Essa semana fui acordada por um sonho. Um sonho que apresentava
imagens desse encontro. No sonho, estávamos [os pesquisadores do LEP- Laboratório de Estudos da Personalidade] reunidos numa sala
com a Laura (orientadora do grupo)
que falava pra gente ir para a sala número 1, para fazer uma espécie de preparação para esse
encontro, que é o I Simpósio Junguiano do Instituto de Psicologia da USP.
Chegava lá e via um grupo de pessoas
“ensaiando” para fazer
uma apresentação – era um grupo
maior do que somos na realidade, atualmente sete.
Estavam todos vestidos com
roupas muito
coloridas e maquiados. Parecia que cada um que ia para o palco, precisava se apresentar ao público, através de uma dança ou gestual complexo: faziam movimentos que
subiam dos pés e das pernas, passavam pelos quadris, braços, tórax, pescoço e cabeça – o movimento ia subindo de baixo
pra cima.
Parecia mesmo uma dança de rua, tipo “break” dos anos 80! As roupas eram feitas de muitos retalhos coloridos; e junto com a maquiagem, lembrava e fazia todos parecerem “clowns” [palavra inglesa para palhaço; termo também associado ao sentido da experiência trágica].
Antes
de subir ao palco, a pessoa tinha
que ficar
ali embaixo, aos pés do palco, observando e se preparando com a vestimenta e a maquiagem para se juntar aos colegas e engrossar o caldo.
Eu ainda estava ali
- nessa espécie de anti-palco, com mais dois ou três colegas,
experimentando minha vestimenta – era uma espécie de vestido ou túnica branca de renda, cujo desenho era
todo entremeado formando pequenas flores e eu me
dava conta, ao passar a mão sobre
ele que,
pela textura, estava do lado avesso.
Logo
depois, eu me via
já vestida, mas tirava a túnica-vestido e, um pouco
preocupada em me colocar nua diante dos colegas que
estavam comigo, dava um jeito de me vestir novamente, tentando cobrir a parte superior do meu corpo. Ao vestir a túnica mais
uma vez, me dei conta que
estava de novo do lado avesso - dessa vez, percebia isso
pela costura lateral que
estava à mostra.
Enquanto essa tentativa de achar a roupa certa
- talvez o jeito idealmente certo
de estar aqui
hoje se passava, um pensamento de fundo vinha à minha mente: preciso ligar
e saber se o meu computador ficou pronto! Esse dado da realidade objetiva ficou presente o tempo todo no sonho e me vinha
à mente enquanto eu e meus colegas observávamos os outros praticando sua dança conjunta ali
no palco. Um deles comentou comigo: “essa dança deve ser
bem difícil! Olha só como tem que mexer o corpo todo!”.
A preocupação com
o computador foi crescendo no sonho e eu tive que sair
dali pra procurar, numa outra sala,
um telefone pra ligar
para o técnico e ver se o computador já estava pronto! Chegando lá, não tinha telefone!
Lembro que antes
de me retirar pra essa sala, eu pegava o
vestido-túnica-de-renda-branca na mão
e me surpreendia com algumas peças
de roupa íntima que estavam ali junto dele.
Voltava, então, para o pé do palco, na sala anterior e me preparava pra me juntar ao grupo.” (fim do sonho)
Antes
de fazer minhas considerações, quero citar uma passagem do
Jung que nos
servirá como guia
pra “ficar com esse
sonho”. É uma passagem que
está no livro “O Homem e seus Símbolos”, na introdução. Nesse texto, Jung está tentando apontar as diferenças de seu método em relação ao método da associação livre
de Freud. De quebra, ele está fazendo considerações a respeito de sua própria concepção de aparelho e funcionamento psíquico. Vamos a ele, então:
“[...]
