"A totalidade desta pesquisa pretende confluir para a leitura
do discurso freudiano nas suas diferentes interpretações formuladas sobre a histeria, a diferença
sexual e a feminilidade. O objetivo é, portanto, mostrar as ambigüidades que permearam aquele discurso
no que concerne a tais problemáticas, mas que lhes são, em contrapartida, constitutivas e fundamentais.
pretendo mostrar, sobretudo, a presença, no discurso freudiano, de diferentes gramáticas de erotismo,
de maneira que a leitura da sexualidade feminina fundada na figura do falo estabelece uma relação
de paradoxo e ambigüidade com o conceito freudiano de feminilidade."
Uma das críticas mais contundentes à psicanálise surgiu do feminismo, e seu principal alvo
foi a teoria freudiana da sexualidade. A tese das feministas é que ela incorporava de forma ingênua
a idéia de uma hierarquia natural entre os sexos, com as conseqüências inaceitáveis que
essa premissa acarreta. A não-compreensão do caráter histórico desta hierarquia, fundada
numa ontologia dos sexos tecida no processo de constituição da modernidade ocidental, teria levado
Freud a adotar uma visão patriarcalista e essencialista da feminilidade e do feminino, ou seja, politicamente
conservadora e teoricamente equivocada.
Em Gramáticas do erotismo, Joel Birman leva esta crítica a sério. Ao invés de refutá-la
de imediato, admite sua pertinência e faz dela o ponto de partida para uma releitura criativa e vigorosa
do texto freudiano, que reorganiza os termos do debate.
Para isto ele se utiliza de dois procedimentos: o primeiro é a reconstrução dos caminhos percorridos
por Freud desde as formulações iniciais acerca da sexualidade feminina nos trabalhos sobre a histeria
até a formulação tardia de feminilidade. A esta leitura epistemológica se acrescenta
uma segunda, de caráter genealógico, que procura dar conta dos contextos em que esta trajetória
foi construída, ou seja, das condições de possibilidade - não apenas teóricas
mas antropológicas e históricas - que marcaram o pensamento freudiano sobre a sexualidade e seu lugar
nas formas de subjetivação.
Joel Birman consegue deslocar os padrões habituais de interpretação do texto freudiano sobre
o feminino, e constrói um novo roteiro para sua leitura. Nele, os avanços e recuos efetivamente encontrados
nas formulações freudianas sobre a feminilidade deixam de ser tomados como inconsistências
teóricas ou arcaísmos datados. Na realidade, eles testemunham sua relação complexa
- de assimilação e resistência - com os horizontes teóricos de seu tempo. Desta perspectiva
surge a originalidade do percurso do autor.
A tese central deste livro instigante é a de que o conceito de feminilidade permite que leiamos Freud como
tendo produzido não uma solução para as questões colocadas pela descrição
moderna da diferença sexual, mas uma reconfiguração desta própria questão. As
contradições e paradoxos das descrições freudianas surgem, nesta interpretação,
como diferentes gramáticas do erotismo no campo da subjetivação, substituindo as tradicionais
representações totalizantes, essencialistas e ou unívocas da sexualidade.
Benilton Bezerra Jr.
(professor do Instituto de Medicina Social da UERJ)
SUMÁRIO
I. Um passo à frente e dois atrás?
II. Do sexo único à diferença sexual
III. Padecem as mães no paraíso?
IV. Erotizar ainda é possível?
V. Possuídos, nervosos e degenerados
VI. Uma desconstrução do biopoder?
VII. Nem tudo são flores
VIII. Um lance de dados?
Bibliografia citada
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