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O ENCONTRO DE DOIS MUNDOS
Iza G. C. Chain
| Este texto corresponde ao capítulo 2 da dissertação de mestrado intitulada "O Diabo nos Porões das Caravelas: Mentalidades, colonialismo e reflexos na constituição da religiosidade brasileira nos séculos XVI e XVII." Visite a seção Teses para obter outras informações. |
2.1 Empreendimentos de Além - Mar e Mentalidades
Processo que teve seus contornos mais definidos a partir do século XV e que atravessou os umbrais da Idade Moderna para engendrar importantes transformações sócio-político-econômico-culturais como também para se configurar em um dos maiores feitos da História , as Descobertas Ultramarinas revelaram aos olhos estupefatos dos navegadores europeus do período quinhentista -- estupefação que perdurou pelos séculos subsequentes -- as terras e humanidades ignotas ao sul do Equador , porção do planeta também chamada àquele momento de " Mundo Austral " .
Dado característico deste movimento de expansão
ultramarina, o acentuado interesse na existência de populações e locais que até então
se ocultavam ao conhecimento euro - ocidental não se restringiu, no entanto, aos primeiros momentos das
Grandes Navegações . Desde a Antiguidade, partes desconhecidas do Globo e povos insólitos
geravam inúmeras especulações, dentro das quais podemos ressaltar as maravilhosas Ilhas de
Ogígia e a Ilha dos Feáceos na " Odisséia " de Homero , os hiperbóreos ( humanidades do Pólo Norte )
e os hipernotos ( humanidades do Pólo Sul ) nos tratados de Heródoto, as Ilhas Afortunadas na "
Olímpica
" de Píndaro e a massa continental denominada Antictônia pelo gramático Crates de Mallos ,1 só para citarmos alguns
exemplos.
A travessia do grande mare oceanu innavigabile que descortinou para as civilizações européias que se lançaram ao mar as terras e humanidades encontradas abaixo da linha equatorial realizou-se, certamente, na concorrência de uma pluralidade de fatores que , ora se completavam sincronicamente , ora se tornavam inconciliáveis. Dentre eles podemos ressaltar o crescimento mercantil e econômico, os progressos técnico-navais notórios, a demanda crescente de metais preciosos e das especiarias de gênero alimentício, especiarias estas que tiveram seus preços elevados com a tomada de Constantinpla pelos turcos, o fortalecimento político das Coroas peninsulares, o fim da Reconquista contra os mouros pela Coroa de Castela, uma reapropriação dos relatos -- elaborados desde a Idade Média -- de viagens a países fantásticos, uma expansão significativa do gênero literário épico-narrativo, a majoração da temática do maravilhoso e uma presunção de superioridade religiosa e moral da civilização euro - cristã. 2 Concomitantemente, tínhamos um empreendimento ancorado em conhecimentos geográficos e cartográficos bastante rudimentares, meios de comunicação francamente deficientes 3 — eficientes para sermos otimistas, mas na verdade eram quase inexistentes -- e em um patrimônio imaginário 4 totalmente ébrio de medievalidade no qual figurava a presença de impérios formidáveis , fortunas inauditas, reinos prodigiosos, seres anômalos, demônios abomináveis , monstros pavorosos e paraísos fantásticos , 5 patrimônio que , por sua vez , esforçava - se por descrever mundos dessemelhantes, não enfatizando, contudo , sua realidade ou irrealidade. Neste ponto, mais uma vez , nos deparamos com as ambiguidades e situações incôngruas que se fizeram presentes no alvorecer do Mmundo Mmoderno , haja visto que acontecimentos de cunho marcadamente moderno alimentavam-se de componentes essencialmente medievais.
Para investigarmos as inúmeras correlações entre a empresa ultramarina, o contato com povos desconhecidos e a configuração das mentalidades daqueles que realizaram tais feitos , não podemos nos furtar a tecer algumas considerações rápidas , porém necessárias, ao reconhecimento do campo semântico de um maravilhoso que foi sendo construído e articulado desde o período medieval , já que este foi , sem dúvida , ingrediente fundamental na façanha dos Descobrimentos , chegando mesmo os seus idealizadores e realizadores a serem denominados -- com perspicácia invejável -- de " Viajantes do Maravilhoso ". 6
Seguindo as pistas deixadas por Jacques LE GOFF, percebemos que não poderíamos nos referir ao maravilhoso do Ocidente medieval -- do qual o imaginário dos séculos XVI e XVII se alimentou -- com o nosso instrumental intelectual de hoje , ou seja , definindo-o como um princípio estruturante de uma categoria, mas deveríamos lê-lo como os homens do Medievo o fizeram : uma coleção, um universo de situações e objetos aptos a suscitarem admiração , temerosa estupefação , " [ ... ] coisas perante as quais se arregalam os olhos ... " . 7 Mirabilis, mirabilia ( maravilhoso, maravilha ) no seu sentido mais estrito.
Como outros elementos de uma cultura, o maravilhoso também faz parte de um patrimônio hereditário e , mesmo que cada sociedade , em cada momento, possa criar um maravilhoso específico, este se alimenta sempre de um maravilhoso anterior com o qual não pode evitar o confronto. Uma "hereditariedade" 8 continuada , que pode ser aceita , modificada e até mesmo recusada, mas sempre significando, de qualquer forma, tomada de posições tanto individuais quanto coletivas. Esta herança vai , progressivamente, assumindo várias funções dentro de uma sociedade sem , contudo, quase nunca, abdicar de contaminações anteriores.
O maravilhoso, ilustrado nos vários elementos que o compõem , tem a capacidade de se movimentar fluidamente entre a realidade e a irrealidade, apropriando-se de ambas para engendrar mundos miríficos, corroborados pelo desconhecimento daquilo que se tenta construir. 9 De um modo geral, a produção do maravilhoso se apóia tanto nos mistérios do vislumbrado quanto no desejo imaginário de fecundar algo diferente.10 Cada formulação histórica do mirífico assume, via de regra , formas específicas e desempenha tarefa importante no contexto ao qual se articula e se integra.
Seria de grande utilidade para as considerações às quais nos propusemos , precisar alguns princípios que caracterizam o maravilhoso. 11 São eles : estar sujeito a mutações e hibridações contínuas, situar-se fora do que é considerado familiar , ter como zonas privilegiadas os espaços geográficos desconhecidos , unir antigos modelos com traços inovadores e deslocá-los territorialmente, magnificar aquilo que é vislumbrado e tocado através de excessos com consequente empobrecimento da alteridade , adquirir forma em função do sujeito que alcança , revelar mais sobre a ideologia que o está engendrando e consumindo do que sobre a realidade que declara contactar, expressar-se como ausência de intimidade, distinguir o diverso e ser inesgotável enquanto instrumento de representação.
Logo, tudo aquilo que conseguisse maravilhar , dando a certeza de estarmos diante do extraordinário e do incomum , foi utilizado -- no caso do encontro europeu com outras civilizações -- para expressar um critério de diferenciação cultural entre valores referenciais distintos, a princípio não aproximáveis. O maravilhoso poderia , assim , ser desencadeado pelo ingresso de uma "estranheza" mais ou menos acentuada em um contexto habitual 12 e , ao mesmo tempo, se constituiria em uma ferramenta de incrível utilidade para o resgate de contextos ignotos à familiaridade.13 Dentro deste quadro, -- necessidade de identificar , aproximar , nomear e classificar -- a travessia de oceanos desconhecidos com a consequente descoberta de mundos e seres humanos insuspeitados pôde revigorar nos homens dos Descobrimentos toda a carga de um maravilhoso que já havia sido gestado em tempos anteriores, impelindo-os , através deste mesmo maravilhoso , a buscarem referências em contextos " tranquilizadores " , mesmo que irreais. 14
Vejamos, um pouco mais de perto , então , a "bagagem" , isto é , o patrimônio mental herdado do Medievo, do qual vários quesitos , inclusive com a evidência do quesito diabólico , confluíram para a elaboração e constituição do patrimônio mental dos homens que realizaram a expansão civilizatória da Europa Ocidental a partir do final do século XV , contexto este bastante conturbado e que produziu fortes abalos nas possibilidades e formas de percepção e relacionamento daqueles homens com a multiplicidade de realidades que surgiam , com a heterogeneidade cultural que se impunha à homogeneidade humana.
Na Idade Média, as representações cosmográficas que tentavam ordenar a Terra e o Universo retratavam , inegavelmente , as tradições bíblicas e os ensinamentos dos Santos Padres da Igreja. O mundo e seus elementos se articulavam numa escala de valores que lhes atribuía posições tanto materiais quanto espirituais. Todos aqueles elementos eram percebidos como produto de um ato criativo do Deus soberano, espelhando a mais perfeita ordem daquela Criação. 15 A perfeição da ordem terrestre, reflexo de atos divinamente ordenados, reservava , porém, inúmeras surpresas a todos os que decidissem investigá-la.
No arcabouço mental do Medievo , todo enigma que não pudesse ser decifrado dentro dos limites da Ratio Christiana era tomado como subvertor dos planos divinos , encarado como antítese radical , como mistério assustador , como monstruosidade . Aliás, para o medievalista Claude KAPPLER , o monstro constitui-se num dado do qual não pode se esquivar aquele que pretende fazer uma leitura do imaginário medieval e o seu legado para os séculos posteriores , 16 estando presente nos grandes tratados sobre o mundo natural , nas grandes obras literárias, nas narrativas de viagens e na urdidura das experiências cotidianas daquele período.
