"O percurso vertiginoso pelos novos destinos do desejo foi realizado
com a psicanálise conjugada a outros saberes. A psicanálise ainda é o saber mais consistente,
construído pelo Ocidente, para indagar as relações turbulentas do sujeito com seu desejo,
ficando para isso nos limiares da morte, do gozo e da violência, que nos entreabrem para o que existe de
horror no universo das delícias eróticas. Acredito que tudo isso é óbvio e ainda evidente.
Porém, quero sublinhar também, de maneira vigorosa, como a psicanálise deve se repensar em
alguns de seus fundamentos, para ficar sensível e conseguir ser potente no que tange ao mal-estar na atualidade.
Esta seria a única maneira de a psicanálise continuar a ser operante no contexto de trevas, obscurantismo
e fundamentalismo em que vivemos hoje em dia."
A necessidade de repensar os fundamentos da leitura da subjetividade constitui a motivação central
deste livro e o fio condutor que articula os diversos capítulos que o compõem. Trata-se para o autor
de um empreendimento urgente, na medida em que, na sua compreensão, é pela intermediação
do conceito de subjetividade que é possível pensar tanto o mal-estar na sociedade contemporânea
quanto o mal-estar na psicanálise. O instrumental teórico privilegiado - porém não
exclusivo - utilizado é a psicanálise, na medida em que esta ainda é - como afirma Birman
- o saber mais consistente construído pelo Ocidente para indagar as turbulentas relações do
sujeito com seu desejo. Não se trata porém de um saber psicanalítico mumificado nas suas fórmulas
canônicas. pelo contrário, a reflexão de Birman está impregnada de historicidade e do
empenho de pensar os destinos do desejo na atualidade, isto é, no aqui e agora da experiência histórica.
O mal-estar na psicanálise e nos psicanalistas é assim pensado no contexto da perda do poder crítico
da comunidade psicanalítica e da conseqüente impotência que isto deriva para lidar com as novas
formas de subjetivação.
A crise da psicanálise, entretanto, se vincula também ao silenciamento pelas principais correntes
pós-freudianas de um aspecto central da descoberta freudiana: a superação do dualismo corpo-liguagem
operada por Freud através da mediação da teoria dos afetos. Assim, afirma Birman, é
preciso superar a "platonização" da psicanálise, reconhecendo nas pulsões
e nos afetos dimensões constitutivas da subjetividade. A superação dessa compreensão
reducionista do sujeito fornece também instrumentos privilegiados para pensar o mal-estar na cultura contemporânea
e sua expressão dominante: o narcisismo.
Birman não se contenta em registrar o fenômeno e formular uma condenação moral. Procura
compreendê-lo recuperando o sentido profundo da crítica ao individualismo formulada pela teorização
freudiana. Com efeito, o descentramento do sujeito da consciência operado pelo discurso freudiano e sua contrapartida,
a afirmação da pulsão e do afeto como constitutivo da subjetividade, integram nessa constituição
a dimensão do outro, isto é, o reconhecimento do outro na sua singularidade. Assim, ignorar a pulsão
e os afetos significa abdicar de uma perspectiva central para a compreensão do processo de constituição
da "cultura do narcisismo". Nesse processo, afirma Birman, é preciso reconhecer a participação
da leitura e da prática clínica "platonizada" da psicanálise, leitura que, ao esquecer
das pulsões e dos afetos, ignorar o caráter constitutivo da alteridade na subjetividade.
Carlos Alberto Plastino, psicanalista.
