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ESPECTRO DE MARX Jacques Derrida Relume Dumará |
| "Um espectro ronda a Europa - o espectro do comunismo. Espectro foi, portanto, a primeira palavra, na abertura do Manifesto do partido comunista. Desde que se dá atenção a isso, não se podem mais contar os fantasmas, espíritos, aparições que povoam o texto de Marx. Mas, contando com eles, por que não interrogar hoje uma espectropoética que Marx teria deixado invadir seu discurso? Espectros de Marx começa pela crítica de um novo dogmatismo, ou seja, de uma intolerância. 'Todos sabem, saibam-no, o marxismo está morto, Marx também, não há dúvida'. Uma 'ordem do mundo' tenta estabilizar uma frágil hegemonia, validada por um 'atestado de óbito'. O discurso maníaco que domina então tem a forma jubilosa e obscena que Freud atribui a uma frase triunfante no trabalho do luto. (Refrão do encantamento: 'o cadáver se encontra em decomposição em lugar seguro, que ele não volte mais; viva o capital, viva o mercado, sobreviva o liberalismo econômico!') Exorcismo e conjuração. Uma denegação tenta neutralizar a necessidade espectral, mas também o porvir de 'um' 'espírito' do marxismo. 'Um' 'espítrito': a hipótese deste ensaio é de que há mais de um. A responsabilidade finita do herdeiro tem de passar por um crivo. Ela vem reafirmar um possível não não o outro. Como este discernimento crítico se relaciona com a exigência hipercrítica - ou melhor, desconstrutora - da responsabilidade? Distingüindo entre a justiça e o direito, cruzando os temas da herança e do messianismo, Espectros de Marx é, sobretudo a garantia - ou a aposta intempestiva - de uma tomada de posição: aqui, agora, amanhã. Seu alcance inscreve-se, resumidamente, no ângulo de algumas interseções: 1: a conspiração de forças em uma denegação ensurdecedora - 'a morte de Marx'; 2: o espaço geo-político em que repercute esse clamor; 3: uma 'gráfica' da espectralidade (irredutível à ontologia - dialética da ausência, da presença ou da potência -, mede-se por esta nova distribuição, e primeiramente por isto que a tele-tecnociência dos mass-mídia ou a produção do 'sintético', do 'protético' e do 'virtual' transforma mais depressa do que nunca, na estrutura do vivo ou do acontecimento, como na coisa pública, o espaço da representação política ou o Estado); 4: a articulação de uma 'espectrografia' com a cadeia de um discurso desconstrutivo (sobre o espectro em geral, a diferança, o traço, a iterabilidade etc.), mas também com o que dela esboça Marx. E de que ele, mesmo assim, se esquiva: 'ao mesmo tempo', 'na mesma vez'. A Tradutora Anamaria Skinner é doutoranda em Teoria Literária pela UFRJ e co-autora do Glossário de Derrida (Francisco Alves, 1976). |
SUMÁRIO
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