Uma das principais características do Cosmos no decorrer da Idade Média assentava-se na gradação dos valores no espaço, isto é, conceitos positivos ou negativos relacionados, respectivamente , ao alto e ao baixo , ao superior e ao inferior. 17 Dentro deste assunto, é o historiador Carlo GINZBURG que não nos deixa esquecer que a realidade, apreendida pela linguagem e pensamento humanos, regula-se por categorias substancialmente antitéticas, não havendo pares de opostos tão universalmente aceitos como os de alto e baixo. Em todas as sociedades conhecidas e analisadas pelas ciências histórica, sociológica, psicológica e antropológica é intenso o valor cultural atribuído a essa contraposição do espaço.18 Tratadistas medievais ancorados em pressupostos aristotélicos que preconizavam a oposição entre os céus incorruptíveis e o mundo sublunar, isto é , terreno, afirmavam que a parte habitável da Terra deveria ser a sua mais luminosa fachada , aquela que estaria voltada para a " dianteira do céu " . A hipótese preferida por tais tratadistas e cosmógrafos , com base na valoração das posições, era a de que a parte de cima configurava-se em espaço nobre e correto, sendo o hemisfério inferior parte impossível de ser habitada, estragada e corrompida pelo " monstro dos monstros " : Satã ! 19
Na verdade, as regiões abaixo da linha equatorial suscitavam inúmeros questionamentos, sendo assunto muitíssimo delicado para os tratados cosmográficos e cartográficos medievais. Às teorias disponíveis naquele momento impunham-se problemas que , à primeira vista , pareciam insolúveis. Seria o hemisfério sul povoado ? E se fosse, tratar-se-ia de seres humanos? A "zona tórrida" com suas águas ferventes seria transponível ou seria o fim da viagem ao " caldeirão infernal " ? Estes eram alguns dos mais controvertidos questionamentos de então. 20
Outra questão que se fazia presente nas elucubrações dos homens do período medieval -- principalmente ao nível erudito, mas também encontrada na esfera popular -- era a irremediável separação entre os hemisférios e as funestas consequências teológicas daí advindas . Tomando por base o livro 16, capítulo IX da " Cidade de Deus " de Santo Agostinho 21 , texto do qual os autores medievais não se afastavam, insistia-se na idéia de que a Palavra do Senhor havia sido pregada em todos os recantos do mundo pelos apóstolos e outros mártires da Era Cristã. Ora , se a "zona tórrida" ainda não havia sido transposta por nenhum mortal, -- por mais especial que fosse esta personagem -- a Palavra Sagrada do Evangelho de Cristo e da Igreja não teria chegado aos eventuais ocupantes do hemisfério inferior, sendo, portanto , inadmissível a existência de uma humanidade que não fosse submetida a Roma e que, principalmente , não fosse culpada por não pertencer a tal condição.
A argumentação teológica neste caso era peremptória: o mundo estava dividido entre cristãos e infiéis , não havendo , em hipótese alguma , espaço para outra categoria de não - cristãos , isto é , para aqueles que não merecessem ser punidos por seu paganismo ou que, até mesmo, desconhecessem a sua condição de pagãos. 22 Por conseguinte , seria mais prudente frente às questões dogmáticas, crer e afirmar categoricamente que o hemisfério inferior encontrava-se inteiramente recoberto por águas escaldantes onde somente criaturas extraordinárias -- leia-se não humanas -- poderiam sobreviver. Quem sabe, não estaríamos aqui , presenciando os primeiros movimentos do mecanismo de desvalorização, desumanização e demonização 23 dos habitantes de além - mar , vivenciado pelos povos americanos séculos mais tarde ?
Entre o alto sublime e o baixo " fétido ", corrompido , entre os muitos "buracos" que poderiam levar ao Inferno, entre as maravilhas da porção oriental da Terra e entre as regiões segregadas, inóspitas e possivelmente subjugadas pelo Anticristo transitava o imaginário medieval. A estrutura do Globo construía-se , assim , com uma germinação incessante do maravilhoso , 24 processo que invadia todos os espaços, todo o conhecimento e modelava a geografia a seu bel - prazer. Este imaginário medieval, graças à mencionada Ratio Christiana, não só se encarregava da geografia terrestre como também lançava-se à configuração geográfica dos espaços de além - mundo : o triunfo teológico, dogmático, literário e popular do Purgatório -- o chamado "terceiro lugar" -- nos séculos XII, XIII e XIV 25 seguido de perto pela constante preocupação com as características das paragens infernais e paradisíacas, nos atesta bem isto. Apesar de uma aparente separação entre os assuntos da geografia deste mundo e a geografia do além, as elucubrações relativas a esta segunda modalidade, contudo, se interpenetravam , se imiscuiam à realidade sem nehum pudor ou crítica.
Se houve, por conseguinte, lugares "terrestres" pelos quais as mentalidades medievais desenvolveram predileção, estes foram as ilhas fabulosas, -- já encontradas no decurso dos séculos pré-cristãos , como mencionamos anteriormente -- os reinos extraordinários povoados por seres monstruosos e diabólicos, países miríficos povoados por raças mais evoluídas e o paraíso adâmico com o seu venturoso jardim edênico. As ilhas, ao contrário de uma porção de terra continental , eram consideradas um universo fechado, circunscrito em si mesmo, alheio ao mundo exterior e com códigos próprios. Por excelência, o lugar do arbitário, de uma outra natureza, locus extremamente propício à ebulição do maravilhoso. 26
Quando os viajantes medievais se depararam com as numerosíssimas e exuberantes ilhas do Oceano Índico, fizeram-nas fabulosas aos olhos euro-ocidentais, multiplicando-as ad infinitum por espaços diversos. Em importantes mapas-múndi confeccionados a partir do século XII, "encaixavam-se" inúmeras ilhas no mar Mediterrâneo e , de acordo com o influxo fecundo do imaginário, eram dispostas como no formato de um colar de pérolas em oceanos circulares 27 de maneira quase inteiramente arbitrária.
As ilhas pareciam ser , para os cartógrafos medievais , instrumentos eficazes para representar e situar terras desconhecidas em mares e oceanos, também em grande parte , desconhecidos. Elas proliferavam desmedidamente nos documentos cartográficos, chegando-se a enumerar 12.000 ( ! ) ilhas naquelas porções índicas dos oceanos 28 e outros tantos milhares em oceanos igualmente ignorados.
Dentre a vultuosa proliferação insular nos mapas medievais, tinham lugar de destaque as Ilhas Afortunadas e a Ilha de São Brandão. As primeiras estavam associadas à tradição poética greco-romana que situava, para além do gigantesco Atlas, ilhas de vegetação encantadora, de clima sempre temperado,de brisas perfumadas e onde os homens não tinham necessidade de trabalhar para sobreviver. Com o amálgama promovido pela Cristandade envolvendo aquela tradição, doutores da Igreja deram novo ímpeto à crença naquelas ilhas, transformando-as em lugares abençoados para o descanso dos justos, junção esta que influenciou de maneira duradoura toda a cultura ocidental.29 Em fins da Idade Média, um cardeal chamado Pierre d'Ailly assim escrevia sobre as Ilhas Afortunadas em sua obra intitulada Ymago Mundi : " [...] significam , pelo seu nome, que encerram todos os bens. [...] estão cheias de aves e arborizadas de palmeiras, nogueiras e pinheiros, encontrando-se ali mel em abundância. As florestas estão cheias de animais e as águas extravasam de peixes. [...] " 30
Outro motivo que conheceu enorme êxito e perdurou por séculos no imaginário medieval, além da ilha que levava seu nome, foi o relato da viagem de São Brandão, abade irlandês, morto ao fim do sexto século de nossa era. O périplo do santo e seus companheiros por entre diversas ilhas ao norte da Escócia tomou corpo na " Navegação de São Brandão ", um dos relatos de viagens fantásticas mais famosos da Idade Média, seguido de perto pelas "Voyages" do cronista Jean ( ou John ) de Mandeville. As venturosas ilhas daquele relato de viagem eram designadas , sugestivamente, pelos nomes de " Planície do Prazer ", " Terra da Felicidade " e " Terra dos Bem - Aventurados ". 31 A cartografia medieval deu lugar de destaque a estas ilhas, inserindo-as, como a tantas outras , nos mais famosos mapas - múndi de então.
Não seria demasiado mencionarmos que existiu , por vezes , -- como demonstra Jean DELUMEAU -- uma estreita relação entre a Fabulosa Ilha de São Brandão e um outro lugar lendário denominado Ilha Brazil, Bracile ou Bracir, situado ora no hemisfério norte, ora ao sul. Sem nenhuma relação com a terra descoberta alguns séculos mais tarde por Pedro Álvares Cabral, -- terra que só desfrutaria deste nome a partir da segunda metade do século XVI -- o nome daquele lugar tinha sua origem em um vocábulo irlandês, Hy Bressail, significando " Ilha Afortunada ". Daí , sua relação com a ilha de São Brandão. 32
Por mais quiméricos e portentosos que fossem todos os lugares fabulosos criados e alimentados pelo imaginário medieval, estes não se encontravam , como destacamos anteriormente , inabitados. Uma plêiade de seres anômalos, transfigurados e monstruosos , recobertos por vários elementos do maravilhoso , foi elaborada para habitar os confins desconhecidos do planeta, contribuindo , certamente , para a organização e estruturação do insólito, do exótico, do incomum, do diferente, enfim , de tudo aquilo que se desviasse da estrita normalidade de um mundo conhecido. 33
As viagens ao Oriente, ao mundo "além - Mediterrâneo" e a força das narrativas de viagens que começavam a aproximar as regiões ignotas da realidade ocidental do Medievo, enriqueciam o vasto campo das maravilhas cultuado pelos homens de então. Dentro deste quadro feérico , o clímax de uma experiência de viagem era o encontro com as criaturas monstruosas, chegando mesmo a provocar sentimentos de decepção e de grande frustração caso não se realizasse a aproximação entre os viajantes e os imaginados seres anômalos.
