"Por que este livro? Por que empreender uma nova análise
do dom, de seu papel na produção e reprodução do laço social, de seu lugar e
de sua importância mutáveis nas diversas formas de sociedade que coexistem nos dias de hoje na superfície
desta nossa terra ou que se sucederam no decorrer do tempo? Porque o dom existe em todo o lugar, embora não
seja o mesmo em toda parte. Mas o parentesco também existe em todo lugar, assim como a religião,
a política. Então, por que o dom? Por que este livro?"
O enigma do dom é um livro fundamental de um expoente da autodenominada "antropologia marxista"
e, de um modo mais geral, da antropologia contemporânea. Trata-se de um livro-síntese, de maturidade.
A etnografia que M. Godelier fez dos Baruya da Nova Guiné foi inicialmente apresentada em textos das décadas
de 60 e 70, conhecidos dos brasileiros. Complementada em La production des grands hommes, de 1982, esta etnografia
é aprofundada aqui; sem deixar de enfatizar a especificidade Baruya, Godelier assume agora uma perspectiva
mais francamente comparativa em relação a outros grupos, melanésios ou não, especialmente
os kwakiult e trobriandeses. Também do ponto de vista teórico, O enigma do dom é um trabalho
marcante no conjunto da obra de seu autor, pois explicita uma aproximação com a antropologia de Marcel
Mauss. Na medida em que Godelier se coloca, também ele, como um sucessor de Mauss, este livro é um
reencontro, nem sempre pacífico, com Lévi-Strauss, de quem Godelier se afastara décadas atrás.
A questão central de O enigma do dom é vital para as ciências humanas, apesar de pouco estudada
até aqui; a saber, a da inalienabilidade, a existência de bens que assumem o valor máximo de
uma sociedade exatamente pelo fato de não circularem, o que foi tomado por Annette Weiner como "paradoxal".
Para entender a relação entre esses bens e seus "proprietários", doador e coisa,
Godelier retoma suas teses anteriores sobre economia e dominação, representação simbólica
e real, a relação entre material e ideal, moeda e valor, a elas incorporando as reflexões
de 1982 sobre rito, mito, gênero e parentesco. Aparentemente, Godelier evita a redução que
faz Weiner do princípio da reciprocidade a uma estratégia, assim como o psicologismo e individualismo
característicos de boa parte da antropologia de língua inglesa, já que a inalienabilidade
não se explica por qualquer desejo de se manter ou entesourar. Godelier a explica por uma distinção
entre objeto precioso (que se dá) e sagrado (que se guarda), reduzindo a troca a regra de direito e propondo
que os objetos sagrados e inalienáveis realizariam "a síntese do real com o imaginário
que compõem o ser social do homem."
Marcos Lanna é doutor em Antropologia pela Universidade de Chicago e professor do Departamento de Antropologia
da Universidade do Paraná.
SUMÁRIO
Das coisas que se devem dar, das coisas que se devem vender e daquelas que não se devem dar nem vender,
mas guardar
Capítulo I: O legado de Mauss
Capítulo II: Dos objetos-substitutos dos homens e dos deuses
Capítulo III: O sagrado
Capítulo IV: O dom des-encantado
Bibliografia
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