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EM LOUVOR DE BABEL
James Hillman
| Este texto é aqui publicado e traduzido mediante expressa autorização
do autor. Agradecemos, mais uma vez, a generosidade de James Hillman por colaborar com a Rubedo. |
Essa contribuição foi tirada da conferência que o professor Hillman fez em Siena no dia 17
de novembro de 1999. O evento, ao qual participaram estudantes de toda a Itália, foi organizado pelo Centro
Interdepartamental de Estudos Antropológicos sobre Cultura Antiga da Universidade de Siena.
Desde o momento em que me disponho a falar de Babel, espero que no final da minha intervenção se
elevem muitas vozes a formular uma confusão que certamente existirá; e será bem-vindo quem
quer que venha a apresentar a própria voz fazendo com que Babel possa continuar.
Sem dúvida alguma o relato do mito de Babel é conhecido por todos, narrado no capítulo 11
do Livro do Gênesis: antes de Babel todos os homens da Terra tinham uma única língua, usavam
as mesmas palavras. “Disseram um ao outro: “Vamos construir para nós uma cidade e uma torre cujo topo toque
o céu e vamos nos dar um nome para não dispersarmos sobre toda a terra”. Mas o Senhor desceu do céu
e disse: “Eis, eles são um só povo e todos têm uma única língua e eis, esse é
o início da sua obra. E agora quanto planejarão fazer não será impossível”,
quer dizer “Agora poderão fazer qualquer coisa.”
Um comentarista judeu, que escreve mais tarde, em plena Idade Média, explica assim: “Agora poderão
coroar a idolatria”. Assim acontece que Deus dispersou os homens por toda a terra, e criou uma infinidade de línguas,
e o povo não foi mais um só. Essa foi a punição.
Logo, no mito da torre de Babel estão contidas três problemáticas diversas. A primeira é
aquela da origem das línguas: como surgiu um número tão grande de línguas? É
um problema diferente daquele sobre o qual discutíamos algumas noites atrás com Noam Chomsky, que
dizia respeito mais à origem da língua: entendida no singular, em si, poderíamos dizer o princípio
da língua. Isto é pelo contrário o mito da origem da multiplicidade das línguas.
Em segundo lugar, o mito encara um outro problema: por que existem tantos tipos de povos sobre toda a terra? E,
num terceiro nível, coloca o problema da hybris: é quando o povo é ainda um único povo
que concebe a idéia de chegar até o céu ou, como dizem mais tarde os comentaristas judeus,
que amadurece a intenção de atacar o céu, de engajar uma guerra com Deus, de elevar ídolos
ou de destruir o céu com lanças e flechas.
Qual foi a punição que Deus infligiu aos homens por tal ato de hybris? Esta: a cada povo foi atribuída
uma língua particular, e enquanto antes toda a terra tinha um único modo de se exprimir, agora os
homens foram dispersos, ocuparam a inteira geografia do planeta, e tiveram muitas línguas. Portanto a dispersão
por todo o planeta e a grande variedade dos lugares geográficos estão ligadas à multiplicidade
das línguas, e constituem uma resposta à hybris da unificação.
A hybris da torre se realiza quando há unicidade, e é então que se tem uma única língua.
E quando se tem uma única língua, se tem a hybris.
Devemos refletir sobre isto hoje, sobre como o mundo veio lentamente a ser dominado por uma única língua:
a língua da Internet, as palavras americanas. Eu também, nesse momento, estou usando aquela única
língua.
Dissemos que a narração bíblica coloca três problemas diversos. Existem muitíssimos
mitos das origens; não da origem da língua, mas da construção de uma torre que chegue
a tocar o céu - os Nyambos têm uma no México, em Cholula, e, ainda no México os Toltecas
têm uma também, também se apresenta entre os Cuki em Assam e entre os Karen na Birmânia:
se trata sempre de manifestações de hybris, de soberba, de arrogância, da tentativa de escalar
e de agredir a potência de Deus. A punição divina no mito não consiste na destruição
dos homens, como acontece no caso de Sodoma e Gomorra ou no caso do Dilúvio: não se destrói
o mundo, mas se dispersam os homens por todo o mundo. Em outros termos, se cria a variedade, os vários estabelecimentos.
É difícil dizer que se trata realmente de uma punição. É para impedir o ato
de hybris, para impedir a uniformidade que se tem a diversidade. É um elemento sobre o qual refletir, em
meio a tantos impulsos poderosos em direção à uniformidade, na ciência e na economia,
nos negócios, na política e assim por diante.