Conclui, seguindo essa linha de raciocínio, que só
o material que
é parte clara
e visível de um sonho pode ser utilizado para sua
interpretação. O sonho tem seus próprios limites. Sua própria forma
específica nos
mostra o que a ele pertence e o que dele se afasta. Enquanto a livre associação, numa espécie de linha em zigue-zague, nos afasta do material original do sonho, o método que
desenvolvi se assemelha mais a um movimento circunvolutório cujo centro é a imagem do sonho. Trabalho em redor da imagem do sonho e desprezo qualquer tentativa do sonhador para
dela escapar. Inúmeras vezes, na minha atividade profissional, tive de repetir a frase “vamos voltar ao seu sonho.
O que dizia o sonho?” (p.29)
Eu
optei por vir
a esse encontro sem um texto formal ou arquivo preparado em
datashow, como tinha
pensado em fazer
a princípio. Também a idéia de apresentar fotos das peças criadas por alguns pacientes usando o barro e o tecido - elementos que
poderiam ser chamados de co-autores em minha pesquisa – essa
idéia também me abandonou, se esvaindo como um barco que some em meio a um nevoeiro. Todas
essas idéias estiveram presentes nas semanas que antecederam o dia de hoje, enquanto ia “encubando” a forma e as idéias de apresentar, ainda que brevemente, meu projeto de pesquisa nesse Simpósio (são só 15 minutos!!).
Acordei na segunda-feira
de manhã com
esse sonho
que acabo de relatar e de antemão digo que não
tenho pretensão de apresentar interpretações para
ele, até porque esse
não é o espaço para isso.
Se me utilizo dele para iniciar minha fala hoje é por reconhecer que
há uma força nas imagens apresentadas no sonho,
que se sobrepõem a qualquer outro
recurso tecnológico que eu
pudesse usar e, em especial, porque as imagens me
guiaram ao redor de pelo menos duas questões fundamentais que
se inter-relacionam em minha
pesquisa [a matéria-imagem e a consciência] e que são fortemente norteadas pela seguinte afirmação de Jung:
“A psique é imagem e um imaginar. Todo conhecimento direto e imediato que se faz em nós se dá através das imagens. Se assim não fosse, não haveria consciência nem fenomenalidade
da ocorrência. (Jung, 1989 par. 889)”
Então,
eu resolvi abusar da ocorrência do sonho e compartilhar com vocês
algumas idéias que
invadiram minha consciência e me levaram a imaginar coisas. Imaginar e escrever o que estou contando pra vocês.
Acho curioso comentar também que,
para quem
me conhece um pouco e sabe da
presença do computador e do telefone em minha vida cotidiana, o quanto propor minha
apresentação hoje
como uma coisa mais artesanal é bastante inaugural pra mim,
ao mesmo tempo
que é inaugural esse encontro de psicologia analítica na USP – o primeiro em
23 anos! Costumo apresentar minhas idéias num formato mais apolíneo ou convencional, o que é ou era mais
típico em mim até esse momento, pelo menos.
Enfim,
fui acordada na segunda-feira com
esse sonho,
talvez porque estivesse mesmo muito
preocupada com o fato de meu computador estar quebrado há cerca de uma semana. E vocês podem imaginar o que é ficar sob a ameaça de viver sem essa máquina nessa época de Simpósio e de
qualificação?! É mesmo de tirar o sono. Mas não os sonhos!
E eu fiquei muito impressionada com
as imagens desse sonho e de novo,
com a capacidade da psique apresentar saídas para
minha tensão diante da necessidade de ter um texto pronto que pudesse ser
formatado para trazer aqui hoje.
E eu achei que podia vir
para esse
encontro sem
o computador, sem o data-show, sem o texto pronto! Até porque meu
texto, o da dissertação, ainda está no forno, está
sendo cozido, ou seja, não está pronto!
O que venho contar para
vocês, então, é fruto de meu percurso como pesquisadora do Instituto de Psicologia da USP, em parceria com
esse grupo
de pesquisadores com
os quais ando descobrindo o que é fazer pesquisa em comunidade, ou comum-unidade, mas também pluralidade, numa diversidade de temas e estilos que
podem ser observados nas falas dos colegas que me antecederam.
