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Adoçando os corpos: o preocupante recuo do feminismo

                                                                                                       Conchita Pazo

Trabalho apresentado no XI Simpósio Internacional da Associação Junguiana do Brasil, Civilização em Transição. 31 de outubro a 2 de novembro de 2003, Hotel Porto Belo, Mangaratiba, RJ

 

Foi assistindo um comercial de televisão sobre adoçante artificial que me inspirei em escrever essa comunicação.

Um galã de novelas identificado como um conquistador nos diversos personagens que realiza - sempre aparecendo em cena com o peitoral e os bíceps à mostra -,  recomenda o uso do adoçante e sua voz, ao fundo, deixa em evidência diversas mulheres, lindas, de vantajosos seios e sensuais, adoçando sucos e cafés, tornando tudo “delicioso e apetitoso”, numa clara alusão e aproximação com as insígnias dessas exuberantes mulheres-objeto.

Em seguida lembro-me da personagem-símbolo de mulher de minha juventude: Malu Mulher. Neste seriado, Regina Duarte representava uma mulher separada, independente, criando sua filha sozinha, trabalhando fora e tendo seus namorados, na busca de uma relação vital, sincera e intensa.

Vinte e poucos anos separam esses dois momentos e a imagem da mulher nos meios de comunicação parece ter andado para trás. Por que o recuo, o retrocesso, agora, quando somos 50% da força de trabalho, justamente quando conseguimos, após a revolução sexual feita substancialmente através da pílula anticoncepcional, separar sexualidade de reprodução, após longos anos de lutas e tentativas de reorganizar e redefinir os papéis femininos e masculinos?

O corpo é, como sustenta o filósofo Michel Focault, um lugar prático e direto de controle social. Segundo Bordo (Bordo, S., 1997: p. 35), em História da Sexualidade, “Focault salienta que por meio da organização e regulamentação do tempo, espaço e dos movimentos de nossas vidas cotidianas, nossos corpos são treinados, moldados e marcados pelo cunho das formas históricas predominantes de individualidade, desejo, masculinidade e feminidade”. Nunca, em nenhum outro momento histórico, nós, mulheres, gastamos tanto tempo em busca de uma forma ideal de corpo. Segundo Focault, os corpos femininos tornam-se o que ele chama de “corpos dóceis”: “aqueles cujas forças e energias estão habituadas ao controle externo, à sujeição, à transformação e ao aperfeiçoamento” (ibid.:  p. 20). Não sem uma dose de ironia vemos a coincidência significativa entre a docilidade prometida do anúncio e sua efetiva apropriação pelos corpos femininos. Por meio de disciplinas rigorosas e normatizadoras sobre a dieta, a maquiagem e o vestuário somos transformadas em pessoas que se sentem menos capacitadas para as intervenções sociais e mais inclinadas a infindáveis retoques em nossos corpos. Necessitamos de um discurso político sobre o corpo feminino. Necessitamos, além de todos os esforços já exercidos pelos diversos movimentos feministas, desmontar os discursos masculinos que historicamente têm moldado e demarcado o corpo da mulher e que a levaram a uma contínua exclusão nos processos decisórios.

O movimento feminista anglo-saxão cunhou no final dos anos 70 o termo gênero e o elevou à categoria de análise a fim de proporcionar um instrumento passível de discussão da mesma maneira que as categorias de raça e classe. As feministas necessitavam delinear o campo que se inseriam e o uso do conceito de gênero tinha um caráter de insistência na rejeição ao determinismo biológico implícito no uso de termos como sexo ou diferença sexual. O gênero sublinha também o aspecto relacional das definições normativas de feminilidade, daí a importância também de estudar o “homem”, sua história e valores.

Segundo Joan Scott (1995), gênero é uma categoria social imposta sobre um corpo sexuado, é uma maneira de indicar as construções culturais, a criação inteiramente social das idéias sobre os papéis próprios aos homens e mulheres. É uma maneira de se referir às origens exclusivamente sociais das identidades subjetivas do homem e da mulher.

Guardemos o que até aqui foi escrito e façamos um giro até 1927 quando Jung escreveu o texto: “A Mulher na Europa” (CW, X/3, 1993).