Existe claramente um forte impulso ao universalismo. A aspiração a uma ciência unificada, a
um direito internacional, a uma Igreja e a uma língua universais: o esperanto, por exemplo, exprime no seu
próprio nome a idéia de aspiração, de esperança. Esperança de uma paz
universal e da possibilidade de solução de todos os conflitos através da unidade. Mas não
é essa a lição que nos vem por meio de Babel. Babel nos diz que o Senhor quer: Ele quer a
diversidade, a variedade.
A torre se repropõe hoje. Sessenta por cento do uso quotidiano da língua nos sistemas de comunicação
- Internet, Web - é feito de palavras americanas. De tal modo somos obrigados a olhar para a língua
americana. Apesar de que cinqüenta por cento dos habitantes do planeta, como observou recentemente Kofi Annan,
não tenha feito nem recebido nunca um telefonema. Metade da população mundial nunca falou
ao telefone. Contudo, aqueles que se servem das engrenagens da comunicação usam o inglês americano.
É a língua da medicina, dos negócios, da ciência, das viagens, da engenharia, da Web.
Pergunta-se se essa língua durará. Existem os futurólogos - pessoas que se divertem brincando
com aquilo que acontecerá, uma espécie de profetas sociológicos - que sustentam que essa língua
se exaurirá e que o inglês americano será substituído pelo árabe, o chinês
e o espanhol.
Trata-se de um problema de longo alcance, porque em alguns aspectos o inglês americano se revela particularmente
adequado ao mundo da tecnologia. Talvez se pensa em línguas como o árabe, o chinês, o espanhol
considerando o percentual de indivíduos que as falam?
Pessoalmente creio que sejam línguas criadoras de imagens demais, irredutíveis demais ao tipo de
linguagem pedido pelas novas tecnologias.
A linguagem da nova tecnologia foi já imaginada por George Orwell no seu “1984” e foi por ele definida Neolíngua
(newspeak), em oposição à Arquelíngua (old speak), que vem ironicamente ridicularizada
por aquilo que Orwell define “a sua imprecisão e inutilidade de significado”.
Esta é a descrição de Orwell, numa obra que remonta a meio século atrás: Não
vêem? O fim da Neolíngua é aquele de restringir a margem de erro. Cada conceito do qual podemos
precisar será expresso precisamente por uma só palavra, com um significado rigidamente definido e
todos os significados acessórios cortados fora e esquecidos. Ano após ano, sempre menos palavras,
e a margem de conhecimento sempre mais reduzida.
Orwell estava prevendo, de maneira extremamente detalhada, uma doença endêmica da alma do mundo, uma
doença que se propaga por contágio pela boca dos homens, que caindo dos satélites se difunde
através do ar, uma doença que se transmite, alojada como um vírus no nosso software. A Neolíngua
vem produzida sistematicamente nas escolas americanas, através de cada traço vermelho que os professores
traçam sobre as composições escritas, através de todas as indicações
de escrita fornecidas pelas editoras.
Os manuais americanos de estilo, que se trata de estilo acadêmico, de estilo expositivo ou de estilo narrativo,
sintetizam a sua crença de laica e puritana iconoclastia, com instruções claríssimas.
Faço algumas citações tiradas desses textos: quando se escreve, “menos” em gênero quer
dizer “melhor”. Abandonar as palavras inúteis, cassar todos os advérbios de intensidade. Escrever
utilizando substantivos e verbos. Entregar-se aos adjetivos só como último recurso. São consentidos
só alguns advérbios. Evitar termos rebuscados. Não se deixar tentar por uma palavra de vinte
dólares quando se tem a disposição uma de dez centésimos. A frase, uma vez desfolhada,
deve vir sempre mais clara e nítida.
Este é o modo pelo qual, nos Estados Unidos, nos ensinam a escrever. Os manuais de estilo nos colocam de
sobreaviso quanto aos verbos inertes, fracos, privados de ação, têm horror à forma passiva.
“Os substantivos fortes funcionam com os verbos fortes, os verbos fortes têm um efeito imediato sobre os
substantivos fortes e concretos.”
É como se Hércules, uma vez aposentado das suas tarefas de herói, começasse a escrever
textos de língua.
Estas frases, nuas como paus de uma estacaria, magras como um cowboy, se fazem, por fim, nos manuscritos do gênero
cinematográfico mais tipicamente americano, o western.