O encontro com monstros era, assim , o "tempo forte" , a "pedra de toque" de toda viagem , chegando mesmo a dar margem à assertiva : "quem não viu monstros, não viajou ! " 34 Evidentemente, não poderíamos apresentar a procura de monstros como o aspecto determinante das viagens que foram empreendidas para lugares desconhecidos no decorrer da Idade Média e dos séculos seguintes , mas deveríamos lê-la como uma tentativa -- apresentada, por vezes, em um tom acentuadamente etnocêntrico -- de descrição dos novos contextos que se descortinavam para o continente europeu.
Mapas - múndi, documentos cartográficos, relatos impressos de viagens, calendários, tratados teológicos e obras de filosofia natural apresentavam uma catalogação pormenorizada dos mais variados seres fantásticos, ora humanos, ora animais ou vegetais, ora um misto de todos estes reinos. Note-se que para as cabeças pensantes da Idade Média e , como veremos adiante, para as da Renascença , o ponto de vista dominante era o de que todas as criaturas monstruosas eram obra de Deus 35 e não apenas um exercício fútil da imaginação humana.
Dentre as monstruosidades mais frequentes , eram encontrados os "blêmios" ( monstros sem cabeça ) , os "panotos" ( seres com hipertrofia das orelhas ) , os "ciópodes" ou "ciápodes" ( seres com um único pé gigantesco que, suspenso, poderia proteger todo o corpo do sol ) , os "ciclopes" ( seres com um único olho ) , os " duplos " ( duas mãos, dois pés, duas cabeças , dois corpos ligados, quatro asas, dois bicos, etc ) , os gigantes em contraposição aos pigmeus ( homens com três palmos de comprimento ) , os anciãos ( homens com 400 ou 500 anos ) , as galinhas lanosas, a "planta - animal" (grandes melões que, ao amadurecerem , expeliam pequenos carneirinhos) , gansos que cresciam em árvores, os andróginos , os "híbridos" ( seres que eram metade homem ou mulher e metade animal ) , os "cinocéfalos" ( homens com cabeça de cão ) , os monstros com corpo de animal e cabeça humana (considerados por eruditos e populares como sendo o próprio símbolo do mal, a verdadeira encarnação de Satã ) , seres humanos com cabeças de diversos animais , os " peixes-cavalos " , os unicórnios , os dragões , os antropófagos , as sereias, as amazonas , as "mulheres - serpentes" , as princesas dragiformes , os homens providos de rabos, os diabos selvagens das grandes florestas e , finalmente , os antípodas. 36 Estes últimos, de forma especial, remetiam os viajantes, sábios e escritores medievais ao grande enigma de como permaneciam ligados ao globo terrestre, já que como os insetos andavam pelo teto, -- este era o estilo de comparação utilizado para as humanidades do hemisfério sul -- eles caminhariam sobre o avesso da Terra, de cabeça para baixo. A hipótese que conquistava o imaginário dos doutos homens e das populações em seu conjunto , associava poderes magnéticos à retenção dos antípodas ao chão, como o ímã retinha o ferro.
De meados do século XIII ao fim do século XIV , missionários e mercadores cruzaram as rotas transasiáticas e perso-siríacas em busca de convertidos e aliados comerciais, até que os habitantes da região da Tartária aniquilaram os sonhos cristãos de "apropriação" e converteram -se ao Islamismo, fechando, desta forma, as portas do Oriente para o afã conquistador e evangelizador do Ocidente. Neste breve episódio de contato com a porção oriental do planeta, estiveram inscritas as aventuras comerciais do viajante veneziano Marco Polo e as aventuras ficcionais do cronista Jean de Mandeville que , lembremo-nos, foi um dos relatos de viagens a lugares fantásticos que mais sucesso conheceu. Mesclando relatos de viagens verídicas -- 143 no caso de Polo -- com relatos imaginários, -- mais de 250 no caso de Mandeville -- 37 as mentalidades medievais expandiam, reiteravam e consolidavam sem muito esforço o universo do maravilhoso. Testemunho e ficção, observação pessoal e intercalação fabulosa favoreciam-se da inexistência de métodos críticos que questionassem a produção de conhecimentos e, simultaneamente, confundiam-se para criar mundos e personagens inauditos.
Nem só de morbidades, imagens fantasmagóricas e seres diabólicos, na verdade , alimentou-se o imaginário da Idade Média. As imagens de felicidade, prazer e bem - aventurança -- já associadas às ilhas, países e outros enclaves fabulosos -- também estiveram retratadas na busca e curiosidade sem limites acerca do Paraíso Terrestre e seu jardim do Éden. Este tema seria, aliás, um dos maiores legados deixado ao patrimônio mental das coletividades dos séculos XVI e XVII, demonstrando de forma inegável a "cumplicidade" entre o imaginário renascentista e medieval. Nas palavras do historiador Jacques LE GOFF, " [ ... ] a Idade Média do século XV é um outono exasperado , de modo nenhum morto , pelo contrário: de extraordinária vitalidade e de tal modo vivo que continuará profundamente e se manterá presente em pleno século XVI [ ... ] . E do mesmo modo , e inversamente , em pleno século XV faz-se já pressagiar o século seguinte." 38
Um extenso processo de fusão entre as tradições greco - romanas, o livro hebraico do Gênesis e os ensinamentos teológicos dos primeiros séculos da Cristandade renderam ao Ocidente medieval uma longa sequência de escritos sobre o Paraíso e seus venturosos jardins edênicos. Todos as obras reatualizavam, de geração em geração , o anseio pelo paraíso perdido e reuniam de forma indissociável as influências bíblicas e pagãs. 39 Apesar do amálgama de tradições, a maioria dos textos foi , em larga medida , influenciada pelos séculos da Patrística, onde teólogos e doutores de peso tais como Teófilo de Antioquia, Irineu, Hipólito, Epifânio e Agostinho de Hipona abordaram de frente a questão da realidade histórica do Paraíso Terrestre, enfatizando o caráter simultaneamente "corpóreo" e espiritual do mesmo. Para várias gerações de cristãos ocidentais, as afirmações daqueles doutos homens -- principalmente as de Santo Agostinho -- constituíram declarações infalíveis e foram instrumentos decisivos para moldar as convicções coletivas no sentido da literalidade do locus amoenus no qual habitaram nossos primeiros pais.
No decurso dos séculos posteriores, outras grandes autoridades intelectuais e dignatários eclesiásticos opinaram no mesmo sentido , qual seja , o do realismo em relação à existência das paragens paradisíacas. O erudito anglo- saxão Beda, cognominado o Venerável , o dominicano Tomás de Aquino, Pedro Lombardo, Isidoro de Sevilha, Abelardo, o franciscano Boaventura e o já mencionado cardeal Pierre D'Ailly ( avidamente lido alguns séculos mais tarde por Cristóvão Colombo ) envidaram grandes esforços para tornar crível a realidade física do Paraíso, não havendo, para eles, nenhuma impossibilidade de estabelecê-lo em uma localização geográfica determinada .40 Ora ao sul, ora em terras orientais, ora ao norte, o que importava para as mentalidades medievais, das quais as mentalidades dos séculos subsequentes foram herdeiras , é que, mesmo estando em lugar de difícil acesso,o Jardim das Delícias não havia desaparecido da superfície terrestre.
As crenças no Paraíso Terrestre, nos reinos, ilhas e países miríficos e nas criaturas monstruosas que evocavam o reino do Diabo surgiram, portanto, como a grande configuração do maravilhoso e do patrimônio mental da Idade Média que não estiveram, como continuamos a enfatizar, vinculados somente àquele período. As afirmações e especulações relativas a esses temas mantiveram-se, mais do que nunca , presentes nas preocupações, nos sonhos e na movimentação dos melhores intelectos no início da Modernidade,41 mobilizando tesouros de erudição da cultura renascentista e inspirando grandes obras artístico - literárias das quais o Adão e a Eva de Albert Dürer (1507 ) juntamente com o épico Paraíso Perdido de John Milton ( 1667 ) são grandes exemplos.
Os nascimentos de seres híbridos monstruosos conheceram enorme sucesso no século XVI através das obras de naturalistas renomados como André Thevet e as histórias de plantas - animais despertaram o interesse de um grande número de cronistas e viajantes até fins do século XVII. Nesses mesmos séculos, a inquestionável existência de criaturas anômalas despertava curiosidades e produzia interrogações que preenchiam infindáveis páginas de centenas de tratados. A atmosfera de satanismo, como vimos no primeiro capítulo desta dissertação , também intensificava-se e atingia seus paroxismos naesta chegada da Idade Moderna, fazendo com que as obras que traziam um "rei dos Infernos" com patas de bode e grandes orelhas vermelhas pontiagudas experimentassem, igualmente, enorme repercussão.42
Noutro pólo do mirífico -- o da felicidade e beleza ilimitadas -- , autores protestantes dos séculos humanistas aconselhavam que se deveria seguir exatamente as descrições bíblicas que Moisés legou à posteridade sobre a localização do Éden, no que foram seguidos de perto pela posição católica oficial e seus representantes. Para estes, tudo o que havia sido produzido e professado sobre a criação do hortus deliciarum deveria ser entendido e interpretado em sentido literal, não havendo dificuldades de comprovação devido às inúmeras referências contidas nas Sagradas Escrituras.43 Numerosos comentadores renascentistas do livro do Gênesis tentaram avidamente perscrutar o mistério dos primeiros tempos paradisíacos, desenvolvendo refinamentos cronológicos inimagináveis para determinar com exatidão, por exemplo , o dia e hora exatos em que Adão teria dado nome aos animais ou qual teria sido a hora exata do "repasto mortífero" oferecido por Eva. 44 Escritos portugueses do início do século XVI narravam viagens imaginárias empreendidas pelos soberanos lusos a um exuberante enclave cristão defendido por um magnânimo imperador , situado ora na Ásia ora em terras africanas e denominado " Reino do Prestes João". Os ingredientes dessa narrativa que conheceu nada menos que 111 ( ! ) edições, apresentavam-se na estranheza de humanidades insólitas, no caráter aterrorizante de seres monstruosos, nas riquezas fabulosas, na proximidade das paragens paradisíacas e nas aves e animais exóticos. 45 A obsessão pela temática paradisíaca foi tão intensa no período nos séculos da Renascença que historiadores e literatos mencionam que no período de 1540 a 1700, o tema do Paraíso Terrestre forneceu assunto para mais de cento e cinquenta obras literárias 46 redigidas quer em latim, quer nas diferentes línguas do Ocidente europeu.
