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O ORESTES DE BOUGUEREAU

Carlos Bernardi


A expressão do olhar já diz tudo, ou quase tudo, pois muito ainda estaria por vir. Aterrorizado pelas Erínias (as Fúrias, na mitologia Romana) Orestes tenta fugir. No final, seu esforço não terá sido em vão. De qualquer maneira, aqui o vemos retratado em todo seu desespero. Imagem "congelada" em pintura, movimento que nos permite olhar com paciência, embora não sem angústia, os detalhes do destino do herói.

O mito é trágico. Ele nos conta a triste sina da família de Agamêmnon, tempestuoso e arrogante líder dos gregos em sua batalha contra os troianos. Casado com Clitemmnestra, irmã de Helena, cujo rapto deu origem à famosa guerra, mesmo de longe conseguiu inocular ódio suficiente em sua esposa para que esta tramasse uma vingança. É que um oráculo exigia o sacrifício de Ifigênia, filha do casal, para que a frota grega tivesse vento suficiente para zarpar. Simulando um casamento com o grande herói Aquiles, Agamemnon manda chamar sua filha para o porto onde os gregos se encontravam. Lá chegando, foi prontamente sacrificada à deusa Ártemis. Sobraram-lhes outros filhos, que serão figuras marcantes nesse trama: Electra e Orestes.

Clitemmnestra resolve se unir com um grande inimigo da família: Egisto. Combinavam criar, após o retorno de Agamemnon, uma armadilha para assassiná-lo. O que de fato aconteceu. A partir desse instante, novos ódios e desejos de vingança foram gerados. A protagonista era agora Electra. Decidida a vingar a morte do pai, esperava somente o retorno de Orestes, que ela própria havia enviado para o exílio de forma que não fosse morto pelo amante da mãe, para por em prática seu plano. Avisado por Apolo que chegara a hora da vingança, Orestes retorna a Micenas, onde reinam agora, em lugar de seu pai, Egisto e Clitemnestra. O primeiro a morrer foi Egisto. Orestes, instigado por Electra e pelas ordens de Apolo, parte para matar também a mãe. Clitemnestra o avisou do perigo que corria. Ésquilo nos dá, nas Coéforas, o verso: "Vê bem, Cuidado com as cadelas de uma mãe". Essas cadelas são as Erínias, surgidas das gotas de sangue caídas na terra do falo castrado de Urano por seu filho Crono. Jean-Pierre Vernant descreve-as economicamente assim:

São elas as forças primordiais cuja função essencial é guardar a recordação da afronta feita por um parente a outro, e de fazê-lo pagar, seja qual for o tempo necessário para isso. São as divindades da vingança pelos crimes cometidos contra os consangüíneos. As Erínias representam o ódio, a recordação, a memória do erro, e a exigência de que o crime seja castigado. (O universo, os deuses, os homens, Companhia das Letras, pág. 25).

Com seus cabelos com serpentes, Ésquilo as enumera em três. Aleto, que persegue ininterruptamente os criminosos com tochas acessas, tornando-os visíveis; Tisífone, que os açoita com seu chicote; Megera, que grita em seus ovidos, sem parar, os crimes cometidos.

Foram estas divindades que imediatamente cercaram Orestes após ter assassinado sua mãe. Açoitado e relembrado de seu fúnebre feito, Orestes corre em busca de um refúgio. O encontra sob Apolo, que o abriga e protege. Nova lei deverá surgir e com ela a invenção de um tribunal. Orestes será julgado no Areópago. É o começo do fim do império das Eríneas. Dos seis juízes, três votam a favor do perdão do crime de Orestes; três votam a favor das Erínias. A deusa Atená é convocada. Seu voto decisivo é fundamental para o desempate. Ela vota a favor de Orestes, afinal de contas, assim passaram a pensar, um rei é muito mais importante que uma rainha.

Às Erínias derrotadas é dado um prêmio de consolação. De perseguidoras, transformam-se em benfazejas. Passam, assim, a ser conhecidas como as Eumênides, que, junto à razão de Atená e Apolo, irão avaliar de forma racional os seres humanos e seus atos insensatos.

É esta cena de perseguição que vemos retratada em nossa pintura. Intitulada "Orestes perseguido pelas Fúrias", de 1862 (atualmente fazendo parte do Chrysiler Museum of Art, em Norfolk, Virgínia, EEUU), é uma das obras primas de Adolphe-William Bouguereau (1825-1905), um dos mais famosos e prolíficos pintores franceses do século XIX. Produziu mais de 700 obras e alcançou reconhecimento do público e sucesso financeiro.


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Ele acreditava na importância da perfeição das formas e no extremo realismo das figuras que retratava com cuidadosa habilidade. Pintava com paixão buscando dominar o tema escolhido, em especial, os clássicos. Contudo, muitos críticos consideram que ele abdicou da coragem e originalidade em prol de um tratamento convencional da forma humana.

"Orestes perseguido pelas Fúrias" possui uma velocidade singular. Ao mesmo tempo em que uma parte está estática, Clitemnestra apunhalada, outra está em franca correria, Orestes tentando fugir das Erínias, o que transmite todo o caráter de eternidade e inexorabilidade das deusas vingadoras. Estas, por sua vez, são retratadas da maneira descrita por Ésquilo, como destaquei mais acima. Detalhe que julgo importante e que gostaria de sublinhar é o movimento das maõs das Erínias: todas as três apontam acusativamente para o punhal cravado no peito da mãe, multiplicando, dessa maneira, a sensação de culpa e terror. Para onde Orestes for, esta cena o acompanhará, mesmo se absolvido pelos velhos legisladores.



Conheça vários outros trabalhos de Bouguereau visitando este sítio:
http://www.interart.to/cgi-bin/thumbs_e.pl?artist=bouguereau


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