Os manuais de estilo insistem também sobre palavra com raiz anglo-saxã, porque têm, segundo
eles, mais força e usam um menor número de sílabas em respeito às palavras de derivação
latina. Esta devoção pelo breve e simples incide também sobre o nosso modo de blasfemar, de
dizer palavrões, sobre a nossa pornografia. Até sobre a vida política, visto que os candidatos
que têm mais sucesso são aqueles que têm nomes constituídos por uma só sílaba:
Dole, Bush, Ford, Gore, Kemp, Quayle, Lot, Hide, Starr, Brown, Bird, Hatch, Dodd, Glenn, ad infinitum et nauseam.
Tal predileção comporta também uns preconceitos étnicos e raciais. Incidentemente,
os dois principais textos dos quais tirei as citações precedentes sobre as regras para escrever corretamente
em inglês são produzidos por pessoas que se chamam Cook, Stunk e White.
A substância dessa ideal puritano se pode reassumir no slogan: “Eliminar as palavras inúteis”. Quando
o sentirem, pensem nos seus e-mails: eliminar palavras inúteis. A escrita potente é concisa, uma
frase não deveria conter palavras desnecessárias, um parágrafo não deveria conter frases
não necessárias, pelo mesmo motivo pelo qual um desenho não deve Ter traços não
necessários, um carro não deve Ter partes não necessárias. Palavras não necessárias:
mas o que determina a necessidade? Necessidades de instrução claras, de exportação,
de definição, de informação...
O que dizer, então, da necessidade de ambigüidade, de sugestividade, de ênfase, de ironia, de
lisonja, de insulto, de complexidade, de fantasia? O que dizer dos efeitos retóricos? O que acontece às
imagens na língua quando, como diz Orwell, “o significado é definido rigidamente, e todos os significados
acessórios vêm eliminados”?
Seríamos ainda capazes de ler Ariosto, Tasso ou Shakespeare, visto que a sua força está no
excesso, na exageração, na hipérbole?
A última etapa na eliminação de palavras inúteis é a eliminação
das próprias palavras. Estamos já além da Neolíngua. Considerem de novo o seu e-mail:
contém uma palavra inteira? Estamos justamente até além da Neolíngua, que é
em si uma linguagem de formação recente, mas fica ainda, tudo somado, um composto tradicional. Quanto
ao contrário chega pela Internet e se constrói no seu software é difícil chamá-lo
“composto”.
Tentem se imaginar começando o dia, por exemplo, em Washington. Inicio o dia em Washington D.C. Levanto-me
pela manhã: o meu despertador digital toca, e eis um número vermelho, sete, ponto, ponto, zero zero.
Ajudo meu filho a tirar o PJ e a vestir a t-shirt, os jeans e o nike, desligo para ele o PC, faço-o tomar
o K-19, certifico-me de que ele toma o seu velho J e os comprimidos de C, E e B12, preparo-lhe a caixa pessoal
do pronto-socorro, já que sofre de ADD, o levo para passear de carro na minha F1-50 e o deixo em frente
à PS 14 antes de estacionar no espaço E-11, no meu lugar de trabalho em EPA no bairro WPCA do centro
D.C.
Cada uma destas abreviações, destes acrônimos corresponde exatamente a uma única, inconfundível
realidade: o espaço exato do estacionamento. Termos absolutamente eficazes, de nenhuma ambigüidade,
o cúmulo do nominalismo. No nominalismo, uma palavra significa o que aquele que a pronuncia quer que signifique.
O significado é dado por aquele que fala. A uma palavra vem confiado um significado particular, e um acrônimo
ou uma abreviação desempenha a mesma função de uma palavra. Não existem nem
raízes nem sentido de dependência nas palavras. O nominalismo facilita o processo tecnológico,
mas e o processo ético, o processo cultural?
Nas questões práticas existe uma grande necessidade de uma língua clara, universal. Precisamos
de vacinas universais para a nossa saúde, de um regulamento de construção civil universal,
de sistemas de medidas universais, de um controle do trânsito aéreo universal, mas existem outros
aspectos que ficam na sombra.
E voltemos a Babel. O mito de Babel destaca a dispersão, por toda a terra, da língua e da posição.
Língua e local. Mas a língua está situada em qualquer lugar. A língua de Internet não
tem local. De fato a língua universal da Rede unifica eliminando a colocação espacial, promove
a mobilidade, se move de um lugar para outro, porque a língua pode ser a mesma em qualquer lugar que for.