As imagens dos portentos orientais com seus países, costumes e civilizações fabulosas guardavam para o imaginário dos europeus todo o seu esplendor quando, na madrugada de 03 de agosto de 1492, uma pequena expedição de apenas três naus comandada pelo navegador genovês Cristóvão Colombo e financiada pela Coroa de Castela zarpou do porto de Palos, sul da Espanha, rumo à Ásia pela rota do poente, desembarcando, dois meses mais tarde, em uma das ilhas da América Central, no arquipélogo caribenho, significativamente batizada nos primeiros instantes do desembarque com o nome de San Salvador. Oito anos depois, ao entardecer do dia 22 de abril de 1500, marinheiros de uma extraordinária esquadra portuguesa comandada por Pedro Álvares Cabral -- que tentava navegar pelo Atlântico meridional rumo a Calicute, na Índia , -- divisaram no horizonte uma extensa porção de terra à qual o comandante do poderoso grupamento de embarcações prontamente denominou Vera Cruz.
A partir daí, seriam as Américas, o Novo Mundo, o receptáculo primeiro de toda mirabilia produzida pelo imaginário da civilização euro - ocidental cristã . Mais do que nunca , a percepção das imagens 47 inéditas que se descortinavam aos olhos dos descobridores lusitanos e espanhóis manifestar-se-ia através de uma revisitação do patrimônio mental erigido há séculos, patrimônio este que auxiliaria a desvendar os novos enigmas propostos pela realidade, transformando-se em instrumento de abordagem e conhecimento dentro de um universo de significação totalmente distinto. 48 Não obstante, a América "encontrada" pelos navegadores ibéricos em meio a "mares nunca dantes navegados" 49 incorporou -se ao imaginário renascentista travestida de uma série de atributos que já haviam sido delegados àquele continente muito antes de ser tocado pelos extensos braços do projeto expansionista das Coroas católicas da Ibéria. Fato é que, quatrocentos anos antes das Grandes Descobertas uUltramarinas, São Tomas de Aquino evocava a " hipótese equatorial " acerca do Paraíso Terrestre, aventando a possibilidade deste enclave paradisíaco estar situado em lugares muito temperados, abaixo da linha do Equador.
Como indicam pesquisas recentes na área de História Cultural e História da Ciência , os ibéricos do século XVI e XVII fizeram sua entrada na Modernidade de uma forma um tanto diferente daquela que se deu para o restante da Europa, optando, assim, pela manutenção de padrões culturais e políticos essencialmente medievais bem como por uma retomada, por um revival aristotélico -tomista.50 Estando vinculada aos interesses e à ideologia de uma das Coroas Ibéricas, a empreitada ultramarina castelhana comandada por aquele que realizou os primeiros contatos com as terras Americanas, o almirante Cristóvão Colombo, ao mesmo tempo em que revelava para a humanidade a inexorável redondeza da Terra , -- indicado aí um dos traços de modernidade do empreendimento -- procurava " tomisticamente " encontrar o caminho para o lugar da perfeição, da liberdade, da paz, da felicidade, da abundância e da exuberância sem limites, o verdadeiro Paraíso Terrestre, revelando pari passu o caráter medieval daquela realização. Observações da realidade e as articulações conclusivas davam-se , portanto, ora através da técnica, ora através das crenças daquele comandante e de seus homens , baseadas nos ensinamentos da Santa Madre Igreja. 51
Logo, para as mentalidades ibéricas, o projeto expansionista dos séculos XVI e XVII deitava sua marca fundamental na necessidade de difundir o orbe cristão. Mais do que a expansão das fronteiras políticas e mercantis -- realmente necessária aos europeus somente em fins do século XVII -- os portugueses lançaram-se aos oceanos rumo aos continentes africano, asiático e americano movidos por um desmedido ideal de realização da epopéia cristã. O intento primordial era o de ampliar até os confins do mundo os ideais da Igreja Católica e do Cristo num verdadeiro espírito de cruzada medieval. A propósito, é o historiador José Luis DEL ROIO que não nos deixa esquecer em sua análise sobre as batalhas lusas contra os mouros no século XI que " [ ... ] a gênese da unificação e expansão de Portugal localiza-se neste espírito de cruzada, [ ... ] " , 52 espírito inflamado que contou com acolhimento favorável dos intelectuais e da sociedade em geral nos séculos dos Descobrimentos.
O aparato mental português se defrontou, inexoravelmente, com a indisciplinada realidade de que o "anti-mundo" poderia incorporar-se ao mundo conhecido, ampliando assustadoramente as possibilidades não só da própria facticidade como também dos orbes imaginados. A clássica doutrina difundida por séculos no Ocidente cristão sobre a unidade fundamental do gênero humano estava, agora, perdida para sempre, frente a tão caótica e incontrolável multiplicidade. 53 Não havia mais como negar que os tão decantados antípodas também caminhavam sobre seus próprios pés e as águas borbulhantes do hemisfério austral não derretiam embarcações. A terra ignorada mostrava-se por inteira. O choque e a ruptura foram, então, se delineando como inevitáveis.
Embora o desvelamento da realidade do hemisfério sul propiciado pelas explorações ultramarinas não tenha abalado as crenças dos homens ibéricos no valor do sobrenatural, do extraordinário, enfim, do maravilhoso, a tão badalada questão paradisíaca e sua misteriosa localização não teve acordes muito profundos nas mentalidades portuguesas ,54 o que não equivale a dizer que esta mesma questão tenha estado ausente do imaginário quinhentista daquela nação, pois de acordo com Sérgio Buarque de HOLANDA em seu clássico livro Visão do Paraíso , " [... ] não se poderá dizer que a sedução do tema paradisíaco tivesse sido menor para os portugueses, durante a Idade Média e a era dos Grandes Descobrimentos, do que o fôra para outros povos cristãos de toda a Europa [ ... ] ". 55
Apesar da " psicose do maravilhoso " 56 que se impunha ao imaginário dos cidadãos lusos e, principalmente, ao imaginário daqueles envolvidos com os empreendimentos de além - mar , a expansão ultramarina realizada pela Coroa de Portugal avivou nos espíritos daquele povo o sentimento de uma missão cristã não cumprida, exacerbando a relação entre expansão do Império e propagação da fé cristã , chegando mesmo a ser chamada de " [ ... ] uma vasta empresa exorcística [ ... ] dos demônios e fantasmas que, através de milênios, tinham povoado aqueles mundos remotos [ ... ] ". 57 Portanto, o alargamento geográfico e humano inflamou nos portugueses -- e esta foi uma faceta de fundamental importância na colonização lusitana -- a existência de um dever de apostolado por realizar, estimulando-os à valorização do proselitismo religioso e ao combate às tão temidas e abominadas forças satânicas 58 que subjugavam as terras apartadas à Cristande, reservando um espaço relativamente reduzido às outras vertentes das maravilhas -- mas sempre presentes e ativas ! -- que alimentavam o imaginário dos homens daqueles tempos. Mesmo assim , vinculados como se achavam a concepções nitidamente medievais, podemos supor que, em face das terras recém - descobertas , cuidassem em reconhecer, com os próprios olhos, o que em seu patrimônio imaginário pudesse traduzir por maravilhoso e extraordinário os medos, terrores, as angústias e obessões, sonhos , fantasias , desejos e expectativas coletivas tecidas há séculos.
2.2 O Olhar Eurocêntrico e o Novo Mundo
Não seria arriscado afirmar que nenhuma terra desconhecida ou vagamente suspeitada pelo homem branco cristão ocidental foi tão radicalmente transformada, tão completamente submetida aos padrões das matrizes européias e sua visão-de-mundo como as terras Americanas.
Se formos em busca do significado básico e imediato do vocábulo olhar nos deparamos com o exercício de ver ou, noutro sentido , com a atitude de atentar, dar-se conta, considerar e imputar atenção a alguém ou a algo. O que teria, no entanto , significado olhar para os navegantes que aportaram em terras americanas, territórios incomensuravelmente distintos da realidade que tinham deixado para trás?
