Maurice Godelier



O ENIGMA DO DOM


2001 - 333 págs.

Civilização Brasileira


"Por que este livro? Por que empreender uma nova análise do dom, de seu papel na produção e reprodução do laço social, de seu lugar e de sua importância mutáveis nas diversas formas de sociedade que coexistem nos dias de hoje na superfície desta nossa terra ou que se sucederam no decorrer do tempo? Porque o dom existe em todo o lugar, embora não seja o mesmo em toda parte. Mas o parentesco também existe em todo lugar, assim como a religião, a política. Então, por que o dom? Por que este livro?"


O enigma do dom é um livro fundamental de um expoente da autodenominada "antropologia marxista" e, de um modo mais geral, da antropologia contemporânea. Trata-se de um livro-síntese, de maturidade. A etnografia que M. Godelier fez dos Baruya da Nova Guiné foi inicialmente apresentada em textos das décadas de 60 e 70, conhecidos dos brasileiros. Complementada em La production des grands hommes, de 1982, esta etnografia é aprofundada aqui; sem deixar de enfatizar a especificidade Baruya, Godelier assume agora uma perspectiva mais francamente comparativa em relação a outros grupos, melanésios ou não, especialmente os kwakiult e trobriandeses. Também do ponto de vista teórico, O enigma do dom é um trabalho marcante no conjunto da obra de seu autor, pois explicita uma aproximação com a antropologia de Marcel Mauss. Na medida em que Godelier se coloca, também ele, como um sucessor de Mauss, este livro é um reencontro, nem sempre pacífico, com Lévi-Strauss, de quem Godelier se afastara décadas atrás.

A questão central de O enigma do dom é vital para as ciências humanas, apesar de pouco estudada até aqui; a saber, a da inalienabilidade, a existência de bens que assumem o valor máximo de uma sociedade exatamente pelo fato de não circularem, o que foi tomado por Annette Weiner como "paradoxal". Para entender a relação entre esses bens e seus "proprietários", doador e coisa, Godelier retoma suas teses anteriores sobre economia e dominação, representação simbólica e real, a relação entre material e ideal, moeda e valor, a elas incorporando as reflexões de 1982 sobre rito, mito, gênero e parentesco. Aparentemente, Godelier evita a redução que faz Weiner do princípio da reciprocidade a uma estratégia, assim como o psicologismo e individualismo característicos de boa parte da antropologia de língua inglesa, já que a inalienabilidade não se explica por qualquer desejo de se manter ou entesourar. Godelier a explica por uma distinção entre objeto precioso (que se dá) e sagrado (que se guarda), reduzindo a troca a regra de direito e propondo que os objetos sagrados e inalienáveis realizariam "a síntese do real com o imaginário que compõem o ser social do homem."

Marcos Lanna é doutor em Antropologia pela Universidade de Chicago e professor do Departamento de Antropologia da Universidade do Paraná.

SUMÁRIO

Das coisas que se devem dar, das coisas que se devem vender e daquelas que não se devem dar nem vender, mas guardar

Capítulo I: O legado de Mauss

Capítulo II: Dos objetos-substitutos dos homens e dos deuses

Capítulo III: O sagrado

Capítulo IV: O dom des-encantado

Bibliografia


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