Atenho-me à epígrafe desse texto, de Niesztche, intrigante por suposto, e que diz assim: “Será que você é um daqueles que pôde escapar de um jugo? Há muitos que jogam fora seu último valor ao jogarem fora sua serviçalidade”. Por que escrever sobre jugo e serviçalidade justamente quando aborda a questão da mulher?

A primeira vista parece como se Jung estivesse dizendo para as mulheres:               “- Permaneçam pelo menos serviçais aos homens, garantindo assim um lugar, deixem de  querer trocar de papéis, pois não conseguirão nada além de uma neurose”. Será essa uma interpretação reducionista de uma feminista irritada por tantas lutas, muitas perdidas?

Observemos algumas passagens desse texto no qual Jung associa a mulher à natureza, uma natureza feminina, imutável, essencial e a-histórica, sempre pensada dentro de uma relação subordinada ao homem. Lembremos também que Jung não foi “beneficiado” pela pesquisa do feminismo, que emergiu como tentativa de desvendar a dimensão social e histórica do pensamento e do agir da mulher e que se constituiu numa contribuição fundamental como crítica da cultura e proposta de mudança.

        “Não há mulher na Europa sem o homem e seu mundo” (& 240).
        “Nem do ponto de vista político nem econômico ou espiritual a mulher é um fator visível” (&240).
        “A mulher se deixa convencer pela projeção de sentimentos masculinos” (&240).
        “O homem deveria viver como homem e a mulher como mulher” (&240).
        “A mulher ao abraçar uma profissão masculina, ao estudar e trabalhar como um homem, passa a fazer algo que no mínimo não corresponde a sua natureza feminina, podendo mesmo ser prejudicial” (&243).

Jung insere-se dentro da linha do pensamento ocidental que define a “natureza feminina” pela sua proximidade essencial à idéia de natureza desde o ponto de vista biológico: um corpo preparado para gestar, parir e amamentar; com ciclos e ritmos fisiológicos (menstruação, períodos férteis, menopausa). Essa diferença com o homem sempre foi interpretada como inferioridade cultural, política e social, determinando a exclusão feminina da cultura. Algumas funções sociais decorreriam das características fisiológicas femininas, ou seja, o cuidado do lar e da prole assim como características psíquicas adaptadas à funcionalidade das atribuições de sua natureza como passividade, emoção, dependência emocional, instabilidade de humor devido aos ciclos biológicos, identidade difusa e exageradamente relacional.

Jung “explica” nosso comercial quando em muitas passagens ressalta a característica da mulher em deixar-se convencer pelas projeções de sentimentos masculinos, além de permitir-lhes realizar as intenções que têm a respeito dela. A mulher encontrar-se-ia presa ao dinamismo da natureza utilizando métodos indiretos para alcançar seus objetivos. “Como a natureza, também a mulher tem a tendência de trabalhar indiretamente, sem nomear seu objetivo” (&274).

Não sejamos, entretanto, injustos com Jung. Numa leitura atenta de seu texto, percebemos os vários momentos em que ele desconstrói essa visão unívoca sobre os papéis simbólicos de homens e mulheres e conclama contra uma parcialidade cega e litigiosa entre homens e mulheres. O jogo de sua escrita estrutura-se em avanços e retrocessos na sua apreciação dos rumos tomados pelas mulheres desde a metade do século XIX, muitas vezes chegando a parecer que, ou são dois Jungs escrevendo ou são dois momentos distintos e distantes de sua escrita. Ele diz: “ a mulher começou a assumir profissões masculinas, a tomar parte ativa na política. Será fácil constatar que está pronta a romper com um padrão de sexualidade essencialmente feminino, de inconsciência e passividade aparentes, e fazer uma concessão à psicologia masculina, para erigir-se em membro visível da sociedade” (&242, grifo meu). E segue assim: “Esse passo para a autonomia social foi uma necessária resposta aos fatores econômicos e outros, mas não passa de um sintoma” (&243, grifo meu).

Apesar de Jung postular uma inferioridade da mulher quanto aos seus aspectos intelectivos, ou quando se entrega a trabalhos importantes por amor a uma coisa - sendo esses elementos não constitutivos da sua natureza -, ele diz que para o homem o “Eros é uma região de sombras que o enreda no inconsciente feminino e no psíquico, enquanto o Logos é para a mulher uma sutilidade enfadonha e moral, quando não categoricamente temida e abominada por ela” (& 256).