A Laura, nossa orientadora, se oferece como
uma companhia um pouco diferente dos demais – ela às vezes vai na frente, lançando luz em alguns lugares escuros que
me ajudam a não me perder. Outras vezes, ela me deixa ir sozinha,
confiando que minha
alma sabe um pouco do caminho, afinal me
trouxe até aqui.
Alma,
um termo
tão particular na psicologia analítica e por vezes
mal compreendido pela psicologia em geral, não deve ser
entendido ou associado a concepções metafísicas, mas especificamente na concepção de
Jung e de James Hillman, um outro
autor importante em minha
pesquisa sobre
a materialidade e a atitude da consciência.
Alma
se refere à uma experiência de profundidade psíquica. Alma é um evento psíquico, que surge num encontro pessoal e particular com
alguma coisa do mundo. Alma se apresenta através de imagens, portanto, trata-se de uma perspectiva psicológica.
Imagem, outro conceito fundamental na psicologia analítica, não deve ser entendida como algo
exclusivo do campo da percepção ligada a objetos exteriores, embora inclua esse universo sensorial. Imagem e Alma, como bem salientou Jung, andam de mãos dadas, porque a imagem é a linguagem da psique.
Considerar a imagem nesses termos é considerar uma noção de realidade que não
precisa ser
submetida aos parâmetros da realidade objetiva. Nesse caso, falamos de realidade psíquica e é só com essa, a meu ver, que o psicólogo deve
se ocupar ou preocupar. Realidade psíquica, como concebo, especialmente a partir de minha prática clínica, não precisa ser
restringida a noções de um mundo psíquico interno, introjetado, literalmente localizável “dentro” do indivíduo.
Esse
é o grande desafio de minha pesquisa – recorrer ao mundo concreto, ao “mundo lá fora”
- para usar
uma “expressão feliz”
de Hillman, quando retoma a noção de anima mundi ou alma do mundo em Jung. Os objetos do mundo, diz Hillman, têm alma
e querem dizer algo
que vá além “de minhas projeções, do meu mundo interno, do meu narcisismo.”
Meu
objeto de pesquisa trata da inclusão e criação de objetos concretos no setting – caracterizando
o que chamo de “materialidade”, de acordo com os conceitos que aqui
tento apontar da psicologia analítica.
O conceito que
também serve à noção que tento apresentar como base para “materialidade”
é a individuação, uma idéia que
é muito cara
à psicologia analítica; para alguns, o ponto fundamental dessa teoria.
Segundo Jung, o processo de individuação, como o próprio nome já diz, trata de um trabalho processual de transformação psíquica. A “lapidação”, por assim
dizer, do indivíduo psicológico, não é algo dado
naturalmente, embora a noção de desenvolvimento de uma consciência individual possa estar naturalmente presente no ser humano, uma vez que sua
individualidade já
vem marcada no próprio corpo
físico.
Nesses termos, a
Individuação seria uma “opus contra naturam”. A individuação é fruto de trabalho psíquico, é a opus que
caracteriza a psicoterapia e demanda para isso
energia e dedicação ritualísticas. É um trabalho do ego e da consciência com
as imagens e processos inconscientes.
Partindo dessa idéia,
proponho que a materialidade caracteriza-se como
algo presente naturalmente nas coisas concretas do mundo.
Aliás, como recentemente nos
esclareceu a pesquisa de nosso colega, André Mendes, concreto deve ser distinguido de literal. Concreto é aquilo que
cresce junto.
Ao considerar os objetos trazidos pelos pacientes para
o setting ou ao oferecer a eles um
espaço-ritual para a criação de objetos, considero que o paciente está, tal qual o alquimista, trabalhando a psique na matéria, dando materialidade à
sua psique.
Assumo, portanto, o termo materialidade para todo e qualquer material ativamente incluído ou simplesmente presente diretamente na sessão terapêutica, desde que
reconhecido em sua
alteridade. Nesse sentido, trata-se de algo concreto, com massa, volume, cheiro e tonalidade, em estado bi ou tridimensional que
provoca o corpo, a consciência, inaugurando o processo imagético.