Olhar significou enxergar apenas aquilo que o ardor da fé cristã -- fé católica no caso dos países ibéricos -- permitia. As percepções acerca do Novo Mundo se deram, em larga escala , dependentes do crer e poder europeus, isto é, da íntima relação entre a leitura cristã da realidade e poder real absolutista, sendo que o outro civilizacional que então surgia aos olhos do Velho Mundo não foi percebido como sujeito diferenciado, como outro mesmo, mas como objeto passível de uma leitura através do saber cristão e da pretensa supremacia racial européia.59 Frente às características aparentemente ilimitadas do novo orbe que se desvelava como também à aparente inferioridade sócio-econômica-cultural de seus habitantes, delineou-se para os homens envolvidos com as Grandes Descobertas de além - mar do período quinhentista o que Tzvetan TODOROV muito a propósito denominou de "pulsão de domínio" 60 , ou seja, pareciam se concretizar para a Cristandade e para a realeza as ilimitadas possibilidades do papel de dominadores da natureza e de outras humanidades, partindo-se de um inflamado otimismo antropocêntrico que, fatalmente, acabaria por degenerar em um etnocentrismo absolutizador. 61
O ineditismo das terras e gentes encontradas na América colocou o europeu diante de um gigantesco dilema que acolhia em seu bojo duas opções: reconhecer o outro, inventariando a alteridade desvelada para legitimá-lo enquanto diferente e essencial à reconstrução da identidade cristã ocidental -- há muito desgastada -- ou afirmar o " ego civilizacional " , hierarquizando as diferenças , exaltando a supremacia do " branco cristão colonizador " e rejeitando o desconhecido por meio da bestialização e consequente demonização. 62 A História das Grandes Descobertas e subsequente colonização do Novo Mundo parece nos permitir a identificação da segunda opção como tendo sido a escolhida , opção que mesclou êxtase , deslumbramento, inexperiência frente à diversidade humana, desejo de posse, ignorância e desprezo frente ao pluriculturalismo, fervor religioso, estabelecimento de relações de poder, ambição e velamento da heterogeneidade autóctone. 63
Embora a descoberta de um continente desconhecido tenha obrigado os tratadistas e experientes cosmógrafos a registrar as falhas do antigo conhecimento e a reformular o campo do saber empírico, isso não implicou em uma alteração profunda dos paradigmas interpretativos utilizados pelos homens do início da Idade Moderna. O nefasto obscurantismo teológico que se imiscuia em todos os meandros da existência da civilização euro - cristã -- situação válida inclusive para a Península Ibérica -- 64 continuou sendo perpetrado nas terras de além - mar, mesmo que a estonteante novidade de terras e gentes tenha vindo acompanhada de um intenso questionamento das verdades tradicionais que , a esta altura dos acontecimentos, se desconjuntavam sem conserto. A intermediação da doutrina cristã como leitura de mundo, mais do que constituir um obstáculo direto para a compreensão do fenômeno americano, continuaria fixando os limites conceituais e definindo as possibilidades de reconhecimento e aproximação daquela nova realidade.65
Para os europeus do final da Idade Média e início da Época Moderna, o devassamento dos, até então, ignotos espaços trazia consigo, inevitavelmente, sua cristianização e ordenação segundo padrões culturais únicos e hegemônicos,66 numa tentativa de " exorcisar " a ameaça que a irrupção súbita do desconhecido imputava às mentalidades que engendravam os Descobrimentos, legitimando, com essa atitude, a cosmovisão européia e reificando seu sistema de valores. 67 A única forma de abordar e tentar compreender tamanha diversidade constituía-se na imposição universal de uma verdade regionalizada , na inserção da novidade radical no interior de uma cosmovisão totalizadora que lhe conferisse sentido, no controle do estranho pela analogia, 68 no mecanismo de lançar mão dos padrões mentais e do acervo cultural disponíveis -- grande parte deles construídos, instituídos e sistematizados pela ótica cristã -- que auxiliariam na decodificação do Novo Continente em toda sua temerosa amplitude, estranheza e especificidade.
Se considerarmos o caso português , veremos que as tensões entre pensamento laico -- eivado de magismo, preconceito aos chamados infiéis e de práticas pagãs -- e pensamento religioso, entre os poderes de Deus e as artimanhas do Diabo, enfim, entre as forças do Bem e do Mal, marcaram de forma indelével as concepções acerca do Novo Mundo. 69 Para os primeiros representantes da nação lusa que desembarcaram em tão novas e enigmáticas terras, fechados às fragmentações religiosas que dilaceravam outras nações da Europa, o recurso ao discurso doutrinal católico não era utilizado como simples retórica, mas mostrava-se, sim, como um retrato das mentalidades para as quais o plano religioso ocupava lugar de destaque para se ler as almas de todos os viventes como também se transformava numa poderosa "lupa" para enxergar o mundo circundante. Para a glória e plena satisfação de um imaginário eminentemente cristão, a nação lusa estaria no mundo para realizar os planos do Criador. Como aludimos anteriormente, ao lado da expansão de posses e mercados, os portugueses objetivaram , com a chegada às " Índias Ocidentais ", difundir a fé nas Sagradas Escrituras, no " Lenho Sagrado" 70 e na Santa Madre Igreja de Roma, dando plenos subsídios ao espírito cruzadístico, ao missionarismo do qual aquele povo se imbuiu.
As atitudes mentais que tornaram o mundo menos opaco à epoca das Grandes Navegações -- reproduzidas em documentos cartográficos, na literatura e na iconografia -- informam àqueles que sobre eles se detêm que os homens de então não foram capazes, senão à superfície, de se abrir e dialogar verdadeiramente com o outro. Se formos em busca do significado da palavra encontro, -- como o exercício feito com o vocábulo olhar -- nos deparamos com a origem latina incontra que, por sua vez, significa " em contra". Seria o choque, o efeito de olhar para um outro homem ou ser vivente de uma maneira mais ou menos hostil ou, no mínimo, desconfiada. Encontrar algo ou alguém num contexto totalmente inédito seria, num primeiro momento, sentir que o outro estaria em contraposição. 71
É o historiador português Antônio Ferronha que nos remete ao caráter dificultoso e ambíguo dos primeiros contatos e do reconhecimento de novas terras pelos navegadores lusitanos. Diz ele que " [ ... ] esse encontro foi marcado por esta ambiguidade : alteridade humana simultaneamente revelada e recusada." 72 No movimento entre revelação e recusa, o reconhecimento e a aceitação da diferença foram se tornando tarefas difíceis de se empreender, pois o postulado da diferença acabaria por engendrar facilmente o sentimento de superioridade, sentimento este que , mais uma vez e sempre , tinha em sua base a inquestionável obediência e pertença à Cristandade, já se fazendo presente no combate aos "outros internos" do Império luso, isto é, aos infiéis e hereges de todo o tipo que " infestavam" o solo europeu: bruxas, árabes e judeus, todos eles, segundo a ótica religiosa vigente, macomunados com o Diabo.
No período dos primeiros contatos com a realidade americana, os representantes da civilização católica não tinham como característica somente uma postura encarniçadamente hegemônica e egocêntrica, mas uma tendência obsessiva de difusão e dispersão universal do Evangelho de Cristo e dos preceitos doutrinais da Santa Sé de Roma, imbuindo-se, como nos coloca Arnold TOYNBEE , 73 em ampliar permanentemente a autoridade espiritual, um plano mais elevado do que qualquer prerrogativa territorial , imersos em uma persistente " embriaguez da vitória ".
Discípulos aplicados desta cosmovisão, os portugueses construíram uma tipologia das relações entre eles e a nova realidade baseados em valores axiais para o seu aparato mental essencialmente cristão, na aproximação simulada visando, na verdade, um distanciamento e na "doação" de uma identidade à América lusitana e seus habitantes totalmente atrelada às suas próprias concepções de mundo. Tudo aquilo que, portanto, não fosse ditado pelo padrão cultural europeu era visto como inferior. 74 Numa atitude claramente etnocêntrica, os portugueses, através de seu olhar, procuraram encontrar nas novas terras que se descortinavam à realidade padrões e modelos de semelhança com as coletividades euro - cristãs para implementar a totalidade de seu orbis, o que levava à desastrosa e equivocada confluência entre diferença de identidade e ausência da mesma.75
Não poderíamos, no entanto , sob o risco de sermos anacrônicos, exigir dos homens dos Quinhentos lusos uma postura crítica e desvinculada de juízos e valores etnocêntricos, pois, no contato e observação do outro civilizacional , os quadros mentais da época -- influenciados pelo investimento num poder político absolutista e por uma Igreja que se considerava a representante exclusiva do poder divino -- determinavam, sem exceção, uma atitude fechada ou, no mínimo, suspeita frente à diversidade, um culto à própria cultura civilização como medida de todas as outras.
Fundamental para nos aproximarmos do olhar eurocêntrico lançado às novas terras e seus habitantes, mais especificamente, do olhar que os "descobridores" lusitanos lançaram à Terra de Vera Cruz é a chamada "certidão de nascimento" ou primeiro relato "etnográfico" 76 de nossa terra brasílica, qual seja, a Carta do Achamento de Pero Vaz de Caminha 77 datada de 10 de maio de 1500, mas só reencontrada e impressa em larga escala a partir do século XIX. Juntamente com a Carta do bacharel - mestre João, enviada ao Rei D. Manuel I com a mesma data e a Relação do chamado Piloto Anônimo, publicada em 1507, compõe o primeiro corpo de testemunhos escritos sobre as primeiras imagens do Brasil e daqueles que o habitavam.
Atentando para o texto de Caminha que teve o início de sua redação aos 21 de abril e o seu
término no primeiro dia de maio de 1500, não encontramos nenhuma menção direta aos
dotes paradisíacos da novíssima terra que, através de seus olhos e punhos, ia sendo descrita.
