"Mas nem a garantia da piedade judaica nem as 'certezas' da 'ciência
do judaísmo' guiam as interpretações talmúdicas aqui propostas. O que nos importa é
interrogar estes textos - aos quais está ligada, como a um chão, a sabedoria judaica - em função
de nossos problemas de homens modernos."
Do sagrado ao santo é um exercício primaz do particular que conduz ao universal, do eu que conduz
ao outro. É, portanto, uma "aula" naquilo que ensinar é sair do "caso" ou do
"enunciado" e produzir compreensão do todo. Lévinas realiza suas "aulas" em tantas
dimensões que faz desta coletânea de cinco lições, na forma, o próprio conteúdo.
Ensina do antigo, significados para todos os tempos; de si - mestre, o outro humano que é ouvinte e discípulo;
da identidade, pensamento independente.
A forma é o uso de um texto tão particular e, portanto, humano como o Talmude e descobri-lo "imagem
e semelhança" do universal. A obra do Talmude se presta tão perfeitamente a este fim por conter
não apenas pensamento mas também identidade para Lévinas. Por um lado, suas representações
tão particulares podem ser transpostas para outra linguagem de modo que delas se "desprenda sentido
independente de qualquer catecismo". Por outro lado, a identidade - humana e particular - é matéria-prima
em seu questionamento metafísico sobre o significado do outro.
A vereda do sagrado ao santo é uma alternativa à ilusão do mundo sagrado e à alienação
do mundo dessacralizado. para além da superstição e do encantamento do sagrado ou da distração
e do suicídio do dessacralizado, há uma forma de não desesperar, de "levar sua tarefa
até o anoitecer". Esta forma é em si a revolução - a resistência e a paciência
que produzem uma desalienação definitiva - e a verdadeira juventude - que não mede a extensão
de suas audácias e que não faz delas profissão ou instituição.
Do sagrado ao santo consegue traduzir para o português não só a qualidade do pensamento de
Lévinas - o que o fará sublinhar muitas frases deste livro -, mas se mostra como uma das melhores
portas à fantástica e misteriosa sabedoria do Talmude. Do jogo "antigo" de ocultar no que
parece irrelevante e ingênuo, a surpresa de que nele há pensamento e há conhecimento do ser
humano à humanidade de conter o sublime em vez de puro ideal, Lévinas oferece o que há séculos
fascina os afortunados que penetram o labirinto guardião desta obra.
Neste sentido estas cinco aulas são daquelas que todos nós guardamos na memória de momentos
transcendentes quando nossos bons mestres nos transportaram para além das idéias - lhes deram contornos,
nuances e as fizeram não só refeição, não só sustento, mas não
nos furtaram o prazer de uma "boa sobremesa". Como o bom mestre que ensina o que sabe para que o discípulo
aprenda o que precisa. Por isso o texto é repleto de expressões como "Sublime materialismo!",
"Sublime particularismo!", pois inclui no humano o que nas idéias fica de fora. Num mundo de consumo,
de se ter, Lévinas propõe o que tão comumente cai bem ao humano - uma caminhada. No caminho
entre sagrado e santo é que se expressa a nossa própria vida não como uma mera sobrevivência,
mas como "um vinhedo em condições de separar seus espinheiros."
Nilton Bonder
SUMÁRIO
Nota da Editora
Apresentação
PRIMEIRA LIÇÃO: Judaísmo e revolução
SEGUNDA LIÇÃO: Juventude de Israel
TERCEIRA LIÇÃO: Dessacralização e desencantamento
QUARTA LIÇÃO: E Deus criou a mulher
QUINTA LIÇÃO: Os prejuízos causados pelo fogo
Glossário dos termos judaicos
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