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"Para celebrar os 150 anos de Friedrich Nietzsche, em 15 de outubro
de 1994, nada mais oportuno do que repensar o sentido de sua aventura filosófica, levada até as últimas
conseqüências nas obras de 1888, escritas às vésperas da famosa 'crise de Turim' (início
de janeiro de 1889). Nada mais oportuno, portanto, do que reler o Ecce Homo, curioso texto autobiográfico
escrito de 15 de outubro de 1888, data em que o filósofo completava 44 anos, até os primeiros dias
de janeiro de 1889. Logo a seguir, o corpo do filósofo mergulhará progressivamente, até sua
morte em 25 de agosto de 1900, na imobilidade e no silêncio, entrecortados apenas por pouquíssimas
frases, por seus saltos de bufão e improvisações ao piano.
O texto, extremamente singular, deliciosamente desconcertante em seu tom virulento e bufo, incita uma interferência
interpretativa. O que representaria, em primeiro lugar, o gesto autobiográfico de um filósofo como
Nietzsche, desconstrutor de categorias metafísicas que tradicionalmente sustentaram o gênero autobiográfico,
tais como 'sujeito', 'representação' e 'profundidade'? O que dizer de um texto autobiográfico
escrito por um filósofo que afirmara, no afotismo 6 Para além de bem e mal, ser toda grande filosofia
uma 'confissçao de seu autor, uma espécie de mémoires involuntárias? Por que, então,
teria registrado, pouco antes de calar-se radicalmente, tais 'memórias voluntárias'? Ainda nesse
aforismo afirma-se a profunda relação entre filosofia e vida, a filosofia sendo considerada como
expressão de um ser vivo e das pulsões sempre em luta pela supremacia em seu corpo, essa 'coletividade
de numerosas almas' (Para além de bem e mal, aforismo 19).
Ecce Homo estabelece, por seu próprio tútulo, paradoxos que solicitam tentativas de decifração:
nesse texto em que Nietzsche exprime seu medo de ser confundido com um 'profeta', com um 'fundador de religião',
o filósofo demolidor dos valores judaico-cristãos se apresenta com a máscara do Cristo coroado
de espinhos (ecce homo), procede a uma verdadeira sacralização do Zaratustra e se afirma como 'um
destino', colocando irreversivelmente em marcha um rito de sacrifício que irá culminar com sua morte.
Essas questões constituiram um motor das pesquisas de Maria Cristina Franco Ferraz, apresentadas sob a forma
de tese de 'Nouveau Doctarat' (novo sistema francês de doutorado) em Filosofia, orientada por Sarah Kofman,
na Universidade de Paris I - Panthéon - Sorbone, com bolsa do CNPq, tendo sido aprovada com menção
máxima ('tès honrable') e felicitações especiais da banca examinadora, em 20 de março
de 1992. É tal texto que, traduzido para o português, compõe este livro."
"Maria Cristina Franco Ferraz é mestre em Literatura Brasileira,
doutora em Filosofia e professora titular da Universidade Federal Fluminense."
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SUMÁRIO:
Ecce Homo: "Ouçam-me! Pois eu sou tal e tal!
"Ouçam-me" / caso Pohl
Wagner
Editores
Anzol
Leitores
Europeu
"Pois eu sou o tal e tal"/ caso Malwida/ Idealismo
Ex-centricidade
Anti0semitismo
História
Zaratustra
Zaratustra: do "trágico" ao trágico
Zaratustra: Sacralização / Mitificação
Fênix
Gravidez
Pêdân
Selbstaufhebung
O "trágico"
"Terceiro olho"
Paródia
A "grande saúde"
O trágico
Hybris
Ecce homo: genealogia e epitáfio
O pai / a morte
Túmulo paterno
Mãe e irmã: "canaille"
Incidente Lou / Rée
A "querida lhama"
Eterno retorno
Mulher
"Eterno Feminino"
"Ecce"
Epitáfio
Sacrifício
"Eis um belo trabalho, bem construído e realizado, com um
escrita notável - tanto do ponto de vista do estilo quanto da correção (...) -, constantemente
interessante e estimulante. Em suma, é o que sepode chamar de um belo livro."
Phillippe Lacoue-Labarthe
"Uma tese notável, sob todos os pontos de vista. A originalidade do trabalho consiste em estabelecer
uma relação entre a autobiografia e a correspondência, até hoje apenas parcialmente
traduzida; a tese, portanto, enriquece o conhecimento dos textos de Nietzsche e renova sua leitura."
Sarah Kofaman
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