“Conheci Augusto Boal nos anos sessenta, ainda muito jovem. Já
naquela época tinha grande admiração pela genialidade que anunciava no teatro, pela seriedade
que já vivia, pela coerência com que diminuía a distância entre o que dizia e o que fazia.”
Paulo Freire
“Augusto Boal tem um espírito de inovador e de organizador no campo da melhor política cultural.
A sua disposição de luta, a sua integridade e a clareza de seus propósitos fazem dele um líder
eficiente e inspirado.”
Antônio Cândido
“Boal significa a aproximação da cultura com a política e da política com a cultura.”
Herbert de Souza
“Augusto Boal é uma das maiores expressões do teatro brasileiro. Tem uma vida dedicada ao teatro,
à política, à luta pela libertação.”
Paulo Betti
“Boal inovou e reinventou o teatro.”
Luis Inácio Lula da Silva
“Raramente tanto como Augusto Boal - e seu tetro do Oprimido cujo nome ele soube manter bem vivo - o ser humano
terá estado no coração de uma prática artística.”
Jack Lang, ex-ministro da cultura da França
“De filho de padeiro a lavrador do mar.
Ele recebeu condecorações, honrarias, títulos honoríficos, homenagens, distinções
e aplausos. Muitos aplausos, mundo afora. Prêmios, cito apenas dois. Pelo peso internacional, o Pablo Picasso,
concedido pela Unesco a artistas que deram contribuições excepcionais à arte. E, pelo valor
afetivo que ele atribui, o prêmio da Association for Theatre in Higher Education, nunca antes concedido a
um não norte-americano. Foi professor da Sorbonne e Doutor Honoris Causa da Nebraska University. Resumindo,
poucos brasileiros tiveram tamanho reconhecimento internacional. Na área do teatro, nenhum.
Prêmios e honrarias são o adorno do reconhecimento. A essência está no trabalho em si,
na consistência com que se realiza, na eficiência com que a teoria se materializa na prática,
nos longos anos de obstinada dedicação que consolidaram sua original visão da arte, do homem
e do mundo.
Como acontece sempre, o Pindorama emergente, que não distingue arte de entretenimento industrial, não
conhece esse autobiografado. E os que conhecem não o têm na justa medida. Que esta autobiografia seja
uma forma de lhe fazer justiça. Ainda que com as próprias mãos. Seu nome é Augusto
Boal. Profissão: autor e diretor teatral. Carioca nascido e criado na Penha, seu endereço oficial
é o Rio de Janeiro. Mas, cidadão do mundo, seu local de trabalho pode ser em qualquer parte do planeta.
Desinteressado do que estudava na universidade, fez sua iniciação teatral com dois mestres consagrados:
o crítico Sábato Magaldi e o dramaturgo Nelson Rodrigues. Formado em Engenharia Química, vira
doutor, o sonho do pai. Porém jamais exercerá a profissão. Vai para Nova York, estudar dramaturgia
na Universidade de Columbia, com o mestre John Gassner. Freqüenta o Actor’s Studio que, à época,
introduzia nos Estados Unidos o método Stanislavski de interpretação. Findo o curso, a consagração
de Gassner: ‘You are a playwriter.’
De volta ao brasil Boal dirige o teatro de Arena de São Paulo e cria os famosos Seminários de Dramaturgia.
Além do próprio Boal, davam aula os professores Sábato Magaldi, Décio de Almeida Prado
e outros. Nesses seminários nasce uma nova dramaturgia brasileira: Gianfrancesco Guarnieri, Oduvaldo Vianna
Filho, o Vianninha, Plínio Marcos, Roberto Freire, Edy Lima, Chinco Pereira da Silva, Benedito Ruy Barbosa,
Flávio Migliaccio, entre outros.
Boal estava à frente de uma grande renovação do teatro brasileiro. Na maneira de escrever,
de narrar, de encenar, de representar, tudo profundamente ligado ao que seria uma dramática genuinamente
brasileira. Criou o sistema Curinga - em que cada ator representa vários personagens ou vários atores
representam o mesmo personagem. Assim foram feitos espetáculos como Arena conta Zumbi, Arena conta Tiradentes,
Arena conta Bahia, etc. Uma revolução formal para acelerar a revolução social. Com
uma patada o golpe militar esmagou ambas.
Preso e torturado, Boal foi exilado. Correu meio mundo, internacionalizou-se e ganhou respeitabilidade. Hoje, é
uma celebridade aonde quer que vá. Exceto, talvez, no Brasil.
Os últimos anos foram dedicados ao que chamou de Teatro do Oprimido, expressão genérica para
um conjunto de exercícios, jogos e técnicas que ajudam a desenvolver aquilo que cada um já
é. Utilizado no mundo inteiro, o Teatro do Oprimido já gerou 16 obras em línguas diferentes,
afora títulos escritos pelo seu próprio criador: Boal.
Beirando os 70 anos, Boal esteve sempre ao lado dos oprimidos de qualquer parte do mundo. Sua estética nasce
de sua ética. Tantas lutas, quantas derrotas. Esse fazer e refazer contínuo o leva a definir-se como
um lavrador do mar: ‘Lavra-se uma onda, e tem sempre outras que se aproxima. Mas tem tanto lavrador do mar no Brasil,
gente maravilhosa, fazendo coisa. Nós somos um bando de lavradores do mar’.”
SUMÁRIO
De conversa em conversa!
A PAISAGEM, A FAMÍLIA
Capítulo 1. Genealogia paterna Tio Miguel e a melhor solução!
Capítulo 2. Genealogia materna Amor de pai e mãe - por um triz, eu não nascia
FAZ TEMPO, FUI MENINO
Capítulo 3. Três crianças chorando
Capítulo 4. O pedido de casamento
Capítulo 5. O pára-quedas da desavença
Capítulo 6. Vendo o mundo passar de cá pra cá... De lá pra lá
Capítulo 7. Torre de comando, padeiro e pão
Capítulo 8. Renata, a loira - ou, a sensualidade da Química Inorgânica
Capítulo 9. Esquentando pandeiros, cuícas e tamborins
Capítulo 10. Nova York: o impulso e o salto
NA ARENA DO ARENA
Capítulo 11. O Teatro de Arena (1956-1971)
Capítulo 12. A descoberta do Rio de Janeiro
Capítulo 13. A descoberta do Nordeste e o sangue nas mãos do padre batalha
Capítulo 14. O gordo e o magro no Seminário de Santo André
Capítulo 15. A metáfora e a descoberta dos clássicos
Capítulo 16. Golpe a galope, montanha abaixo
A GUERRA DECLARADA, DENTRO E FORA DE MIM
Capítulo 17. Opinião e Zumbi - os musicais
Capítulo 18. Heroísmo e Inconfidência
Capítulo 19. A censura: a ruim e a pior
Capítulo 20. A guerrilha teatral
Capítulo 21. Navegando pelo mundo, buscando porto seguro, encontrei a prisão a caminho de casa
Capítulo 22. Prisão e cadeia: a liberdade de Prometeu
EXÍLIO, DEGREDO: PALMEIRAS, GORJEIOS, SABIÁS...
Capítulo 23. Buenos Aires, no muy queirdo...
Capítulo 24. Exílio e teatro do Oprimido
O RETORNO IMPOSSÍVEL E A ESTRANHEZA DO FAMILIAR
Capítulo 25. Voltei pro morro: contra toda expectativa, não vi cachorro...
Capítulo 26. A vida, até agora!
Índice
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