SUMÁRIO
Apresentação
OS DESTINOS DO DESEJO NO MAL-ESTAR DA ATUALIDADE
I. Os destinos do desejo
II. A modernidade e o mal-estar
III. O mal-estar na psicanálise?
IV. O corpo, o afeto e a ação
V. O Espetáculo e a cultura do narcisismo
VI. O ethos da violência
VII. Recomeçar
PARTE 1: A PSICANÁLISE E SEUS IMPASSES
A SUSTENTÁVEL LEVEZA DO PSICANALISTA - VARIAÇÕES SOBRE O DESAMPARO E A FEMINILIDADE
I. Um tiro que saiu pela culatra?
II. Apostar nas dissonâncias da atualidade
III. A ética e a política do desamparo
IV. Sujeito, estilo e sublimação
V. Pequenos assassinatos
VI. Para concluir as variações
O CORPO, O AFETO E A INTENSIDADE EM PSICANÁLISE
I. O não-lugar do corpo
II. Os signos da exclusão
III. A expulsão do afeto
IV. Paga-se um preço por isso
V. O corpo e o organismo
VI. Uma nova cartografia do corpo
VII. O corpo como destino
VIII. Um sistema de equivalências simbólicas e de prazeres
IX. Os diferentes registros do eu-corpo
X. Formas e dinâmicas do corpo
XI. Incorporação, introjeção e identificação
XII. Fundamento metapsicológico
XIII. A vertente clínica
XIV. A afetação e a simbolização
XV. Os limites do deciframento
XVI. Proposições para a prática
A MAIS-VALIA VAI ACABAR, SEU JOAQUIM - SOBRE O MAL-ESTAR DA PSICANÁLISE
I. O que devo fazer?
II. Modernidade e tradição
III. Ascensão e queda
IV. Modernidade e pós-modernidade
V. Narcisismo e individualismo
VI. Platonismos e corporeidade
VII. Não se esqueçam de mim
VIII. Logos versus Praxis
IX. Desamparo e feminilidade
A INVENÇÃO DESEJANTE DA PSICANÁLISE - SOBRE OS IMPASSES NA TRANSMISSÃO DA PSICANÁLISE
I. Desafiando o destino
II. Encruzilhada trágica
III. Percurso crítico
IV. Evitamento quase impossível
V. Uma questão estrutural
VI. Miséria psíquica e masoquismo
VII. Promessa mortífera
VIII. Submissão e fidelidade
IX. Utopia?
O MAL-ESTAR NA MODERNIDADE E A PSICANÁLISE - A PSICANÁLISE À PROVA DO SOCIAL
I. Os discursos freudianos sobre o social
II. A configuração atual dos saberes sobre o psíquico
III. Entre harmonia e desarmonia
IV. Descontinuidade e metapsicologia
V. Natureza e liberdade
VI. Decepção, promessa e ilusão
PARTE 2: AS NOVAS FORMAS DE SUBJETIVAÇÃO
O SUJEITO DE COLARINHO BRANCO - O DENTRO-DE-SI E O FORA-DE-SI NAS FIGURAÇÕES ATUAIS DA SUBJETIVIDADE
I. Fora-se-si versus dentro-de-si
II. Entre a naturalização e a crítica
III. A reversão do sujeito
IV. Do entendimento ao sujeito
V. O sujeito e a interioridade
VI. A filosofia do sujeito
VII. A desrazão e seus destinos
VIII. A cultura do narcisismo e do espetáculo
IX. Humilhados e ofendidos
X. O fora-de-si de colarinho branco
XI. A filosofia do sujeito no limbo
A PSICOPATOLOGIA NA PÓS-MODERNIDADE - AS ALQUIMIAS NO MAL-ESTAR DA ATUALIDADE
I. A clínica na atualidade
II. Enigmas?
III. O paradigma das neurociências
IV. Inversões
V. Funcionalidades e acontecimentos
VI. O espetáculo e o narcisismo
VII. Dentro-de-si e fora-de-si
VIII. Alquimias
PARTE 3: AS SUBJETIVIDADES E AS DROGAS
FEITIÇO E FEITICEIRO NO PACTO COM O DIABO - A PSICANÁLISE E A QUESTÃO DAS TOXICOMANIAS
I. As toxicomanias como questão
II. Um novo Fausto?
III. Por uma concepção estrutural
IV. Repensando a tradição psicanalítica
V. A estrutura psíquica nas toxicomanias
DIONISO DESENCANTADO
I. A interdisciplinaridade em pauta
II. Economia dos signos e economia política
III. Uma crítica da criminalização
IV. Uma leitura estrutural
V. Os impasses do psicanalisar
VI. Desamparo no mundo desencantado
QUE DROGA!!
I. Apocalipse?
II. Ambigüidades
III. Do admirável mundo novo à desesperança
IV. O artesanato, a indústria e os saberes biológicos
V. O evitamento da dor
VI. Deprimidos, panificados e toxicômanos
PARTE 4: VIOLÊNCIA E SEUS DESTINOS
A RACIONALIDADE DO TEMPO NOS IMPASSES DO SUJEITO - SOBRE A PERVERSÃO, O PODER E A TEMPORALIDADE
I. O gesto inaugural e o sintoma
II. O polimorfismo do sexual
III. A diferença impossível
IV. Homogeneidade, pobreza erótica e colapso simbólico
V. A racionalidade e a extração do tempo
VI. Entre o tempo do gozo e a gozação do tempo
A ECONOMIA DO GOZO E OS IMPASSES DA JUSTIÇA - UMA LEITURA PSICANALÍTICA DA JUSTIÇA
I. O homem forte, a ética do desejo e a ordem democrática
II. A universalidade da lei e os impasses do registro simbólico
III. Do universo da lei aos dispositivos de poder da justiça
IV. Economia política e economia pulsional
V. Cultura do narcisismo, violência e religiosidade
A DERROTA DA INTOLERÂNCIA?!
I. O horror na atualidade
II. O que a psicanálise tem a ver com isso?
III. Amor de si e amor do outro
IV. A violência, a homogeneidade e o capital erótico
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