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Ao longo dos tempos, Aristóteles foi, de todos os filósofos,
certamente o mais estudado, analisado, interpretado e reinterpretado. O interesse por suas obras tornou-se ainda
mais intenso nas últimas décadas, quando se revelou a proximidade entre seu pensamento e determinadas
teorias científicas modernas (o indeterminismo de Heisenberg, a teoria das catástrofes, de René
Thom, por exemplo). Junto com o número crescente de estudos especializados sobre aspectos da filosofia do
Estagirita, é normal que se multipliquem as introduções gerais, desde as de índole
simplesmente pedagógica até os grandes ensaios de reinterpretação de conjunto. Destacam-se,
numa ou noutra dessas modalidades, as obras de Jonathan Barnes, Joseph Moreau, Ingemar Dühring, Louis Millet
e muitos outros.
É espantoso que, no meio de tantas novidades auspiciosas, uma introdução escrita há
mais de cem anos conserve não somente sua atualidade, mas sua força de superar, em muitos pontos,
as concorrentes mais novas. Mas é isso o que acontece com este livro de Émile Boutroux (1845-1921),
aluno de Jules Lachelier em Paris e de Eduard Zeller em Heidelberg, mâitre de conférences na École
Normale Supérieure e depois professor na Sorbonne até o fim da vida. O motivo de tão surpreendente
atualidade reside não apenas na afinidade entre os espíritos do intérprete e o do autor interpretado,
mas no fato de que o núcleo dessa afinidade está, precisamente, naquilo que o pensamento de um e
de outro têm de precursores das tendências científicas acima mencionadas. Nada mais revelador
do que comparar as páginas que Aristóteles consagrou aos limites da necessidade natural na Física
às idéias de Émile Boutroux sobre La Contingence des Lois de la Nature (título de sua
obra principal, publicada em 1974) e depois ambas às considerações de Heisenberg em Physycs
and Beyond (New York, 1971). Heisenberg mostra-se aí o último elo de uma tradição antimecanicista
que, partindo de Aristóteles, passa por Leibniz, Schelling, Ravaisson e Émile Boutroux e que constitui
um antídoto perene aos danos que o dogma do mecanicismo (ainda tão forte no subconsciente científico,
malgrado as sucessivas impugnações que tem sofrido) trouxe à compreensão do homem e
do cosmos.
Aristóteles, de Émile Boutroux, ao qual deverão seguir-se mais tarde as Lições
sobre Aristóteles do mesmo autor, é uma introdução valiosa não apenas ao pensamento
do Estagirita, mas a toda essa tradição, em cujo renascimento se apostam hoje as melhores esperanças
de uma ciência que não seja inimiga da sabedoria.
Olavo de Carvalho
SUMÁRIO
Apologia de Émile Boutroux, por Olavo de Carvalho
I. Biografia
II. Os escritos de Aristóteles
III. O conjunto da obra de Aristóteles
IV. Classificação das ciências
V. O ponto de vista e o método
VI. Aristóteles historiador
VII. Lógica
VIII. Metafísica
IX. Física geral
X. Matemáticas
XI. Cosmologia
XII. Astronomia
XIII. Meteorologia
XIV. Mineralogia
XV. Biologia geral
XVI. Botânica
XVII. Anatomia e fisiologia animais
XVIII. Zoologia
XIX. Psicologia
XX. Moral
XXI. Econômica
XXII. Política
XXIII. Retórica
XXIV. Estética
XXV. Poética
XXVI. Gramática
XXVII. Discursos e poemas
XXVIII. Cartas
XXIX. Aristóteles escritor
XXX. Influência de Aristóteles
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