Nos Estados Unidos vinte por cento da população desloca-se todo ano. Isto significa que um em cada
cinco americanos muda de endereço a cada ano. Vivemos numa sociedade extremamente móvel, deslocada.
Temos necessidade de um discurso comum, não ligado a lugares particulares, temos a linguagem da televisão,
corrente, fácil, rápida, breve, que permite a mobilidade, assim podemos nos comunicar onde quer que
formos. E com isto chega-se à perda do sentido de lugar, a perda de idiomas, de topônimos, de patois,
de dialetos, de inflexões, de vernáculos, de slang. Perde-se a particularidade rica de imagens da
língua, que pertence aos lugares.
Um exemplo desta confusão: existe um organismo internacional que se ocupa da fauna ictíaca do Mediterrâneo,
e que tem tentado com grande dificuldade produzir um catálogo dos nomes dos peixes daquele mar, os comestíveis,
os não comestíveis e assim por diante. Os nomes dos peixes do Mediterrâneo mudam praticamente
a cada porto da costa, o peixe que está aqui não é o mesmo que está ali, e se é
o mesmo peixe, tem um nome diferente: o lugar determina a imagem do objeto real. Trata-se de um costume mediterrâneo
muito antigo, que se encontra também nos nomes dos diversos deuses e deusas em toda a Grande Grécia.
É interessante notar que a maior parte daquilo que se estuda na escola, a maior parte daquilo que é
considerado importante pela imprensa, em geral pela média, não tem lugar. A matemática não
tem um lugar, o método científico não tem um lugar, ou melhor não deve tê-lo,
porque o mesmo experimento, por ser válido, deve poder ser feito em Osaka, em Berlim, em Berkeley, não
deve ser influenciado nem pelo lugar nem pelo caráter de quem o executa. As verdades e os dogmas da religião
não tem lugar, são universais.
A linguagem “politicamente correta” não tem lugar: deve poder ser usada onde quer que seja, não deve
mostrar traço de algum tipo de lugar ou de pessoa, deve ser límpida, clara. A psicoterapia também
não tem uma localização: uma fixação é uma fixação seja
em Londres, em Roma ou em Washington D.C. Uma regressão é uma regressão onde quer que seja:
a língua da psicanálise é ainda uma língua universal, sem uma colocação
particular.
Isto deve parecer quase um insulto na Itália, onde o fator local tem uma importância enorme. Aquilo
que na Itália é história, é história de lugares, estabelecimentos locais, cidades.
E o modo de falar de cada lugar. Eu me interesso pelas doenças americanas que se difundem em todo mundo:
a tragédia de Littletown, no Colorado, nos colocou de frente a um garoto que abriu fogo numa escola; se
se observa a situação real, em Littletown, os garotos, os estudantes daquela escola não têm
uma efetiva localização. A arquitetura da escola era de estilo “internacional”: nenhum elemento artístico,
nem mesmo mínimo, na escola, nada que desse a sensação de encontrar-se em algum lugar.
O problema do lugar e da língua: e ainda o mito de Babel reforça que os homens se dispersaram por
toda a terra e cada um terá um anjo destinado àquela nação, como foi dito no texto
bíblico. Temos um anjo destinado a uma determinada nação. O anjo é “anghelos”, mensageiro,
e também mensagem: cada nação tem a sua mensagem, o seu modo de falar, as suas palavras. Isto
está relacionado a um dos grandes problemas que atravessam todo o mundo ocidental hoje, a questão
da mobilidade e da imigração. Porque a imigração é simplesmente uma recolocação.
Uma língua comum unifica mediante a redução a uma linguagem mais simples.
A imigração é uma adequação que passa pela rejeição e pela repressão.
Você se adapta reprimindo e rejeitando o seu antigo lugar, o seu país anterior. Como sabem, os Estados
Unidos são uma nação de imigrantes, e assim a nossa língua é rica de expressões,
de palavras e de inflexões que vêm dos imigrantes, mas, como língua comum, língua particularmente
nova e “politicamente correta”, ou língua de Internet, é privada dos influxos que derivam do fenômeno
da imigração. Aquilo que o imigrante, homem ou mulher, trazem consigo do país de origem são
a música, os hábitos alimentares, a educação dos filhos, ( neste sentido certas populações
têm tradições singulares) e a língua. O velho país é a velha língua.