O imaginário edênico que acompanhava os navegantes que deixavam o solo europeu para se lançarem
a novas paragens transoceânicas não teve lugar de destaque nas linhas do escrivão-chefe do
comandante Cabral. Somente em uma comparação com condições climáticas européias,
quase ao fim da Carta ,
é que um elogio aos ares e à abundância de água se fez presente. 78 Em relação aos novos habitantes, porém, a referência
aos tempos adâmicos deu-se de maneira explícita na seguinte passagem : " [ ... ] Assim, Senhor,
a inocência desta gente é tal que a de Adão não seria maior -- com respeito ao pudor.
" 79 Foi , sem dúvida, o componente humano, aquele que mais atenção
mereceu por parte do observador Caminha, fazendo com que o componente natureza ficasse, realmente,em segundo plano.80
A alteridade radical daquela humanidade foi o foco da atenção, no entanto, não por sua singularidade, diferença e ineditismo ou por suas qualidades, -- salvo raras exceções no documento -- mas pela possibilidade vislumbrada e intensamente desejada de torná-la cristã, dando corpo ao projeto evangelizador do qual a Coroa portuguesa e, posteriormente, seus funcionários eclesiásticos, os jesuítas, estavam cegamente imbuídos, -- além do projeto mercantil, é claro -- e do qual não se esqueciam um só minuto No domingo, 26 de abril de 1500 , Caminha escrevia : " [ ... ] Acabada a missa , desvestiu-se o padre [ ... ] e no fim tratou da nossa vinda e do achamento desta terra referindo-se à Cruz, sob cuja obediência viemos, lembrança que veio muito a propósito e fez muita devoção [ ... ] ". 81 Em outras duas clássicas passagens da Carta, o ardor missionário dos homens enviados pelo Império português fica patenteado, não deixando dúvidas sobre um dos principais e mais ardorosos objetivos daquela missão de além - mar.82
Caminha foi hábil o bastante para passar de uma ligeira visualização da terra encontrada , com a sua fauna e flora exuberantes , à incidência de um olhar seletivo sobre os habitantes daquele novo espaço que, indiscutivelmente, despertaram um enorme interesse aos nautas lusos. Empenhado em cumprir da melhor maneira possível seu papel no gigantesco cenário histórico da apologia aos povos viajantes, aos grandes feitos marítimos, ao Rei, à Igreja e à Nação lusitana , o autor da Carta de Achamento das terras brasileiras praticamente só conseguia ter diante de seus olhos a incorporação das mesmas ao universo europeu, ou melhor, ao universo católico da Ibéria.
Os primeiros contatos dos portugueses com a nova realidade natural e social revelaram-se, pelo menos num primeiro momento, pacíficos e promissores. Entretanto, o relativo desinteresse da Coroa Portuguesa pelas novas terras durante as três primeiras décadas do século XVI fez com que se tornassem relativamente raros e empobrecedores os resultados dos encontros iniciais entre os cidadãos lusitanos e os autóctones da América. Noutra faceta do encontro , -- a da produção documental -- também não se deu a proliferação dos textos de caráter descritivo, que só se mostraria significativa após a chegada dos missionários jesuítas em 1549 e, através destes religiosos e de outros importantes cronistas, se intensificaria no último quartel do século XVI, adentrando o século XVII. Este quadro colocou, portanto, a Carta de Caminha em posição isolada no ranking dos documentos iniciais acerca da América lusitana.
Neste intervalo transcorrido entre a descoberta e a intensificação dos registros documentais, as características magistrais do projeto expansionista foram se diluindo, como também se diluiu paulatinamente o impacto da maravilhosa diversidade do trópico e de seus habitantes, preparando o caminho no qual se abriria um enorme fosso entre a extraordinária multiplicidade de espaços , gentes, religiosidades e culturas do Novo Mundo e a necessidade de homogeneidade e posse da sociedade católico-lusitana. As imagens de entendimento, compreensão da diferença e colaboração mútua foram, pouco a pouco, se delineando como ilusórias e fugazes.
Alimentado, dentre outras dificuldades e obstáculos, pela narrativa dos rigores, perigos e precariedade das condições de sobrevivência em alto mar que faziam parte da singradura transoceânica , 83 percalços estes que incrementavam as narrativas dos grandes naufrágios, o olhar do europeu sobre a América foi gradualmente marcado por uma decepção , se desviando dos atributos edênicos da beleza tropical -- se é que realmente a enxergaram algum dia ! -- para incidir sobre a face irregular do continente americano, estampada irremediavelmente na face da alteridade. Frente ao outro, frente à nova realidade cultural jamais imaginada, a maravilha de se poder olhar e compreender algo radicalmente inédito encontraria sua derrocada ou , no mínimo, a inconteste afirmação das assimetrias.
2. 3 Do Paradisíaco ao Inferno de Gentes Inviáveis
Diz uma antiga expressão popular que uma moeda sempre
tem duas faces. No caso da descoberta e subsequente colonização da América lusitana o dito
nos vem à memória em momento bastante oportuno. Deixando o âmbito dos ditos populares e retornando
às formulações acadêmicas, é Laura de Mello e Souza quem, mais uma vez , abre
o caminho para nossa linha de argumentação. Segundo a historiadora, " [ ... ] componentes do
universo mental nunca estiveram isolados uns dos outros, mantendo entre si uma relação constante
e contraditória : na esfera divina não existe Deus sem o Diabo, no mundo da natureza não existe
Paraíso Terrestre sem Inferno e, entre os homens, alternam-se virtude e pecado." 84 Pretendemos ressaltar, neste sentido, que o empreendimento ultramarino do século
XVI, tendo como um de seus momentos culminantes a chegada dos portugueses ao Brasil , se desenrolou sob a inconteste
influência do aparato mental euro-cristão tanto em sua vertente positiva quanto em seus aspectos mais
tenebrosos. A empreitada de atravessar mares desconhecidos, encontrar povos considerados bizarros ou até
mesmo dados como inexistentes e aportar em terras até então ignoradas passou rapidamente do caráter
idílico proporcionado pelos atributos exuberantes da nova natureza ao caráter infernal proporcionado
pelo encontro com humanidades inéditas que sequer suspeitavam dos padrões de ser e de agir cristãos.
Em oposição à percepção da esfera natural, portanto, o domínio do humano
foi infernalizado, bestializado e animalizado " [ ... ] em proporções jamais sonhadas por toda
a teratologia européia [ ... ] " 85 desenvolvendo-se no imaginário daqueles que tomavam contato com os , até
então , ignotos seres humanos das incorretamente denominadas " Índias Ocidentais", a infeliz
e devastadora certeza de uma humanidade inviável.
Mesmo que a diversificação do mundo natural e social revelada pelas Grandes Navegações intentasse atestar a grandeza e ilimitado poder da obra divina, dentro dos padrões católicos e, sobretudo, dos padrões apostólicos dos empreendimentos ultramarinos portugueses era simplesmente inconcebível que algum ser humano conseguisse viver sem a " luz " do Evangelho. Se o conseguisse, certamente humano não haveria de ser ou , quando nada , estaria envolto em " trevas ". Mesmo depois de um século da chegada às terras americanas e de um acúmulo de experiências nos contatos com diversas culturas, intelectuais portugueses propagavam -- já no limiar do século XVII -- que " [ ... ] as alegres novas do Evangelho até os últimos termos e ilhas mais apartadas do oceano [... ] foi a salvação e liberdade de almas sem conto, criadas e nascidas nas trevas e cativeiro da idolatria e grande triunfo e glória de Jesus Cristo [ ... ] " . 86 Desse modo, as qualidades pelas quais a Europa renascentista ansiava ardentemente -- inocência , abundância e magnanimidade de espírito -- ia, para os portugueses, se desfazendo pouco a pouco na medida em que a dinâmica da alteridade americana se constituía.
O fato de não nos determos pormenorizadamente no processo de edenização da América lusitana não significa , no entanto, que esta demanda não tenha deixado suas marcas no contato com as novas terras, como aliás, já ressaltamos anteriormente. Para os portugueses, conceber traços edênicos para a América , ou melhor , para o Brasil -- mesmo que esses traços não tenham sido incisivos como o foram para outras parcelas do Globo 87 -- significava, de certa forma, estabelecer com aquele novo território uma quota de cumplicidade, dando a ele a capacidade de manifestar-se através de uma revisitação do antigo, em uma leitura de mundo ditada pelo arcabouço mental de todo cristão europeu , -- leitura forjada desde tempos medievais -- possibilitando que se visse naquele novo território o que já tinha sido concebido há muitos séculos : a possível corporeidade do Paraíso e de seus encantos edênicos. Entretanto, conforme emergia a face do outro, da alteridade e da diferença, outras páginas de um mesmo texto tornavam-se possíveis e as carregadas tintas dos traços diabólicos imputados ao homem americano iam se evidenciando , fazendo com que , consequentemente, a edenização se tornasse ameaçada e -- porque não dizer -- progressivamente abandonada. No encontro entre os dois mundos, transitou-se, portanto, da edenização à detração e demonização da América lusitana.
Os habitantes das terras longínquas que os europeus concebiam como sendo fabulosas, foram se configurando aos olhos e mentes daqueles que travavam contato com a nova realidade como uma humanidade igualmente fantástica, mas também diabólica, monstruosa e disforme. Diante da estonteante novidade que se descortinava para o Velho Mundo era preciso identificar a anormalidade para definir e confirmar a norma. Se, para a cultura dirigente e os poderes que delineavam a irrupção das Grandes Descobertas, a norma estava assentada em códigos de civilidade e Ccristandade, inscreveríam-se no pólo da anormalidade e da monstruosidade, portanto, os códigos da barbárie e da infidelidade a Cristo, ou seja , da participação na tão abominada esfera diabólica.
