifico que sua plasticidade permite o livre movimento das mãos, enquanto a energia vem subindo das camadas mais profundas da interioridade da pessoa, até que esses movimentos se afunilem, digamos assim, em alguma forma que foi nascendo espontaneamente. Quase tudo pode ser materializado ali. Como será representado dependerá da dinâmica de cada um. O ego participa, ajudando a executar, mas não deve ser controlador.
O barro permite a observação cuidadosa, por parte do terapeuta, dos movimentos das mãos. Enquanto parte importante do processo de representação das imagens interiores as mãos executoras têm seus movimentos orientados por forças inconscientes, como se algo bem lá no fundo da pessoa tivesse encontrado a oportunidade de se expressar. Esses movimentos podem ser lentos ou rápidos; delicados, até mesmo receosos e vacilantes, ou brutos e agressivos. Podem ainda brincar de lá para cá ou ficarem meio que brecados, soluçando aqui e ali no barro. São redondos, fluidos, ou diretos e cortantes. Alguns parecem sentir um prazer sensual nesse contato, enquanto outros resistem e sentem nojo ou aflição. Cada qual com o movimento que surge, cada movimento uma fração muitas vezes pequena mas significativa da interioridade da pessoa. Porém esses movimentos refletem a maneira como ela se comporta em relação aos conteúdos internos. Quer dizer: pelos movimentos das mãos podemos perceber como o material interior é recebido, pois por mais inconscientes que sejam esses movimentos, o ego está participando desse processo. Então, é como na imaginação ativa: observa-se o movimento inconsciente dando expressão a ele, e tenta-se não interferir. Mas no "tenta-se não interferir" muitas coisas podem acontecer.

Há momentos em que a pessoa percebe uma forma saindo de suas mãos que não esperava: surpreende-se em se dar conta de que há um movimento que é independente de sua vontade, que é maior do que seu ego e que se manifesta quando a atmosfera está aberta para receber. Isso acontece em todas as terapias, mas aqui isso aparece no trabalho com o barro.

O esforço de realizar um trabalho no barro é o esforço de trazer à tona o que está por baixo de tudo o que paciente e terapeuta estão conversando. É o que faz a ligação com o mais profundo. Já está plasmado no material concreto do barro, através dos movimentos espontâneos das mãos, o conteúdo que permite à pessoa se conhecer melhor e ter uma compreensão maior do momento presente e do que ela está trazendo para a sessão. É concreto! Está ali, é só olhar! Só? Muitas vezes é difícil olhar, quanto mais compreender. Mas não é mesmo necessário ficar claro o que foi constelado na argila. O escuro também se encarrega de fazer o seu trabalho. A elaboração inconsciente continua e juntamente com o movimento da vida, dos acontecimentos do dia-a-dia, algo lá dentro começa a se modificar e aos poucos poderá ser assimilado.

Muitas vezes ficamos às voltas com coisas antigas, complexos autônomos que atravancam e limitam o caminho da pessoa na vida. Os trabalhos, isto é, as peças ou cenas que são feitas no barro, muitas vezes chegam carregadas com o peso de uma vivência de muito tempo: é o que sempre esteve constelado. Momento importante para se conhecer melhor, de sentir como se funciona e de perceber impedimentos e dificuldades; até mesmo de parar de jogar a culpa no mundo e começar a ser mais responsável pelo seu caminho. Outras vezes aparecem formas que são totalmente desconhecidas, não vivenciadas. É o novo que está surgindo, aquilo que precisa ser considerado agora, o que precisa entrar para ampliar o horizonte e tirar a pessoa de seu aprisionamento.Lembro-me de um garoto de 9 anos cuja mãe dizia que ele era autista. Ele trabalhou na mesa de argila durante dois meses na mesma cena. Cada sessão guardávamos o que ele estava fazendo para que continuasse na próxima. Começou com uma locomotiva que não podia andar porque os trilhos foram obstruídos por pedras que caíam de uma imensa montanha. Estava parado! A força motriz não podia fazer o seu trabalho. Aos poucos, alguns homens foram chegando e removendo as pedras. Então a locomotiva começou a andar. Apareceu um cachorro e um caçador que viviam ali perto. O menino, desta maneira, saía de uma atitude passiva, paralizada, para um modo de ser mais instintivo, forte e agressivo. Não era autismo! Era paralisia. Ao mesmo tempo que foi trabalhando no barro ele foi se abrindo para a vida .

Lembro-me também de uma adolescente limítrofe que na primeira sessão juntou o barro aos pedaços e fez uma mulher. Molhou bem a mesa e de repente começou uma dança com a peça onde a mulher rodopiava e girava entre nós dois, que ríamos descontraidamente. No final, entes de sair, fez um anel com o barro e o colocou no meu dedo. Assim ela chegou! Um homem de 30 anos, executivo e que se expressava muito bem com as palavras, parecia não perceber o quanto sua fala era automática e sem conexão com sua alma. Tudo era muito arrumado e ... nenhum movimento, nada se mexia dentro dele. Quando sugeri que enquanto conversávamos ele deixasse suas mãos trabalharem no barro, os movimentos que surgiam de suas mãos eram repetitivos e automáticos: viravam o barro de cá para lá sempre da mesma forma e não chegavam a nada, nada se erguia do barro. Pronto! Estava ali constelado. Refleti com ele sobre a maneira que estava mexendo no barro e então soltou-se mais, foi um pouco mais fundo e construiu um barco à vela. Pôde então experimentar algo de mais criativo surgir que não viesse só de sua cabeça. Absorveu-se no trabalho, parou de pensar tanto. Agora sim: seu barco iria possibilitar viajarmos juntos no mar de seus conteúdos. Embora ainda não pudéssemos ir muito longe (o barco era à vela), já era um bom começo.

É assim que o barro invoca o movimento. É como ele concretiza o que está dentro. Muitas vezes é só o começo de uma longa jornada. Outras, uma rápida passagem. Não importa! O que vale é que o barro é o toque amoroso que atinge cada um de nós da maneira que é preciso.

Roberto Cirani
Psicoterapeuta Junguiano

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