A sua terra, as suas cidades, os seus antepassados. Particularmente, um aspecto dessa língua é constituído
por antigas imprecações, que pertencem às metáforas e às hipérboles do
velho país.
Pensem um instante na maldição: há um personagem em A Tempestade de Shakespeare, Caliban,
que é a voz da ilha, das rochas e das grutas, dos bosques, dos rios, das plantas, e Caliban não tem
um modo de expressar-se, não tem uma língua, é natureza. Próspero ensina Caliban a
falar, e lhe diz, já no primeiro ato: “Eu te compadeci, me cansou tentando fazer você falar, ensinei-lhe
ora uma coisa, ora outra; quando balbuciava, selvagem, sons confusos e vazios, como um animal, eu dei aos teus
pensamentos as palavras que conseguiam fazê-los conhecer”. E Caliban responde: “Você me ensinou a linguagem
e o proveito que tenho é que aprendi a amaldiçoar....” A primeira coisa que Caliban aprendeu, o primeiro
valor da sua veemência, da sua paixão verbal é o fato de amaldiçoar, é a capacidade
de exprimir a hipérbole da maldição.
Assim, uma das saídas para escapar da linguagem repisada e monótona da TV, da linguagem da Web, feita
de poucas sílabas e politicamente correta, foi o vernáculo da imprecação, foram os
diversos tipos de maldições locais, que nascem de cada terra de cada parte do mundo. E é interessante
pensar que se trata do início de uma espécie de explosão da alma emotiva: no mito de Babel
as origens da dispersão dos homens derivam, se assim quiserem, de uma “maldição” por parte
de Deus. Assim um dos modos de passar do terrestre ao imaginativo, do universal ao particular e ao local é
a hipérbole, o excesso da maldição.
A maldição é só um dos tons da hipérbole: a primitiva ponte lingüística,
do terrestre ao imaginativo, é mais hipérbole que metáfora porque a metáfora traduz
significados, enquanto a hipérbole traduz paixões. Em Shakespeare encontramos um tipo singular dessa
fortíssima exageração: uma exageração ordinária, ofensiva, que se vangloria,
que amaldiçoa.... Aquilo que Oscar Wilde dizia da língua de Shakespeare, que definia “rude, vulgar,
exagerada, fantasiosa, obscena”.
Às vezes, quando estudamos os grandes textos da cultura, esquecemos como eles estejam enraizados no terreno
da língua. Em Shakespeare isto é de uma clareza impressionante: existem maldições sobre
maldições, drama após drama. “Não há nada de equilibrado nas nossas naturezas
malditas, mas uma patifaria total”. Cleópatra exagera com uma hipérbole extraordinária: “
Melhor procurar uma pacífica tumba em algum abismo do Egito... melhor jazer nua na rigidez da morte, sobre
o lodo do Nilo, presa de insetos devoradores, objeto de horror e de repugnância!”
É isso que deixa Shakespeare tão rico e tão difícil de traduzir, o seu ser enraizado
numa língua que toca a terra, os antepassados, a expressão comum e vernacular. Shakespeare não
sabe falar bem de Internet; e Hamlet diz: “Patife sangüinário, traidor, lascivo, impiedoso... Ah, vingança!”
Faz-me pensar que se usássemos uma língua mais similar a essa, teríamos talvez menos “Littletownes”,
famílias mais serenas mesmo se menos “politicamente corretas”, sem violência: agora a violência
da televisão tomou o lugar do impulso das paixões.
O simples fato de nós precisarmos de duas línguas para transmitir esse meu pensamento me ajuda a
fazer uma outra consideração. A tradução, mais do que ser considerada uma traição
(como vocês dizem, tradutor-traidor) é um ato de reduplicação que evita a unicidade
do significado. Uma tradução pode constituir também um progresso, porque entra-se na posse
de ambos os sentidos, mais do que uma perda. Alguém poderia objetar: “Mas quanto se perde na tradução!”
Não, você obtém duas mentes extraordinárias, não somente uma; você tem
uma duplicação, uma arte em si, que evita a unicidade do significado. Nós temos muitíssimas
traduções de Homero, muitíssimas traduções de Shakespeare em outras línguas.
Assim, a tradução abre para a ambigüidade, para a riqueza da mente metafórica.