A percepção dos primeiros homens do Brasil instaurada pela mentalidade lusitana propiciou formulações que se iniciavam ao nível de uma outra humanidade e seguiam o caminho das comparações com animais, monstros e seres diabólicos, havendo uma alternância nestes níveis perceptuais.88 Voltando à Carta de Achamento de Caminha, podemos observar que a radical diferença da humanidade ameríndia dá margem à comparação com os animais. O autor da Carta deduz que são " gente bestial " e fica convencido que " são como aves ou animais montesinos ". 89
Décadas depois, nos idos de 1570 , o cronista português Pero de Magalhães Gândavo, em defesa da colonização do Brasil, imputava aos autóctones traços negativos adicionais. Para ele, " a língua deste gentio toda pela Costa é uma: carece de três letras, não se achando nela F, nem L, nem R, cousa digna de espanto, porque assim não têm Fé, nem Lei e nem Rei e desta maneira vivem [ ... ] desordenadamente" , ou ainda , em relação aos rituais antropofágicos de alguns grupos indígenas que foram sendo contactados, " [ ... ] não apenas matam todos aqueles que não são de seu rebanho como também os comem, usando nesta parte de cruezas tão diabólicas que ainda nelas excedem aos brutos animais [ ... ] ". 90
Enquanto a Igreja Católica esboçava uma tentativa de desmobilização e tranquilização frente aos implacavelmente perseguidos " agentes infernais " na Europa, ( feiticeiras e seus sabbats , muçulmanos e judeus ) os cidadãos daquele continente que começavam a travar contato com novas terras e gentes surpreendiam-se -- nos contornos de sua mentalidade, é claro -- quanto à amplitude do império do Diabo, concebendo-o muito mais vasto do que se poderia imaginar antes de 1492.
A elite católica dos países ibéricos, em sua maioria, aderiu à tese expressa pelo padre Acosta, 91 segundo a qual , desde a vinda de Cristo e a expansão da verdadeira e pura religião pelo Velho Mundo, Satã haveria se refugiado em terras distantes, de além - mar , territórios dos quais fez um de seus tesouros. Mesmo que o Inimigo do gênero humano continuasse a grassar ferozmente em solo cristão, ali existiria a Santa Madre Igreja que velaria pelas almas dos homens e repeliria suas investidas. Em terras americanas desprotegidas e distantes dos influxos de Roma , ao contrário , o "Maligno" reinaria como mestre absoluto.
Sendo assim, a face do olhar europeu que imputava ao ameríndio traços de uma humanidade inviável e diabólica foi sendo inevitavelmente ressaltada, possibilitando que conjecturas como as do padre Acosta, descritas anteriormente, e as do frei Vicente de Salvador -- nas quais o Diabo teria se instalado vitorioso entre os homens do Brasil, esbravejando às tentativas de evangelização -- fossem formuladas a mancheias . 92
Nos moldes do aparato mental dos séculos XVI e XVII, dentro dos quais a presunção de superioridade religiosa e moral se fazia destilar por todos os meandros da vida e da história daquelas sociedades , inclusive nos empreendimentos ultramarinos , a expressão "encontro entre dois mundos" pode, num certo sentido, não ser a mais adequada para definir a confluência -- ou choque, como preferem certos autores -- da civilização lusitana com a nova realidade americana que se delineava pois, a priori, um encontro pressupõe simetria de desejos e ideais, simetria esta que teria sido aniquilada desde os primeiros momentos por um desmedido fervor proselitista, uma postura etnocêntrica além de uma necessidade obsessiva de se combater o que se julgava ameaçador à fé cristã, cedendo lugar , portanto , a um terreno repleto de assimetrias.93
Na epifania, nos arroubos intransigentes da catolicidade lusa, o componente humano das terras brasílicas perdeu, paulatinamente, sua dignidade e brilho primitivos, degenerando-se em besta bruta e parceiro do Demoo. Cancelava-se, sem embaraços nem constrangimentos , o discurso do paradisíaco para dar ênfase ao discurso do diabólico e infernal. Passagem da aura de benignidade para o reino da malignidade.
1 DUVIOLS, Jean Paul. " O Terceiro Mundo Austral " in CHANDEIGNE, Michel ( org ) Lisboa Ultramarina 1415 - 1580 : a invenção do mundo pelos navegadores portugueses. Rio de Janeiro. Jorge Zahar Editor, 1992. p. 168
2
GIUCCI, Guillermo.Viajantes do Maravilhoso. O Novo Mundo. São Paulo. Companhia das Letras, 1992. p. 11
3 idem ibid. p. 12
4 Aqui, continuaremos a utilizar as mesmas definições acerca do vocábulo imaginário para a expressão patrimônio imaginário. Ver a nota de pé-de-página número 6 do primeiro capítulo desta dissertação e cf. DUBOIS, Claude G. O Imaginário da Renascença ... op. cit. p. 12 - 47
5 GIUCCI , G. op. cit . p. 13
6 Título da obra de Guillermo Giucci à qual fizamos referência na nota de pé-de-página número 2 deste capítulo da dissertação.
7 LE GOFF, Jacques. O Maravilhoso ... op. cit. p. 18. O autor chama a atenção para a importância à referência visual, colocando que todo o imaginário de uma sociedade pode organizar-se em torno de imagens e metáforas visuais.
8 LANCIANI,Giulia. "O Maravilhoso como Critério de Diferenciação entre Sistemas Culturais" in Revista Brasileira de História. Vol. 11 número 21. São Paulo, set. 90 / fev.91 p. 21
9 GIUCCI, G. op. cit. p. 14
10 idem ibid. p. 15
11 Para uma mais detalhada caracterização do maravilhoso ver GIUCCI, G. op. cit. p. 16
12 LANCIANI, G. op. cit. p. 23
13 idem ibid. p. 24
14 SOUZA, Laura de M. e Inferno ... op. cit. p. 26. Sobre a utilização de referenciais tranquilizadores para apropriação do não - familiar, a historiadora Laura de Mello e Souza também lança mão da análise de Giulia Lanciani sobre o maravilhoso e suas funções nos sistemas culturais.
15 KAPPLER, Claude. Monstros , Demônios e Encantamentos no Fim da Idade Média. São Paulo. Martins Fontes, 1993. p. 14. Eram os bispos, teólogos e doutores da Igreja os grandes encarregados de redigir a maioria das obras que descreviam a Terra e o Universo e , mesmo que não fossem redigidas por tais homens , os tratados cosmográficos tinham a obrigatoriedade de se adequar às teses eclesiásticas vigentes.
16 idem ibid. p. 15
17 idem ibid. p. 23
18 GINZBURG, Carlo. Mitos , emblemas e sinais : morfologia e história. São Paulo. Companhia das Letras, 1991. p. 98
19 KAPPLER, C. op. cit. p. 32. Para este autor , as maravilhas inauditas e os demônios são dois pólos inseparáveis do monstruoso, do apelo ao disforme no contexto medieval.
20 idem ibid. p. 28
21 AGOSTINHO, Santo. "La Cité de Dieu" in Oeuvres de Saint Augustin. Paris. Desclée de Brower, 1960. apud KAPPLER, C. op. cit. p. 29
22
KAPPLER, C. op. cit. p. 29 - 30
23 A idéia da demonização das humanidades americanas será retomada por nós em momento oportuno no texto.
24 KAPPLER, C. op. cit p. 36
25 LE GOFF, J. O Nascimento ... op. cit. p. 343 e ss. O autor elege a Divina Comédia ( 1320 ) de Dante Alighieri e os seus três cantos -- Inferno, Purgatório e Paraíso -- como a "sinfonia" que, magistralmente , reuniu grandes temas presentes no imaginário medieval.
26 KAPPLER, C. op. cit. p. 36
27 idem ibid. p. 37
28
idem ibid. p. 38
29 DELUMEAU, Jean. Uma História do Paraíso. O Jardim das Delícias. Lisboa.Terramar Editores, 1992. p. 121
30 D'AILLY, Pierre. Ymago Mundi II Paris. Ed. Buron, 1930 p. 389 - 390 apud DELUMEAU, J. Uma História do Paraíso ... op. cit. p. 123
31 cf. DELUMEAU, J. Uma História do ... op.cit p. 126
32 cf. idem ibid. p. 128
33 KAPPLER, C. op. cit. p. 159 - 161
34 idem ibid. p. 159
35 idem ibid. p. 163
36 idem ibid. p. 166 - 249, correspondentes à primeira parte do quarto capítulo do livro, intitulada "Tipologia do Monstro" .
37 GIUCCI, G. Viajantes do ... op. cit. p. 87
38 LE GOFF, J. O Maravilhoso e o ... op. cit p. 238
39 DELUMEAU, J. Uma História do Paraíso ... op. cit. p. 23
40 idem ibid. p. 51 - 68
41 Já que a datação da Modernidade é assunto controverso entre historiadores e filósofos, deveríamos destacar que a nossa opção de datar a Modernidade no início do século XVI fundamenta-se na tese de Stephen Toulmin, na qual a postura de afirmação e valorização do antropocentrismo dos humanistas é incluída como característica essencialmente moderna. Ver TOULMIN, Stephen. Cosmopolis. The Hidden Agenda of Modernity. New York. The Free Press, 1990.