A materialidade, então, pode ser um material amorfo, um objeto já criado no processo terapêutico ou ainda um objeto trazido pelo paciente para a sessão, com o qual se
estabelece uma relação particular do analisando, em diferentes momentos do processo terapêutico.
A materialidade refere-se à qualidade do que é material, portanto, é uma presença real, reconhecida em sua natureza
idiossincrática, no encontro terapêutico. Ela encerra em si características próprias incrustradas ou encarnadas num determinado elemento ou matéria-prima. Trata-se de uma qualidade natural engendrada em sua
concretude que, “diante de” ou “no contato com” o analisando, inaugura e permite que se desenrole uma vivência íntima do paciente, um encontro erótico com
o objeto que
se oferece para uma construção inter-subjetiva de base
imaginal.
Uso
esse termo
e não especificamente matéria, matéria-prima ou material, justamente por
considerar já haver uma excessiva atribuição de sentidos a essas palavras, tanto no senso comum como no
especializado, não só
no campo da psicologia, mas também de outras disciplinas da área do conhecimento.
Materialidade, então, refere-se a um atributo de um elemento ou objeto concreto que
“provoca” a consciência e “convoca” o corpo de diferentes maneiras, de acordo com a natureza da matéria que
se faz presente no setting.
Esse encontro com a matéria coloca-se, a partir de minha observação e acompanhamento de processos
psicoterapêuticos, como um
dos caminhos privilegiados de se “fazer alma” – na medida que
inaugura uma experiência psíquica de profundidade que
se dá na emergência das imagens concretas na matéria. A imagem é uma cena, uma aparição, uma epifania da alma e tem algo a apresentar, sem a necessidade de referentes que
a representem.
A imagem não
é a pintura ou
o desenho ou
a escultura tomados literalmente, mas é a concretude dessas formas e a
possibilidade de manejá-las e de interagir concretamente com
elas que
permite o exercício imaginal, que é constantemente
intermediado e influenciado pela materialidade.
Imaginal é a condição da alma “circum-ambular” ao redor das imagens como propõe Jung e de criar
uma relação erótica com o que brota das mãos e do corpo. Eros, aqui entendido como uma condição de se vincular com
o que toca
e de se deixar tocar,
flechar, por assim dizer.
Trata-se de uma atitude imaginal do ego que, poroso, permite-se penetrar e fecundar pela matéria e pelas imagens, como sugere Hillman.
Uma parceira fundamental entra em cena,
então: a consciência. Pois há que haver um ego e há que
haver uma consciência capaz de se deixar imaginar, numa atitude de abertura à alteridade da matéria em suas
diferentes manifestações elementais, como
tão vasta
e poeticamente discutiu Bachelard, a partir da natureza dos diferentes elementos: água, ar, terra, fogo.
Há que haver
uma consciência capaz
de se oferecer às imagens para que
elas possam subir ao palco e se apresentar fenomenicamente ao mundo. Não se trata de uma encenação, mas de um encontro animado [com alma],
das diferenças que
se apresentam em diferentes texturas, cores, gestos, tonalidades.
Talvez a imagem de meu sonho apresente à minha consciência o encontro de hoje como um palco de aparições
coloridas, texturizadas - indicando um jeito plural e ao mesmo tempo individual, de fazer alma. Um jeito com
características de “clown”, jeito de palhaço. E quem dirá qual
é o jeito certo
da alma se apresentar? Não será como algo que
desconcerta? Ups! Lembrei do meu computador no conserto, que me
permitiu estar aqui
hoje fazendo alma de um jeito inusitado para mim, e por isso mesmo, imaginal, vivo,
presente, com a alma colocada na concretude desse encontro, também inaugural para
a psicologia junguiana e o instituto de psicologia da USP.
Para
finalizar, uma citação inspiradora de Bachelard: “dê qualidade às coisas; dê do fundo do seu coração o poder justo
aos seres agentes e o universo resplandecerá".
(BACHELARD,
1961 – A Chama de uma vela