Precisamos fazer um tipo de operação de reduplicação sobre a idéia de universalismo
redutivo contra a qual tenho, por assim dizer, desferido o meu ataque. Devemos evitar uma atitude feita de oposições:
universal-particular, abstrato-concreto, o tempo anterior a Babel, com a sua torre unitária e a efetiva
diversidade que se difundiu pelo planeta, unidade-multiplicidade. Porque isso poderia querer dizer que a única
possibilidade de uma língua universal é semelhante àquela que encontramos na ciência,
na arquitetura - o estilo internacional -, na matemática, e isto é uma língua abstrata. Poderíamos
ser levados a pensar que a língua unificante universal deva ser uma língua abstrata ou uma super-língua,
mas eu acredito que exista um outro tipo de língua universal, que se revela em cada particular da natureza,
como imagem: a chama de uma vela, uma folha de árvore, o latido de um cão à distância,
a luz das estrelas, as ondas do lago que rebentam na margem, o perfume que se eleva de uma sopa quente, a fumaça
da lenha, a mãozinha de uma criança na nossa: cada uma destas imagens é uma imagem particular,
cada uma é uma experiência universal.
Não há nada de abstrato. Estes também são universais, mas não têm nada
a ver com os universais da Internet: porque exigem uma linguagem rica de imaginação, e são
concretos, exigem presença física, paixão emotiva, a experiência universal do desejo
e do ciúme, da perda e da dor, da serenidade e da beleza. Estes universais são ao mesmo tempo profundamente
pessoais, individuais, mas constróem as bases para a comunicação entre as pessoas, e entre
as pessoas e o mundo. Vico as teria chamado “universais fantásticos”, pertencentes à língua
da “anima mundi”.
E agora um pequeno parênteses sobre o modo pelo qual o mundo nos fala através de tais imagens: o cão
que late à distância, o perfume da sopa quente, a lenha queimada... Alguns antropólogos americanos
têm passado muitos anos estudando os Apaches, que vivem no Sul do Arizona: talvez vocês os conheça
através dos filmes western, onde representavam os implacáveis inimigos dos bons, uma das últimas
tribos a ser subjugada. Para os Apaches a língua é ligada estreitamente aos lugares: os nomes dos
lugares contêm umas descrições - como de resto os nossos. Faço-lhes um exemplo: há
um lugar que se chama “Lá-mesmo-onde-se-cai-no-meio-das-árvores”. Acontecem eventos em lugares precisos,
os lugares nos contam alguma coisa, há uma moralidade nos lugares, existem lugares de ensino, que fazem
com que as pessoas estejam cientes daquilo que é certo e do que não é, e o fazem de maneira
muito refinada.
Há lugares onde acontecem coisas estúpidas, e seria bom saber quais coisas estúpidas podem
ocorrer nesses locais, e qual lição também vem deles; existem lugares onde se verificam conflitos,
como aquele no qual se encontraram Édipo e seu pai: aquele era um lugar, porque havia uma lição,
naquele lugar. Há uma lição que se deve aprender através dos lugares, como através
da gruta onde se encontraram Eneas e Didão. Uma tragédia, um lugar pelo qual aprender. Os nomes dos
lugares e dos deuses da Grécia Antiga eram nomes locais, não havia uma Afrodite abstrata em Talete,
havia uma para cada realidade, ligada à água, a esta água, a este templo, a esta gruta, a
esta rocha, e assim por diante. Todas eram realidades individuais e locais.
Como disse um escritor, os Apaches têm um nome para cada lado do rio, mas nenhum nome para o rio; eles entendem
o particular, o local. E o discurso poético, a metáfora, a língua originária traz muitos
significados nas imagens. Embora eles sejam particulares, são também intensos, ricos como qualquer
outro universal: são, se quisermos, mais arquétipos simbólicos que puramente sinais. Acreditar
que a comunicação pede uma língua universal, abreviada, uma Neolíngua à la Orwell
significa reduzir a comunicação a mera informação, transformando a informação
e a mensagem em “dados”. Uma mensagem é alguma coisa a mais que um conjunto de “dados”. Uma mensagem é
um anghelos, e cada nação, diz o Gênesis, tem o seu anjo, porque tem a sua linguagem.
Os anjos podem ainda falar entre si porque a sua língua é a língua desse mundo: não
creio que falem Teologia, creio que falem Natureza. Falam a língua da lenha que queima, da luz das estrelas,
do latido de um cão à distância. Por causa de Babel, todos os povos que não se entendem
entre eles podem ao contrário entrar em contato um com o outro através deste profundo universalismo
da psique no nível arquetípico da existência, através do fundamento poético da
mente.
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