42 KAPLLER, C. Monstros ... op. cit; cf. p. 187 - 202 , 349 e 350 , 355 - 419.
43 DELUMEAU, J. Uma História do ... op. cit. p. 181
44 idem ibid. p. 214
45 idem ibid. p. 112
46 KIRKCONNEL, K. Celestial Cycle. New York. Gordian Press, 1967. p. 541 - 639 apud idem ibid. p. 170
47 Em seu trabalho sobre a fenomenologia da imaginação, Sartre nos remete à questão de que um dos fatores essenciais da consciência capacitada a perceber um objeto como imagem é a crença. Por este motivo, diz , " [ ... ] é impossível encontrar na imagem algo mais do que aquilo que colocamos nela. [ ... ] em consequência, é impossível que a compreensão se opere sobre a imagem uma vez construída." O autor conclui serem extraordinárias as distâncias e diferenças que separam a imagem produzida da realidade. cf. SARTRE, Jean Paul. O Imaginário. São Paulo. Ática, 1996. p. 120 - 139. Certamente, o universo cognitivo e as mentalidades européias com todo o seu conteúdo imagético alteraram profundamente a percepção da realidade para aqueles que aportaram em novas terras.
48 LANCIANI, G. op. cit. p. 26
49 Utilizamos, aqui, a célebre frase de Luís de Camões como mero recurso metafórico, posto que os "mares nunca dantes navegados" , em seu sentido original , referem-se ao Oceano Índico. Ver CAMÕES, Luis de. Os Lusíadas. São Paulo. Abril Cultural, 1979. Canto Primeiro p. 29.
50 DOMINGUES, Beatriz Helena. Tradição na Modernidade e Modernidade na Tradição. A Modernidade Ibérica e a Revolução Copernicana. Rio de Janeiro. COPPE/UFRJ, 1996. p. 10
51 SILVA, Janice Theodoro da. "Colombo: entre a Experiência e a Imaginação" in Revista Brasileira de História. Vol. 11 número 21 São Paulo. set.90 / fev.91 p. 30 . O historiador Jean DELUMEAU também é categórico ao afirmar que Colombo cria como um homem medieval, fazendo de sua crença não apenas um sentimento religioso, mas um método que se aplicava indistintamente a todos os domínios do espírito. Em sua biblioteca particular, historia o autor supracitado, Colombo teria possuído exemplares das viagens fantásticas de Mandeville, das rotas de Marco Polo e , como destacamos algumas páginas atrás, a Ymago Mundi do cardeal Pierre D'Ailly , obra na qual é descrita minuciosamente a origem das nascentes dos quatro rios paradisíacos. cf. DELUMEAU, J. Uma História do Paraíso ... op. cit. p. 67 - 68
52 DEL ROIO, José Luis. Igreja Medieval. A Cristandade Latina. São Paulo. Ática, 1997.
53 BARRETO, Luís Filipe. Descobrimentos e Renascimentos: formas de ser e pensar nos séculos XV e XVI. Lisboa. Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1983. p. 184, atentando para a nota de pé-de-página. Ver também DIAS, José Sebastião da S. Os Descobrimentos e a Problemática Cultural do Século XVI. Lisboa. Editorial Presença, 1982. p. 120
54 HOLANDA, Sérgio Buarque de. Visão do Paraíso: os motivos edênicos no descobrimento e colonização do Brasil. São Paulo. Cia Editora Nacional, 1977. p. 10
55 idem ibid. p. 167
56 idem ibid. p. 201
57 idem ibid. p. 15
58 DIAS, J. S. op. cit. p. 48
59 BARRETO, Luis F. op. cit. p. 178
60 TODOROV, Tzvetan. A Conquista da América: a questão do outro. São Paulo. Martins Fontes, 1983. p. 143
61 DIAS, José S. op. cit. p. 123
62 cf. VAINFAS, Ronaldo. A Heresia dos Índios. Catolicismo e Rebeldia no Brasil Colonial. São Paulo. Companhia das Letras, 1995. p. 23
63 GIUCCI, G. op. cit. p. 239
64 A historiadora Beatriz H. DOMINGUES ressalta a motivação essencialmente religiosa das colonizações, sobretudo no caso da colonização ibérica, que tinha o intuito de expandir sua ortodoxia e converter os nativos. cf. DOMINGUES, Beatriz Helena op. cit. p. 44
65 É novamente a historiadora Beatriz H. DOMINGUES quem nos remete ao caráter eminentemente cristão da Modernidade Ibérica e, por extensão, da Modernidade Iberoamericana que não separou claramente conhecimento e religião. idem ibid. p. 36
66 SOUZA, Laura e M. e. Inferno ... op. cit. p. 24
67 GIUCCI, Guillermo. Sem Fé, Lei ou Rei. Brasil 1500 - 1532. Rio de Janeiro. Editora Rocco, 1993. p. 31
68 idem ibid p. 123
69 SOUZA, Laura de M. e. Inferno ... op. cit. p. 22
70 Referência à Cruz. idem ibid. p. 30
71 FERRONHA, Luís Antônio ( org ) O Confronto do Olhar. O encontro dos povos na época das navegações portuguesas séculos XV e XVI Lisboa. Editorial Caminho, 1991. p. 12
72 idem ibid. p. 13
73 TOYNBEE, Arnold. Um Estudo da História. São Paulo. Martins Fontes, 1987. p. 208 - 209
74 cf. LOUREIRO, Rui Manuel. " A visão do índio brasileiro nos tratados portugueses de finais do século XVI " in FERRONHA, L. A. ( org ) op. cit. p. 266
75 idem ibid. p. 268
76 Assim se referem ao documento os supracitados historiadores Luís Antônio Ferronha e Laura de Mello e Souza.
77 Os trechos que utilizaremos a seguir são do documento publicado em História da Colonização Portuguesa no Brasil, vol. II, p. 86 - 99 Porto, 1923 em linguagem atualizada por Carolina Michaelis de Vasconcelos, professora de Filologia da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Reproduzido em CALMON, Pedro. História do Brasil vol. I. Rio de Janeiro. José Olympio, 1959. Apud PENJON, Jacqueline e QUINT, Anne Marie. " Pedro Álvares Cabral descobre o Brasil " in CHANDEIGNE, Michel ( org ) op. cit. p. 143 - 165
78 idem ibid. p. 164 " [ ... ] muito formosa. [ ... ] a terra em si é de muitos bons ares, frescos e temperados como os de Entre Douro e Minho. [ ... ] águas são muitas, infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo por causa das águas que tem ! [ ... ]
79
idem ibid. Ainda na p. 164
80 Valeria a pena destacar neste contexto que Colombo, ao contrário de Caminha, teria formulado opiniões muito mais argutas sobre a natureza da nova parcela descoberta do Globo do que sobre os autóctones, incluindo observações " rarefeitas " sobre os mesmos no meio de inúmeras anotações sobre a fauna, flora e possibilidade de encontrar riquezas. Ver TODOROV, Tzvetan. op. cit. p. 18 - 33
81 PENJON, J. e QUINT, A. M. " Pedro Álvares ..." in CHANDEIGNE, M. ( org ) op. cit. p. 153
82 idem ibid. p. 161 e 164 " [...] se farão cristãos e hão de crer na nossa santa fé, à qual praza Nosso Senhor que os traga [...] E imprimir-se-á facilmente neles qualquer cunho que lhes quiserem dar [...] e Ele para aqui nos trazer, creio que não foi sem causa. E, portanto, Vossa Alteza, pois tanto deseja acrescentar à Santa Fé Católica, deverá cuidar da salvação deles. Prazerá a Deus que com pouco trabalho seja assim! " Noutro momento, Caminha reproduz de modo explícito a mentalidade dos Reis e de toda a sociedade portuguesa. Assim escreveu: " Contudo, o melhor fruto que dela [ da terra ] se pode tirar parece-me que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar. E que não houvesse mais do que ter Vossa Alteza aqui esta pousada para a navegação de Calecute, [ isso ] bastava. Quanto mais, disposição para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento da nossa santa fé! "
83 MICELI, Paulo. O Ponto Onde Estamos. Viagens e Viajantes na História da Expansão e da Conquista. São Paulo. Scritta, 1994. p. 174
84 SOUZA, Laura de M. e O Diabo e a Terra de Santa ... op. cit. p. 29
85 idem ibid. p. 32
86 LUCENA, João de. História da vida do Pe. Francisco Xavier e do que fizeram nas Índias os mais religiosos da Companhia de Jesus. Lisboa, 1600. p. 25 - 39 apud DIAS, José S. da S. Os Descobrimentos ... op. cit. p. 49
87 Para Sérgio Buarque de Holanda, os portugueses não lançaram mão de toda a sua capacidade de edenizar em relação ao Brasil sobressaindo-se, neste caso, uma visão mais utilitarista e realista do que fantástica, o que não significa, contudo, que aquela capacidade não tenha sido ativada no imaginário luso. cf. HOLANDA, Sérgio B. de Visão do Paraíso ... op. cit. p. 8 - 14
88 Sobre esses níveis de percepção ver SOUZA, L.M. O Diabo e a ... op. cit. p. 56
89 apud PENJON, J. e QUINT, A.M. " Pedro Álvares ..." in CHANDEIGNE, M. ( org ) op. cit. p. 157
90 GÂNDAVO, Pero de Magalhães. História da Província de Santa Cruz ( 1570 ) Belo Horizonte. Itatiaia/EDUSP, 1980. p. 124 - 137 apud GIUCCI, G. Sem Fé, ... op. cit. p. 206
91 ACOSTA, José de. História Natural e Moral de las Indias. Vol. I , 1590. p. 140 apud DELUMEAU, Jean. História do medo ... op. cit. p. 261
92 SALVADOR, Frei Vicente de. História do Brasil ( 1500 - 1627 ) 3a edição revista por Capistrano de Abreu e Rodolfo Garcia. São Paulo. Melhoramentos, s.d. apud SOUZA, Laura de M. e O Diabo e a ... op. cit. p. 67 - 68
93 GIUCCI, Guillermo. Sem Fé, Lei ... op. cit. p. 30
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