A partir desse momento do texto, Jung passa a considerar a necessidade de cada um dos gêneros ceder ao outro, misturarem-se, sofrerem uma mútua assimilação do que cada um desenvolveu como “características próprias da natureza de seu gênero” e que,  desastrosamente, se deu de forma rígida e unilateralizada. “Há em nossa época uma urgência do desenvolvimento integral do ser humano, uma aspiração por sentido e plenitude, uma crescente aversão pela absurda parcialidade, pela instintividade inconsciente e pela cega contingência” (& 269).

Voltemos agora à inquietude inicial: o que pode significar o chamado recuo vivido nos dias atuais, com a objetificação do corpo feminino, quando nos anos 70/80 todo arsenal estético/cultural da feminilidade (a mulher na mídia, os concursos de beleza, a ditadura do corpo escultural) eram vistos como meios de manutenção da dominação de gênero?

Estamos vivendo uma aceleração jamais vista em outras épocas.  O efeito estufa, o neoliberalismo globalizado e excludente, o fim dos recursos naturais, as biotecnologias tão aterrorizantes, as guerras preventivas, tudo isso gerado pela aceleração tecnológica dentro de um mundo cada vez mais competitivo.  Os ecologistas alertam que, se o processo de destruição do planeta não for revertido, 2050 será o ano do chamado “ponto de irreversibilidade”, a partir do qual de nada adiantarão os esforços por recuperação.      

Não podemos, pois, ”perder a batalha política” que está sendo travada sobre a energia e os recursos de nossos corpos femininos, uma batalha na qual algumas metas feministas previstas para dar poderes às mulheres estão sendo derrotadas. Bordo vê  “nossos corpos como um local onde temos de trabalhar para manter nossas práticas diárias a serviço da resistência à dominação de gênero e não a serviço da “docilidade” e da “normatização” (1997: p. 37).

Portanto, temos de não desperdiçar nossas energias com o recuo da “docilidade” e sim reafirmar a importância e a necessidade de nossa entrada no domínio público masculino como condição essencial para reverter o processo de destruição do planeta. O desafio atual consiste em refletir como devem ser redefinidas as relações de gênero para que, junto com outras forças, possamos construir uma alternativa salvadora para a humanidade e para a própria terra.

Em brilhante resumo do que deve ser a união de opostos como forças geradoras de vida, Leonardo Boff indica o possível caminho: “Urge resgatarmos o melhor de ambas as tradições, a do matriarcado e do patriarcado, seja como instituições históricas e culturais, seja como arquétipos e valores. Importa inseri-las num novo paradigma no qual os princípios masculino e feminino, os homens e mulheres juntos inaugurem uma nova aliança de valorização da alteridade, apreço e reciprocidade e da potencialização de convergências em vista da salvaguarda da integridade do criado e da garantia de um futuro esperançoso para a humanidade e o planeta”. (2002: p. 20).

Jung, que não pôde, como já dito, se beneficiar das pesquisas contemporâneas sobre a questão de gênero, atendo-se a noções essencialistas do que é ser homem e do que é ser mulher, pôde, entretanto, condizente com pensadores(as) atuais, antever e nos legar a última frase de seu único texto dedicado à mulher: “A mulher de hoje está diante de enorme tarefa cultural que significa talvez o começo da nova era” (& 275).

Mãos à obra!

 

Bibliografia

BOFF, Leonardo e MURARO, Rose Marie. “Feminino e Masculino. Uma nova Consciência para o Encontro das Diferenças”,  Rio de Janeiro: Sextante, 2002.

BORDO, Susan R. “O Corpo e a reprodução da feminidade: uma apropriação feminista de Focault”, in: Gênero, Corpo, Conhecimento. Orgs: Alison M. Jaggar e Susan R. Bordo. Rio de Janeiro: Ed. Record: Rosa dos Tempos, 1997.

JUNG, C.G. “A Mulher na Europa” em Obras Completas, Volume X/3, Civilização em transição. Petrópolis: Vozes, 1993.

SCOTT, Joan. “Gênero: uma categoria útil para a análise histórica”, Tradução de Christine Rufino Dabat e Maria Bethânia Ávila, Recife: S.O.S Corpo, 1995.

 

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